Edição 482 | 04 Abril 2016

Pensar o pensar: o discurso em movimento no trato das coisas do mundo

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Márcia Junges | Edição Leslie Chaves

Segundo José Pinheiro Pertille, para Hegel o desenvolvimento da consciência filosófica está ligado ao ato de refletir dinamicamente

A Filosofia gradativamente conquista status de ciência a partir de uma revolução na forma de pensar corrente no início do século XIX, com os esforços empreendidos por estudiosos como Kant, Fichte e Schelling. O pensamento hegeliano contribui ativamente para esse processo, principalmente com a publicação de Fenomenologia do Espírito, em 1807. Entretanto, conforme ressalta o filósofo José Pinheiro Pertille, “se para os antecessores de Hegel uma revolução seria suficiente para colocar a metafísica no caminho seguro da ciência, para o sistema hegeliano é preciso compreender a ciência filosófica como uma série de revoluções, um constante quebrar de paradigmas”.

Nessa perspectiva, um dos focos centrais das reflexões acerca do saber nessa obra é o devir, o “vir-a-ser” desse saber. Como avalia Pertille, depois de ser atingida a plena consciência a respeito dos mecanismos que envolvem as diferentes formas do saber, “o desafio após a Fenomenologia é pensar o pensar de tal modo que seja possível instituir um discurso em movimento. Uma vez realizada essa tarefa, é então possível tratar das coisas do mundo, tanto da realidade dada pela natureza, quanto da realidade formada pela criação espiritual humana. Essa é a estrutura básica do projeto do sistema hegeliano”, explica.

Ao longo da entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o filósofo também faz uma reflexão sobre o papel e a importância de outras obras hegelianas, como Ciência da Lógica e Filosofia do Direito, e, em perspectiva com contribuições de outros estudiosos, como Axel Honneth, analisa alguns dos conceitos desenvolvidos por Hegel.   

José Pinheiro Pertille é graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, com estágio no Grupo de Pesquisas Normes, Sociétés, Philosophies – Nosophi, da Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne. Atualmente é professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFRGS.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como se pode compreender a relação das categorias Ser, Nada e Devir, que se apresentam no começo da Ciência da Lógica de Hegel?

José Pinheiro Pertille - As categorias Ser, Nada e Devir na Ciência da Lógica  de Hegel formam o movimento inicial dessa obra dedicada a pensar o pensar. Elas são como, se quisermos fazer uma comparação, a abertura de uma sinfonia, na qual aparecem os seus temas principais para serem eles desenvolvidos ao longo da peça, o que compõe o seu leitmotiv . No caso da Lógica hegeliana, nas primeiras categorias já se apresentam as principais metacategorias lógicas que estarão em ação durante todo o texto. Ou seja, junto com as categorias iniciais da Lógica: (i) o ser, (ii) o não-ser e (iii) o vir-a-ser, aparecem também as metacategorias de toda a Lógica: (1) o entendimento, (2) a razão negativa (ou razão dialética), (3) a razão positiva (ou razão especulativa) e (4) a suprassunção (Aufhebung). 

As metacategorias (ou, como Hegel nomeia, as determinações lógicas fundamentais) mostram os movimentos principais do pensar como um todo: (1) o entendimento separa aspectos no intuito de compreender a realidade mediante um procedimento de diferenciação, (2) a razão dialética questiona os critérios de separação do entendimento mostrando novos modos de conceber a composição do real, (3) a razão especulativa reúne os dois movimentos anteriores instituindo um discurso em movimento, e (4) a suprassunção aparece como conceito operador do discurso especulativo mostrando como é possível avançar nas determinações do pensamento negando, conservando e elevando as categorias anteriores.

Essas determinações fundamentais do pensamento estão presentes ao longo de toda Ciência da Lógica, tanto da assim chamada “grande Lógica” (a obra de 1812-1816), quanto da “pequena Lógica” (resumo da “grande Lógica” feito por Hegel para sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas  em suas edições de 1817, 1827 e 1830), e tanto em uma quanto na outra o movimento inicial é o mesmo. As determinações fundamentais surgem no movimento inicial da Lógica, onde as categorias do ser, nada (ou não-ser) e devir (ou vir-a-ser) espelham o modo mais básico de refletir sobre o pensar. 

O pensar enquanto entendimento separa aspectos para compreender o real diferenciando-o, e assim o mais geral que se pode dizer das coisas é de que o que é, é, é ser, e o que não é, não é, não pode ser, um simples nada. Por exemplo, se eu estou agora sentado lendo essas linhas, eu não estou em pé, e vice-versa, se estou lendo em pé, não estou sentado. Note-se que em alemão, como em outras línguas tais como o francês e o inglês, não há distinção entre o ser e o estar, assim como tem a língua portuguesa, a qual diferencia entre o ser em geral e o ser no tempo, o estar, o que revela nosso potencial filosófico e que nos encoraja a também filosofarmos em português! 

Voltando ao raciocínio, o ser é e o não-ser não é, essa é uma distinção do entendimento. Mas, a razão dialética pondera: é bem verdade que o ser é e o não-ser não é, mas é preciso igualmente prestar atenção em que o ser deixa de ser, e o não ser vem a ser. Por exemplo, eu me levantei para tomar um copo d’água, e o meu estar sentado deixou de ser, e o meu não estar em pé veio a ser. Eis que eu retorno para a poltrona de leitura e meu estar sentado voltou a ser e meu estar em pé deixou de ser. Isso não quer dizer que estar em pé e estar sentado sejam o mesmo, mas que é preciso captar o movimento no qual o ser deixa de ser e o não-ser vem a ser. 

Para tanto, o discurso especulativo em movimento reúne o ser e o nada em um novo conceito, mais robusto, mais potencialmente explicativo, a noção de vir-a-ser (ou devir). Nesse conceito o ser e o nada estão negados em seu entendimento estático, mas conservados em sua diferença estrutural, de modo a serem concebidos de um ponto de vista mais elevado, em outras palavras, o vir-a-ser suprassume o ser e o não-ser. Para um aprofundamento sobre essa questão ver “O conceito mais preciso da Lógica” nos §§ 79 a 82 da Enciclopédia das Ciências Filosóficas (tradução brasileira de Paulo Meneses, Loyola, 1995, p. 159-169). Podem-se conferir também os excertos da Ciência da Lógica traduzidos por Marco Aurélio Werle (São Paulo: Barcarola, 2011), enquanto ficamos no aguardo da primeira edição brasileira do primeiro volume completo da Ciência da Lógica (Petrópolis: Vozes, 2016(no prelo)).

 

IHU On-Line - Qual é a importância dessa obra no contexto da filosofia hegeliana?

José Pinheiro Pertille - A primeira grande obra que apresenta a originalidade do sistema hegeliano no conjunto das doutrinas do Idealismo Alemão é a Fenomenologia do Espírito, publicada em 1807. Nesse livro Hegel se alinha aos esforços de Kant , Fichte  e Schelling  em tornar a filosofia uma ciência, através de uma revolução no modo de pensar até então vigente. No entanto, se para os antecessores de Hegel uma revolução seria suficiente para colocar a metafísica no caminho seguro da ciência, para o sistema hegeliano é preciso compreender a ciência filosófica como uma série de revoluções, um constante quebrar de paradigmas. Nas palavras de Hegel presentes no Prefácio da Fenomenologia, a pretensão daquela obra não era expor o “ser” do saber, mas o “vir-a-ser” do saber... Para tanto é preciso que a consciência filosófica se eduque a pensar dinamicamente, até uma plena consciência acerca da dinâmica do processo que envolve os diversos modos do saber. 

Chegando ao saber absoluto como o saber dos saberes, a consciência filosófica se libera para refletir sobre a linguagem que permitiria traduzir para o pensamento aquela dinâmica alcançada pelas experiências das diferentes figuras da consciência. Em outras palavras, o desafio após a Fenomenologia é pensar o pensar de tal modo que seja possível instituir um discurso em movimento. Essa é a tarefa da Ciência da Lógica, pensar o pensar de modo dinâmico e progressivo, isto é, em uma sequência de conceitos com níveis cada vez mais elaborados de determinação. 

Como vimos anteriormente, esse projeto está em ação desde as primeiras categorias lógicas do ser, nada e devir, nas quais aparecem as constantes metacategorias lógicas do entendimento, da dialética, do discurso especulativo e da suprassunção. Uma vez realizada essa tarefa de pensar o pensar e instituir um discurso em movimento é então possível tratar das coisas do mundo, tanto da realidade dada pela natureza, quanto da realidade formada pela criação espiritual humana. Essa é a estrutura básica do projeto do sistema hegeliano exposto na Enciclopédia das Ciências Filosóficas: lógica, natureza, espírito.

 

IHU On-Line - Quais são as formulações centrais da Filosofia do Direito e qual é a atualidade dessa obra?

José Pinheiro Pertille - A obra Filosofia do Direito foi publicada em 1820, para uso do professor Hegel em suas aulas sobre essa matéria na Universidade de Berlim. Em sua inserção no sistema hegeliano, ela trata de oferecer uma versão detalhada da doutrina do espírito objetivo, ou seja, daquele conjunto de realizações culturais que objetivam a liberdade humana. O que significa uma “livre vontade” é o tema da Introdução da Filosofia do Direito, a qual introduz a noção de vontade livre como aquela vontade que se autodetermina individual e coletivamente. Após a definição do que é a vontade livre são então apresentadas as instâncias nas quais a vontade pode se exercer livremente. 

A primeira seção mostra assim como a pessoa pode dispor livremente conforme sua vontade dos objetos que são juridicamente reconhecidos como seus, usando-os ou negociando-os por objetos de outras pessoas proprietárias de maneira contratual; essa é a instância do direito abstrato. A segunda seção trata do livre exame que a consciência moral faz sobre suas ações e sobre os princípios que as regem, tratando das intenções, dos propósitos mais gerais e das finalidades mais amplas do bem estar pessoal e do bem geral, somente aceitando as normas que ela reconhece como válidas; essa é a esfera da moralidade. Na terceira e última seção os indivíduos aparecem compreendidos como membros de grupos, mais precisamente como membros de suas famílias, membros da sociedade civil e membros de seus Estados, nos quais uma livre adesão aos papéis sociais desempenhados nesses grupos diversos faz com que a minha liberdade não termine onde a liberdade do outro começa, mas, pelo contrário, a minha liberdade seja construída junto com a liberdade dos outros; esse é o momento da vida ética. 

A atualidade da Filosofia do Direito se apresenta em múltiplas dimensões: sua original concepção de liberdade criativa, a qual não se limita a uma noção restrita de liberdade como escolha entre alternativas, mas que inclui a criação de suas próprias determinações; os conteúdos definidores dos campos jurídico e moral na época moderna, nos quais a razão mostra sua incontornável face histórica; e, talvez centralmente, sua concepção do que é o indivíduo na vida ética, segundo a qual se nega o individualismo, mas se conserva a individualidade ao se estabelecer um patamar mais elevado de individuação nos grupos que participamos — a individualidade é intersubjetiva, mas não em geral, e sim a partir dos papéis sociais que desempenhamos uns frente aos outros. 

 

IHU On-Line - Qual é o nexo que une a sociedade civil-burguesa e a lógica da essência?

José Pinheiro Pertille - No Prefácio da Filosofia do Direito, Hegel lembra ao leitor que a plena inteligibilidade de sua obra repousa no reconhecimento de seus pressupostos sistemáticos: a Filosofia do Direito é uma exposição mais detalhada da doutrina do espírito objetivo apresentada na Enciclopédia das Ciências Filosóficas, e, além disso, seu método e diversos conceitos fundamentais estão presentes na Ciência da Lógica. Assim, a lógica em geral precisa ser conhecida para a correta compreensão da lógica da liberdade objetiva. 

A lógica, como já vimos, contém categorias (ser, nada, devir) e metacategorias (entendimento, dialética, discurso especulativo, suprassunção); ela contém também modos próprios de articulação entre as categorias, que se traduzem nas lógicas do ser, da essência e do conceito. Se na lógica do ser ocorre uma “passagem” de uma categoria para outra (o ser passa ao não-ser, o não-ser passa ao ser, ser e não ser passam ao vir-a-ser), na lógica da “essência” uma categoria aparece naquela que parece ser sua oposta; por exemplo, a essência e a aparência se colocam inicialmente em oposição uma à outra, o mais verdadeiro é a essência de algo, não sua aparência enganadora (Schein). 

No entanto, a verdadeira essência de algo tem que aparecer, e a aparência (como fenômeno, Erscheinung) não deixa de revelar a essência; não basta alguém me dizer que é essencialmente meu amigo e não mostrar isso com seus atos e palavras, isto é, a essência aparece. Na base desse surgimento de algo no seu aparente oposto, Hegel apoiará sua análise daquele momento da vida ética que é a sociedade civil-burguesa. Depois da família, na qual o indivíduo se identifica afetivamente com seu grupo, na sociedade civil cada família e cada indivíduo estão buscando seus próprios interesses particulares, a satisfação de suas carências, sem ter nos seus móbiles imediatos qualquer preocupação com o bem geral, com o universal.

Todavia, ao se dedicarem aos seus interesses privados, os agentes sociais acabam por terem que admitir um certo grau de universalidade para que esses interesses particulares sejam atingidos. Por exemplo, eu vou na padaria para comprar o pão de meu café da manhã, esse é um modo de satisfação de uma carência minha e de minha família; ao fazer isso, no entanto, estarei também apoiando o negócio do dono da padaria, o trabalho do padeiro e do atendente do balcão, os fornecedores da farinha e dos demais ingredientes, e assim por diante. Deste modo, a substancialidade do universal aparece ali onde menos parece que ocorreria, na acidentalidade do particular. 

Não é por acaso que a primeira frase do Capital  de Marx  bebe direto da fonte da lógica da essência de Hegel: “a mercadoria é o modo de aparecimento do capitalismo”; quando vemos na vitrine da loja a etiqueta com o preço daquele sapato, aquele fenômeno (aparecimento) revela a essência de toda engrenagem do modo de produção capitalista.

 

IHU On-Line - Como se pode compreender a lógica do reconhecimento e o reconhecimento da lógica, na perspectiva de Honneth  a Hegel?

José Pinheiro Pertille - Hegel é um ponto de partida significativo para qualquer reflexão filosófica. Alguns leitores dessa filosofia aceitam, em termos de princípio hermenêutico, o projeto sistemático hegeliano e leem cada parte dentro de seu todo; por exemplo, tal como acima explicamos, a Filosofia do Direito conecta-se com a Ciência da Lógica, em termos dessa fornecer o método e as categorias operacionais para aquela. Contudo, se é possível pensar “com” Hegel as suas e as nossas questões, também é possível pensar “a partir de” Hegel, ou seja, pode-se não depender da reconstituição de todo o seu sistema para o aproveitamento de partes que consideramos especialmente significativas. Isso é o que faz, por exemplo, Alexandre Kojève , que interpreta a Fenomenologia do Espírito colocando seu centro de gravidade na dialética do senhor e do escravo. 

É também o que propõe Axel Honneth, ao explicar temas de filosofia política não do modo como faz o sistema de Hegel, em torno do conceito de Estado e com fundamento na lógica, mas através de uma teoria social que resgata o conceito de “reconhecimento”, o qual é originariamente um processo que se passa ao nível do espírito subjetivo, e não do espírito objetivo. Assim, para Honneth, a lógica social do reconhecimento, ou melhor, a gramática dos conflitos sociais tal como é expressa através de uma luta por reconhecimento, procura não depender da política institucionalizada do Estado, nem de categorias lógicas que representariam pretensões metafísicas estranhas aos nossos modestos padrões contemporâneos de racionalidade. 

Esse é o começo de um grande debate que hoje desafia os estudiosos: investigar se a lógica do reconhecimento depende ou não do reconhecimento da lógica como matriz explicativa da realidade. Julgo que o ponto de partida da questão deve ser uma reconstituição mais precisa do projeto mesmo das articulações sistemáticas hegelianas, pois isso pode afastar interpretações que projetam em Hegel significados que lhe são heterogêneos.

 

IHU On-Line - Em que consiste o “renascimento do pensamento hegeliano” da última década do século XX?

José Pinheiro Pertille - Os últimos dez anos do século XX foram particularmente férteis para o desenvolvimento da filosofia de Hegel. Na produção em língua inglesa chega-se a falar de um “renascimento do pensamento hegeliano”. Renascimento na medida em que as ideias hegelianas passam a ser interlocutoras para autores formados na tradição da filosofia analítica, a qual em sua origem havia condenado à morte o idealismo hegeliano. É nessa direção que podemos compreender a moldura geral na qual aparecem as obras de Robert Pippin, O idealismo de Hegel: as satisfações da consciência de si (1989), John McDowell , Mente e mundo (1994), Robert Brandom , Making it explicit (1994), Terry Pinkard , A Fenomenologia de Hegel: a sociabilidade da razão (1994), incluindo-se também The Cambridge Companion to Hegel organizado por Frederic Beiser  (1996). 

De maneira mais determinada, um denominador comum entre esses diferentes intérpretes pode ser identificado na peculiar hermenêutica praticada sobre a obra de Hegel, ao efetuarem uma leitura (poderíamos assim sugerir e nomear) in media res dos textos hegelianos, isto é, ao modo da técnica literária onde a narrativa começa no meio da história, em vez de seu início, essa chamada ab ovo ou ab initio. Assim como, por exemplo, Os Lusíadas de Camões começa quando os portugueses comandados por Vasco da Gama  já deixaram sua terra natal e se encontram ancorados em Melinde, cidade situada no oceano Índico, mas antes de chegar à Índia. Mutatis mutandi, esses recentes comentadores operam uma constituição de sentido dos textos de Hegel que se faz em meio às suas obras, destacando e trabalhando sobre as partes consideradas de maior vitalidade filosófica em relação a questões contemporâneas, com isso não assumindo o todo do sistema do início ao fim, desde seu começo até suas conclusões, mas apenas alguns aspectos intermediários seus.

Entre, por um lado, a aceitação em conjunto do sistema hegeliano como um todo (tal como pretendida, evidentemente, pelo próprio Hegel e igualmente compartilhada pelos neoidealistas anglo-saxões: James Hutchison Stirling , The Secret of Hegel: being the Hegelian system in origin, principle, form and matter, 1865; Francis Herbert Bradley , Appearance and reality, 1893; John Ellis McTaggart , The Unreality of Time, 1908, em suas discussões principalmente voltadas contra o utilitarismo), e, por outro lado, a rejeição em bloco da filosofia hegeliana (como ocorrera no início da tradição da filosofia analítica, tal como representada por Bertrand Russel , History of Western Philosophy, 1946), o renascimento da filosofia hegeliana opera um aproveitamento seletivo de determinadas passagens “vivas” do pensamento hegeliano, deixando de lado o que se poderia considerar “morto” no hegelianismo, para aqui retomar os termos do neoidealista italiano Benedetto Croce  em sua obra, Ciò che è vivo e ciò que è morto della filosofia di Hegel, 1907.

 

IHU On-Line - Tomando em consideração a perspectiva de Honneth, como se pode compreender o Hegel “não metafísico”?

José Pinheiro Pertille - O que estaria vivo e o que estaria morto no pensamento hegeliano? Conforme nos mostra Paul Redding  em seu livro A filosofia analítica e o retorno do pensamento hegeliano (2007), o retorno do pensamento hegeliano se faz através das estratégias teóricas que ele disponibiliza para resolver ou pelo menos ampliar as discussões sobre as questões do mito do dado perceptivo (Mc Dowell ) e do dado lógico (Brandom  e Sellars ), bem como nos problemas atinentes à negação determinada e individuação, ao inferencialismo, ao “espaço das razões”, à dinâmica da razão avaliadora do estatuto das normas e as discussões acerca da contradição real e discursiva. 

Por sua vez, segundo Simon Lumsden , em seu artigo O crescimento do Hegel não-metafísico (2008), o ressurgimento do interesse no pensamento hegeliano se faz em reação a uma interpretação metafísica de Hegel, tal como ainda aparece no Hegel de Charles Taylor (1975), o qual procura seguir o sistema segundo sua intencionalidade própria. Nesta linha de argumentação não-metafísica, os conceitos hegelianos de espírito e de absoluto traduziriam uma espécie de retrocesso filosófico em relação ao projeto crítico kantiano ao pretender conhecer o incondicionado, tratar das coisas em si mesmas, em uma totalidade cujo sentido estaria posto em última análise por uma substancialidade divina ao modo de Leibiniz e Espinosa. 

A metafísica de Hegel assim representaria uma espécie de perspectiva pré-crítica, e, desta maneira, para a revalidação de partes de seu sistema, seria preciso torná-las independentes dessa sua fundamentação metafísica geral, o que então abriria caminho para o surgimento de um Hegel “não metafísico”. Segundo essa linha de raciocínio, separado de sua fundamentação metafísica geral, o escopo da filosofia hegeliana ficaria menor, porém mais eficaz no tratamento de questões atuais. No entanto, segundo outros intérpretes, como por exemplo Terry Pinkard (O saber absoluto: por que a filosofia é seu próprio tempo apreendido em pensamento, 2010), ao invés de uma metafísica pré-crítica, a filosofia hegeliana na verdade apresenta uma radicalização da filosofia crítica kantiana. 

O desatar desse nó górdio me parece estar na compreensão do sistema hegeliano como um engendramento de significado para a realidade, algo que não está dado, mas que é uma construção humana de sentido para si e para todas as coisas: um processo da razão inscrita na ordem do mundo.

 

IHU On-Line - Em que aspectos Honneth problematiza a ideia de sistema em Hegel?

José Pinheiro Pertille - A regra de ouro do hegelianismo é colocar cada parte da doutrina no contexto do sistema. A hermenêutica de Honneth dos textos hegelianos é diferente. Ela ampara-se nos princípios da “presentificação” e da “atualização” da matriz hegeliana. O princípio da presentificação visa tornar presente a posição hegeliana frente a outros paradigmas filosóficos alternativos. Nesse caso, a noção de reconhecimento é particularmente interessante por introduzir uma dimensão moral de valores simbólicos que estariam primariamente em jogo nas relações entre os indivíduos, para além de uma mera luta pela sobrevivência física, tal como se apresenta, por exemplo, na base do modelo clássico do estado de natureza hobbesiano, onde “o medo da morte violenta é pré-racional em sua origem, mas racional em seu efeito” (conforme a formulação de Leo Strauss).

Conforme Honneth, “O primeiro Hegel [aquele dos escritos de Jena] só chegou a essa concepção [a luta dos sujeitos pelo reconhecimento recíproco de sua identidade], que até hoje não rendeu efetivamente os devidos frutos, porque esteve em condições de dar ao modelo da ‘luta social’ introduzido na filosofia por Maquiavel e Hobbes uma guinada teórica, com a qual aquele processo prático de um conflito entre os homens passou a ser atribuído a impulsos morais, não aos motivos da auto conservação”. (A. Honneth, Luta por reconhecimento, a gramática moral dos conflitos sociais, ed. bras. p. 30 (grifos meus, JPP)).

Ao contrário daquela perspectiva naturalista, tal como destaca Alexandre Kojève, para o homem como consciência de si, “um objeto perfeitamente inútil do ponto de vista biológico (como uma condecoração ou a bandeira do inimigo) pode ser desejado porque é objeto de outros desejos. Tal desejo só pode ser um desejo humano. A realidade humana, diferente da realidade animal, só se cria pela ação que satisfaz tais desejos: a história humana é a história dos desejos desejados” (Introdução à leitura de Hegel, p. 13). 

Por sua vez, o princípio da atualização procura ir além do princípio da presentificação ao não apenas reconstituir a argumentação hegeliana em sua originalidade, mas também introduzi-la nas questões do presente. Essa operação envolve a identificação de suas teses normativas principais e uma reflexão sobre o modo como elas estariam presentes ou ausentes no contexto atual, o que é resultado de um diagnóstico de época, diagnose de seus posicionamentos em relação a épocas anteriores e de suas atuais patologias impeditivas de efetivos reconhecimentos. 

Com isso, torna-se possível compreender, por exemplo, a dimensão presente nas lutas sociais mais recentes, nas quais as demandas não são feitas exclusivamente em torno de fatores econômicos, mas por grupos de pessoas que desejam o reconhecimento de suas especificidades próprias, constituintes de suas identidades. Em outras palavras, as lutas por reconhecimento são, nos termos de Bourdieu, lutas pela participação no capital simbólico da cultura, gerando desenvolvimentos sociais mais amplos que compensações financeiras. 

Segundo Honneth, “Com a distinção, ainda muito provisória, de violação, privação de direitos e degradação [correspondentes às formas de reconhecimento amoroso, jurídico e de estima social] foram dados a nós os meios conceituais que nos permitem agora tornar um pouco mais plausível a tese que constitui o verdadeiro desafio da ideia fundamental partilhada por Hegel e Mead: que é uma luta por reconhecimento que, como força moral, promove desenvolvimentos e progressos na realidade da vida social do ser humano.” A. Honneth, Luta por reconhecimento, ed. bras. p. 237 (grifos meus, JPP).

 

IHU On-Line - O que são os escritos de Jena e como eles são importantes para uma compreensão acerca da luta pelo reconhecimento?

José Pinheiro Pertille - Se Marx elogiava a Fenomenologia do Espírito, por ter mostrado o caminho para a desalienação da consciência humana, mas criticava a Filosofia do Direito por não ter fornecido a correta tradução objetiva daquele princípio libertador da consciência, Honneth critica a Fenomenologia do Espírito por essa ter apresentado uma versão edulcorada da teoria do reconhecimento, em comparação às teses mais radicais presentes em seus escritos não publicados redigidos na época de Jena. 

Os escritos hegelianos de Jena, tais como o Sistema da vida ética (1802-1803) e a Filosofia Real (1805-1806), além da dinâmica do reconhecimento, tal como ela se apresenta na relação entre duas consciências, apresentariam uma dimensão histórica e social, ausente da obra de 1807. Isso caracterizaria uma espécie de déficit histórico e social da teoria do reconhecimento na versão fenomenológica, complementar ao superávit metafísico afirmado por sua matriz lógica. 

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

José Pinheiro Pertille - É preciso reconhecer os grandes méritos da leitura de Hegel feita por Honneth. Para além da prática de um “hegelianês” pernóstico, atitude essa que ao se fechar na tecnicidade da terminologia de Hegel acaba por perder de vista as grandes questões, a interpretação de Honneth abre profícuos diálogos do pensamento hegeliano em diversas frentes: filosóficas, científicas e sociais. 

Contudo, podemos nos perguntar se a leitura crítica, parcial, in media res da obra de Hegel seria substitutiva da leitura imanente, sistemática, ab initio, e se uma e outra seriam incompatíveis entre si. Além disso, é preciso verificar se o déficit social e histórico não está saldado no percurso mesmo da Fenomenologia do Espírito, com a exposição do conceito de eticidade que suprassume o reconhecimento.■ 

 

Leia mais...

- Superar, aniquilar e conservar – A filosofia da história de Hegel. Entrevista especial com José Pinheiro Pertille publicada na revista IHU On-Line, nº 430, de 21-10-2013.

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