Edição 482 | 04 Abril 2016

O saber que se revela na travessia em direção ao outro

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Márcia Junges | Edição Ricardo Machado

Para o professor e pesquisador Inácio Helfer, encontrar o saber, segundo Hegel, requer procurá-lo na diversidade

Um sistema filosófico, para Hegel, não pressupunha um conjunto de teses pacíficas e uniformes que levariam a um determinado resultado. Para o filósofo alemão, o que permitia a construção de um sistema filosófico era, justamente, a diversidade. “Faltaria admitir, em primeiro lugar, que os sistemas filosóficos se constituem na e pela diversidade. Que a diversidade lhes é salutar. Que a natureza fluida dos mesmos os constitui como momentos da unidade superior onde todos são mutuamente necessários”, sustenta Inácio Helfer, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Eles não se contradizem tão somente. Com e pela contradição eles apresentam o movimento progressivo necessário do conhecimento em direção ao saber absoluto”, complementa.

Reconhecer as posições antagônicas dos sistemas de pensamento permite com que eles se mantenham livres em sua formação. “A contradição, que é um dos meios mais importantes da travessia do saber ao outro de si, revela que não é na chegada que está a Coisa mesma, mas na travessia e seu resultado”, argumenta. “Deste modo, por paradoxal que pareça, a identidade da essencialidade encontra-se inicialmente numa outra categoria, encontra-se fora, encontra-se no outro de si mesma”, amplia. 

Inácio Helfer é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição – FAFIMC e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Na Universidade Paris 1 – Pantheon-Sorbonne, em Paris, na França, cursou mestrado e doutorado em Filosofia com a tese La philosophie de l'histoire de Hegel: la fin de l'histoire. Na Universidade de Montreal, no Canadá, cursou pós-doutorado. Leciona no Departamento de Filosofia da Unisinos. É presidente da Sociedade Hegel Brasileira. Juntamente com Celso Candido organizou a obra Política e liberdade no século XXI (Nova Petrópolis: Nova Harmonia, 2011).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em que consiste o conceito de contradição em Hegel?

Inácio Helfer - No “Prefácio” da Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Vozes, 2003), Hegel escreve sobre um fenômeno natural para ilustrar o processo de constituição da vida. Essa passagem ilustra, de certo modo, uma exposição da contradição. Diz ele: “O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se diferenciam, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. É essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo.”  Hegel assinala que há uma constituição operante interna às determinações naturais e que esse processo, de certa forma, é contraditório e necessário. Botão, flor e fruto. O botão é refutado pela flor, pois faz desaparecer o botão através de seu desabrochar. A flor é o falso ser-aí da planta, que nega a sua origem na primeira dimensão. O fruto, por sua vez, é a verdade da flor, pois realiza aquilo que a flor não é e nunca poderá ser. O fruto, na sequência do desenvolvimento da planta, é a negação da flor, mas como uma determinação que supera a flor. O botão, a afirmação; a flor, a negação; o fruto, a negação da negação. Tese, antítese e síntese. Positivo, negativo e negativo do negativo. Três posições que existem pela oposição antagônica. Elas não só se diferenciam entre si, mas, também, se repelem como dimensões incompatíveis. São contraditórias. Por outro lado, e ao mesmo tempo, cada uma é momento necessário da outra. Pois, considerando a natureza fluida da sucessão dos estágios de desenvolvimento da planta, todos são “momentos da unidade orgânica”. Hegel assinala que, a despeito da contradição, há uma necessidade interna que constitui a vida da planta. O conceito de contradição aparece, então, como uma categoria que explica a sucessão necessária dos momentos da planta.

 

IHU On-Line - Poderia recuperar aspectos da compreensão equivocada desse conceito? 

Inácio Helfer - No contexto da Fenomenologia do Espírito, ao expor o exemplo da contradição e da necessidade que anima o fluxo da vida de uma planta, Hegel estava mesmo interessado em abordar a diversidade dos sistemas filosóficos e seus desdobramentos. À semelhança dos momentos de desenvolvimento de uma planta, que passa do botão à flor e da flor ao fruto, também os sistemas filosóficos apresentariam contradições e esse movimento seria necessário. No que concerne à contradição, ela não lhes seria banal e sem importância. Ao contrário, ao se posicionarem os sistemas filosóficos diametralmente contrários uns aos outros, contribuiriam para o fluxo progressivo da elaboração do conhecimento filosófico. O problema que Hegel detectava na história do pensamento era justamente o equívoco de posições filosóficas que não aceitavam a diversidade de teorias presentes na filosofia como um “desenvolvimento progressivo da verdade” . 

Saber absoluto

Para eles, tal diversidade apresentava apenas a “contradição”, como uma contradição insolúvel, oposições inconciliáveis, irredutíveis e, por isso, sem importância para o avanço do saber. O erro dessa leitura dos sistemas filosóficos residiria, precisamente, no fato de que “a consciência que apreende essa contradição não sabe geralmente libertá-la — ou mantê-la livre — de sua unilateralidade”. Considera a contradição como absoluta e acabada, não havendo possibilidade de diálogo e avanço do saber. O erro estaria no fato de que “nem sabe reconhecer no que aparece sob a forma de luta e contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários”.  Faltaria admitir, em primeiro lugar, que os sistemas filosóficos se constituem na e pela diversidade. Que a diversidade lhes é salutar. Que a natureza fluida dos mesmos os constitui como momentos da unidade superior onde todos são mutuamente necessários. Eles não se contradizem tão somente. Com e pela contradição eles apresentam o movimento progressivo necessário do conhecimento em direção ao saber absoluto. 

Tal era a preocupação de Hegel ao tratar da radiografia da história dos sistemas filosóficos. Importava, pois, a consciência de percorrer a série das suas figuras para conseguir atingir o saber absoluto. Esse percurso não se daria de uma forma retilínea, nem esquizofrênica, mas contraditória e necessária. Saber ver nos diferentes sistemas de pensamento posições antagônicas, contraditórias, mas não unilaterais, seria saber libertá-los e mantê-los livres em sua formação. Para Hegel, alguns pensadores liam a história do pensamento de uma forma equivocada. Estes assinalavam, sobretudo, as determinações fixas do entendimento. Ao invés de colocar em movimento o conhecimento, julgavam sua filosofia, ou a de outros, como verdades acabadas e instransponíveis. Fazendo isso, dizia Hegel, “dão talvez a aparência de estar lidando com o essencial”,  quando na realidade nada mais fazem do que “dar voltas ao redor da Coisa mesma, combinando a aparência de seriedade e de esforço com a carência efetiva de ambos”.  Ler a história dos sistemas de pensamento de uma forma que a contradição esteja contemplada, ou que dentro de um mesmo pensamento sejam admitidas e estimuladas figuras de contradição que se resolvem, significa ler com “seriedade” a formação da Coisa mesma. Somente sob este ponto de vista se descobriria que “a Coisa mesma não se esgota em seu fim, mas em sua atualização”.  A conclusão a que se chega é a de que “nem o resultado é o todo efetivo, mas sim o resultado junto com o seu vir-a-ser”.  A contradição, que é um dos meios mais importantes da travessia do saber ao outro de si, revela que não é na chegada que está a Coisa mesma, mas na travessia e seu resultado.

 

IHU On-Line - Há uma relação entre o princípio de não contradição de Aristóteles  e o conceito de contradição em Hegel? 

Inácio Helfer - O tratamento deste tema permite referir uma discussão clássica do conceito de substancialidade que diz relação ao princípio de identidade e não-contradição. Tal como formulado por Aristóteles, “A=A” indica que uma coisa é idêntica consigo mesma e não diz relação a outras. A Ciência da Lógica (São Paulo: Barcarolla, 2011) problematiza este princípio através do tratamento do tema da essência e da aparência. Para Aristóteles, pensar a identidade era algo, aparentemente, mais simples. Para Hegel, a identidade concebida nestes termos é uma espécie de abstração do entendimento, que fica vazia sem a mediação da diferença, sem a referência ao diferente. Para pensar a identidade de uma categoria é preciso que ela saia de sua indeterminação abstrata, é necessário concebê-la como estando em vias de percorrer o caminho de sua interiorização, pela diferença que lhe é própria, bem como é necessário conceber que neste movimento a diferença será determinada pela identidade. De um lado, por intermédio do jogo de reciprocidades a diferença da identidade se revelará como identidade determinada e a identidade da diferença se revelará como diferença determinada. Por outro, neste mesmo jogo de reciprocidades, a identidade da diferença se revelará como diferença determinada e a diferença da identidade como identidade determinada. Por intermédio da síntese destes dois movimentos de reciprocidades que se alcança a determinação da identidade diferenciada da identidade e da diferença identificada da diferença.  

Lógica da Essência

No contexto da Lógica da essência, a irredutível separação da identidade e da diferença presentes no princípio de não-contradição é subvertida na dinâmica do duplo movimento de integração da identidade e da diferença e da circularidade que se abre no movimento de diferenciação da identidade e da diferença. Segundo o argumento hegeliano, há sempre uma insuficiência e unilateralidade ao conceber uma categoria considerada em si mesma e em seu isolamento. A autonomia imediata de uma categoria se apresenta como um argumento insuficiente. A identidade como presença a si mesma revela-se, por isso, como impossível de ser sustentada. Deste modo, por paradoxal que pareça, a identidade da essencialidade encontra-se inicialmente numa outra categoria, encontra-se fora, encontra-se no outro de si mesma. Uma identidade imediata, como pensava Aristóteles, revela-se uma abstração do entendimento, que fica vazia sem a mediação da diferença. A posição de “A” somente é idêntica a si mesma pelo fato da existência de um diferente de “A”. “A” não seria “A” sem o “não-A”. 

 

IHU On-Line - Como a ideia de jogo pode ser pensada a partir de Hegel? 

Inácio Helfer - Traduzir as categorias hegelianas de contradição num contexto que não seja o da filosofia, como por exemplo, a do jogo, um jogo de futebol, não é tarefa fácil. Mas, a contradição estaria em tudo, não somente nos objetos resultantes do pensamento. Por isso, penso que a contradição também auxilia a explicar um jogo ou campeonato de futebol. As equipes de futebol têm em comum o fato de buscarem ganhar o jogo, de vencer o campeonato. O que as aproxima é a meta de serem as melhores, situação que se prova, ao fim e ao cabo, pelo saldo positivo de gols e a classificação nas chaves do campeonato. 

Assim, o que as reúne é a meta de serem as melhores. Mas, há também algo que as separam, pois, ao fazer isso, cada uma se move no sentido de garantir para si o saldo favorável de gols, ou de serem as melhores classificadas em sua chave, de serem, portanto, as melhores no campo e no campeonato e, com isso, de procurarem a derrota do adversário. O empate de gols representa, em geral, uma frustração para ambas. Quando há uma diferença, tem-se um vencedor naquele jogo, que, em última análise, é a afirmação de uma equipe em relação à outra. Por isso, as equipes manifestam posições opostas num jogo, num campeonato. A vitória de uma, significa a derrota da outra, e vice-versa. A contradição torna-se manifesta. Contudo, aparentemente, é ela que anima a mágica da disputa. Pois, se não houvesse quem vencer, não haveria razão para jogar. Poderíamos, assim, afirmar que uma equipe representa uma posição. A outra, a sua antítese. A síntese é o resultado que advém do jogo ou do campeonato. Um jogo de futebol ou um campeonato se apresentam, deste modo, como uma contradição em resolução, que, no final, se resolve com a vitória de uma das equipes.

 

IHU On-Line - E quais são os nexos que podem ser estabelecidos entre contradição e jogo? 

Inácio Helfer - Uma partida de futebol ou um campeonato revelam, assim, posições bem definidas. Temos a afirmação da determinação de cada equipe que busca a vitória para si através do empenho de seus jogadores, observando as regras, submetendo-se ao árbitro. Temos técnicos que orientam os seus jogadores no sentido de aproveitar as suas potencialidades individuais e coletivas em vista da vitória. Temos técnicos que orientam os seus atletas no sentido de inibir, dificultar e impedir os jogadores adversários de alcançarem o sucesso em campo. Temos as torcidas que apoiam o seu clube, os seus jogadores, o seu técnico, sempre em vista de sua vitória. Tais posições definidas revelam que a ação de uma equipe é contrária a ação da outra. Mas, revela também que uma equipe não pode se afirmar sem a existência deste movimento contrário da adversária. Sem a negação do esforço de conquista da vitória de uma, não há propriamente vitória. A vitória e a derrota andam juntas. A afirmação e a negação fazem parte do jogo. Bem como a negação da negação, que é o resultado do mesmo.■

 

Leia mais...

- Laicização, secularização e comunitarismo. Entrevista com Inácio Helfer publicada na Revista IHU On-Line, nº 426, de 02-09-2013.  

- “A filosofia transborda em Cirne-Lima”. Entrevista com Inácio Helfer publicada na Revista IHU On-Line, nº261, de 09-06-2008. 

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