Edição 482 | 04 Abril 2016

A consumação da metafísica e a iniciação à pós-metafísica

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Márcia Junges | Edição João Vitor Santos

Diogo Falcão Ferrer entende que Hegel realiza as possibilidades últimas da metafísica e a transforma em algo novo


“Se a modernidade se caracterizou frequentemente como uma filosofia do sujeito, Hegel procura situar-se num ponto anterior à divisão do ente entre a subjetividade e a objetividade, mostrando o absoluto como unidade entre sujeito e objeto, consciência e objeto, pensamento e realidade, mas também entre natureza e liberdade, forma e conteúdo do conhecimento, ação e conhecimento, teoria e prática ou historicidade temporal e validade universal para toda a razão humana.” É assim que o professor Diogo Falcão Ferrer apreende o legado de Hegel e o insere no rol de filósofos que pensam a metafísica. Para ele, o autor trabalha nas últimas possibilidades da metafísica, consumando-a plenamente. É da solução dos problemas da metafísica tradicional, que assumem dualidades ou oposições, que Hegel vislumbra algo para além da metafísica, numa ideia de pós-metafísica.

E como faz esse atravessamento? Ferrer analisa os movimentos de Hegel, que toma sua teia de raciocínio a partir da lógica. “A Ciência da Lógica é o momento em que o pensamento de Hegel assume a sua forma aproximadamente definitiva, onde a lógica se transforma em metafísica”, explica. “A lógica de Hegel é um pensamento que não se enquadra já pelas definições da metafísica moderna, transformando-a numa razão crítica da metafísica, contraditória, processual, que produz as suas determinações de modo inteiramente imanente ao processo”, completa. É por isso que o professor coloca Hegel para além da metafísica moderna, “abrindo caminho para vários elementos importantes do pensamento contemporâneo, onde razão e irrazão parecem frequentemente inverter as suas posições”.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor analisa como Hegel ainda vai além da invalidação das teorias metafísicas em geral. Para Ferrer, o mais importante na proposição de Hegel é “o progresso da metafísica em direção a categorias cada vez mais concretas e verdadeiras. Na conclusão desse processo estaria a descoberta do conceito por si próprio, como a autointeligibilidade e esclarecimento integral do sentido do ente na ideia e como ideia absoluta”, pontua.

Diogo Falcão Ferrer é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal. Possui doutorado em Filosofia pela Universidade de Coimbra e já lecionou na Universidade de Évora, Portugal, ministrou cursos como Professor Convidado na Universidade Federal de São Carlos, na Universidade de Toulouse Le-Mirail e na Universidade de Salamanca, e minicursos na Unesp - Marília, Universidade Federal de Goiás, entre outras. Entre suas principais publicações estão: A Génese do Significado. Introdução à Filosofia de Hegel (Porto, 2015 [no prelo]); O Sistema da Incompletude: A Doutrina da Ciência de Fichte de 1794 a 1804 (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014); e Lógica e Realidade em Hegel. A Ciência da Lógica e o Problema da Fundamentação do Sistema (Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2006).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em que consiste a transformação da Lógica em Metafísica em Hegel?

Diogo Falcão Ferrer - Com a sua monumental Ciência da Lógica , publicada em três volumes a partir de 1812, Hegel esboça um projeto logicista, em que é a lógica, e não a metafísica ou as ciências empíricas, que define o sentido e os termos primitivos de enunciabilidade de todo o ente.

É consensual que a lógica estuda as formas válidas do pensamento. Aquilo que, desde a Grécia antiga, é menos consensual é a origem da matéria ou conteúdo do conhecimento verdadeiro, objetivo. Os candidatos mais qualificados para este papel de fonte material do conhecimento são, basicamente, dois: o conhecimento empírico e uma intuição de essências de cariz metafísico. Ora, embora admita tanto a validade do conhecimento empírico quanto o sentido e a possibilidade de uma metaphysica generalis, como ontologia, Hegel entende que o conteúdo fundamental e mais geral do conhecimento válido não é fornecido nem pela experiência, nem por uma intuição categorial ou metafísica, mas pela própria lógica. A lógica, como ciência que estuda o pensamento, tem o pensamento simultaneamente como objeto e como sujeito. Ou seja, nela o pensar se aplica a si próprio, explica-se a si e conhece as suas próprias condições de enunciação.

Assim, antes de qualquer estudo empírico do ente, há lugar para o estudo das condições em que este pode em geral ser pensado ou, mesmo, sequer cognoscitivamente enunciado. Aquilo que assim se observa é que a lógica não fornece somente as formas do pensamento, mas também um conteúdo que estará necessariamente presente em todo o conhecimento válido de qualquer objeto, porque este conteúdo constitui as condições de enunciabilidade e inteligibilidade de todo o ente. É este conteúdo atribuído à lógica que faz dela uma metafísica.

Determinações do pensar

Segundo Hegel, a lógica não estuda e define somente a forma do pensar ou do raciocínio, com validade apenas subjetiva, mas permite conhecer e afirmar um conteúdo específico objetivamente válido, que o autor denomina de “determinações do pensar” ou categorias. O conjunto destas determinações do pensamento constitui uma ontologia, no sentido clássico de uma metafísica geral, ou ciência do ente enquanto ente. Hegel transforma a lógica em metafísica ao conceder às formas lógicas não só o estatuto de condição e regra para todo o pensar e raciocinar subjetivo, como também em primeiro lugar o estatuto de conteúdo definitório de todo o ente em geral. Este conteúdo é pressuposto por todo o enunciado empírico com sentido objetivo, e a sua fonte não pode, por isso, ser encontrada nesse mesmo conteúdo empírico, que o pressupõe. Mas tampouco pode ser encontrado no outro candidato considerado, isto é, em alguma forma de intuição de essências metafísicas, cujo vazio de sentido Kant já tinha denunciado. 

Ao reconduzir a metafísica à lógica, como Kant de certo modo já tinha feito, Hegel por um lado descarta qualquer possibilidade de uma intuição categorial de essências metafísicas e, por outro, faz com que todas as teses ontológicas, isto é, metafísicas em sentido geral, sejam teses acerca do próprio pensar, e não acerca de objetos transcendentes. O essencial da transformação da lógica em metafísica é que o pensamento encontra na sua própria autotematização as condições de enunciação válida e objetiva do ente.

 

IHU On-Line - Por que Hegel tinha em vista esse projeto e o que ele significa no conjunto de seu sistema?

Diogo Falcão Ferrer - Desde a sua fundação, com os Analíticos  de Aristóteles, até a Ciência da Lógica de Hegel, a lógica foi sempre entendida como uma disciplina cuja principal função era fornecer os princípios para um pensamento correto e para evitar o erro nos raciocínios. A lógica estudava principalmente a formação de conceitos e as formas do juízo e dos raciocínios, ou silogismo. Kant chamava-lhe um cânone, ou seja, conjunto de regras para evitar o erro. Como tal, a lógica era entendida como disciplina metodológica, prévia ou introdutória à ciência propriamente dita.

Esta última correspondia, por outro lado, à metafísica que se podia definir, também desde Aristóteles, como filosofia primeira, ciência dos princípios e das causas últimas, ciência do ente enquanto ente e, também, ciência do ente supremo, teologia. O próprio Hegel começou por entender a relação entre lógica e metafísica de modo semelhante, até pouco tempo antes da Fenomenologia do Espírito , publicada em 1807. Com efeito, dispomos de um curso manuscrito de Hegel, do ano de 1804/1805, intitulado Lógica e Metafísica de Iena, que as expõe como duas disciplinas diferentes, começando com a lógica, como disciplina introdutória que, por assim dizer, prepara o terreno epistemológico para a metafísica, que é exposta em seguida.

Mas logo a seguir a este curso de Iena, conforme se pode entender já no Prefácio à Fenomenologia, e a partir dos seus escritos de Nuremberg, conhecidos hoje como Propedêutica Filosófica , Hegel passa a entender a lógica como filosofia primeira, deixando de admitir a existência de uma metafísica como disciplina autônoma. A Ciência da Lógica irá por fim incluir todos os conteúdos da anterior metafísica, assim como os da lógica tradicional, numa unidade epistemológica de exposição, de método e de objeto. Tudo está contido na lógica, que não é mais disciplina introdutória, cânone para evitar o erro nos raciocínios, mas ela própria a filosofia primeira.

 

Fusão entre lógica e metafísica

A transformação da lógica em metafísica, e a correspondente transformação da metafísica em lógica, permite fundamentar a tese subjacente a todo o sistema hegeliano, de que a realidade é essencialmente cognoscível e traduzível em conceito. Mas esta traduzibilidade não é levada a cabo nem por uma redução, causal ou equivalente, do pensamento à realidade física, nem por uma redução desta a algo de somente pensado ou pensável pelo sujeito.

Pelo contrário, a realidade é reconduzida ao pensamento como aquilo que, para o pensar e no pensar, se mostra como contraditório. Por isso, a Ciência da Lógica é um conjunto de antinomias, que mostram, de modo inerente ao pensar, os seus próprios limites, que ele não é capaz de apreender em si, em nenhuma das suas determinações próprias, o sentido total da efetividade. Hegel assume a sua lógica como uma crítica a toda a metafísica, a tomar como absoluta qualquer determinação do pensar. E mesmo a ideia absoluta, a categoria mais rica e plena de determinações da Ciência da Lógica não vai esgotar o sentido da efetividade e, num certo sentido, não é o absoluto, porque a lógica tem de remeter para além de si, para a filosofia da natureza.

 

IHU On-Line - Em que medida a metafísica hegeliana dialoga e difere dos debates acerca desse tema nos séculos XVIII e XIX? 

Diogo Falcão Ferrer - Um traço que caracteriza o pensamento de Hegel no panorama da Filosofia Clássica Alemã é o diálogo não só implícito, como também explícito e sistemático com a história da filosofia e com os seus contemporâneos. 

Não iríamos contra as intenções de Hegel se no seu pensamento não encontrássemos senão um olhar retrospectivo sobre a história da filosofia até à sua época, a par da explicitação do mecanismo dialético da sua transformação e desenvolvimento. Como limite, o nosso filósofo nada acrescenta de novo à história da filosofia e aos debates filosóficos da sua época, que são, afinal, também intemporais. Hegel limita-se a assumir uma perspectiva panorâmica, a organizar, numa ordem lógica, os dados disponíveis na história da filosofia e na linguagem, e a exibir as razões por que de umas posições se geram inevitavelmente outras. Perante as posições das outras filosofias, cultiva uma espécie de não-agir, como uma arte de judô especulativo, em que a força do adversário é utilizada na sua própria refutação. Como afirma relativamente a Espinosa , “a verdadeira refutação tem de penetrar na força do oponente, e de se colocar no círculo da sua potência”.

No que se refere à transformação da lógica em metafísica, Hegel vai efetivamente penetrar numa potencialidade que já está em andamento em toda a filosofia moderna e, em especial, nos seus contemporâneos mais próximos. Por um lado, Hegel recebe a formulação da metafísica construída a partir de Leibniz  pela escola racionalista alemã, em especial Ch. Wolff , como antecedida de uma lógica, e constituída pela já referida metafísica geral, seguida de metafísicas especiais, nomeadamente teologia natural, psicologia racional e cosmologia. Por outro lado, Hegel incorpora também elementos do empirismo e, de modo muito marcado, de Kant , Fichte  e Schelling . A contribuição de filósofos menos significativos, que Hegel focou de modo sobretudo crítico, como Reinhold , Bardili , Jacobi  ou Hölderlin , poderia ser também referida.

Como referi antes, a transformação da lógica em metafísica estava já suposta na lógica transcendental de Kant. Mas vimos que Hegel vai despir esta tese de todo o significado subjetivista de que ainda se revestia em Kant ou, posteriormente, também em Fichte. Não teremos mais, com Hegel, uma estrutura da razão a priori, separada e perante um mundo objetivo a posteriori, mas uma geração simultânea de sujeito e objeto que decorre ao longo da Ciência da Lógica. 

 

Entre subjetividade e objetividade

Também a ideia, defendida por Hegel, de que o pensar é capaz de uma essencial autonomia corresponde à tese kantiana da autonomia teórica e prática da razão e do entendimento humano. E, principalmente, a tese da autonomia do pensamento segundo Hegel corresponde à tese kantiana conforme foi transformada por Fichte, que compreendeu que, ao se tratar da razão, ou do próprio pensamento, a compreensão de si só pode ser idêntica à produção ou geração de si. A lógica de Hegel descreve então a autoprodução de toda a enunciabilidade e sentido do ente.

Se a modernidade se caracterizou frequentemente como uma filosofia do sujeito, Hegel procura situar-se num ponto anterior à divisão do ente entre a subjetividade e a objetividade, mostrando o absoluto como unidade entre sujeito e objeto, consciência e objeto, pensamento e realidade, mas também entre natureza e liberdade, forma e conteúdo do conhecimento, ação e conhecimento, teoria e prática ou historicidade temporal e validade universal para toda a razão humana.

 

IHU On-Line - Qual é a importância de “A Ciência da Lógica” para o debate acerca da Lógica e da Metafísica hegelianas?

Diogo Falcão Ferrer – A Ciência da Lógica é o momento em que o pensamento de Hegel assume a sua forma aproximadamente definitiva, em que a lógica se transforma em metafísica, no sentido de que as formas lógicas ou determinações do pensar são apresentadas como princípios do real e de si próprias, ratio essendi e cognoscendi de todo o ente.

Por outro lado, nela também a metafísica está transformada em lógica. No sentido em que os objetos metafísicos não são mais entendidos como transcendentes, ou como essências intuíveis suprassensíveis, mas como determinações ontológicas que o puro pensar objetivo produz em si próprio.

Hegel entende que a sua lógica objetiva, que engloba as duas primeiras partes da Ciência da Lógica, o Ser e a Essência, “vem ocupar o lugar da anterior metafísica”, e é “a sua verdadeira crítica”. A terceira parte da Ciência da Lógica, finalmente, o Conceito, corresponde então a uma teoria que se poderia dizer ‘pós-metafísica’, que supõe a crítica da metafísica e expõe a unidade de subjetividade e objetividade.

 

IHU On-Line - Pode-se dizer que, em Hegel, há uma consumação da metafísica? Por quê?

Diogo Falcão Ferrer - Se entendermos a consumação como realização das possibilidades últimas da metafísica e, ao mesmo tempo, a sua transformação em algo de novo, Hegel consuma, efetivamente, a metafísica. Não seria exagero dizer que, com a sua dialética, Hegel resolve os problemas da metafísica tradicional, na medida em que estes podem assumir a forma de dualidades ou oposições.

Hegel pertence à modernidade, no sentido em que defende a organização de todas as ciências, ou do saber humano, num sistema completo e enciclopédico da razão. A realidade é entendida como regida por uma razão que o sujeito pode conhecer, e que assume a forma da ideia e do espírito absolutos, como sentido e fundamentação última de todo o ser. O espírito absoluto é dotado de um sentido absolutamente claro a si próprio, consiste na plena inteligibilidade conceitual do sujeito e do objeto. Por outro lado, a filosofia de Hegel possui um começo absoluto, sem pressupostos e aponta para um termo, ou conclusão igualmente absoluta, que compreende finalmente o todo como integridade racional de tudo aquilo que é. Neste sentido, Hegel vem completar a metafísica moderna, como busca sistemática dos princípios e causas últimas do ser e do saber da realidade.

Em contrapartida, esta completude e resolução de problemas é paga ao preço da elevação da negatividade e da dialética até ao cerne do sistema. A unidade racional proposta por Hegel não é uma unidade harmoniosa de uma razão fundamentadora, mas um sistema de diferenças, que só se sustenta porque essas diferenças são enunciáveis como oposições. A racionalidade do real é, afinal, a própria contradição em que todos os entes se refletem e opõem entre si.

O começo absoluto, por outro lado, não é um princípio de onde se pudesse deduzir e fundamentar tudo o resto, como ponto arquimediano, mas, pelo contrário, é exposto por Hegel como a mais vazia e insignificante das determinações do pensar. O sistema não é concluído como dedução a partir de um fundamento, mas é construção a partir da crítica a toda a posição unilateral absolutizada, e oposição permanente entre os entes e determinações. A lógica de Hegel é um pensamento que não se enquadra já pelas definições da metafísica moderna, transformando-a numa razão crítica da metafísica, contraditória, processual, que produz as suas determinações de modo inteiramente imanente ao processo. Neste sentido está além da metafísica moderna, abrindo caminho para vários elementos importantes do pensamento contemporâneo, onde razão e irrazão parecem frequentemente inverter as suas posições.

 

IHU On-Line - Hoje, qual é a importância da metafísica hegeliana na filosofia política e, igualmente, na pergunta pelo Ser?

Diogo Falcão Ferrer - Poderíamos inscrever a filosofia política de Hegel no conceito de reconhecimento. Aliás, em última instância, toda a sua filosofia pode ser entendida como uma exposição sistemática das consequências deste conceito. 

Hegel entende o estado moderno como o que é capaz de realizar o reconhecimento do indivíduo singular nas suas instituições, desde a família, passando pela sociedade civil até o estado. Contrariamente a todas as formas de coletivismo, por um lado, e das instituições pré-modernas, por outro, o pensamento inspirado nas Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito, na Fenomenologia do Espírito ou na filosofia da história hegelianas, defende o caráter inalienável do indivíduo singular. Mas também, em contrapartida, e contrariamente ao individualismo e atomismo sociais, Hegel não entende o estado e as instituições em geral como uma coerção e limitação de uma liberdade individual originariamente incondicionada. Muito pelo contrário, o estado e as instituições são a efetivação da liberdade individual e, por isso, as instituições, enquanto são instituições de reconhecimento, são também a manifestação da liberdade e efetivação das possibilidades de realização da razão individual. 

Hegel acredita que esta realização da razão é um progresso inerente à história, e um processo crítico e emancipatório interior ao desenvolvimento das culturas realmente existentes. Não pode, por isso, ser efetivada por meio quer de intervenções externas, quer de uma imposição de tipo revolucionário de princípios racionais radicalmente opostos ao real existente. O real já traz um potencial de racionalidade que deve ser explorado, em termos práticos e teóricos. Aliás, a simples possibilidade de tematização sistemática das condições institucionais e culturais para a realização da razão num estado fundado no reconhecimento, conforme Hegel pretende fazer nas suas obras, demonstra já a presença de condições essenciais da racionalidade do real e de uma parcial efetivação da liberdade, que pode ser então desenvolvida mais além. 

 

Estado racional

O estado representativo — e, acrescentaria eu, penso que sem trair o espírito do pensamento hegeliano — democrático, dotado de instituições organizadas de reconhecimento do indivíduo é, para Hegel, o estado racional. Este estado pode ser aperfeiçoado, e não obedece com certeza à sua descrição conforme realizada por Hegel em 1820. No entanto, os princípios gerais enunciados permanecem válidos, pelo menos enquanto o sujeito individual, a família e o estado deverem ser reconhecidos como componentes centrais do espírito humano.  

 

O Ser

No que se refere à pergunta pelo ser, Hegel não estaria longe de uma concepção do ser como sentido ou significado. Distancia-se, contudo, de uma fenomenologia hermenêutica como a proposta por Heidegger na medida em que considera possível um pensar sistemático, que parte de um começo sem pressupostos e conduz a uma conclusão, que é o próprio espírito no seu processo de autoconhecimento filosófico. A pergunta pelo ser encontra em Hegel uma resposta como o movimento do conceito que constitui sentido nos diferentes processos do ser e do aparecer. 

 

IHU On-Line - Em que consiste a recepção crítica da metafísica tradicional em Hegel?

Diogo Falcão Ferrer - A Ciência da Lógica constrói todas as suas categorias a partir da recepção crítica sistemática de categorias da história da metafísica. Conforme referi atrás, Hegel recebe e sistematiza, dialetizando-as, as categorias da metafísica, sendo a sua função, sobretudo, mostrar como cada categoria remete para uma outra, oposta e contraditória à primeira, sendo que a possibilidade de pensar as duas aponta para a pressuposição de uma categoria de síntese, mais concreta e melhor determinada do que qualquer uma das anteriores.

Diferentemente de Kant, que já tinha feito essa recepção dialética das questões metafísicas, Hegel pensa que a contradição não se aplica somente a algumas categorias selecionadas, mas a todas as categorias da história da metafísica. Mais importante ainda é a conclusão de Hegel de que o resultado da contradição não é a invalidação de todas as teorias metafísicas em geral, como pretendia Kant, mas o progresso da metafísica em direção a categorias cada vez mais concretas e verdadeiras. Na conclusão desse processo estaria a descoberta do conceito por si próprio, como a autointeligibilidade e esclarecimento integral do sentido do ente na ideia e como ideia absoluta.

 

IHU On-Line - Qual é o impacto da metafísica hegeliana nas discussões filosóficas atuais, quando se fala, inclusive, em pós-metafísica?

Diogo Falcão Ferrer - Hegel tem sido objeto de algumas “redescobertas” e recuperações, desde há meio século, começando com a hermenêutica de Gadamer , que reconhece a importância de temas hegelianos como, por exemplo, o sentido especulativo da linguagem, a importância da consciência histórica e da objetividade e valor cognoscitivo da obra de arte, por exemplo. Encontramos também a redescoberta da teoria hegeliana da subjetividade em pensadores que, como Henrich , procuraram resgatar a herança do chamado Idealismo Alemão para a contemporaneidade.

Também a teoria do reconhecimento, a partir da escola de Frankfurt , com pensadores como Habermas  ou Honneth  tem sublinhado a importância do contributo de Hegel. Mais recentemente, registramos a descoberta de Hegel por alguma filosofia analítica, a cargo de pensadores como Brandom  ou McDowell , que encontram nos processos de mediação hegelianos suporte para a sua crítica ao mito do dado, e para uma concepção inferencialista e pragmatista da racionalidade.

 

IHU On-Line - Em que aspectos a crítica de Heidegger à metafísica e, portanto, também a Hegel, é a fonte da qual brota a pós-metafísica?

Diogo Falcão Ferrer - Penso que aquilo que podemos designar como “pós-metafísica” tem diversas fontes. Encontramos elementos centrais para esta tendência filosófica em autores como Nietzsche , Wittgenstein , Heidegger  ou Deleuze , por exemplo, mas também no próprio Hegel, em Husserl  e na fenomenologia francesa, entre outras possibilidades. 

Aparentemente, as vias de inovação filosófica depois de Kant estão centradas na superação crítica da metafísica. No entanto, parece-me que a metafísica acaba sempre por retornar, sob outras formas, não já como definição fundacionalista e ontoteológica do sentido, mas como exercício de perguntar e responder acerca do sentido do ser em geral, das fontes da significação, e de princípios, causas, conceitos ou traços de sentido instauradores do autoesclarecimento da razão humana.■

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