Edição 481 | 21 Março 2016

A colonialidade atualizada no pensamento contemporâneo

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João Vitor Santos | Tradução Henrique D. Lucas

Alejandro De Oto entende que a lógica do poder colonial segue viva nas mais diversas formas de relações humanas da contemporaneidade

Em uma reflexão acerca das Teorias Críticas do Colonialismo, o professor Alejandro De Oto propõe que se reflita a realidade latino-americana à luz de conceitos como descolonialidade. Para ele, a perspectiva é interessante por se colocar como uma forma de resistência ao “pensamento colonial” que, em pleno século XXI, segue vivo. O entrevistado entende que “a construção do conhecimento e das práticas políticas associadas exige uma reflexão central sobre o problema do colonialismo. Isto é, uma reflexão sobre as maneiras em que a lógica do poder colonial persiste, seja em relação à sexualidade, raça e outras dimensões, agindo muitas vezes de forma encoberta, ou manifesta, organizando disciplinas, propostas políticas etc.”

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor considera inevitável vincular o pensamento contemporâneo à colonialidade. “Não vejo muitos traumas epistemológicos se nos propusermos a entender o que é chamado de pensamento contemporâneo, e que, na prática, refere-se à evolução da teoria social, da filosofia e da política surgidos em contextos europeus, conjuntamente à dimensão da colonialidade”.

Alejandro De Oto é pesquisador independente do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina – Conicet. Doutor pelo Centro de Estudos da Ásia e África de El Colegio de México, foi pesquisador visitante na Universidade de Brown, Estados Unidos. Autor de vários livros e numerosos artigos, com destaque para Frantz Fanon. Política y poética del sujeto poscolonial (México: El Colegio de México, Centro de Estudios de Asia y África, 2003), pelo qual recebeu o “Frantz Fanon Prize for Outstanding Book in Caribbean Thought” em 2005, prêmio da Associação Filosófica do Caribe. Neste mês, Oto esteve na Unisinos ministrando o curso “Teorias Críticas do colonialismo em questão: genealogias e debates desde uma perspectiva latino-americana”. A promoção foi do Núcleo de Direitos Humanos da Escola de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Unisinos.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - De que forma o pensamento colonial se atualiza hoje na América Latina?

Alejandro De Oto - É uma longa história. Em suma, existem dois processos convergentes que têm relação com os desenvolvimentos teóricos de diversos lugares, mas especialmente da academia norte-americana, realizados por professores de distintas origens culturais e histórias intelectuais, mas, ainda assim, afetados pelo processo de relação entre cultura e colonialismo em escala global. E, por outro lado, por uma longa história própria, de diferentes disciplinas, práticas sociais e políticas na América Latina. Ao mesmo tempo, nos últimos quinze anos têm sido articuladas novas formas de pensar sobre o problema do colonialismo que permitiram recuperar profundas discussões realizadas principalmente na América do Sul e no Caribe. 

Atualmente, há uma espécie de mistura entre registros clássicos, como as teorias de dependência, a filosofia da libertação, entre outras temáticas, como as chamadas epistemologias do Sul. Isso inclui um vasto campo reflexivo não considerando apenas intelectuais individualmente, mas comunidades. 


IHU On-Line - Em que medida a relação econômica entre países nos dias de hoje, em tempos de economia global — como no caso do Brasil, que acaba ficando muito atrelado ao mercado chinês, por ter nele seu principal cliente —, reproduz a lógica colonialista?

Alejandro De Oto - Eu não poderia responder precisamente a esta pergunta, mas há algo para se pensar em relação a isso. É o fato de que não tem ocorrido, em termos de processos culturais, uma vinculação com a China, com os seus processos internos etc. Nesse sentido, a China é um poder presente na economia, como bem sabemos, mas não muito presente nas discussões culturais do continente. Não é um problema menor e eu acho que devemos prestar mais atenção a isto.

 

IHU On-Line - Como a lógica do pensamento contemporâneo pode implicar na assimilação da lógica descolonial na América Latina?

Alejandro De Oto - Eu acho que o ponto mais importante dessa relação, sugerido pela própria pergunta, é o reconhecimento de que a construção do conhecimento e das práticas políticas associadas exige uma reflexão central sobre o problema do colonialismo. Isto é, uma reflexão sobre as maneiras em que a lógica do poder colonial persiste, seja em relação à sexualidade, raça e outras dimensões, agindo muitas vezes de forma encoberta, ou manifesta, organizando disciplinas, propostas políticas etc.

A dimensão descolonial tenta provocar um processo de crítica ativa e discussão destes problemas. Também tenho a impressão de que no continente há muitos exemplos, como é o caso atual de Frantz Fanon , que deu passos fundamentais para se pensar sobre o problema da descolonização, antecedente direto do debate proposto pela escola “giro descolonial”. Não vejo, por outro lado, muitos traumas epistemológicos se nos propusermos a entender o que é chamado de pensamento contemporâneo, e que, na prática, refere-se à evolução da teoria social, da filosofia e da política surgidos em contextos europeus, conjuntamente à dimensão da colonialidade (deveríamos considerar esta palavra no plural para dar conta de explicar as variedades históricas). Quer dizer, eu acho que vincular o pensamento contemporâneo e colonialidade é, neste momento, uma operação inevitável. 

 

IHU On-Line - No que consiste a crítica pós-colonial? Qual a relação com o conceito da descolonialidade?

Alejandro De Oto - A crítica pós-colonial é diferente da crítica feita pelo giro descolonial. Na verdade, foi um movimento criado pelos intelectuais do mundo colonial nas academias do Norte, que teve o seu início no final dos anos 70, com Edward Said  e, depois, de uma longa lista. O ponto central dessa crítica foi reconhecer que o colonialismo tinha desempenhado um papel fundamental na criação das subjetividades contemporâneas, para ser mais preciso, no processo de subjetivação, e, portanto, era preciso entender esse papel em diferentes níveis, mas primordialmente no plano do discurso, no sentido foucaultiano do termo.

A descolonialidade é, sobretudo, herdeira do movimento que, no começo da década passada, colocou em contato muitas das preocupações da crítica pós-colonial (que até então era um movimento crítico principalmente associado a pensadores da Índia, Oriente Médio e alguns africanos) com as velhas temáticas do colonialismo latino-americano. Neste movimento reuniu-se uma grande lista de textos, perspectivas, e outros trabalhos, com destaque para os trabalhos de Enrique Dussel , Aníbal Quijano , Walter Mignolo , entre outros.

Hoje, os termos circulam em muitos aspectos como se fossem equivalentes. Exceto por uma questão de precisão, portanto, eu diria que, se uma pessoa procurar os detalhes de ambas as genealogias críticas, encontrará mais semelhanças do que diferenças. Sobre isto também existem algumas divergências.

 

IHU On-Line - De que forma a herança da colonização ainda impacta os indivíduos e a sociedade no mundo globalizado? Em que medida é possível, hoje, falar em “neocolonização”?

Alejandro De Oto - Bem, se falamos de processos de subjetivação é preciso dizer que muitas das formas nas quais se desenvolve a distinção entre raças, em diferentes lugares, tomando este como um exemplo concreto e preciso, demonstra o quanto ainda estão incrivelmente fortes os laços entre o colonialismo histórico e o nosso presente. Podemos considerar isso principalmente em um nível micro, que seria o nível onde resolvemos nossas vidas concretas. O conceito de neocolonialismo parece-me que se refere a uma ideia na ordem geral da geopolítica.

Creio que seja um conceito discutível, que apaga parte do problema porque introduz a dimensão temporal característica das modernidades, ou seja, a do tempo e sua progressão. Dizer "neo" pressupõe em algum ponto que as dimensões da colonialidade foram interrompidas. Penso, no entanto, que a relação entre os processos de subjetivação atuais e os colonialismos históricos estão lidando com dimensões persistentes da colonialidade. 

 

IHU On-Line - Qual a importância de lógicas de pensamentos como o “giro descolonial” para construir o desenvolvimento e independência de uma nação?

Alejandro De Oto - Difícil de responder, pois o termo "nação" quase inexiste no giro descolonial. Eu critico este termo e acho que é necessário reconectar os vínculos entre o que muitas pessoas chamavam de cultura nacional, na década de 1950, com uma experiência da ideia de nação heterogênea. O giro descolonial teve problemas com isto, pois a maior parte dos movimentos sociais dos últimos anos impugnaram as formas persistentes e autoritárias de estado-nação. Mas isso não é o contexto completo.

Eu enxergo a ideia de nação muito mais disputada do que é frequentemente pensado na teoria social. Por exemplo, os pensadores anticoloniais, como Fanon, entendiam por nação uma coisa bastante diferente do que supomos. Eles entendiam como um espaço de ação política, de diferença e de multiplicação de experiências sociais de todos os tipos. Nesse sentido, eu acho que há muito a dizer. Agora, se reduzirmos a dimensão "nação" a um significante proibido para a boa consciência de teorias sociais não há muito para fazer.

Eu sempre digo que quando alguém requer a remoção de qualquer ontologia persistente, algum essencialismo dissimulado ou alguma categoria esclerosada, o medicamento prescrito é a chamada historiografia. Ou seja, a compressão da temporalidade histórica e das práticas, de maneira diferenciada.

 

IHU On-Line - De que forma a descolonização pode potencializar áreas como cultura, direitos humanos, política social e econômica? Que exemplos no sul global podem nos inspirar?

Alejandro De Oto - Certamente a descolonização pode contribuir muito para todas estas áreas e experiências. O fato de que não há nenhuma razão para aceitar como dado substancial qualquer processo conceitual, já é uma contribuição concreta. No campo dos direitos estão se multiplicando as experiências que incorporam algumas destas questões. O que eu acho importante é que isto não pareça como uma espécie de sabedoria a partir de um ponto de vista superior, que dirige as discussões etc.

Acredito que a melhor contribuição destas noções, categorizações e afins é a de somarem-se ao diálogo em uma posição de escuta. A coisa passa um pouco por uma mudança de pontos de vista por pontos de escuta. E quanto a exemplos do sul global, não sei, não consigo listar possíveis exemplos, mas acho que têm acontecido novidades importantes nos últimos anos em diferentes lugares da América do Sul.

 

IHU On-Line - Que relação é possível fazer entre o pensamento colonial e os regimes totalitários?

Alejandro De Oto - Bem, muitíssimas. Uma das questões mais persistentes do colonialismo tem sido a maneira como algumas noções sobre diferenças culturais se estabilizaram, o que colocou comunidades inteiras no limite do genocídio. Há uma grande sincronia entre regimes autoritários e modelos de subjetividade vinculados a noções coloniais de raça, de gênero, de sexo etc. Se formos analisar os mitos culturais das ditaduras latino-americanas, frequentemente podemos encontrar exercícios de eliminação das diferenças em função de uma narrativa unificadora que não faz nada além de ordenar de maneira colonial qual é o horizonte que os indivíduos devem aspirar.

Tenho uma gravação de uma canção que a ditadura argentina passava na televisão, no final dos anos setenta. A canção dizia em uma parte, falando do povo argentino: "povo, povo, povo, refúgio de imigrantes que foram os responsáveis por uma raça melhor." Bem, não há necessidade de qualquer astúcia analítica para saber que a melhor raça, citada nesta famosa "mistura", era a europeia, branca (o máximo possível) etc. Essa forma de pensar sobre este assunto encontrou-se ecoando claramente nos tempos da organização do estado, posterior às independências, no século XIX. Talvez haja outra dimensão mais complexa e em muitos casos, por exemplo, os inimigos ideológicos das ditaduras foram tratados como uma população que tinha os mesmos atributos de uma população racializada. Sobre esta temática, falta muito a fazer, mas sim, tenho poucas dúvidas sobre esta relação.

 

IHU On-Line - Gostaria que analisasse a consolidação dos direitos humanos na América Latina e os processos de descolonização no campo teórico-prático.

Alejandro De Oto - Sobre esse assunto, não guardo mais do que impressões. O que posso dizer não passa do nível de um leitor de certos jornais e de prestar atenção a certos processos sociais. O que eu realmente acredito é que a linguagem da descolonização está presente em diferentes coletivos e demonstra sua capacidade de dar conta, não de representar, mas de ser articulada com práticas concretas. Eu não sei, no caso da Argentina, escuto frequentemente esta linguagem da descolonização em coletivos de mulheres que lutam por direitos (não digo "seus" direitos, pois não são direitos apenas delas, são de todos e de todas). Eu tenho um grande grupo de colegas que fazem pesquisa social e militam em organizações feministas que naturalizaram a relação entre a descolonização, a crítica dos modelos patriarcais e padrões heteronormativos.■

 

Leia mais...

- Interculturalidades no Sul Global. Descolonização, Direitos Culturais e Política em debate. Revista IHU On-Line nº 459, de 17-11-2014.

- O pós-colonialismo e a fé cristã. Desafios. Entrevista especial com Diarmuid O'Murchu publicada na revista IHU On-Line, nº 450, de 11-08-2014.

- A experiência de um Deus único e multifacetado no pós-colonialismo. Entrevista especial com Emmanuel Lartey publicada na revista IHU On-Line, nº 438, de 24-03-2014. 

- Pós-colonialismo e pensamento descolonial. A construção de um mundo plural. Revista IHU On-Line nº 431, de 04-11-2013.

- As dores do pós-colonialismo. Artigo de Boaventura de Sousa Santos reproduzida nas Notícias do Dia, de 22-08-2006, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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