Edição 480 | 07 Março 2016

Ondas gravitacionais: novas possibilidades para desvendar o mistério da vida

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João Vitor Santos | Edição Leslie Chaves | Tradução Luis Sander

Para o diretor do Observatório Astronômico do Vaticano, Guy Consolmagno, a comprovação da existência de ondas gravitacionais abrem caminhos para desvendar mistérios do cosmos

O mundo voltou os olhos para o campo da ciência com a mais recente descoberta dos pesquisadores do Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser (LIGO, na sigla em inglês). Foram detectadas diretamente, pela primeira vez, ondas gravitacionais no espaço, conforme o prognóstico de Albert Einstein na Teoria da Relatividade Geral, em 1915. Os cientistas trabalhavam há pelo menos cinco décadas com o objetivo de detectar esse fenômeno, o único que ainda não havia sido confirmado na teoria de Einstein. 

Conforme ressalta em entrevista por e-mail à IHU On-Line o cientista Guy Consolmagno, para além da comprovação dessa teoria que ocupa um papel extremamente significativo na ciência, a descoberta abre caminhos para desvendar outras incógnitas sobre o mistério da vida. “Para realmente compreender o tecido do universo, temos que ter condições de ‘parti-lo’ com energias que nem mesmo nossos maiores colisores de partículas podem obter, mas elas ocorrem o tempo todo no espaço. Portanto, detectores como o LIGO nos ajudam a compreender não só o que ‘está lá fora’, mas também como a própria matéria dentro de nós também se agrega”, aponta.

Defendendo que religião e ciência podem andar juntas, o pesquisador afirma que é a “fé em um Criador bondoso que nos dá a coragem de esperar que o universo faça sentido e tenha leis confiáveis”. Para Consolmagno, essa descoberta científica pode ainda oferecer uma contribuição para o modo como encaramos os desafios que o cotidiano nos impõe e a complexidade da vida. “O universo efetivamente opera como uma mescla de regras e leis, de fato que são difíceis de contornar, mas ao mesmo tempo há espaço para muito mais coisas do que aquilo que é provável que possamos esperar de regras e leis apenas. No mínimo, um resultado como esse deveria nos ensinar a ser sempre humildes face ao universo e nunca achar que já compreendemos tudo, completamente”, ressalta.

Guy Consolmagno é graduado e mestre em Ciências Planetárias pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT e doutor na mesma área pela Universidade do Arizona. Foi professor e pesquisador de pós-doutorado em Harvard e no MIT, além de ter trabalhado no Quênia pela Peace Corps, agência federal norte-americana que oferece ajuda humanitária para países em desenvolvimento. Ingressou na Companhia de Jesus em 1989 e desde então é diretor do Observatório do Vaticano e Presidente da Fundação do Observatório do Vaticano. Em 2014, recebeu a Medalha Carl Sagan da Divisão da Sociedade Astronômica Americana para Ciências Planetárias pela excelência de seus trabalhos em ciências planetárias. Entre suas centenas de publicações científicas, destacam-se as obras Turn Left at Orion (Nova Iorque: Cambridge University Press, 1989), Intelligent Life in the Universe? Catholic belief and the search for extraterrestrial intelligent life (Catholic Truth Society, 2005) e Would You Baptize an Extraterrestial? (Nova Iorque: Crown Publishing Group, 2014), este último escrito junto com o Jesuíta Paul Mueller.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que significa para o pensamento científico a comprovação da existência das ondas gravitacionais? E para além da ciência, quais devem ser as repercussões? 

Guy Consolmagno - Para a ciência, essa descoberta tem duas repercussões interessantes. Em primeiro lugar, ela confirma uma previsão central da Teoria da Relatividade Geral  de Einstein ; se não pudéssemos encontrar essas ondas, isso teria levado a uma crise na teoria, o que, é claro, teria sido muito estimulante, mas também decepcionante. O outro lado, entretanto, é que com detectores instalados no mundo todo (como está acontecendo atualmente), deveremos ter condições de fazer detecções rotineiras de ondas gravitacionais no futuro, o que nos permitirá observar efetivamente certas coisas no espaço, como a colisão de buracos negros, que, do contrário, seria difícil ou impossível detectar com telescópios comuns.

 

IHU On-Line - Qual a questão de fundo dessa descoberta?

Guy Consolmagno - Para realmente compreender o tecido do universo, temos que ter condições de “parti-lo” com energias que nem mesmo nossos maiores colisores de partículas podem obter, mas elas ocorrem o tempo todo no espaço. Portanto, detectores como o LIGO   nos ajudam a compreender não só o que “está lá fora”, mas também como a própria matéria dentro de nós também se agrega.

 

IHU On-Line - Em que medida essa comprovação impacta na forma como se concebe o surgimento do Universo e a vida?

Guy Consolmagno - Não vejo nenhuma conexão direta.

 

IHU On-Line - Nessa busca do homem para entender a origem do Universo, como imagina que deva ser o próximo passo?

Guy Consolmagno – O próximo passo consiste, realmente, em continuar observando o universo de tantas formas diferentes quanto pudermos e em estar preparados para surpresas. O experimento com o LIGO é um novo conjunto de olhos que devemos manter abertos, ainda não sabemos o que iremos descobrir. Afinal de contas, foi só nos últimos 25 anos que descobrimos a existência da “energia escura”, que ainda é muito misteriosa; ainda há muita coisa lá fora a ser descoberta.

 

IHU On-Line - Pensar – e comprovar – que o tempo e o espaço são flexíveis pode impactar de que forma o pensamento político, científico e social na contemporaneidade?

Guy Consolmagno - Essa é, de fato, uma pergunta interessante. A maioria das pessoas atualmente pensa que vive em um mundo que é controlado por “leis naturais” fixas, com base na revolução do pensamento humano que surgiu com Isaac Newton  no século XVII. Mas nós cientistas sabemos que a concepção do universo de Newton é deploravelmente incompleta. Há efetivamente leis, mas elas não são de modo algum tão rígidas ou inflexíveis quanto os filósofos pensavam há cem anos.

Espero que a mensagem da física moderna também venha a permear a maneira como pensamos a respeito de nossa vida e nossos problemas humanos. O universo efetivamente opera como uma mescla de regras e leis, de fato, que são difíceis de contornar, mas ao mesmo tempo há espaço para muito mais coisas do que aquilo que é provável que possamos esperar de regras e leis apenas.

No mínimo, um resultado como esse deveria nos ensinar a ser sempre humildes face ao universo e nunca achar que já compreendemos tudo, completamente.

 

IHU On-Line - Como a notícia da comprovação das ondas gravitacionais é recebida pela Igreja?

Guy Consolmagno - Desde o início dos tempos, Deus tem se revelado nas coisas que criou (isso é uma citação de São Paulo). Assim, ficamos encantados com cada nova descoberta, e também muito conscientes de que nenhuma descoberta jamais é a “última palavra” sobre a criação ou sobre o Criador.

 

IHU On-Line - Quais são os limites da ciência para se compreender a criação? Em que medida a fé pode auxiliar nessa investigação?

Guy Consolmagno - A ciência é a melhor ferramenta ao nosso alcance para descrever o que está efetivamente acontecendo no universo físico. Ela dá à filosofia e à teologia exemplos maravilhosos da realidade sobre as quais elas podem pensar e que podem contemplar. O papel da fé nesse tocante é duplo.

Em primeiro lugar, é nossa fé em um Criador bondoso que nos dá a coragem de esperar que o universo faça sentido e tenha leis confiáveis. Nossa fé rejeita a ideia de que o universo opere pelo capricho de algumas divindades naturais como acreditavam os antigos romanos. Também rejeitamos a ideia ainda pior de que tudo seja apenas acaso aleatório e sem sentido, de modo que o próprio estudo do universo não tenha sentido. Em vez disso, percebendo que o universo foi criado por um Deus bondoso, somos incentivados a acolher, amar, cuidar e estudar essa maravilhosa obra de Suas mãos.

Em segundo lugar, quanto mais ficamos sabendo a respeito de como Deus optou por criar o universo, tanto mais podemos valorizar Seu senso de beleza e elegância. Com efeito, apenas contemplando a vastidão do espaço e a vastidão do tecido do qual ele é feito — o que é revelado por coisas como as ondas gravitacionais, por exemplo, somos confrontados com a verdade de que todos fazemos parte de algo bem mais maravilhoso do que nossas preocupações cotidianas como “o que vai ter no almoço”!


IHU On-Line - Em um de seus artigos , que republicamos no sítio do IHU em 2014, o senhor dizia que “a fé nos diz que Deus criou o universo, a ciência nos diz como ele fez isso”. É essa lógica que pode associar a fé ao trabalho científico? E de que forma pode se dar essa associação?

Guy Consolmagno - Todo cientista é um ser humano que opta por trabalhar com a ciência por muitas e variadas razões humanas, desde um senso de admiração até o desejo de ter um emprego com que possamos sustentar nossa família e fazer com que ela se orgulhe de nós e do que fazemos. Nossa fé, nossa crença no que vale a pena fazer e por que vale a pena fazê-lo, é um elemento forte que molda nossa opção por um tipo de trabalho e pela maneira como o fazemos.

Se uma pessoa se dedica ao trabalho científico apenas pela fama, glória, dinheiro ou poder, é mais provável que ela se sinta tentada a “pegar um atalho” e fazer uma ciência que, no longo prazo, poderia levar a abusos (construção de bombas ou guerra biológica) ou a resultados que pareçam impressionantes, mas são menos do que verdadeiros. (Além disso, não há muita fama ou muito dinheiro no trabalho científico!)■

 

Leia mais...

- Os astrônomos e a epifania. Magos ou pastores? Artigo de Guy Consolmagno publicado nas Notícias do Dia, de 07-01-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- ''Fé e ciência, juntas, oferecem um quadro mais completo da criação''. Artigo de Guy Consolmagno publicado nas Notícias do Dia, de 07-11-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Astrônomo pontifício: Ciência real não é o Reino dos ateus. Entrevista com Guy Consolmagno publicada nas Notícias do Dia, de 25-07-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- O Bóson de Higgs e as realidades estranhas e maravilhosas do Universo. Entrevista especial com Guy Consolmagno publicada na revista IHU On-Line, nº 405, de 22-10-2012.

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