Edição 473 | 28 Setembro 2015

As vidas dentro da vida

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Ricardo Machado

Pensar sobre a vida é perceber o mundo para além da relva verdejante que cobre o tempo. Pensar sobre a vida é desacelerar as pernas e sair do ritmo financeirista. Pensar sobre a vida é deitar sobre a grama e contemplar a existência em toda a sua complexidade. A vida na contemporaneidade torna-se, a cada dia, mais acelerada e é na vertigem da velocidade que os processos biopolíticos se dão e tomam de assalto nossa existência. Compreendê-los requer estabelecer uma outra relação com o tempo.

Em linhas gerais este foi o objetivo do XVII Simpósio Internacional IHU / V Colóquio Latino-Americano de Biopolítica | III Colóquio Internacional de Biopolítica e Educação, Saberes e Práticas na Constituição dos Sujeitos na Contemporaneidade. O evento, que ocorreu entre os dias 21 e 24 de setembro na Unisinos, em São Leopoldo, reuniu pesquisadores e pesquisadoras do Brasil e do mundo para debater questões sobre os modos de vida contemporâneos. O evento foi realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, PPG em Educação, PPG em Filosofia, PPG em Saúde Coletiva da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS e PPG em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul  UFRGS.

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Longe do cânone, perto da vida

"Se é verdade que o capitalismo e as formas biopolíticas tendem a uma espécie de isomorfismo, tudo o que podemos perceber é uma heterogeneidade de exploração que é difícil de descrever como estágio, mas podemos ensaiar como tendência”, problematiza o professor e pesquisador Sandro Chignola. Nesse sentido, ele considera que a filosofia deve (ou deveria) estar a serviço da vida, não do cânone, provocando os participantes do evento.

 

Realidade liberal

Uma das características da exacerbação do individualismo, do impulso à ideia do indivíduo foi a expansão do grau de liberdade de temos, avaliou Benilton Bezerra Junior em sua conferência. Vivemos uma sociedade da autonomia generalizada. Nunca fomos tão autorizados a agir em conformidade com nossos interesses, não nos ajoelhamos diante de mais nada. Tudo passa a ser matéria de escolha individual. “Não vivemos mais a cultura do assombro, já que tudo pode ser matéria de nossa escolha. Isso comporta um grande grau de ideologia, não no sentido mais simples, mas tomada como fantasia que constitui a realidade que conhecemos, com a obliteração daquilo que é oculto porque um sintoma do conflito que não pode vir à tona sem que a realidade se transforme”.

 

O novo status da educação

O caminho que transformou a educação de um bem público a um processo de troca mercadológica foi percorrido pela estrada do neoliberalismo, segundo define o pesquisador e professor da Nova Zelândia Michael Peters. “O corte de serviços públicos por políticas de austeridade do Estado é resultante do processo de financeirização, que reduz qualquer produto ou serviço a uma moeda intercambiável. Nesse esquema, o estudante passa a ser considerado um consumidor e o professor um trabalhador do conhecimento, e a partir daí se financeirizam as relações educacionais”, ressalta.

 

Educação e neoliberalismo

“O liberalismo, desde seus primórdios, prega três eixos de liberdade: deixar as pessoas fazerem (mínimo comando do Estado), deixar as coisas acontecerem (livre regulação do mercado) e deixar as coisas irem (demanda e oferta livres). Entretanto, essa liberdade funciona dentro de intensos esquemas normativos, ao que se chama de engenharia social, a qual foi intensificada pelas políticas liberais”, explica Alexandre Filordi, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, ao analisar a função-educador no contexto neoliberal.

 

Os tamancos de inventividade

O professor da Universidade de São Paulo – USP Julio Roberto Groppa Aquino construiu sua reflexão sobre educação e biopolítica a partir da citação de Michel Foucault em que diz: “Fabrico tamancos e encontro nisso um prazer quase erótico, porque fico contente quando alguém enfia o pé neles.” Ao analisar os desafios com relação à educação, o professor pondera. “A educação precisa, também, de um mergulho vertical no passado, pois a ausência de memória histórica é o horror dos mais velhos. Não se educa em tempos de guerra, é no armistício que se prolonga a experiência da educação. Todo o trabalho que merece esse nome será a ponte forjada entre as guerras que passaram e as faxinas que hão de vir”, frisa Julio. “Que calcemos nossos tamancos.”

 

Afetividade e inventividade

Silvia Grinberg, professora e pesquisadora argentina, considera que “Não se pode, simplesmente, deixar morrer. Temos o costume ‘errado’ de querer viver. Há um movimento permanente de pessoas buscando viver. Então descrever os processos e as dinâmicas que estão por trás disso é importante, porque ao falarmos de populações excluídas, esquecemos que eles nunca estão fora, mas permanentemente dentro”. Nesse sentido propõe a inventividade como alternativa. “Hoje se pensa sobre fragmentos, opera-se sobre fragmentos. O problema é que, quando um fragmento cai, o sistema se mantém de pé. É preciso atravessar o labirinto, não abandonar as lutas por modos de vivências inventivas que se encontram na urbe”, avalia.

 

Agamben e Esposito

Em sua apresentação, o professor e pesquisador chileno Edgardo Castro abordou o pensamento de Giorgio Agamben e Roberto Esppsito. Refletindo acerca da obra de Giorgio Agamben, o professor recuperou aspectos dos conceitos de vida nua e inoperosidade. Mencionou, ainda, a peculiaridade da compreensão agambeniana de bios e zoe. O conceito de impessoal é, também, importante no pensamento de Esposito, que põe em debate o que parece ser um dos conceitos indiscutíveis do debate contemporâneo: o valor universal da categoria de pessoa. 

 

Financeirização e saúde

Tentar compreender a maneira pela qual os processos de financeirização são incorporados pela medicalização da vida foi o esforço do professor e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz Luis David Castiel. “A ética da financeirização gerencialista vigente, que é utilitarista, isto é, dá ênfase às escolhas individuais na busca de benefícios, mesmo que ele venha para poucos. A questão que se coloca é: O que se faz com os que não foram beneficiados?”, indaga o professor.

 

Capitalismo biocognitivo

Segundo Andrea Fumagalli, pesquisador e professor italiano, as fronteiras entre a vida e a produção são manchas que se contaminam a todo o tempo e delimitar um e outro se torna cada vez mais difícil. “Temos uma série de dicotomias típicas do fordismo, ainda hoje, que resistem. Assim, são pensados o trabalho separado do lazer, o trabalho produtivo e o improdutivo. Pensamos estar fazendo algo livre e improdutivo quando estamos fazendo chat ou falando com amigos nas redes sociais. Mas estamos imersos num mecanismo de produção, que também produz valor de uso”, analisa.

 

Multiplicidade e diferença

“Cada um de nós tem que descobrir nossa verdade e dizer isso ao nosso diretor de consciência, dizer a verdade de si. Alguém que se constitui sujeito sempre fala essa verdade, assume a própria identidade. Mas falar a verdade também pode ser um ato de obediência. Esse detalhe foi identificado por Foucault nessa virada subjetiva de seu pensamento, que olha para o sujeito tanto como efeito do poder nos jogos políticos, quanto como governador de si”, assim sublinhou o professor Sílvio Donizetti de Oliveira Gallo, ao analisar os processos biopolíticos contemporâneos.

 

Vida livre

Marco Antonio Jiménez García, professor mexicano, propõe uma postura corajosa frente à biopolítica e à vida. “Trata-se de uma atitude com relação a si mesmo, aos outros e ao mundo. A coragem da verdade coloca em risco o próprio sujeito, mas abre a possibilidade de não ficar preso em si mesmo”, provoca o professor. “É preciso colocar em causa o que nos constitui como sujeitos. O governo de si e a liberdade são exercícios que figuram e desfiguram a vida. Trata-se de assumir a transformação de nós mesmos como possibilidades de vida. Temos que tomá-la como uma experiência estética e vivê-la existencialmente”, ressalta.

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