Edição 472 | 14 Setembro 2015

Após décadas de atraso, a guerra fria finalmente caminha para seu final no continente americano

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Gabriel Pessim Adam

“No nível da política regional, o fim da Guerra Fria garantiria o retorno da normalidade da Doutrina Monroe. Entretanto, no século XXI, Washington observa o recrudescimento de presenças um tanto indesejadas em sua zona de influência cativa. O avanço da China na América Latina — aumentando a interdependência dos países do continente para com a potência asiática — é fator de grande preocupação do Departamento de Estado”, analisa Gabriel Pessim Adam em artigo à IHU On-Line.

Gabriel Pessim Adam é graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica - PUCRS com mestrado e doutorado em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Atua como docente na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos nos cursos de Relações Internacionais e Direito (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.).

Eis o artigo.

Um dos movimentos mais surpreendentes dos últimos anos no Continente Americano é a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, iniciada em dezembro de 2014 e que avançou até a retomada oficial das relações diplomáticas, ocorrida em julho de 2015. A surpresa foi maior porque a intenção do reatamento partiu de Washington, precisamente do Presidente Barack Obama . Um ato desta magnitude não acontece sem gerar questionamentos acerca de seus interesses reais, declarados ou não. Cumpre, então, analisar as principais motivações dos atos voltados para Cuba pelo Governo Obama, que se encaminha para o seu final.

A compreensão das relações entre EUA e Cuba exige que se retomem alguns fatos históricos. A independência cubana foi obtida junto à Espanha, com auxílio estadunidense em conflito que durou de 1898 a 1902. Todavia, a sonhada autonomia dos cubanos foi seriamente vilipendiada pela Emenda Platt, tratado imposto por Washington a Havana cujo efeito foi manter Cuba como um protetorado forçado dos EUA, o que gerou o enriquecimento de uma elite entreguista cubana e desenvolveu um sentimento de posse por parte dos estadunidenses em relação à ilha localizada ao sul da Flórida. A Revolução de 1959 rompeu o domínio estadunidense. A superpotência não aceitou o fato, e de pronto dirigiu hostilidades ao Governo de Fidel Castro que culminaram na frustrada tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A crise dos mísseis no ano seguinte colocou o mundo em estado de tensão e trouxe a Guerra Fria definitivamente ao Continente Americano. O apoio soviético a Cuba representou uma intromissão na hegemonia continental dos EUA, iniciada com a Doutrina Monroe em 1823, e ampliada com o Corolário Roosevelt, do início do século XX. A resposta estadunidense foi a adoção do pesado embargo econômico ainda em vigor, bem como a expulsão de Cuba da OEA.

No nível da política regional, o fim da Guerra Fria garantiria o retorno da normalidade da Doutrina Monroe. Entretanto, no século XXI, Washington observa o recrudescimento de presenças um tanto indesejadas em sua zona de influência cativa. A primeira delas advinda da própria América Latina. Após reatar as relações com Cuba durante o Governo Sarney, desde o Governo Lula o Brasil ensaia uma atuação mais assertiva na América Central. O ponto máximo desta estratégia é a construção do porto de Mariel na costa cubana. O embargo estadunidense à ilha caribenha abre brecha a um país estrangeiro se associar a um entreposto que está localizado a poucas centenas de quilômetros da costa estadunidense e serve de janela para o Caribe; uma fonte inegável de ganhos econômicos e políticos. O Brasil parece ter percebido a oportunidade e age para não perdê-la. De semelhante modo, Argentina, Venezuela e Rússia procuram estreitar suas relações com Cuba nos últimos anos.

Mas nenhum destes países constitui a principal fonte de preocupação dos Estados Unidos. A China, potência asiática ascendente, cujo apetite pelas Américas parece insaciável, assume tal papel. A construção do canal da Nicarágua, obra monumental que rivalizará diretamente com o histórico Canal do Panamá, cuja conclusão está prevista para 2020, é a demonstração de que Pequim não parece disposta a respeitar a Doutrina Monroe como os países europeus e o Japão antes o fizeram, e reúne condições para abalar o domínio outrora inabalável da superpotência estadunidense nas Américas. Outros complicadores à posição estadunidense são o grande volume de capital chinês para investimentos diretos em infraestrutura e empréstimos e a dificuldade de se vilificar os chineses perante as Américas, manobra possível em relação aos soviéticos na Guerra Fria. Portanto, a China, e em menor escala, outros países, representam riscos diretos à hegemonia continental dos EUA, fato que o Governo Obama dá indício de não apenas conhecer, mas de levar a sério.

Internamente, o Governo Obama enfrenta dificuldades que podem refletir nas eleições presidenciais de 2016. Historicamente, o embargo a Cuba era sustentado pelos cubanos anticastristas residentes na Flórida, importante estado para a corrida presidencial no intricado sistema político estadunidense. A derrota dos Democratas na eleição parlamentar de 2014 levou o Governo Obama a lançar uma série de medidas voltadas à população hispânica do país, parcela com peso político crescente e que tendencialmente vota em candidatos do Partido Democrata. A aproximação de Cuba é o movimento mais significativo do Presidente dos Estados Unidos neste sentido. E ao fazê-lo, diga-se, Barack Obama está em sintonia com a maioria de 73% da população de seu país que aprovavam a retomada dos laços diplomáticos em julho de 2015. (PEW RESEARCHER, 2015) . Ainda no tocante às causas internas dos gestos do Presidente Obama, não se deve descartar a preocupação que acomete os homens públicos em fim de mandato presidencial, período no qual pensam em como seus anos de governo serão lembrados no futuro. Os créditos pelo fim da animosidade entre Cuba e EUA por certo dignificam a biografia de um Presidente que não cumpriu as expectativas geradas com a sua eleição. Por fim, nunca se podem descartar as oportunidades de negócios a partir da abertura econômica cubana. Os conglomerados econômicos estadunidenses almejam ingressar na ilha, e para tanto, acompanham de perto as mudanças políticas que se avizinham após a saída dos irmãos Castro do poder. A forma como se dará tal transição interessa a Washington, pois habilita a retomada da ascendência econômica e política sobre Cuba.

Como se observa, as intenções do Governo Obama não representam apenas um tomar de consciência por parte da superpotência. Há interesses claros que coadunam com a visão hegemônica tradicional dos Estados Unidos. Portanto, mesmo que a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos tenha de ser saudada, há que se observar atentamente os próximos desdobramentos, sobretudo aqueles relacionados a temas ainda sensíveis, como Guantánamo, os exilados cubanos e, sobretudo, o injustificável embargo econômico. ■

 

Expediente

Coordenadora do curso: professora mestre Gabriela Mezzanotti

Editor da coluna: professor doutor Bruno Lima Rocha

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