Edição 470 | 17 Agosto 2015

As ideias e conceitos de um papa para a Ásia

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João Vitor Santos | Tradução Gabriel Ferreira

Sob a perspectiva oriental, Peter Phan destaca que a vivência de Francisco em ideias de pastoralidade, inculturação e diálogo inter-religioso fazem do argentino um pontífice aberto à Ásia

Para entender o pontificado de Francisco é necessário o exercício de recorrer à história de Mario Bergoglio na América Latina. No entanto, também é preciso estabelecer relação com suas ações presentes. Entre elas, a postura assumida no texto da Encíclica Laudato Si’. É, também, a partir dessas conexões que se dá a possibilidade de compreender porque este Papa é capaz de entender situações tão particulares como a da Igreja na Ásia e, ainda, como o continente o recebe. É com esse movimento metodológico e olhar pragmático que o doutor em Teologia Peter C. Phan analisa o atual pontificado. Para ele, vive-se um momento novo, de outra natureza na Igreja Católica.

Vietnamita, o professor tem uma fala de quem viveu a realidade asiática, passando por outros pontificados. Assim, entende que é a história de Francisco que o faz sensível para entender o oriente. “Há muitas similaridades entre a América Latina e a Ásia. Ambos os continentes pertencem ao assim chamado ‘Terceiro Mundo’, caracterizado por grandes populações e pobreza massiva.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Phan recorda os primeiros momentos de Bergoglio feito Papa para demonstrar como lhe é fundamental a atitude colegial e dialógica, como pastor. Postura que destitui a imagem fria e distante do sumo pontífice. “Nós ainda podemos vê-lo apresentando-se a si mesmo simplesmente como o Bispo de Roma. E, ainda, pedindo às pessoas que rezassem a Deus para o abençoar antes que ele as abençoasse”, recorda.

Peter C. Phan nasceu no Vietnã e emigrou como refugiado para os Estados Unidos em 1975. É doutor pela Sagrada Teologia pela Pontifícia Universidade Salesiana, de Roma, Doutor em Filosofia e Doutor em Teologia pela Universidade de Londres. Hoje, atua na Universidade de Georgetown, em Washington. Em 2010 foi homenageado com o prêmio John Murray Courtney, a mais alta honraria concedida pela Sociedade Teológica Católica da América, por seu “extraordinário e distinto êxito em Teologia”. 

É autor de inúmeros livros e artigos dos quais destacamos Grace and the Human Condition (New York: Michael Glazier, 1993), Culture and Eschatology: The Iconographical Vision of Paul Evdokimov (Culture and Eschatology, 2011); Dragon and the Eagle: Toward a Vietnamese American Theology (California: ISAAC, 2009). Em dois números do Cadernos de Teologia Pública foram  seus artigos Diálogo Inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II (Cadernos Teologia Pública, número 86, 2014) e O cristianismo mundial e a missão cristã são compatíveis? Insights ou percepções das igrejas asiáticas (Cadernos Teologia Pública, número 38).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Passados mais de dois anos de pontificado, quais são as marcas mais significativas deixadas na Igreja pelo Papa Francisco?

Peter Phan - É providencial que esta entrevista aconteça logo após a promulgação da encíclica Laudato Si’: Sobre o cuidado da casa comum . Do ponto de vista das violentas críticas — por aqueles que pensam que a crise ecológica foi inventada por liberais anticapitalistas e inimigos do ramo petrolífero, especialmente nos Estados Unidos, e daqueles que temem que a Encíclica do Papa poderia ameaçar seus interesses políticos e econômicos —, é claro que a Encíclica de Francisco irá provocar vívidas discussões ao redor do mundo. Afinal, abre-se com a tocante citação do Cântico das criaturas , também conhecido como Cântico do sol, de seu homônimo, e que sensivelmente chama a Terra de “nossa casa comum”.

É ainda muito cedo, é claro, para avaliar tal impacto, nem este é o lugar para resumir e avaliar seu conteúdo. No entanto, seria um sério engano responder à questão acerca das marcas mais significativas deixadas na Igreja pelo pontificado de Francisco focando apenas nessa segunda encíclica ou em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium . Esta pode, certamente, ser vista como a magna carta de seu pontificado. Não pretendo de modo algum minimizar a importância dos ensinamentos doutrinais do Papa Francisco, e voltarei a eles depois, se possível. Mas há claramente um novo modo pelo qual Francisco tem exercido seu magistério papal. Este novo modo não é primariamente através de incontáveis documentos, frequentemente cheios de jargão teológico e redigidos em uma quase impenetrável prosa latina, os quais muito poucos católicos, incluindo bispos e teólogos, leem de cabo a rabo — estou pensando nas estantes de encíclicas e outros documentos oficiais de João Paulo II  que permanecem um mundo fechado para 99,9% da população católica.

Em nosso tempo, há ainda, é claro, a necessidade da função magisterial da Igreja. No entanto, ela deve ser levada a cabo por outros meios mais efetivos, para além da palavra escrita. Esse é um dos modos pelos quais Papa Francisco tem transformado radicalmente a Igreja.

 

IHU On-Line - De que modo, então, o Papa Francisco tem impactado a Igreja até agora?

Peter Phan - Uma das coisas mais significativas que Francisco fez, literalmente dentro de poucas horas desde sua eleição à Sé de Roma, é dar-nos uma imagem radicalmente nova do que o papado deve ser. Isso através de gestos dramáticos. Nós ainda podemos vê-lo, quando foi apresentado com o habemus papam à multidão na praça de São Pedro , apresentando-se a si mesmo simplesmente como o Bispo de Roma. E, ainda, pedindo às pessoas que rezassem a Deus para o abençoar antes que ele as abençoasse, inclinando sua cabeça em uma profunda oração. O mundo inteiro ficou aturdido por aquele silêncio ensurdecedor.

Claramente havia um novo pastor na cidade, um que possui o cheiro de suas ovelhas, e não o Sumo Pontífice — o Pontifex Maximus —, um título para o sumo sacerdote do Colégio dos Pontífices na Roma antiga e posteriormente arrogado pelos imperadores romanos e papas. Francisco assina seus documentos com um simples “Franciscus”, sem adorná-lo com PP , como seus predecessores estavam acostumados a fazer. Ele não usa vestes papais . Ao invés disso, suas vestes litúrgicas são exatamente como — e ainda mais simples do que — aquelas de qualquer outro bispo. Nenhuma declaração magisterial ou colegialidade episcopal pode ser mais visualmente poderosa do que as vestes do Papa Francisco.

Há ainda sua decisão em viver na Casa Santa Marta  ao invés de morar no Palácio Apostólico . Na Casa, celebra sua missa diária e reza para pessoas comuns, faz suas refeições ao estilo de um refeitório comum com pessoas comuns. Não há refeição privada com o Papa como um sinal de honra reservado às elites. Papas têm piedosamente afirmado ser Servus servorum , mas apenas agora nós vemos o que o título implica de prático em seu estilo de vida pessoal. Com esses humildes gestos, bem como centena de outros, tais como abraçar um homem desfigurado, lavar e beijar os pés de jovens prisioneiros, incluindo uma menina islâmica na Quinta-Feira Santa, comer à mesma mesa que os trabalhadores manuais do Vaticano, rejeitar as férias de verão em Castel Gandolfo , Francisco tem transformado o papado para melhor. Nenhum papa futuro poderá retomar o estilo de vida real sem sentir dores na consciência sobre como o Vigário de Cristo crucificado deve viver.

 

IHU On-Line – Algumas atitudes, essas mais corriqueiras, que fazem de Francisco um papa menos formal, são gestos que futuros papas não irão necessariamente repetir. Há outras coisas na vida do Papa Francisco até agora que implique um ensinamento doutrinal permanente?

Peter Phan – Para responder a sua questão eu devo discutir em detalhes alguns dos ensinamentos do Papa Francisco contidos em seus escritos Evangelli Gaudium e Laudato Si’. Com especial referência ao cristianismo asiático, uma vez que o foco da nossa conversa está sobre as formas pelas quais o Papa Francisco pode falar significativamente aos católicos na Ásia.

Antes de fazê-lo, gostaria de apontar outro gesto do Papa Francisco que terá um impacto permanente na vida espiritual da Igreja. Os Papas Paulo VI , João Paulo II e Bento XVI  escreveram grandes e profundos volumes sobre a penitência e a necessidade da prática do sacramento da Reconciliação, popularmente conhecido como Confissão. Mas nós nunca vimos eles se confessarem. A impressão é reforçada pelo fato de que eles são “Santos Padres” — como são chamados — e não precisam ir à confissão como o resto de nós, pecadores. Estou certo de que todos esses têm ou tiveram confessores pessoais aos quais eles regularmente confessavam seus pecados. Mas é precisamente esse o ponto. Esses são confessores particulares e a confissão é feita privadamente. Quantos católicos podem ter confessores individuais, como personal trainers, aos quais eles confessam em privado, quando querem?

E então, aparece o Papa Francisco na basílica de São Pedro na Quarta-Feira de Cinzas. Ele deveria ouvir confissões, mas quando o mestre de cerimônias o conduziu ao confessionário, o Papa indicou ao monsenhor totalmente atordoado que ele — o Papa — queria se confessar. E não a um confessor particular em privado. Francisco simplesmente caminhou a um dos confessionários, ajoelhou-se, fez o sinal da cruz, e fez sua confissão. Imagine o choque do pobre padre sentado naquele confessionário! De modo muito mais poderoso do que encíclicas e dissertações sobre o sacramento da Penitência, a confissão pública do Papa Francisco trouxe de volta a necessidade da confissão.

Gostaria de apontar também que a forma de ensinar do Papa Francisco está bastante em sintonia com o modo de ensino dos mestres espirituais asiáticos. Confúcio , o mestre da sabedoria chinesa par excellence, era relutante, como Jesus, em aceitar o título de “mestre”. E não arrogava o ensino como uma profissão. O guru hindu pode apenas ensinar seu discípulo através da virtude de sua própria iluminação. Em ambos os casos, o ensino é mais efetivamente realizado através de exemplo pessoal do que por doutrinação intelectual.

 

IHU On-Line – Ainda sobre Laudato Si’, há algo nela que seja especificamente relevante para a Ásia e para o cristianismo asiático?

Peter Phan – Se me permite uma hipérbole, tudo em Laudato Si’ é relevante para a Ásia. A Encíclica se refere à poluição ambiental, mudança climática, contaminação da água e do solo e perda da biodiversidade. Se você pensa que essa destruição ecológica é apenas um ciclo natural, e não uma produção humana, ande por Pequim, Manila, Bangkok e Ho Chi Minh, para mencionar apenas algumas poucas cidades asiáticas, e encha seus pulmões com ar e mate sua sede com água não filtrada. Claro, se você é um turista de um país rico, você pode se hospedar em um hotel cinco estrelas com ar-condicionado e beber água Perrier ou algo mais nutritivo.

E as pessoas pobres dessas cidades e países? Eis aqui o que o Papa Francisco diz sobre elas: “provavelmente os impactos mais sérios [da mudança climática] recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de proteção” (LS 25). Qualquer asiático (e qualquer africano ou latino-americano) será profundamente grato ao Papa Francisco por sua preocupação com seu bem-estar.

Entretanto, se eu tiver de escolher partes da Encíclica que sejam as mais relevantes para a Ásia, eu selecionaria o capítulo 4 (Ecologia Integral) e o capítulo 6 (Educação ecológica e espiritualidade). No capítulo 4, o Papa insiste que a ecologia não é apenas um assunto ambiental, econômico e social, mas também um assunto cultural. Dadas as ricas culturas da Ásia, os asiáticos entusiasticamente aplaudem o papa quando diz que “o desaparecimento de uma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal. A imposição de um estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas” (LS 145).

O capítulo 6 ressalta a necessidade de rejeitar os “mitos” de uma “modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras)” e de viver “uma ética da ecologia” que valorize a “solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (LS 210). Essa “ética ecológica” ressoa profundamente no ideal asiático de harmonia universal, que tem sido um constante ensinamento das religiões asiáticas e da Federação das Conferências dos Bispos Asiáticos - FCBA.

A Encíclica e a Exortação

Perpassando toda a Encíclica do Papa Francisco sobre o “cuidado com a nossa casa comum” está sua profunda preocupação com os impactos da destruição ecológica sobre os pobres. Essa preocupação pelos pobres é o mote da Evangelii Gaudium. Eclesiologicamente, está incorporada na visão que Francisco tem da Igreja como “uma Igreja pobre para os pobres” e como um “hospital de campanha”. A Igreja, insiste repetidamente o Papa, não deve existir para si mesma, mas deve “ir adiante” — para a periferia do mundo, “acima de tudo aos pobres e doentes, àqueles que são desprezados e ignorados” (EG 46). O papa continua, e diz: “eu prefiro uma Igreja ferida, machucada e suja porque esteve nas ruas, do que uma Igreja que não é saudável por estar confinada e presa à sua própria segurança [...] Mais do que meu receio de extraviar-se, minha esperança é que nós sejamos movidos pelo medo de permanecer calados dentro de estruturas que nos dão uma falsa ideia de segurança, dentro das regras que fazem de nós duros juízes, dentro dos hábitos que nos fazem sentir a salvo, enquanto à nossa porta as pessoas estão famintas e Jesus não cansa de nos dizer ‘Deem vós mesmos de comer’ (Mc 6, 37)” (EG 49).

Eu não me lembro de nenhum papa, na memória recente, que tenha dito algo como isso, tão direta e simplesmente, de maneira tão apaixonada e eloquente. Como asiático, eu acho gratificante — e humilde — que as ideias e sentimentos do Papa Francisco têm sido expressos repetidamente pela FCBA e pelos teólogos asiáticos nos últimos 50 anos. Em vista disso, eu gostaria de transformar a questão “Francisco, um Papa para a Ásia?” em uma sonora afirmação: “Francisco, um Papa para a Ásia!” 

 

IHU On-Line – Qual o impacto do Papa Francisco sobre o catolicismo asiático? Quais os desafios a serem enfrentados por um latino-americano, mais precisamente, por um papa argentino, para se conectar intelectual, pastoral e espiritualmente com os povos da Ásia, um continente tão diferente?

Peter Phan – Há muitas similaridades entre a América Latina e a Ásia, a despeito da distância geográfica e de suas diferenças culturais. Ambos os continentes pertencem ao assim chamado “Terceiro Mundo”, caracterizado por grandes populações e pobreza massiva. Politicamente, muitos países dos dois continentes têm sofrido por conta do colonialismo, de conflitos armados e de guerras próximas, especialmente durante a Guerra Fria , além de ditaduras militares. Religiosamente, a Igreja Católica na Ásia e na América Latina deve suas origens às mesmas missões ibéricas (portuguesas e espanholas), sendo muitas delas lideradas por jesuítas, e compartilham de um grande número de devoções populares.

Assim, como um argentino que exerceu seu ministério pastoral como padre e bispo durante a Guerra Fria, assim como durante o brutal comando da ditadura militar de direita, Papa Francisco pode simpatizar pessoalmente com católicos em países como as Filipinas, Vietnã, Timor Leste, Índia e Coreias (do Norte e do Sul). Todos esses lugares têm sido explorados pelo colonialismo e têm sido vitimados por governos ditatoriais.

Igualmente mergulhado no catolicismo ibérico, o Papa pode prontamente sintonizar-se com as devoções à Maria e aos santos, assim como com muitas práticas de piedade popular que são muito difundidas no catolicismo asiático. Por exemplo, católicos asiáticos podem facilmente entender e prontamente concordar com as tocantes palavras de Francisco sobre a piedade popular em Evangelli Gaudium: “Para compreender esta necessidade, é preciso abordá-la com o olhar do Bom Pastor, que não procura julgar, mas amar. Só a partir da conaturalidade afetiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres. Penso na fé firme das mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado” (EG 125). Sim, há inúmeros rosários, velas e estátuas do Cristo sofredor em muitas das casas asiáticas católicas. 

 

IHU On-Line - E o que dizer acerca da diversidade de religiões, que é bastante difundida na Ásia, mas praticamente ausente na América Latina, onde o Cristianismo predomina? Alguém como Bergoglio, que cresceu em um país cristão como a Argentina, pode entrar em diálogo com pessoas que professam outras fés?

Peter Phan – É verdade que o Papa Francisco cresceu em um ambiente quase que exclusivamente cristão — e mais precisamente, católico —, assim como o Papa João Paulo II. Mas assim como seu predecessor, como arcebispo de Buenos Aires, Francisco havia formado uma profunda amizade com os judeus, tal como o Rabino Abraham Skorka , com quem ele divide a autoria de Sobre el cielo y la tierra . Ainda que experiência em diálogo inter-religioso ajude, ainda mais necessária é a atitude requerida para tanto, que Bergoglio descreve de maneira esplêndida: “O diálogo nasce de uma atitude respeitosa para com as outras pessoas, de uma convicção de que a outra pessoa tem algo de bom a dizer. Ele pressupõe que nós possamos abrir espaço em nosso coração para o ponto de vista do outro, sua opinião e suas propostas. O diálogo engendra uma calorosa recepção, e não uma condenação preventiva. Para dialogar, deve-se saber como abaixar a guarda, abrir as portas da casa e oferecer acolhida” .

As viagens à Ásia

Até agora, o Papa Francisco viajou duas vezes para a Ásia. A primeira foi para a Coreia, de 13 a 18 de agosto de 2014, por ocasião do 6º Dia da Juventude Asiática. Durante sua passagem pelo país, beatificou 124 mártires coreanos. A segunda viagem foi ao Sri Lanka (de 12 a 15 de janeiro de 2015) e então às Filipinas (15 a 19 de janeiro de 2015) . Com respeito ao diálogo inter-religioso, o país de maior interesse é o Sri Lanka, onde de acordo com o censo de 2011, 70,19% dos 21 milhões de habitantes são budistas Theravada ; 12,6% hindus Shaivitas ; 9,7% islâmicos (principalmente sunitas); e 7,4% cristãos (6,1% católicos romanos e 1,3% de outras denominações). Mas o diálogo inter-religioso não é menos urgente nos outros dois países com o Cristianismo como suas religiões majoritárias. Na República da Coreia (Coreia do Sul), 30% da população de 52 milhões são cristãos (20% protestantes, 10% católicos), 23% são budistas e 46% não professam nenhuma fé. Nas Filipinas, aproximadamente 90% da população de 100 milhões é de cristãos, e o diálogo com os islâmicos é um tema emergente, uma vez que uma porção considerável de sua população (11%) segue o islamismo sunita.

No Sri Lanka, por conta do convite de improviso feito por Banagala Upatissa , o principal monge do templo budista Agrashravaka, em Colombo, o Papa Francisco mudou sua agenda para fazer uma visita ao templo. Foi o segundo papa, sendo precedido por João Paulo II, a visitar um templo budista. A visita coincidiu com o ritual sagrado de abertura do caixão que contém as relíquias de dois discípulos de Buda . O Papa ouviu respeitosamente os monges entoando suas orações cantadas durante a cerimônia. Federico Lombardi , o porta-voz do Vaticano, fez questão de ressaltar que o Papa não rezou ou meditou durante a visita, em um esforço aparente para mostrar que não havia nenhum sincretismo religioso envolvido. Durante sua visita, Francisco canonizou o missionário indiano do século XVII no Sri Lanka, Joseph Vaz , e aproveitou a oportunidade para exortar aos católicos do Sri Lanka que seguissem o exemplo de Vaz em “transcender as divisões religiosas a serviço da paz” e conclamar todos os habitantes à prática da tolerância religiosa.

 

IHU On-Line - Sobre a declaração de Federico Lombardi, acerca de o Papa não ter rezado ou meditado durante sua visita ao templo budista. Na sua opinião, o Papa poderia ter orado ou meditado? Não seria uma coisa natural a oração comum entre praticantes de diferentes religiões na Ásia?

Peter Phan – É uma questão difícil e controversa. Em outubro de 1984, o Papa João Paulo II reuniu um grupo de líderes de diferentes religiões em Assis, Itália, para rezarem pela paz mundial. O Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé , expressou sua forte oposição a tal plano por temer que o espetáculo de líderes de diferentes religiões rezando juntos daria margem a um escândalo de “sincretismo religioso”. Para evitar esse perigo, uma clara distinção foi feita entre “estar junto para rezar” e “reunir-se para rezar junto”, sendo apenas a primeira alternativa permitida. De fato, em Assis, os líderes religiosos não rezaram juntos uma oração comum, mas reuniram-se em um mesmo lugar para rezar, cada um dentro de sua própria tradição religiosa.

Estritamente falando, a oração comum entre judeus e cristãos é possível, uma vez que os cristãos fazem uso do saltério hebraico em sua liturgia, bem como na oração privada e, de fato, o cristão deve rezar como Jesus, o judeu, o fez. Acerca do Islã, o Papa João Paulo II afirmou que cristãos e islâmicos adoram o mesmo Deus e, portanto, é possível, a princípio, para cristãos e islâmicos rezarem juntos. Além disso, em 1964, durante sua visita à Índia, o Papa Paulo VI citou a célebre oração hindu: “Conduza-me do irreal ao real, das trevas conduza-me à luz, da morte conduza-me à imortalidade”, e disse: “Essa é uma oração que pertence também a nosso tempo. Hoje, mais do que nunca, ele deve erigir-se em todo coração humano”. Pareceria, assim, que não é teologicamente impossível para os seguidores de religiões monoteístas rezarem juntos a Deus, não obstante suas diferentes concepções de divindade.

Por outro lado, a oração comum entre budistas e cristãos apresentaria sérias dificuldades, uma vez que o budismo, como uma filosofia, é não-teísta (note-se: não “ateísta”, no sentido de negar explicitamente a existência de Deus). Além disso, no budismo Theravada, Siddhartha Gautama  não é visto como divino, como o é Jesus no Cristianismo, mas como um iluminado (buddha), um sábio e um mestre compassivo que não deve ser adorado. Talvez seja essa a razão pela qual o Papa Francisco não rezou ou meditou com os monges no templo Agrashravaka. No entanto, no budismo Mahayana (popular), embora Buda não seja encarado como divino, as pessoas rezam a ele, como aos santos no Catolicismo, pedindo por suas bênçãos e sua assistência. Não há, é claro, nenhuma objeção teológica para que qualquer um, incluindo os cristãos, reze a Buda pedindo por suas bênçãos, uma vez que ele é uma pessoa virtuosa.

 

IHU On-Line - Houve alguma ocasião na qual Papa Francisco rezou com crentes não cristãos?

Peter Phan – Durante sua visita à Turquia, de 28 a 30 de novembro de 2014, Francisco visitou a Mesquita Azul, em Istambul. Ele tirou seus sapatos antes de entrar na mesquita. Em um gesto de harmonia inter-religiosa, estando ao lado do grande Mufti Rahmi Yaran e voltado à Meca, Francisco inclinou a cabeça e rezou em silêncio por vários minutos, naquilo que o porta-voz vaticano descreveu como um “momento de silenciosa adoração” conjunta a Deus.

Outro exemplo significativo da oração inter-religiosa do Papa Francisco é sua oração ao final da Laudato Si’. Na conclusão daquilo que ele chama sua “extensa reflexão” sobre a ecologia, o Papa propõe que nós ofereçamos duas orações: “uma que podemos partilhar todos quantos acreditam num Deus Criador Onipotente, e outra pedindo que nós, cristãos, saibamos assumir os compromissos para com a criação que o Evangelho de Jesus nos propõe” (LS 246). Esta é, até onde sei, a primeira vez que um documento papal compõe explicitamente uma oração inter-religiosa lado a lado com uma oração cristã. Seria fascinante comparar as duas orações e destacar suas similaridades e diferenças. 

Papa Francisco espera que sua oração inter-religiosa seja compartilhada por todos que professam a fé em um Deus criador, não apenas, como mencionei antes, judeus, islâmicos e hindus, mas também pessoas das assim chamadas religiões primais. No entanto, ela também pode ser compartilhada, sugiro eu, por budistas que, embora filosoficamente não professem a crença em (mas não necessariamente neguem) um Deus criador, possam substituir o nome de Deus por aquele de Buda, e rezar por auxílio em nossa tarefa de cuidar da nossa casa comum.

 

IHU On-Line – Papa Francisco também visitou a Coreia e as Filipinas. Como avalia essas viagens e qual a mensagem aos cristãos asiáticos?

Peter Phan – A Coreia do Sul é um dos três países asiáticos onde o cristianismo é a religião majoritária (sendo os outros as Filipinas e o Timor Leste) e o único país na Ásia onde o catolicismo foi introduzido não por missionários ordenados estrangeiros, mas por católicos coreanos leigos. É também uma das potências econômicas mundiais. O mercado econômico da Coreia é o 13º no mundo e é uma das grandes economias do G-20. Politicamente, é o único país do mundo que ainda é dividido, por conta de uma ideologia política, em Norte e Sul.

Papa Francisco adequou sua mensagem a essa divisão da Coreia ao exortar que a Igreja Católica coreana trabalhe para a paz e pela reconciliação nacional. Para a juventude coreana, que é tentada pela riqueza material e pelo hedonismo, ele lançou o desafio de adorarem a Deus “pelo serviço aos pobres, aos solitários, aos enfermos e aos marginalizados”.

 

IHU On-Line - Há atualmente alguma forma especial de opressão e marginalização na Ásia às quais as palavras e apelos do Papa Francisco se dirijam?

Peter Phan – Entre os pobres e marginalizados, Papa Francisco tem dirigido sua atenção à tragédia dos imigrantes e dos refugiados, assim como às centenas de milhares de imigrantes aterrorizados e empobrecidos que arriscaram suas vidas para chegar aos portos europeus; especialmente da Itália, vindos da África mediterrânea. Nas últimas décadas, a Ásia também tem experimentado um grande fenômeno de migração, frequentemente sob a forma de vítimas de guerras e trabalhadores braçais, sobretudo em direção aos países mais ricos, como Japão, Coreia, Hong Kong e Singapura, assim como ao Oriente Médio.

Esses imigrantes sofrem abusos físicos, tráfico sexual, discriminação trabalhista e traumas emocionais. Devido ao fato de que seus sofrimentos são menos expostos, suas vozes não são ouvidas, seus rostos não são vistos. Mas as palavras e apelos do Papa Francisco, em nome dos imigrantes e refugiados, têm dado esperança aos imigrantes asiáticos e, assim espero, irão atrair a atenção dos poderes internacionais em favor deles.

 

IHU On-Line - Para além do diálogo inter-religioso e do trabalho pela justiça, paz e reconciliação, o que o senhor destaca da fala do Papa Francisco sobre as culturas asiáticas e a necessidade da inculturação do Evangelho na Ásia?

Peter Phan – A Federação das Conferências dos Bispos Asiáticos tem assumido três tarefas principais da missão evangelizadora da Igreja na Ásia: libertação, diálogo inter-religioso e inculturação na forma do diálogo. Papa Francisco tem coisas profundas a dizer também sobre a terceira tarefa. Falando aos representantes da FCBA reunidos no Santuário dos Mártires em Haemi, na diocese de Daejeon, em 18 de agosto de 2014, ele disse: “sobre este vasto continente, que é a morada de grande variedade de culturas, a Igreja é chamada a ser versátil e criativa em seu testemunho do Evangelho, através do diálogo e da abertura para com todos. De fato, o diálogo é uma parte essencial da missão da Igreja na Ásia (cf. Ecclesia in Asia, 29). 

No entanto, ao tomar o caminho do diálogo com indivíduos e culturas, qual deve ser nosso ponto de partida e o ponto fundamental de referência que nos guia a nosso destino? Certamente é nossa própria identidade, nossa identidade como cristãos. Nós não podemos travar um diálogo real, a menos que estejamos conscientes de nossa própria identidade. Tampouco pode haver diálogo autêntico, a menos que sejamos capazes de abrir nossas mentes e corações, em uma receptividade sincera e empática, àqueles com os quais falamos. Um sentido claro de identidade e uma capacidade para empatia são então o ponto de partida de todo diálogo. Se nós queremos falar livre, aberta e frutiferamente com os outros, devemos ser claros acerca de quem somos, do que Deus tem feito por nós e o que é que Ele nos pede. E se nossa comunicação não pretende ser um monólogo, deve haver abertura de coração e mente para aceitar indivíduos e culturas.■

 

Leia mais...

- “Ser religioso é ser inter-religioso”. Entrevista com Peter Phan, publicada na IHU On-Line, edição 403, de 24-09-2012;

- Salvação Universal, Identidade Cristã, Missão da Igreja. Artigo de Peter Phan, publicado pela revista italiana Adista e reproduzido em Notícias do Dia, de 15-10-2009, no sítio do IHU;

- Diálogo Inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II. Artigo de Peter Phan, publicado em Cadernos Teologia Pública, número 86, de 2014;

- O cristianismo mundial e a missão cristã são compatíveis? Insights ou percepções das igrejas asiáticas. Artigo de Peter Phan, publicado em Cadernos Teologia Pública, número 38.

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