Edição 470 | 17 Agosto 2015

Os massacres de Paris de 7-9 de janeiro de 2015

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Yves Charles Zarka | Tradução Vanise Dresch

“A barbárie jamais é espontânea, tampouco natural, ela não é o ato de ‘loucos solitários’, ela resulta de um doutrinamento das mentes que é ainda mais eficaz porque se enraíza numa forma de religião secularizada. O mesmo doutrinamento, empregando os recursos e as tecnologias mais sofisticadas através das redes sociais, é capaz de explicar a promoção do sacrifício de si mesmo em prol da erradicação daqueles que supostamente carregam o mal, e a transfiguração do bárbaro em mártir”, a opinião é de Yvez Charles Zarka em artigo enviado à IHU On-Line.

Yves Charles Zarka é filósofo, professor da Sorbonne, Universidade Paris Descartes, e dirige o Centro de Filosofia, Epistemologia e Política (PHILéPOL) desta universidade. É fundador e diretor da revista Cités (Presses universitaires de France), da qual o número 52 versa sobre o tema La laïcité en péril? Seus trabalhos tratam de filosofia política considerada tanto do ponto de vista de sua história quanto do ponto de vista dos problemas contemporâneos. Sobre a laicidade publicou Faut-il réviser la loi de 1905? (Paris: PUF, 2005). Também publicou Démocratie, état critique (Paris: Armand Colin, 2012), Refaire l’Europe (Paris: PUF, 2012), Liberté et nécessité chez Hobbes et ses contemporains (Paris: Vrin, 2012), Réflexions sur la tragédie de notre temps (Paris: Vrin, 2013) e Philosophie et politique à l'âge classique (Editions Hermann, 2015).

 

Eis o artigo. 

Nova Iorque 2001, Paris 2015. A relação entre esses dois lugares e essas duas datas foi logo assinalada, não por causa do número de vítimas, mas pela dimensão do significado e o traumatismo provocado pelos massacres de Paris. Essa ligação não é artificial, mas os acontecimentos não poderiam ser entendidos em termos de repetição em escalas diferentes. O que aconteceu em Paris entre os dias 7 e 9 de janeiro deste ano não representa a mesma coisa que os atentados de 11 de setembro contra as torres do World Trade Center. A crise se aprofundou, interiorizou-se. Os atentados de Copenhague, em 14 de fevereiro, em seu mimetismo com os de Paris, confirmam isso se necessário for. Ao contrário da leitura em termos de choque das civilizações, aquela que prevaleceu em 2001 após Nova Iorque, Paris 2015 obriga a renunciar à visão simplista de dois blocos civilizacionais antagonistas que se opõem e se enfrentam por causa de ideais, valores, religiões ou costumes, portanto, culturas incompatíveis e irredutíveis. A oposição internalizou-se, atravessando, ainda que em sentidos diferentes, tanto as democracias ocidentais quanto os países muçulmanos. 

A guerra nova e irregular não opõe inimigos externos que pertencem a campos ou países estranhos um para o outro, mais ou menos distantes e que se consideram reciprocamente como o mal absoluto, mas os afeta e imiscui-se dentro de cada um deles. Como poderíamos explicar de outra maneira o fato de que jovens nascidos e criados na França, de nacionalidade francesa, muçulmanos ou não, imigrantes ou não, desenvolvem um ódio feroz contra o próprio país, quando esperaríamos que assim o considerassem, quaisquer que sejam suas dificuldades? Como explicar que possam se deixar levar por uma propaganda islamista que os compele ao assassinato, seja aderindo a grupos armados na Síria, no Iraque, no Iêmen ou em outro país, seja cometendo assassinatos nos lugares onde vivem? A essas perguntas somam-se outras. Como explicar de outra maneira o fato de que os mesmos grupos armados, às vezes mais poderosos que os Estados regionais, possam submeter ao terror as populações de países muçulmanos, cometer atrocidades sistemáticas contra qualquer veleidade de oposição à sua concepção da sharî’a  e chegar ao ponto de submeter outras etnias ou populações pertencentes a outras religiões ao estado de escravidão, até mesmo ao extermínio puro e simples? 

As crises são transversais, mas de natureza diferente. De um lado, os países ocidentais acreditaram que estavam imunizados a tal risco interno pelo seu sistema social, sua potência econômica e política, seu alto nível de cultura e pela institucionalização do princípio de tolerância das religiões. De outro, as aspirações democráticas da “primavera árabe” fizeram esquecer, durante um curto tempo, a possibilidade do retorno da repressão de chumbo islamista, que não deixou de se abater sobre a maioria desses países, esmagando as aspirações de igualdade e liberdade numa ordem ou numa desordem ainda mais aterrorizante — o que não é exagero — do que aquela que prevalecia no tempo dos despotismos pessoais.

É claro que essas crises não são da mesma ordem. Do lado das democracias, elas resultam não só das exclusões sociais, da formação de memórias imaginárias nas quais certos jovens ou nem tão jovens identificam-se, mas, sobretudo, talvez, da impotência cada vez mais manifesta do político diante dos desafios da perda de crédito do Estado, principalmente daqueles que supostamente o representam. Do lado dos países muçulmanos, devem-se à força tradicional da relação entre sociedade, política e religião, na qual se enraízam a força de mobilização das correntes islamistas e, por fim, sua capacidade de subjugar, pela crença, pelo interesse ou pelo terror, setores inteiros da população. É justamente dessas crises profundas e dos dilaceramentos que elas provocam que o ódio pode surgir, pela projeção imaginária da causa dos males vividos ou sentidos assim sobre um indivíduo, uma população, um estilo de vida, um uso considerado abusivo e ilegítimo da liberdade. 

Porém, do ódio à barbárie, a transição não é direta. É necessário um médio prazo. A vítima deve ser representada como o mal absoluto, de modo que, contra ela, é não somente possível, mas também requisitado que as sevícias mais radicais sejam praticadas, sem considerar o mais simples princípio de humanidade. É preciso também que o próprio algoz se represente como cumpridor de uma missão — na maioria das vezes divina, mas nem sempre — que lhe confere dignidade, reconhecimento e recompensa. Isso quer dizer que a barbárie jamais é espontânea, tampouco natural, ela não é o ato de “loucos solitários”, ela resulta de um doutrinamento das mentes que é ainda mais eficaz porque se enraíza numa forma de religião secularizada. O mesmo doutrinamento, empregando os recursos e as tecnologias mais sofisticadas através das redes sociais, é capaz de explicar a promoção do sacrifício de si mesmo em prol da erradicação daqueles que supostamente carregam o mal, e a transfiguração do bárbaro em mártir.  É justamente a isso que se dedicam os islamistas radicais, aqueles que querem purificar a terra dos impuros: os livres pensadores, os descrentes, os cristãos e, sobretudo, é claro, os judeus; em suma, levar a cabo a jihad,  como o enunciam algumas passagens do Corão. Não há islamismo sem islã radicalizado. Negá-lo ou disfarçá-lo, por bons sentimentos, é cegar a si mesmo.

Entre Nova Iorque 2001 e Paris 2015, houve muitas torturas e assassinatos que não causaram a mesma comoção coletiva, mas traduziam essa internalização da barbárie. Para citar apenas alguns desses atos, houve o sequestro e a tortura do jovem Ilan Halimi,  dado por morto em janeiro de 2006, por um grupo de cerca de vinte pessoas que se autodesignava “a gangue dos bárbaros”, dirigida por Youssouf Fofana.  Houve também os assassinatos à queima-roupa perpetrados, em março de 2012, por Mohammed Merah  na escola Ozar Hatorah, na cidade de Toulouse. Tratava-se, é claro, de matar deliberadamente crianças judias e os adultos que as protegiam. O assassinato de estudantes judeus se repetirá em outros episódios trágicos na França e no exterior, tenham eles sido levados a cabo ou não. Houve, ainda, a chacina do Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014, cometida por Mehdi Nemmouche,  jovem franco-argelino que provavelmente se juntou, durante certo período, ao grupo Estado Islâmico no Iraque. 

Existe pelo menos um elemento comum nesses diferentes casos: os motivos religiosos que reciclam os mitos mais antigos e mais tenazes do antissemitismo. Estes consistem em considerar o judeu como representante do dinheiro (o judeu é necessariamente rico, ou até mesmo banqueiro), da vontade de dominação (na política, na mídia, na economia), da perseguição (em relação ao povo palestino), da mentira (a Shoah é considerada uma invenção maligna dos judeus para justificarem a existência e os crimes sionistas). Essa configuração de dimensões ao mesmo tempo tradicionais e novas do antissemitismo faz parte do doutrinamento neobárbaro, ao qual se somam meios sofisticados e a ação exercida nas mídias e nas redes sociais.

Todavia, se os judeus são alvos por natureza e por excelência, eles não são os únicos a serem visados. Tudo o que pode ser caracterizado como islamofóbico também deve se tornar um alvo. Assim, os representantes das instituições republicanas, como o exército ou a polícia, são considerados instrumentos de instituições islamofóbicas. Se seus representantes forem muçulmanos, isso é interpretado como uma traição ao islã e justifica que sejam executados. Há, por fim, a liberdade de expressão, esse princípio constitutivo dos regimes democráticos que inclui a liberdade de proferir blasfêmias, a qual é radicalmente inaceitável diante do respeito absoluto requerido pelos islamistas à religião e, em particular, ao profeta. Os massacres perpetrados entre 7 e 9 de janeiro de 2015 em Paris comportaram três aspectos: destruir pelo assassinato os cartunistas de Charlie Hebdo, os defensores da liberdade de expressão, em nome do respeito absoluto devido à religião; o assassinato de um policial que representava a ordem republicana islamofóbica; e o massacre dos judeus do mercado Hypercacher, que, por sua vez, nada têm a ver com o que quer que seja, tampouco representam qualquer coisa além de serem eles mesmos para merecerem a morte. 

Em todos esses casos, os neobárbaros, façam eles parte de uma rede organizada ou não, sejam jihadistas ou não, tenham ou não passado pelos campos de treinamento da Al Qaeda ou do Estado Islâmico, sejam ou não autorizados por uma organização ou por autoridades religiosas, consideram-se no direito de matar. Esses crimes visam a combater e, a termo, destruir a partir de dentro, pela violência, mas principalmente pelo medo e pela submissão, as instituições democráticas e republicanas.

Estranha coincidência o fato de o último livro de Michel Houellebecq,  Soumission, ter sido distribuído às livrarias em 07 de janeiro de 2015. Mas o futuro não é traçado de antemão, ele será aquilo que faremos dele, e o que faremos dele dependerá da determinação da resistência aos neobárbaros, não somente aqui, mas também nos lugares onde eles subjugam populações inteiras com a ponta de suas facas, suas kalashnikovs ou seus projéteis. ■

 

Leia mais...

- A laicidade num mundo dilacerado. Entrevista com Yves Charles Zarka publicada na IHU On-Line, edição 426, de 02-09-2013. 

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