Edição 470 | 17 Agosto 2015

O ovo da serpente. Intolerância no ninho da modernidade

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Redação

Massacres, linchamentos, guerras fratricidas, perseguições religiosas e políticas. Os tempos sombrios previstos por Hannah Arendt não conhecem fronteiras, e expõem a fratura entre o potente avanço tecnocientífico que experimentamos enquanto humanidade e a face periclitante de uma ética que surge apenas em tempos de conveniência. O alvorecer da modernidade não teria feito desaparecer a intolerância que parecia ser uma prerrogativa de outras eras? Os fatos aos quais assistimos não apenas no Brasil, mas no mundo todo, nos mostram que fomos otimistas demais. Para refletir sobre tais questões a IHU On-Line ouviu inúmeros pesquisadores e pesquisadoras.
O ovo da serpente. Intolerância no ninho da modernidade

O professor Roberto Romano, da Universidade de Campinas – Unicamp, faz um longo e pertinente recorrido histórico e teórico para explicar que “a semente do ódio germina em setores que existiam antes da secularização laica e depois dela”.

Para o filósofo Guilherme Castelo Branco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, o ódio destinado ao Outro no Brasil está enraizado, em última instância, na cultura escravocrata que cria parcelas da população “menos importantes” que as outras.

Francisco Foot Hardman, da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, recorda o caso da menina Kayllane, 11 anos, praticante de candomblé, apedrejada ano passado por professar uma fé não respeitada por outras confissões religiosas. “Este é o Brasil real em que vivemos, onde a barbárie moderna está plenamente instalada.”

O teólogo Roger Haight da Union Theological Seminary, de Nova Iorque, pondera que precisamos ir além de uma simples tolerância: é preciso “nos esforçarmos para aprender uns com os outros”. 

Dimitri D’Andrea, da Universidade Degli Studi di Firenze, observa que há uma conexão muito próxima entre a modernidade e a intolerância. E completa: “O caminho da luta contra a intolerância parece-me ser o da máxima liberdade de opiniões (todas) e ao mesmo tempo a máxima vigilância civil e os testemunhos pessoais”.

Giuliana Di Biase, da Universidade D'Annunzio of Chieti-Pescara, Itália, analisa os escritos de John Locke contra a intolerância, e explica que esse autor teria muito a dizer ao capitalismo desenfreado de hoje, esteio da exclusão e da globalização da miséria e da indiferença.

Para Maria Laura Lanzillo, da Universidade de Bologna, a intolerância não é resultado exclusivo da modernidade, mas um processo complexo que se atualiza nos desdobramentos históricos da história humana.

O filósofo francês Charles Yves Zarka, da Universidade Paris Descartes – Sorbonne, reflete acerca dos massacres de Paris, de 7 a 9 de janeiro deste ano. Segundo ele, “a barbárie jamais é espontânea, tampouco natural, ela não é o ato de ‘loucos solitários’, ela resulta de um doutrinamento das mentes que é ainda mais eficaz porque se enraíza numa forma de religião secularizada”.

Duas entrevistas analisam a situação financeira do Rio Grande do Sul. Lucas Henrique da Luz, professor na Unisinos e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, busca entender as questões de fundo da crise econômica do estado gaúcho, desde a perspectiva da financeirização. João Gilberto Lucas Coelho, ex-vice-governador do RS, destaca que para superar este momento difícil é preciso pensar para além da lógica binária e da dicotomia de conceitos entre esquerda e direita.

Na segunda-feira, dia 24 de agosto, será lançado na Unisinos, o Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Participarão do Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, realizado em parceria entre o IHU e o PPG em Saúde Coletiva da Unisinos, o Prof. Dr. Fernando Carneiro, da FIOCRUZ Ceará e Universidade de Brasília – UnB, Dr. Leonardo Melgarejo, da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural – ASCAR e Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER-RS e a Profa. Dra. Karen Friedrich, FIOCRUZ e UNIRIO. As entrevistas com os dois primeiros mencionados podem ser lidas nesta edição.

Veja também a entrevista com a Profa. Dra Natacha Silva Araújo Rena, da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, que apresenta três palestras entre os dias 20 e 21 de agosto, no 2º Ciclo de Estudos Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo. Territórios, governamento da vida e o comum

A IHU On-Line inicia nesta semana uma parceria com o Curso de Relações Internacionais da Unisinos publicando, em cada edição, a coluna Crítica Internacional, com um artigo elaborado por professores e professoras do curso sobre Política Internacional. O texto desta edição é “A encruzilhada do Curdistão socialista” elaborado pelo Prof. Dr. Bruno Lima Rocha.

Carlos Gadea, professor da Unisinos, reflete sobre os Estudos Culturais e a sua aliança populista no artigo Os “filhos de Marx e da Coca-Cola”.

Enfim, Peter Phan, teólogo vietnamita, pesquisador da Georgetown University de Washington, analisa, a partir de um ponto de vista asiático, o pontificado do Papa Francisco.

A todas e a todos uma boa leitura e uma ótima semana!

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