Edição 467 | 15 Junho 2015

O desafio da aquisição de segunda língua numa sociedade multilíngue

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Leslie Chaves e João Vitor Santos | Tradução: Moisés Sbardelotto

Johannes Wagner reflete sobre aprendizagem de línguas adicionais num contexto que envolve a mediação por dispositivos eletrônicos e outras influências

Para o professor Johannes Wagner, “não é o meio que faz a diferença, mas sim a pedagogia da língua que está por trás dele. Obviamente, os instrumentos eletrônicos podem promover acréscimos muito valiosos para os “aprendentes” de línguas. No entanto, se as novas mídias simplesmente copiam os textos e os formatos dos exercícios dos livros escolares tradicionais, não se ganha muita coisa”. Ou seja, é preciso pensar a instrumentação eletrônica como novas formas de mediação, tomando como verdadeiramente importante a forma como se vai ensinar, isto é, a pedagogia. Na entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, o pesquisador reflete sobre a influência desses meios entre os desafios no aprendizado de uma segunda língua.

O campo de estudo de Aquisição de Segunda Língua – ASL também foi discutido pelo professor. Ele distingue esse campo daquele da Aprendizagem em Língua Estrangeira. Segundo Wagner, na ASL, “as pessoas que querem aprender a língua vivem na sociedade da nova língua. Na Aprendizagem de Língua Estrangeira, a relação com a nova língua sempre será mediada, tradicionalmente, pelos livros, mas também pela internet”.

Johannes Wagner é professor de Linguagem e Comunicação na Universidade do Sul da Dinamarca. Tem sua formação principal em Linguística e Ciências Sociais e desenvolve pesquisas centradas nas relações entre linguagem, ação e atribuição de sentido. Suas pesquisas focam questões relacionadas à aprendizagem de línguas adicionais a partir, principalmente, da Análise da Conversa. Pesquisas atuais do professor envolvem também projetos conjuntos com engenheiros, designers, antropólogos e administradores interessados em investigar “inovação” fomentada pelo usuário.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como o senhor avalia atualmente o campo de estudos em Aquisição de Segunda Língua – ASL ?

Johannes Wagner – O nosso papel, em meados dos anos 1990 — e havia artigos de outros colegas sobre esse assunto —, foi defender uma nova orientação na Aquisição de Segunda Língua – ASL. Isso obteve sucesso. Hoje, as abordagens sociais à aprendizagem de segunda língua estão bem estabelecidas como um subcampo da ASL. A virada social não mudou o campo da ASL, mas acrescentou elementos a ela e hoje é mais aceita na ASL, e também influenciou outras abordagens mais orientadas à psicolinguística.

 

IHU On-Line - Como o campo de estudos em Aquisição de Segunda Língua pode contribuir para o desenvolvimento dos sistemas de ensino-aprendizagem de língua estrangeira?

Johannes Wagner – Eu acho que o campo da ASL pode dar ideias e modelos para a Aprendizagem de Língua Estrangeira, mas as condições para ambas são muito diferentes, e existem diferenças significativas. Na ASL, as pessoas que querem aprender a língua vivem na sociedade da nova língua. Na Aprendizagem de Língua Estrangeira, a relação com a nova língua sempre será mediada, tradicionalmente, pelos livros, mas também pela internet.

 

IHU On-Line - Quais são as diferenças entre os processos de ensino-aprendizagem e, consequentemente, de aquisição da língua através de um recurso eletrônico (como a Internet) e a partir de contextos de fala-em-interação, face a face?  

Johannes Wagner – É difícil de responder a essa questão em termos gerais. Não é o meio que faz a diferença, mas sim a pedagogia da língua que está por trás dele. Obviamente, os instrumentos eletrônicos podem promover acréscimos muito valiosos para os “aprendentes” de línguas. No entanto, se as novas mídias simplesmente copiam os textos e os formatos dos exercícios dos livros escolares tradicionais, não se ganha muita coisa.

 

IHU On-Line - Em alguns de seus escritos, o senhor critica as pressuposições a respeito do comportamento e da competência dos falantes nativos e não nativos, tomadas como base em algumas pesquisas que acabam desconsiderando os diferentes contextos construídos em cada interação. Como o senhor avalia que deve ser uma análise do processo de Aquisição de Segunda Língua que dê conta dessas particularidades?

Johannes Wagner – Ao menos onde eu vivo, a sociedade é multilíngue, e o falante nativo tornou-se uma ficção. Talvez, devêssemos falar de “locais” e “recém-chegados”. Mas, então, novamente, depende do que estamos falando. As atividades de aprendizagem na vida cotidiana dos recém-chegados é algo de que sabemos muito pouco, e o meu interesse é colocar o microscópio sobre as maneiras pelas quais os “aprendentes” de línguas desenvolvem práticas para usar e adquirir novas partes da segunda língua como uma forma de ser capaz de fazer novas coisas.

 

IHU On-Line - Dentro desse pensamento que considera as especificidades da realidade social da comunicação entre as pessoas, o senhor debate algumas dicotomias importantes apresentadas no campo de estudos da ASL, como a oposição entre as categorias de aprendiz e não aprendiz, e entre os conceitos de uso e aquisição da língua. É possível demarcar limites entre essas concepções? 

Johannes Wagner – Pergunta interessante. Certamente, há uma grande sobreposição entre certas formas de sociolinguística e a virada social na ASL. Uma das questões é que há boas razões — e agora também bons modelos — para abandonar a diferença entre uso e aprendizagem. ■

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição