Edição 467 | 15 Junho 2015

Interface entre Linguística Aplicada e Neurolinguística: complexificando os estudos acerca da linguagem em doenças neurológicas

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Leslie Chaves

Para Edwiges Morato, um dos principais aspectos da convergência entre a Linguística Aplicada e a Neurolinguística é a formulação de interpretações mais completas sobre a perspectiva linguístico-cognitiva de patologias como a afasia e a Doença de Alzheimer

A conexão entre Linguística Aplicada e Neurolinguística, dois campos autônomos institucionalmente, mas que compartilham muitos interesses, tem sido uma realidade. Entre os pontos de confluência dessas áreas de estudo estão as investigações acerca de problemas linguístico-cognitivos advindos de patologias neurológicas, como a afasia e a Doença de Alzheimer. Além da vocação empírica dessas duas áreas, o caráter interdisciplinar de ambas também estabelece um forte elo entre os dois campos. 

Especificamente a respeito do estudo dessas duas patologias mentais, a interseção entre Linguística Aplicada e Neurolinguística pode trazer resultados benéficos para o avanço de investigações a respeito do papel da linguagem e da cognição no decurso da afasia e da Doença de Alzheimer. “A agenda atual da Linguística Aplicada e da Neurolinguística tem, a meu ver, condições de construir e adensar modelos explicativos mais abrangentes dessas duas condições patológicas”, salienta Edwiges Morato, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

De acordo com a pesquisadora, estudos interdisciplinares podem fortalecer análises acerca da linguagem em uso, indo além de interpretações baseadas exclusivamente em aspectos biomédicos. “O modelo biomédico de afasia e de Doença de Alzheimer, vale lembrar, tem dado sinais de esgotamento e superação. Com isso, explicações baseadas apenas em biomarcadores, restritas a uma visão organicista e localizacionista do cérebro, não têm conseguido dar conta de fenômenos linguístico-cognitivos complexos, como a afasia e a Doença de Alzheimer”, aponta. Conforme Morato, para além de propor elucidações sobre o funcionamento da linguagem e da cognição em diferentes contextos, a combinação entre esses diferentes campos nas investigações de tais patologias mentais pode contribuir com decisões e práticas diagnósticas e terapêuticas na área da Saúde, e também com formulações de ordem pedagógica no contexto educacional.

Edwiges Morato é graduada em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC Campinas. É mestre e doutora em Linguística pela Unicamp, com pós-doutorados na Universidade de Paris XII (Paris, França) e na Université Lumière II (Lyon, França). Atualmente é livre-docente do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, e do Programa de Cooperação Acadêmica da Capes - Procad, que envolve a Unicamp, a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e a Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Algumas de suas publicações são os Cadernos de Estudos Linguísticos (Campinas: Editora da Unicamp, 2013), organizados com Ingedore Koch, o livro Linguagem & Cognição. As reflexões de L.S. Vygotsky sobre a ação reguladora da linguagem (Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Educação de Surdos, 2012), com versão em Libras, e a obra A semiologia das afasias - perspectivas linguísticas (São Paulo: Cortez, 2010), organizado com um grupo de pesquisadores.

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - As áreas da Linguística Aplicada e da Neurolinguística podem se relacionar? De que modo? Que contribuições pode trazer essa relação?

Edwiges Morato - Sem dúvida, embora a relação entre ambas não seja óbvia e nem sempre institucionalmente estabelecida ou estimulada, em função da falaciosa distinção entre teoria e prática, ou entre “pureza” e aplicação. A meu ver, as macrotendências do campo dos estudos linguísticos no século XXI demonstram e mesmo estimulam várias compatibilidades na agenda desses dois domínios do estudo da linguagem, autônomos em termos institucionais, mas solidários em muitos aspectos, seja em função da arbitragem interdisciplinar que promovem e exigem para tratar seus objetos, seja porque ambos não podem prescindir do contexto empírico e encontram-se implicados a questões de ordem prática para diferentes áreas do saber, como a Tecnologia, a Educação e a Saúde. 

 

IHU On-Line – Há uma agenda de temas de pesquisa comuns entre essas áreas?

Edwiges Morato - A relação entre Linguística Aplicada e Neurolinguística se dá não apenas na pesquisa fundamental (em torno das questões relativas ao estudo da linguagem e processos afeitos à sua estrutura e ao seu funcionamento), mas também nas práticas (e no mercado!) do ensino de língua, nos contextos educacionais institucionais e não escolares, na gestão de interesses voltados à tecnologia de informação e de comunicação, na área da Saúde (contribuindo com condutas diagnósticas e terapêuticas atinentes às chamadas patologias de linguagem).

Podemos mencionar alguns temas de pesquisa que podem estabelecer uma interface entre essas duas áreas. Se evocarmos algumas das macrotendências da Linguística nas últimas décadas, podemos observar que todas elas dizem respeito, de uma maneira ou de outra, à interação social, aos diversos processos afeitos à estrutura e ao funcionamento da linguagem, às condições imprescindíveis para a aquisição de linguagem, às relações entre fala e escrita, à imbricação entre práticas cognitivas, discursivas e sociais, aos fatores sociobiológicos relativos à linguagem e à cognição, à dimensão multimodal da produção e da compreensão textual, às relações entre linguagem e processos formais e informais de aprendizagem. Levando em conta esse panorama, diria que não apenas a vocação empírica norteia o diálogo entre as duas áreas, mas também a natureza interdisciplinar de ambas. 

Principais contribuições

Entre as contribuições específicas de uma agenda comum, eu mencionaria a superação do mito da idade crítica para a linguagem (da qual derivam outros mitos, cumpre observar); a superação do mito de uma competência linguística oposta às questões socioculturais e rotinas próprias da vida em sociedade; a tese de uma plasticidade sociocognitiva que ancora as mais variadas estratégias de aprendizagem e de uso da língua, materna ou não; a percepção de que a linguagem e a interação são decisivas para o desenvolvimento cognitivo e para a sociabilidade humana; a multimodalidade da linguagem, da interação, que coloca em relação processos de significação verbais e não verbais nas atividades comunicativas e cognitivas.

Com o desenvolvimento cada vez mais consistente em termos teóricos e metodológicos das investigações acerca da linguagem em uso, essa agenda comum se destaca, pois, pela busca do cognitivo no quadro das motivações e estratégias de produção e compreensão do sentido nas práticas discursivas e sociais, bem como na constituição do conhecimento e sua ativação por ocasião do processamento linguístico-cognitivo; pelo uso de tecnologias de informação e comunicação nas mais diversas práticas discursivas; pela consideração de inter-relações entre o biológico e o cultural nos processos de aquisição e desenvolvimento da linguagem e da cognição.

 

IHU On-Line - De que forma o conceito de cognição é compreendido na interface entre as áreas da Linguística Aplicada e da Neurolinguística?

Edwiges Morato - Muitas são as formas de se compreender a cognição. A partir de diferentes formas de concebê-la, muitas e distintas são as maneiras de estudá-la. Poderíamos estabelecer, de maneira resumida, duas concepções de cognição em torno das quais têm sido estabelecidas as interfaces entre distintos domínios do Conhecimento. Uma delas concebe a cognição enquanto faculdade mental inata, administrada pelo cérebro que, em última instância, é o vetor decisivo para o desenvolvimento dos processos cognitivos (linguagem, memória, percepção, atenção, etc.). Nessa concepção, a linguagem seria um módulo específico predeterminado em termos biológicos e autônomo em relação aos demais. 

A outra concepção de cognição considera que ela não pode ser “descarnada” dos usuários, isto é, para essa perspectiva, a cognição e a experiência sociocultural são consideradas processos mutuamente constitutivos, praticamente indissociados. Neste último caso, a cognição é um resultado ou modulação de nossas atividades psicossociais (corpóreas, afetivas, socioculturais, etc.), e não um antecedente delas. Ainda que as duas concepções digam respeito a persuasões distintas, inatista e interacionista, não deixam de compartilhar algumas teses (defendidas por vias explicativas, cumpre assinalar), como a da criatividade da linguagem, a da racionalidade humana, a da positividade da ciência.

Pontos em comum

Ainda que as persuasões em foco defendam teses bastante distintas — por um lado, a modularidade dos processos linguísticos, a autonomia da sintaxe, o alto grau de determinação das formas linguísticas, a capacidade inata para a aquisição da linguagem; por outro lado, a interpendência dos processos cognitivos verbais e não verbais, a modulação interacional e sociocultural de nossas capacidades linguísticas e cognitivas, a estruturação da linguagem baseada no uso, a concepção de competência como prática —, não deixam de compartilhar algumas questões.

Ambas estariam de acordo, por exemplo, quanto à criatividade da língua e à competência dos falantes relativamente à linguagem, ou quanto ao fato de ser a linguagem um patrimônio da espécie humana. Contudo, se para o inatismo essa competência é inata (no sentido em que não a “aprendemos”; somos inconscientes dela e dela não podemos escapar, salvo em condições adversas, como as patologias, por exemplo), para o interacionismo ela é uma prática e deriva das experiências psicossociais, dos regimes simbólicos e culturais de vida em sociedade. Além disso, as duas abordagens se inscrevem num programa racionalista. Seria, pois, um equívoco contrapor inatismo e interacionismo com base na dicotomia racionalismo x empirismo (MORATO, 2013) .

Creio que essa segunda concepção tem sido mais produtiva para a interface entre os estudos neurolinguísticos e os aplicados. Nesse caso, interessaria à agenda comum entre eles tomar a interação com condição de princípio explicativo de nossa capacidade simbólica, adotar uma hipótese evolutiva que questiona a hipótese de que as habilidades sociocognitivas humanas sejam produtos diretos da evolução biológica, pressupor o concurso de processos intersemióticos na constituição da linguagem e da cognição. Adotar uma concepção dinâmica de cérebro, cuja plasticidade estaria baseada não apenas em mecanismos neurofisiológicos, mas também em processos intersubjetivos, pragmáticos, socioculturais e psicoafetivos, colocando em xeque a dicotomia entre “fatores de ordem cognitiva” e “fatores de ordem social” na análise da linguagem e da interação.

Ao se interessar pelas relações entre linguagem, cérebro e cognição, a Neurolinguística inscreve-se em um domínio francamente interdisciplinar, assim como o fazem outras áreas da Linguística que se interessam também pela problemática cognitiva. Na verdade, a Linguística, em seus diferentes domínios, de uma forma ou de outra, sempre tomou a cognição como parte da resposta à questão da linguagem — e isso impregna a sua relação atual com outros domínios do Conhecimento, como as Neurociências, a Sociologia, a Psicologia, dentre outros.

Há autores, como o Prof. Luiz Antônio Marcuschi (importante linguista brasileiro, da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), que consideram que o projeto científico da Linguística no século XX derivou do estudo da forma linguística (o sistema linguístico stricto sensu) para o estudo da linguagem enquanto evento sociocognitivo. Essa perspectiva acaba por ampliar o sistema nocional da Linguística, que passa a se interessar mais e mais pelo uso social da linguagem. Creio que esse é o cerne das possibilidades de uma interlocução profícua entre as duas áreas, Neurolinguística e Linguística Aplicada.

 

IHU On-Line – As relações entre Linguística Aplicada e Neurolinguística contribuíram para a superação da dicotomia e o estreitamento entre o biológico e o cultural nos estudos de aquisição de linguagem? De que maneira?

Edwiges Morato - Com efeito, o conceito de mente ou de cognição que a toma separadamente do corpo ou que estabelece uma forte dicotomia entre o biológico e o cultural passa a declinar em meados do século XX, precisamente quando muitas áreas da Ciência começam a investigar de forma mais enfática processos pragmáticos, experienciais e culturais de nossa vida mental e social.

Creio que cada um desses dois campos, Neurolinguística e Linguística Aplicada, cada um à sua maneira, têm contribuído para a superação da dicotomia entre o biológico e o cultural nos estudos aquisicionais. Acredito, quanto a este ponto, que as relações entre Linguística Aplicada e Neurolinguística têm se estreitado de forma mais institucional nos últimos tempos e têm deixado claro o tipo de agenda que as torna mais auspiciosas. Trata-se de uma agenda que procura acentuar o foco nos aspectos metodológicos da pesquisa que toma a linguagem e cognição em uso, em prática, em contexto, em interação.

Tal interesse teórico e tal preocupação metodológica têm inspirado, a meu ver, as “linguísticas cognitivas”, isto é, aqueles domínios da Linguística devotados à problemática cognitiva e a uma agenda interdisciplinar, centrada na relação entre teoria e prática, não apenas em produtos (“práticos”) derivados da teoria. 

 

IHU On-Line – De que forma a interface entre a Linguística Aplicada e a Neurolinguística podem contribuir para o estudo de patologias linguístico-cognitivas advindas de problemas neurológicos, como a afasia ou a Doença de Alzheimer?

Edwiges Morato - Definidas de forma resumida como alterações de linguagem oral e ou escrita decorrentes de lesão mais ou menos circunscrita no Sistema Nervoso Central em função de acidentes vasculares cerebrais, traumatismos cranioencefálicos ou tumores, as afasias podem ser acompanhadas por outros sinais e sintomas neurológicos, como as hemiplegias , as apraxias  e as agnosias . Enquanto entidade nosológica , em geral se estabelece na vida do sujeito cronicamente, como sintoma da existência de uma lesão no cérebro. O indivíduo afásico convive, pois, a um só tempo, com a história de sua relação com a linguagem anterior ao episódio neurológico e com uma afasia de diferentes graus de severidade e diferentes características linguísticas e cognitivas, que impactam de forma relevante sua vida pessoal, conjugal, profissional e social.

Ainda que fenômenos afásicos nem sempre possam significar apenas desvio e excrescência em relação à produção linguística tida como normal, encontramos na fala (e na escrita) afásica um conjunto de processos — tais como anomia, pausas longas, hesitação, agramatismo, repetição, titubeio, circunlóquio, automatismo, alterações fonoarticulatórias e parafasias de diversas naturezas — que afetam a fluência, a comunicação, a produção e a interpretação da significação linguística (e não só linguística, vale notar). Contudo, dados de linguagem em interação têm colocado em xeque a clássica definição estruturalista de afasia enquanto alteração da capacidade de realizar operações metalinguísticas stricto sensu. Alternativamente aos achados estruturalistas, a análise empírica de variados processos e práticas comunicacionais no contexto das afasias tem nos mostrado que não parece anulada ou destruída a capacidade discursiva dos indivíduos afásicos, uma vez que estes lançam mão de diferentes processos de significação, alternativos, coexistentes ou compensatórios em relação à fala e à escrita (como gestos, direcionamento do olhar, postura corporal, etc.). Também não deixam de exibir suas capacidades reflexivas ao procederem a reparos e reformulações na conversação, ao se servirem de promptings  orais e gestuais do interlocutor, ao checarem de alguma forma a intenção comunicativa ou de informação lexical própria ou alheia, ao produzirem reformulações parafrásticas, construções explicativas, etc. 

Doença de Alzheimer

Descrita pelo médico alemão Aloïs Alzheimer em 1906, a Doença de Alzheimer se traduz por alterações cognitivas e comportamentais que constituem uma síndrome demencial associada à presença de lesões histológicas características. A literatura médica tem afirmado que se trata do tipo mais comum entre as demências, atingindo dois terços das que são diagnosticadas. Entre suas causas podemos encontrar fatores genéticos, fatores de vulnerabilidade social (em especial, ligada a um envelhecimento não sadio) e de risco (aqueles que dizem respeito a antecedentes mórbidos, como acidentes vasculares cerebrais e traumatismos cranianos com perda de consciência, arteriosclerose, diabetes) e depressões tardias, não tratadas. 

No campo dos estudos neurocognitivos, entende-se em linhas bem gerais que a Doença de Alzheimer evolui em três fases: a forma leve, na qual os problemas mnésicos são constantes, assim como certa desorientação das funções executivas cotidianas (como as profissionais e as domésticas) e dificuldades sutis de processamento semântico e de manipulação das regras pragmáticas que presidem a utilização da linguagem; a forma moderada, na qual os problemas mnésicos passam a ser incapacitantes, seguidos de crescente desorientação têmporo-espacial e de problemas de linguagem mais frequentes e prontamente perceptíveis; a forma severa, na qual a memória encontra-se gravemente alterada e a linguagem apresenta-se sensivelmente comprometida. 

Se nas fases anteriores os problemas de linguagem, acompanhadas pelo declínio dos sistemas de memória, da consciência e da faculdade crítica, são identificados em função de déficits na atividade de nomeação, nos circunlóquios e titubeios, no agravamento de problemas no processamento sintático-semântico, no estágio final as capacidades linguísticas gerais do indivíduo estariam gravemente comprometidas, com alteração fonoarticulatória. Porém, a afecção cerebral difusa e progressiva não compromete apenas e isoladamente as funções cognitivas; seu impacto se observa também no declínio da vida psicossocial do doente, em função da alteração sociodegenerativa, comportamental, comunicativa, interacional, que se observa na evolução dessa patologia. 

A influência da linguagem e da interação

Mais recentemente, os estudos dedicados às afasias e à Doença de Alzheimer que se desenvolvem no âmbito de modelos explicativos psicossociais (LYMAN, 1989; BALLENGER, 2006; BERRIOS, 1990; HOLSTEIN, 1997; BEACH, 1987), que não levam em conta apenas biomarcadores como as placas senis ou o componente genético, têm admitido que a linguagem e a interação influenciam de maneira decisiva o ritmo e a intensidade do declínio cognitivo (LEIBING e COHEN, 2006; CRUZ, 2008; MORATO, 2010a, SÉ, 2011; DIAS, 2012), bem como têm admitido (SCHEGLOFF, 2003; KITA et al, 2003; KLIPPI, 2003; GOODWIN, 2004; OELSCHLAEGER E DAMICO, 2003; FERGUSON, 1996; MORATO et al, 2010b) que, na complexa semiologia das afasias, a linguagem sempre diz respeito, de maneira direta ou indireta, a vários outros processos cognitivos interatuantes na compreensão e produção de sentido (MORATO, 2012) .

A Neurolinguística tem se dedicado tradicionalmente ao estudo desses dois contextos patológicos, ainda que não apenas a patologia (e nem apenas essas duas síndromes, a afasia e a Doença de Alzheimer) seja o foco de seus interesses. Também se interessa por processos que envolvem contextos não patológicos que relacionam linguagem e cognição, a partir de verdadeiros clusters  metodológicos, experimentais ou observacionais, com importantes contribuições para o campo da Saúde e da Educação. No campo do estudo de patologias como a afasia e a Doença de Alzheimer, a pesquisa neurolinguística tem contribuído mais recentemente com uma visão crítica dos modelos estritamente biomédicos, na proposição de construtos teóricos centrados na linguagem e na cognição em interação, na elaboração de metodologias mais consistentes de investigação do processamento linguístico e cognitivo, na proposição de vias explicativas para o funcionamento da linguagem e da cognição nos mais variados contextos, de modo a contribuir com decisões e práticas diagnósticas e terapêuticas na área da Saúde, e com formulações de ordem pedagógicas no contexto educacional.

O estudo das afasias e da Doença de Alzheimer tem sido objeto não apenas da Neurolinguística, mas também de outros domínios da ciência da linguagem, que tratam em detalhe questões que lhes são caras, como o bilinguismo, a aquisição linguística, as estratégias de aprendizagem, a multimodalidade da linguagem e da interação, a cognição social.  

Tais temas permitem, potencializam ou estimulam a interface entre Linguística Aplicada e Neurolinguística. Aos temas comuns mencionados poderíamos acrescentar o interesse por contextos multilíngues, pelos aspectos neurolinguísticos associados à aquisição linguística na surdez, por processos educacionais escolares e não escolares (formais e informais), pelos aspectos psiconeurolinguísticos envolvidos na leitura e na escrita, e pela dimensão multimodal da linguagem, da cognição e da interação.

 

IHU On-Line – Como estes estudos interdisciplinares podem contribuir para o desenvolvimento de tratamentos para estas doenças?   

Edwiges Morato - No terreno dos estudos neurolinguísticos, temos ainda pouco conhecimento sobre como a afasia afeta efetivamente a linguagem em uso, sobre a escolha das unidades de análise linguística e das variáveis levadas em consideração na investigação da linguagem, dos papéis dos envolvidos nas interações das quais participam os indivíduos com essa patologia e com Doença de Alzheimer, sobre construtos ou modelos de análise da linguagem em uso. 

Resultados auspiciosos de estudos interdisciplinares poderiam vir a fortalecer, a meu ver, construtos explicativos acerca da linguagem em uso. O modelo biomédico de afasia e de Doença de Alzheimer, vale lembrar, tem dado sinais de esgotamento e superação. Com isso, explicações baseadas apenas em biomarcadores, restritas a uma visão organicista e localizacionista do cérebro, não têm conseguido dar conta de fenômenos linguístico-cognitivos complexos, como a afasia e a Doença de Alzheimer. 

A agenda atual da Linguística Aplicada e da Neurolinguística tem, a meu ver, condições de construir e adensar modelos explicativos mais abrangentes dessas duas condições patológicas. Tal modelo, de caráter biopsicossocial, não apenas buscaria expandir os limites do organicismo, que caracteriza o modelo mais fortemente biomédico; mas também e, sobretudo, de fornecer vias explicativas que integram fatores internos e externos que atuam na organização e reorganização córtico-cognitiva. 

O modelo social de análise como abertura

Surgindo como antagonista ou ao menos como complementar ao modelo biomédico, o modelo social, amparado em metodologias observacionais, qualitativas e heurísticas (por vezes, chamadas de “estudos de caso”), tem se preocupado com as implicações ético-discursivas da recepção social dos diagnósticos e tem rejeitado procedimentos supostamente objetivos do método clínico tradicional, como as baterias de teste-padrão, em geral tomadas como fonte exclusiva de explicação sobre estados neurolinguísticos patológicos ou sadios. Além disso, o modelo social procura salientar em termos teóricos e metodológicos as discrepâncias encontradas entre o “comportamento cotidiano” e o “comportamento neuropatológico” (LOCK, 2006) de indivíduos cérebro-lesados, bem como enfatizar as vantagens da análise da “cognição-em-interação” para o entendimento de processos (normais ou patológicos) do funcionamento cerebral (MORATO, 2014) .

A questão que importa ainda compreender melhor é em que medida a interação, ou a qualidade das interações humanas podem influenciar, organizar, aprimorar e reorganizar a cognição humana (e mesmo a atividade cerebral, alterada em casos de lesões cerebrais adquiridas, causa das afasias, ou em caso de neurodegenerescência, causa da Doença de Alzheimer). Para avançarmos nessa questão, vale pensar nos processos que tornam a cognição humana singular: A cultura? A linguagem? A capacidade de perspectivar objetos simbólicos de diferentes maneiras? O reconhecimento de outros seres humanos como coespecíficos, isto é, como seres iguais, intencionais, dotados de vida mental semelhante? A capacidade de nos engajarmos em ações conjuntas e coordenadas? 

Em todas essas questões, a propósito, pensa o pesquisador norte-americano Michel Tomasello quando procura estabelecer relações estreitas entre o biológico e o cultural na filogênese  e na ontogênese  (TOMASELLO, 1999/2003; 2009; 2014) . Ele se pergunta sobre o que nos diferencia dos animais, na forma complexa como organizamos e planejamos nossas ações, e como as corrigimos e as reorganizamos, como categorizamos e perspectivamos o mundo por meio da linguagem e de outros processos semióticos, em como imprimimos de características afetivas, emocionais, cognitivas, sociais, culturais as várias formas de interação que experimentamos no cotidiano. Pensemos, por exemplo, na estrutura intersubjetiva e coordenada da interação face a face, da interação verbal e não verbal (ou não apenas verbal, na qual comparecem o gesto, o olhar, a expressão corporal, a mímica facial, etc.), da interação grupal ou didática, da presencial ou virtual, da paralela ou conjunta, da mais formal e da mais informal; pensemos na interação mais e menos simétrica e cheia de inequidade ou conflituosa, não desprovida de características cooperativas. 

Ao que parece, o estudo sistemático da interação — essa ação de influência recíproca — é o que pode colocar em relação, de forma instigante e produtiva, a Neurolinguística e a Linguística Aplicada.

 

IHU On-Line – Qual é o papel dos estudos de interação frente às dificuldades cognitivas causadas por problemas neurológicos associados à Doença de Alzheimer e à afasia? Como essas patologias linguístico-cognitivas interferem nos processos de interação e de organização linguística?

Edwiges Morato - Não são poucos os estudiosos, linguistas ou não, que dão à interação e à linguagem um papel fundamental na estruturação, no desenvolvimento e na reorganização de nossa vida mental, com implicações diretas na comunicação humana, em nossa sociabilidade, em nossa capacidade cognitiva, em nossa atuação num mundo socioculturalmente organizado e constituído. Os estudos sociocognitivos têm considerado que a cognição, para usar uma expressão de Levinson , está “no coração” mesmo da atividade discursiva e das práticas humanas. Essa é uma metáfora compatível com a vitalidade e a imprescindibilidade do estudo da linguagem em uso, em prática, em contexto, em interação. Um dos campos mais interessantes da Neurolinguística é o estudo do papel e da influência da interação e da linguagem em nossa atividade mental. A propósito, muitos pesquisadores chegam mesmo a admitir que sem interação e sem linguagem o cérebro humano, assim como a mente humana, não se desenvolve, ou se desenvolve com muitos percalços e dificuldades.

De fato, um dos aspectos mais relevantes dos estudos dedicados aos aspectos cognitivos da interação está precisamente na compreensão de sua importância para a construção do sentido do que pensamos, falamos e fazemos (o “conteúdo” da interação). Outro aspecto importante da interação, de acordo com esses estudos, é que a interação é fortemente regrada/ritualizada/estruturada. E é também multimodal. Dessa forma, ela tem a ver com linguagem verbal e não verbal, com diferentes processos de memória, com nossas experiências sociais organizadas.

Isso posto, não é difícil imaginar as dificuldades que se apresentam para aquelas pessoas que, acometidas por afasia, se defrontam, em níveis variados de gravidade, com alterações linguísticas e ou neuropsicológicas. Também não é difícil imaginar os problemas enfrentados por aqueles que enfrentam a heterogeneidade de sintomas próprios à Doença de Alzheimer (alteração de memória, de noção temporal e espacial, de funções executivas, de reconhecimento de regras pragmáticas que presidem a utilização da linguagem e de comportamentos socioculturais, etc.).

A reconstrução linguística, bem como a presença importante de semioses não verbais (gestos, direcionamento do olhar, expressão facial) nas afasias pode ocorrer em meio a pausas, hesitações, repetições, autocorreções, modalizações autonímicas e reformulações. Tais fenômenos indicam não apenas o momento em que o processamento falha, mas também e especialmente a presença do caráter reflexivo da linguagem, que a afasia não subtrai de forma integral. No caso da Doença de Alzheimer, além das discrepâncias entre o comportamento neuropatológico e o comportamento cotidiano, baseado em rotinas significativas para o indivíduo, há que se levar em consideração o papel do seu interlocutor.

No caso das afasias, o sujeito costumeiramente enfrenta no campo mesmo da linguagem suas dificuldades metalinguísticas (reparos, reformulações, riqueza prosódica, repetições, hesitações, utilização de promptings orais do interlocutor, etc.); além disso, ele lança mão de semioses não verbais (como gestos, direcionamento do olhar, postura corporal, etc.), que atuam de maneira solidária à linguagem na configuração ou na interpretação da referência metafórica. No caso das demências, em que as atividades epilinguísticas  estariam mais severamente alteradas (Cf. Damasceno, 2000), o caráter regulador da linguagem vai depender acentuadamente de processos interlocutivos, interacionais, aumentando o papel do interlocutor na qualidade da autonomia enunciativa do sujeito e na relevância de seus processos de significação, bem como na adequada estruturação (textual, conversacional, contextual, pragmática, cognitiva) da interação (MORATO, 2008) .

A tese de que as afasias e a Doença de Alzheimer afetam respectivamente o linguístico e o cognitivo tomados como dimensões dicotômicas (e não distintas) do conhecimento tem, na realidade, dificultado uma compreensão abrangente do que se encontra preservado ou alterado, e do que se reorganiza após o comprometimento cerebral. Os dados que vimos obtendo em nossos estudos sobre a Doença de Alzheimer nos têm feito questionar a definição dessa patologia como alteração essencialmente mental, com base no postulado tradicional de existência de uma dicotomia estrita entre o linguístico e o cognitivo. 

Seguindo tendências interacionais da pesquisa (neuro)linguística, temos observado, tendo como pano de fundo estudos sobre metaforicidade, categorização e enquadres sociocognitivos no contexto da Doença de Alzheimer, por meio de análise experimental e observacional (ou seja, por meio de entrevistas livres ou observação de processos interacionais em contextos naturalísticos), que a linguagem e a interação — portanto, também o método de investigação — influenciam de maneira decisiva o ritmo e a intensidade do declínio cognitivo. Temos observado, nesse sentido, que indivíduos com Doença de Alzheimer em fase inicial, malgrado suas dificuldades linguístico-cognitivas, são capazes de reorganizar ou reorientar a significação durante as atividades em curso e em função da interação que mantêm com seu interlocutor em práticas discursivas nas quais se torna (mais) perceptível todo um conjunto de processos colaborativos e toda uma construção conjunta e intersubjetiva de referentes (MORATO, 2012). Nossos dados tendem a confirmar a hipótese de que o caráter cognitivamente heterogêneo da Doença de Alzheimer interfere na capacidade de agir de maneira seletiva, relevante e perspectivada.

Do mesmo modo, temos observado, em consonância com estudiosos da afasia a partir de perspectivas sociocognitivas e interacionais que, na complexa semiologia das afasias, a linguagem sempre diz respeito, de maneira direta ou indireta, a vários outros processos cognitivos e outras semioses interatuantes na compreensão e produção de sentido (MORATO et al., 2010) .

Temos destacado em nossos estudos que os fenômenos linguísticos e sociocognitivos encontrados assinalam não apenas a carência ou a alteração afásica ou demencial, mas a forma de constituição de processos não necessariamente patológicos de significação e de comunicação. No limite, vias explicativas para esses contextos patológicos acabam por superar os modelos meramente biomédicos, baseados, entre outros procedimentos, em uma investigação linguística e cognitiva sumária, descontextualizada, quase caricatural.■ 

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