Edição 466 | 01 Junho 2015

Do sul da América para o centro do mundo. O novo Papa e a Igreja hoje

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João Vitor Santos | Tradução: Marcos Luiz Sander

Massimo Faggioli reflete sobre o catolicismo na atualidade, dos avanços aos desafios da Igreja e do Papa

A agitação chega juntamente com Papa Bergoglio ao Vaticano. Suas ações e discursos provocam, imprimem outra lógica à Igreja. E isso se dá depois de um período visto por muitos como sombrio e de dúvidas. Afinal, para onde vai a Igreja? Como atualizar essa instituição com mais de dois mil anos sem perder a tradição? Tais questões não desaparecem com a chegada de Francisco. São oxigenadas e há linhas que podem indicar caminhos. Para o doutor em História da Religião, Massimo Faggioli, a Igreja “muda de posição” com a chegada do novo Papa. Isso reorienta a ideia de religião na sociedade. “Francisco fala muito sobre tudo. Isso é importante porque ninguém tocava nesses pontos enquanto papa. Por outro lado, isso também gera oposição”, avalia.

Faggioli também destaca que o jeito Francisco de ser Papa aguçou a curiosidade do mundo sobre a Igreja. Esse interesse pode ser mensurado na própria trajetória do historiador. Embora de família católica, Faggioli não figurava frequentemente nos bancos da Igreja. “É, minha família não era particularmente religiosa”, conta. No entanto, teve a aproximação através dos Escoteiros Católicos, grupo muito forte da juventude católica na Itália. Nasce aí seu interesse, que culmina academicamente na influência de professores como Giuseppe Alberigo . “Trabalhei com ele na Universidade de Bologna por 12 anos, de 1996 a 2008”. 

Em busca de mais oportunidades de emprego deixou a Itália e foi para os Estados Unidos. Na época, sequer imaginava que, depois de se mudar para a América, um bispo sairia lá do sul do continente para assumir o trono de Pedro. Sopra um vento de mudança sobre Roma e reascende o interesse mundial sobre a Igreja. “Esses dois anos têm sido produtivos. Aconteceram essas coisas todas, renúncia do Papa Bento XVI, o Conclave e a Eleição do Papa Francisco. Acompanhei isso tudo muito de perto”, recorda.

Por isso Faggioli passou a ser muito solicitado a pensar a Igreja nos dias de hoje. Uma Igreja que, segundo ele, pela primeira vez tem um Papa que pensa a partir do Concílio Vaticano II. “Ele não discute ou faz leituras do Vaticano II, o toma como algo dado. Seu pontificado é estruturado a partir daí”, sustenta. Por ocasião de sua participação no II Colóquio Internacional IHU – O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade, o historiador conversou com a IHU On-Line. Provocado, refletiu sobre a Igreja Católica na atualidade, através do olhar sobre o atual pontificado. 

Massimo Faggioli é doutor em História da Religião e professor de História do Cristianismo no Departamento de Teologia da University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos. Seus livros mais recentes são Vaticano II: A luta pelo sentido (Paulinas, 2013); True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium (Liturgical Press, 2012); e, em espanhol, Historia y evolución de los movimientos católicos. De León XIII a Benedicto XVI (Madrid: PPC Editorial), 2011.

O papel da religião

Faggioli percebe uma reorganização do conceito de religião no mundo, especialmente depois do atentado de 11 de setembro. De um lado, religião passou a ser entendida como algo dos malucos, os fanáticos. “E isso é profundamente contrário à natureza daquilo que a religião, e em especial o cristianismo, é. Coloca a religião numa situação muito difícil. Impõe a necessidade de se afastar dessa ideia e, ao mesmo tempo, apresentar um significado racional do que a religião — e o cristianismo — pretende, mas também sem cair num racionalismo”, pondera. O problema é que na experiência da modernidade essa atualização é quase sempre levada à racionalidade tecnológica. “O que nem sempre é associado a uma ideia de respeito ao ser humano”, completa. Ou seja, somos colocados diante de dilemas da economia mundial, ditadura do mercado financeiro, a escravidão dos seres humanos a uma máquina que decide o que pode ser descartado ou não.

Para o historiador, a religião está entre esses dois extremos. “Neste cenário, o papel da Igreja Católica é particularmente importante porque é a única igreja realmente global. Existem outras igrejas disseminadas em toda parte, mas a Católica tem uma compreensão global de si mesma que a diferencia das demais”, destaca, ao pontuar que esse é um dos motivos de haver tanto interesse das pessoas sobre as posições dos Papas. E agora, em especial, com Francisco. “Querem saber o que os Papas pensam”.

A novidade Francisco

Na opinião do pesquisador, de certo modo a Igreja Católica se conecta com a atualidade na medida em que se relaciona com os assuntos do mundo. Isso ocorreu diante de temas da atualidade nos dois últimos pontificados. Mas, claro, de formas distintas. “Com Bento XVI a estratégia foi muito mais de retirada e de não fazer parte do debate global em questões específicas. Tenho dificuldade de entender, mas sei que é uma postura profundamente europeia”. Isso porque a Igreja na Europa tem uma preocupação muito mais voltada a manter o seu legado cultural, tradições. “Como se a Igreja fosse constituída de monumentos e de pouca coisa viva.”

Perspectiva essa que foi mudada com o Papa Francisco. O pontífice passa a participar de discussões globais em torno da economia e do meio ambiente, por exemplo. “Isso explica porque há tanta oposição a ele. Se falasse somente sobre Deus, não haveria problema”, alerta. Ou seja, o Papa tem falado de temas intensos e que provocam intenso debate, além de se encontrar com pessoas que alguns católicos preferiam que não se encontrasse. “É emblemático o que está acontecendo, e a interpretação que Francisco está fazendo do momento que vivemos é muito corajosa e interessante”.

Faggioli ainda destaca que ninguém fala desses temas que o Papa aborda e tampouco da forma como aborda. “As outras pessoas que fazem isso não recebem a atenção que a Igreja Católica recebe do mundo todo”, pondera. Para ele, através de Francisco a Igreja empresta sua voz a muitos que não são ouvidos. “É exatamente o que o Vaticano II queria que a Igreja fosse já há 50 anos”. O que não quer dizer que a Igreja não viesse fazendo isso ao longo desses 50 anos. No entanto, agora com um latino-americano no comando, houve uma “espécie de salto para essa consciência global”. “E também porque o Papa foi padre, sacerdote de verdade, efetivamente. Esteve em contato com pessoas reais e com problemas reais. Passou por experiências que nenhum papa antes dele passou”, completa.

A diferença de João Paulo II

Para o historiador, João Paulo II teve uma relação com o comunismo a partir da posição de bispo. E na Polônia a Igreja Católica era oficialmente contra o comunismo. Já na Argentina a posição era ambígua. “Mover-se em meio a essa ambiguidade foi muito mais uma experiência de aprendizado para Bergoglio. A Igreja era vista como parte do regime, mas não queria ser.”

E ainda há diferenças do ponto de vista eclesial. Bergoglio era um jovem sacerdote quando a encíclica Humanae Vitae  foi publicada. Acompanhou a recepção da encíclica junto aos estudos que fez e não do ponto de vista de um bispo, ou de alguém já centrado em Roma. “Tem algo a ver com sua biografia, mas também com sua origem cultural. Como historiador, diria que, para ele, a história anterior ao Vaticano II é simplesmente algo que passou. Uma situação para a qual não queríamos voltar.”

Vaticano II: caminho para atualização

Passados 50 anos da conclusão do Concílio Vaticano II, ainda podemos tomar seus documentos como principal via para atualização da Igreja? “É exatamente isto que o Vaticano II é para o Papa Francisco e para a maioria dos católicos”, responde Faggioli. “O Vaticano II não é um momento de criação de uma nova teologia, e sim uma espécie de síntese da experiência pela qual a Igreja Católica global estava passando. Quando fala do Vaticano II, há coisas típicas de um latino-americano. Mas ele fala pouco do Vaticano II. Toma como base o que a Igreja já é. E é interessante ainda observar que não tem a intenção de rediscutir o Vaticano II ou reinterpretar questões-chave”.

Com relação aos documentos conciliares, Faggioli considera as quatro constituições – Dei Verbum, Revelação divina e Tradição; Lumen Gentium, Igreja;  Gaudium et Spes: Pastoral e a relação da Igreja com o mundo moderno

Sacrosanctum Concilium: Liturgia extremamente importantes. No entanto, destaca que Francisco dá claros sinais de que Gaudium et Spes  é, para ele, a fundamental. “Interessante que esse documento é o menos citado pelo Papa Bento XV. Isso já é uma mudança interessante”, acrescenta.

A Reforma de Francisco

O Papa Francisco tem condições de promover uma reforma sem mexer no Direito Canônico.  É o que acredita Massimo Faggioli. “O Direito Canônico pode ser mudado aos poucos. Ele já está fazendo alguma coisa. Está fazendo mudanças na estrutura sem dizer que todo pontificado se resume a esse aspecto”. Assumir isso colocaria o Papa numa situação complicada, potencializando seus opositores. “Está em busca de reformas, mas a maioria das coisas que faz não está relacionada a isso.”

Segundo o historiador, isso fica mais claro quando se observa a condução que Bergoglio faz nos sínodos. Pela primeira vez, bispos puderam se manifestar sobre assuntos que lhes eram reais e presentes. É dessas reformas que Faggioli fala. Movimentos que parecem pequenos, mas têm grande significado. “Para fazer isso, não precisou mudar o Direito Canônico. Mas mudou todo o espírito, o clima”, pontua. 

A maior mudança, para Faggioli, é o fato de estar governando sem a cúria romana. Isso o diferencia crucialmente dos dois antecessores. “É o caso do Santo Ofício. Qual sua função?”, questiona. O episódio envolvendo o cardeal Müller  também é significativo sob esse aspecto. “O que ele disse já teve reações. Ninguém acredita no que disse. Ninguém acredita nele”. Na visão do historiador, é uma tentativa de marcar presença, “uma declaração de impotência”.

A Igreja nos EUA e a resistência 

Os bispos italianos têm uma boa aceitação de Bergoglio, na opinião de Faggioli. “Só acho que muitos estão confusos. Acham que o que ele está fazendo é algo ingênuo. Na verdade, quem não gosta simplesmente ignora”. Claro, ignora de uma forma “benigna”, como que tirando o foco das questões levantadas pelo Papa. “Já nos Estados Unidos é completamente diferente”, assinala. Para ele, porque nesse país o catolicismo é muito mais ideológico. “Os católicos conservadores votam em um partido. Já os progressistas votam em outro. Numa divisão muito clara”.

A essência da divisão, para o historiador, se dá porque a Igreja nos Estados Unidos se fixou basicamente no debate sobre sexo, aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo, tendo, assim, os favoráveis e os contrários. O que o Papa tem dito é mais ou menos a mesma coisa, mas num contexto muito mais amplo do ensino social da Igreja. “Assim, os católicos que estavam acostumados a ver seus bispos falarem sempre sobre esses mesmos assuntos de repente ouvem o Papa falando sobre outros assuntos. Então, acham que é um liberal e até um traidor da fé católica. Isso em todos os níveis, mesmo entre bispos e cardeais”. No entanto, reconhece que de modo geral, entre as pessoas, é muito popular nos Estados Unidos. O problema é que há um círculo de pessoas, como empresários mais conservadores, que não pactuam com esses discursos mais igualitários do Papa. “E os bispos estão nesse fogo cruzado, entre essas pessoas, os que gostam dele e o próprio Papa”.

São fatores que fazem da próxima visita de Francisco aos Estados Unidos um momento extremamente importante. “Porque vai ser a mais difícil. Especialmente quando falar no Congresso, onde há muitos políticos católicos que não gostam dele e que dizem isso”, destaca. O fato de assuntos políticos estarem na agenda da Igreja e serem levados por Francisco potencializa isso ainda mais. “Ele é um agente muito político”. Além disso, irá aos Estados Unidos exatamente depois de sua passagem por Cuba. “No meu livro sobre o Papa Francisco , tem um capítulo inteiro dedicado ao problema americano do Papa...”. Para completar, ainda há a nomeação de novos bispos cuidadosamente articulada por Bergoglio. Bispos que “são completamente diferentes dos anteriores”. E, com relação à visita, “há expectativa de que estabeleça uma linha de comunicação com o episcopado”.

Traições e traduções

Além de todas as particularidades da Igreja nos Estados Unidos, ainda há outro elemento que potencializa o conflito. É a tradução equivocada da fala de Francisco. Faggioli explica que muitos jornalistas da imprensa norte-americana não dominam o italiano em profundidade. Isso os leva a incorrer no erro de perder o contexto no instante da tradução e, assim, acabam traindo a mensagem. 

Um exemplo é o que houve no encontro do Papa com Mahmoud Abbas, presidente palestino. “O Papa disse a ele: ‘eu desejo que você possa ser um anjo da paz’. Nos Estados Unidos, foi dito que o Papa Francisco o havia chamado de ‘anjo da paz’. Isso acontece o tempo todo, com muita frequência”, explica. O que aumenta a expectativa também sobre a tradução da fala do Papa durante a visita aos Estados Unidos. “Eu não sei que língua vai falar! Espero que fale em Espanhol...”. ■

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