Edição 466 | 01 Junho 2015

A vitória do Podemos e a expectativa de um efeito dominó contra a austeridade

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Patrícia Fachin

#DossiêEspanha - Para Rudá Ricci, o partido espanhol está crescendo e vai dirigir as principais cidades do país. O perfil jovem e inovador destaca o retrato de uma nova esquerda

O número de votos que os candidatos do Podemos receberam nas eleições municipais e comunidades autônomas na Espanha no dia 24-05-2015, não é “uma total surpresa”, avalia Rudá Ricci em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone. A surpresa, lembra, ocorreu há um ano, quando o Podemos surgiu como consequência das inúmeras manifestações que eclodiram no país com o 15M , que tomou as ruas e praças da Espanha em 2011.

De acordo com o professor, atualmente a Espanha vive uma “explosão” de novos partidos, que surgem para atender demandas territoriais. O Podemos , partido que tem maior representatividade nacional, congrega “forças de esquerda tradicionais da Espanha, com algumas forças novas” e “trouxe para dentro de si a Esquerda Unida. A Esquerda Unida, por sua vez, é um racha do Partido Comunista Espanhol com ecossocialistas e movimentos feministas”. Contudo, explica, “existem também, na Catalunha, articulações troikistas clássicas, principalmente da Quarta Internacional, que é mandelista, ligada a um economista belga chamado Ernest Mandel. Além disso, tem lideranças operárias de muitos sindicatos, e lideranças nacionais contra o arrocho econômico, que é muito parecido com esse que a Dilma criou no Brasil”.

O número de votos que elegeu a nova prefeita de Barcelona, Ada Colau , porta-voz da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca – PHA  e integrante do Podemos, deve ser entendido, de acordo com o sociólogo, a partir da presença fortíssima do movimento feminista em algumas regiões da Espanha. “A vitória dessas mulheres, Colau e Manuela, não é à toa. Uma das características da mudança da composição política de 2011 para cá na Espanha vem do movimento feminista, do movimento de autonomia e independência dessas regiões, como é o caso da Galícia e Catalunha. Esse movimento contra as hipotecas é liderado por mulheres”, pontua. Para Ricci, o país “está vivendo uma transição forte, com uma crítica forte aos partidos. (...) Mas quando você percebe a eleição dos novos, do Podemos, e do Ciudadanos, que é outro partido que também está crescendo - mas eles são mais liberais -, percebe como esses novos partidos estão corroendo a estrutura do sistema partidário vigente. Ou seja, o país está numa transição que pode ser que comece a se concluir nas eleições nacionais do final do ano”.

Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista Político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica) e Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto), entre outros.

A entrevista está disponível na íntegra no site do IHU.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como o senhor interpreta o resultado das eleições municipais e comunidades autônomas na Espanha? O resultado foi uma surpresa em algum sentido?

Rudá Ricci – Em primeiro lugar, gostaria de dizer que o século XXI começou na Europa neste ano, com a eleição do Syriza  na Grécia e com a estupenda votação que o Podemos teve em várias cidades da Espanha, especialmente no Sul do país, em Madri, em Barcelona e em outras cidades da Catalunha. Acontece que não se trata de uma total surpresa. A surpresa aconteceu em 2014.

Vamos lembrar rapidamente o que aconteceu na Espanha: em 2011 aconteceram manifestações gigantescas - algo semelhante ao que aconteceu no Brasil em junho de 2013 - e, em 2012, essas manifestações começaram a fazer uma série de ações junto ao Congresso Nacional e aos Parlamentos regionais – o que não tivemos no Brasil.

Em 2012, por exemplo, 50 mil pessoas abraçaram o que seria o Congresso Nacional em Madri e gritaram: “Vão para casa”. Nesse momento, as manifestações explodiram nas redes sociais da Espanha – várias universidades analisam essas manifestações há algum tempo e mostram mapas de como foi a repercussão desse ato nas redes.

Em 2013 nasceu o primeiro partido político que saiu das ruas, que é o partido X. Esse partido era, de certo modo, muito radical, porque não queria lideranças políticas e queria que houvesse uma participação de base ampla, especialmente nas redes sociais, ou seja, queriam uma revolução na forma de organização política da Espanha. Mas o que importa para nós é o fato de ter nascido um partido político que surgiu das manifestações de rua. Esse processo, entretanto, não ocorreu no Brasil.

Articulações políticas

Com a politização das manifestações do 15M de 2011, finalmente, em janeiro de 2014 nasceu o Podemos, um partido diferente do partido X, porque congregava forças de esquerda tradicionais da Espanha, com algumas forças novas. O Podemos trouxe para dentro de si a Esquerda Unida.

A Esquerda Unida é um racha do Partido Comunista Espanhol com ecossocialistas e movimentos feministas.

Existem também, na Catalunha, articulações troikistas clássicas, principalmente da Quarta Internacional , que é mandenista, ligada a um economista belga chamado Ernest Mandel . Além disso, há lideranças operárias de muitos sindicatos, e lideranças nacionais contra o arrocho econômico, que é muito parecido com esse que a Dilma criou no Brasil. Assim, o principal movimento social na Espanha hoje é o movimento contra a cobrança de empréstimos e hipotecas de casas próprias, porque muitas famílias estão sendo despejadas de suas casas por não conseguirem pagá-las.

Além disso, tem os movimentos feministas e os movimentos de autonomia regional, além do grupo que coordena o Podemos, que é um grupo de professores universitários de Ciência Política, Economia e Comunicação Social, cujo líder principal é Pablo Iglesias. Esse grupo do Podemos é muito inovador e foi consultor dos governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela.

Então, eles não são qualquer grupo; são um grupo de esquerda muito hábeis na comunicação, e no Brasil pouco se sabe o que eles estão fazendo.  Por exemplo, Pablo Iglesias lançou um livro com uma série de autores que analisam o Game of Thrones , que muitos jovens estão assistindo na Europa. Veja, ele é muito esperto e organizou um livro com pessoas comentando o Game of Thrones a partir das suas militâncias, ou das suas categorias profissionais, ou seja, são economistas, ambientalistas. A capa do livro é o trono do Game of Thrones, cheio de espinhos, e quem está sentado na poltrona é o Pablo Iglesias. Veja que eles têm uma capacidade de comunicação de massa ampla, sendo muito irônicos.

Eu estou trazendo eles para o Brasil nos dias 20 e 21 de junho, mas me reuni com eles no ano passado, na Espanha. Lá, eles me disseram que não gostam de falar de esquerda e direita, mas, sim, falar de “castas dos de cima e dos debaixo”. Segundo essa interpretação, os partidos que acabaram de perder a eleição para eles são os “de cima”, que se aliaram aos grandes empresários, que estão expulsando as pessoas de suas casas.

O Podemos está crescendo e será o grande novo partido da Espanha nos próximos meses. Eles é que irão dirigir as principais cidades da Espanha, com um perfil jovem, inovador e de esquerda.

 

IHU On-Line - Qual a representatividade da eleição de Colau, em Barcelona e de Manuela Carmena , em Madri? Qual a expectativa em torno de se ter duas prefeitas que surgiram das manifestações de rua ? Qual o significado político disso?

Rudá Ricci – Queria lembrar que no país Basco, que fica a Nordeste da Espanha, a organização feminista é muito forte e em outras regiões do país também. Em novembro e dezembro eu estive em regiões mais rurais da Espanha, em Mérida, e lá o movimento feminista é fortíssimo. Essa é uma cidade polo regional, mas ali o movimento operário e feminista foi muito forte. Com isso, quero dizer que a vitória dessas mulheres, Colau e Manuela, não é à toa.

Uma das características da mudança da composição política de 2011 para cá na Espanha vem do movimento feminista, do movimento de autonomia e independência dessas regiões, como é o caso da Galícia e Catalunha. Esse movimento contra as hipotecas é liderado por mulheres.

Em Portugal, o grupo de esquerda, que é outro partido, que tem esse estilo mais tradicional do Syriza e do Podemos, é liderado por mulheres. Inclusive, nesse evento dos dias 20 e 21 de junho, vamos trazer as duas irmãs Mortágua, que são dirigentes do Bloco de Esquerda. As mulheres estão significando uma expressão dessa mudança política que é muito maior na Europa.

No Brasil também não é conhecido o fato de que há, na Europa, uma articulação muito forte entre esses partidos de tipo novo, como o Podemos, o Syriza, o Bloco de Esquerda de Portugal e a articulação de esquerda na Irlanda. Pelo menos esses quatro grupos estão muito articulados entre si.

 

IHU On-Line – No Brasil sempre se faz referência ao Podemos como o principal partido que surge desse descrédito com os partidos tradicionais, sem se mencionar esse novo quadro político, com o surgimento de novos partidos regionalizados.

Rudá Ricci – Sim, trata-se de um quadro novo, muito regionalizado. É como se de repente surgisse uma série de novos partidos no Nordeste brasileiro. Na verdade, no Brasil está, timidamente, acontecendo algo parecido.

Por exemplo, o PSOL está ocupando um lugar em algumas regiões do Brasil, como no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Brasília e no Pará. Mas tem uma articulação em São Paulo e no Rio de Janeiro de autonomistas, ecossocialistas, que vieram do PT, do PCdoB, da Rede e estão formando esse novo partido que se chama Raiz. A Luiza Erundina  está vindo para esse novo partido, o Roberto Amaral  está discutindo a possibilidade de se vincular a ele, e alguns petistas também estudam a possibilidade de sair do PT e migrar para esse partido. Então, está tendo uma movimentação, mas principalmente do Centro Sul do país. Se vê que está tendo uma quebra do sistema partidário por dentro, porque os brasileiros não conseguem se ver dentro dos partidos criados nos anos 1980. Está tendo uma procura por novos partidos, como foi a procura pela Marina  nas eleições passadas. Os brasileiros querem tentar outra via. Isso aconteceu na Espanha, mas lá teve uma explosão nacional.

Eu me reuni com o pessoal do Podemos, na Espanha. Eles marcaram comigo numa praça no centro de Mérida, no inverno. Quando cheguei na praça, não vi ninguém, aí telefonei para um dos membros do partido, que disse já estar chegando. Nesse meio tempo, dei uma olhada para os lados e vi duas pessoas, um senhor e uma jovem, que estavam abrindo um portão e acendendo uma luz numa sala em que tinha uma mesa grande, cheia de jornais. Fui até lá e perguntei se era ali que iria acontecer a reunião do Podemos. Eles confirmaram e perguntaram de que país eu era e já me convidaram para participar - eu vivi isso no início dos anos 1980, com a formação do PT. O senhor foi um líder importante da região e era do Partido Comunista Espanhol e a jovem era do movimento feminista. Essa era uma das poucas sedes físicas do Podemos na Espanha. Eles se reúnem toda semana, à noite, e cada noite um coletivo deles usa o espaço da sede. Naquela noite, era o dia da reunião das feministas. No dia seguinte seria a reunião do grupo que estava organizando a campanha da eleição que eles ganharam nesse domingo. Então, o que quero mostrar ao falar isso é que há uma autonomia impressionante do uso do espaço da sede. Não tinha um dono: e esse é o Podemos.

 

IHU On-Line - Quais as expectativas em relação às eleições nacionais do final do ano e qual poderá ser o peso político do Podemos daqui para frente?

Rudá Ricci - Agora é a hora de o realismo cair pesado sobre os ombros de quem vai governar. Eles terão dificuldades imensas para governar, porque não têm dinheiro. Eles vão frustrar os mais radicais, porque vamos lembrar que houve um racha no Podemos no mês passado. O grupo do Pablo Iglesias, que é mais tradicionalista e centralizador em termos de organização, ganhou as eleições internas do Podemos, e os mais inovadores em termos de organização saíram do partido. Então, vamos ter como consequência agora um banho de realismo político. Por outro lado, os cinco deputados eleitos para o Parlamento europeu do Podemos, que foram eleitos no ano passado, vão se encontrar com o Syriza e com os irlandeses com muito mais força. O que temos de entender é que se, por um lado, a crise econômica estará na conta do Podemos e eles terão de inovar em termos de política pública, e agora vem a prova de fogo, por outro lado, agora aumentam as forças políticas da Europa que são contra os pacotes de austeridade, que estão na Grécia, na Irlanda, em Portugal, em todo o leste europeu. Neste momento é possível que estejamos vivenciando o efeito dominó, ou seja, o início de uma nova onda de políticas desenvolvimentistas antiausteridade, fazendo com que o discurso do FMI caia de uma vez por todas em desuso. Vamos lembrar que a crise dos EUA de 2008 gerou um pacote do FMI que foi rechaçado pelo Obama, mas é o mesmo pacote que a Dilma quer implantar no Brasil.

Eu estou falando do pacote da Dilma, porque estamos vendo um possível suicídio político do PT e, nesse sentido, a eleição da Espanha pode significar um farol para enxergarmos o futuro do Brasil. Tenho a impressão de que o Podemos terá a dificuldade de governar na crise, mas terá a vantagem de se juntar aos seus amigos do Syriza, que também são poder. É o início de um efeito dominó que atinge outros países nessa mudança. Vamos lembrar que os três países que comandam essa austeridade são a Alemanha, a França e a Inglaterra. Vamos lembrar ainda que na França, na Áustria, na Bélgica e na Suíça a extrema direita está ganhando ainda mais votos. A Europa está numa radicalidade ideológica dos dois lados muito forte. A eleição do Podemos pode significar uma força para a esquerda nesse momento. Ou seja, tudo está em aberto.■

 

Leia mais...

- “A disputa política está nas ruas”. Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 27-07-2013, no sítio do IHU;

- O enorme fosso entre as ruas e a política institucional. Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 17-03-2015, no sítio do IHU;

- O crescimento do Syriza e do Podemos. Algo a ver com o Brasil? Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 08-02-2015, no sítio do IHU;

- Disputa entre PT e PSDB e o pêndulo do eleitorado frustrado e descontente. Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 06-10-2014;

- “O PT se tornou o PCB do século XXI”. Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 31-03-2013, no sítio do IHU;

- O PT a reboque do lulismo. Entrevista com Rudá Ricci, publicada em Notícias do Dia, de 10-10-2009, no sítio do IHU.

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