Edição 463 | 20 Abril 2015

CARLOS RODRIGUES BRANDÃO

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Carlos Rodrigues Brandão

Em que creio eu? - Carlos Rodrigues Brandão é doutor em Ciências Sociais pela USP e mestre em Antopologia e Comunicação pela UnB. Também realizou estudos de pós-doutorado na Facultad de Geografia e História da Universidad de Santiago, Espanha e na Universitá Degli Studi di Perugia, Itália. Atualmente é professor na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, professor visitante na Unversidade Federal de Uberlância - UFU e professor convidado na Universidade Federal de Goiás - UFG.

Minha pergunta é do tamanho do Universo. E a única resposta que me preenche 

a indagação é o próprio Universo.

Clarisse Lispector

 

Creio...

Eu creio que deveria haver o nada e não o que há. Mas como existe o que há e em que eu creio, creio que nada do que há existe ao acaso. Na verdade creio que o acaso é o nome do nada quando ele tenta existir.

Creio que em mim, creio que em nós, creio que entre-nós e por toda a parte - incluídas as infinitas e quase impensáveis dimensões e partes do existente que sequer imaginamos - tudo o que há provem de uma origem, evolui e transforma-se com um sentido e se destina a uma finalidade. Qual? Não sei. Mas creio.

Creio que nós, surgidos há eras atrás nesta pequenina esquina do Universo, somos seres através dos quais o que existe torna-se consciente de si-mesmo de uma forma reflexiva. Através de nós as bactérias e também as estrelas se pensam. Creio que possivelmente em milhões de outros mundos outros seres existentes poderão experimentar esta mesma extraordinária aventura.

Creio que como nada “está aí” ao acaso, talvez com mais razões também nós. Creio que os seres de quem somos a herança não foram criados perfeitos e “em estado de Paraíso”. Prefiro acreditar que os nossos ancestrais desceram das árvores há alguns milhões de anos, e ao longo de uma difícil e maravilhosa trajetória evoluíram, transformaram-se e se fizeram a si-mesmos. E nos fizeram ser quem somos.

Prefiro crer nesta perigosa e fascinante aventura humana, a invés de acreditar que um deus acostumado a criar e a descriar, a fazer e a desfazer, a vigiar e punir, criou os nossos inocentes e pelados pais e os expulsou do Paraíso para o sofrimento quando eles resolveram deixar de ser inocentes. Creio que o que está escrito no Gênesis (na verdade nos “dois Gênesis”) é apenas um mito que um povo pária e pastor criou para tentar dizer o que teria acontecido com eles. E porque apesar de procurarem ser tão fiéis a um deus ao mesmo tempo amoroso e implacável, eles eram afinal mais nômades e infelizes do que os outros povos. Os nossos indígenas possuíram no passado e possuem até hoje centenas de outros “Gênesis”. Alguns deles bastante mais humanamente generosos.

Creio que além de não estarmos aqui – e nem em parte alguma – ao acaso, somos a dimensão conscientemente reflexiva de um universo que desde a sua criação flui e se transforma. E ao se transformar ascende e unifica. E ao ascender e unificar se espiritualiza.

Creio que tudo isto poderia estar acontecendo sem nós, os humanos. Mas já que nós “acontecemos”, tudo “isto”, a partir de nós-estarmos-aqui, não poderia mais acontecer sem nós.

Creio que o grande desafio da humanidade não é apenas sobreviver sustentavelmente. Isso é conversa pra reunião da ONU. Creio que fomos e seguimos sendo destinados a muito mais do que isto. Estamos aqui para, ao longo das eras, entre acertos e tropeços, entre a paz e os massacres, entre a opressão e a liberdade, entre perguntas sem respostas e respostas sem sentido, entre o egoísmo dos sistemas e a generosidade do fundo do coração humano, elevarmos o que há de humano - e, portanto, divino - em nós, a dimensões e realizações destinadas a tornar a charada mal-humorada do Apocalipse um infeliz conto de terror.

Creio que mesmo a partir dos “piores”, somos seres individual e coletivamente destinados a realizar na história humana e em cada um/uma de nós, aquilo que os cristãos chamam de “salvação” ou “redenção”, os budistas de “iluminação”, os poetas de “poesia” e as crianças de “felicidade”. Assim, não posso crer em absoluto que a “salvação” de alguns poucos (mesmo que sejam bem mais do 144 mil) custe a “danação” de todos os outros. Se isto fosse verdadeiro, o Céu dos salvos haveria de ser um Inferno também, se eles guardassem lá “na glória eterna” um mínimo de sentimento humano.

Creio que estamos ainda apenas a um passo além da “pré-história”. Creio que a verdadeira história humana aqui no Planeta Terra está ainda no começo. Creio na “noosfera”, creio no “Ponto Ômega”. Creio que faz anos sou um leitor costumeiro de Pierre Teilhard de Chardin. Creio que se um deus há, em nossos corações e entre nossas mãos e mentes nós o estamos recriando a cada dia. Creio que se ele existe, haverá um dia em que a “Terra Humana” estará a tal ponto iluminada que ele haverá de querer vir habitá-la aqui com homens e as mulheres, nossos distantes humanos herdeiros.

Hoje é o dia 3 de abril de 2015. É a Sexta Feira Santa. Um dia que em alguns lugares de “roça” no Brasil o povo chama também “Sexta Feira Maior”. Dia de pesado luto e aqui, no Vale da Pedra Branca, no Sul de Minas onde estou agora, é quase um pecado pentear os cabelos e, mais ainda, sequer varrer a casa. Não fui a igreja alguma, porque creio que se um deus há, ele está mais na floresta ao meu lado do que em qualquer altar. Iria, se uma pequena comunidade de pessoas fosse comigo.

Enquanto escrevo isto coloquei no som do computador alguns cantos gregorianos (velho costume que recomendo enfaticamente). Os monges da Abadia de Silos estão cantando o Credo Católico que aprendi de menino pequeno, em minha família católica tradicional, nas igrejas de Copacabana e da Gávea, e nos colégios católicos de que fui aluno. De todo o Credo que ouço cantado agora, eu me pergunto em que creio ainda. “Ao pé da letra” creio que eu creio em muito pouco. Difícil crer em “Um deus todo poderoso”. A menos que, “amoroso” ele seja bem mais o “Abba Pai” de um judeu chamado Jesus, do que o “YAVÉ” impronunciável e rancoroso de Moisés.

Hoje se festeja a “Morte de Jesus Cristo”. Passei anos de minha vida, entre o pai e a JUC, aprendendo que deveria viver com compungida piedade e com a certeza de eu era parte da culpa do que havia acontecido, a memória do sofrimento inigualável da morte do homem que se proclamava “Filho de Deus”, como qualquer outra pessoa de fé. O homem nazareno que ousou dizer em uma língua hoje desaparecida, no que mais tarde chamaram: “sermão da montanha”, o que eu acredito que em muitas línguas, entre pessoas de incontáveis outras culturas ao longo da história humana, outras mulheres e outros homens terão pronunciado também de igual maneira, com quase as mesmas palavras.

Hoje, depois de tantos anos entre crenças e descrenças (e elas se equivalem se os gestos do coração são os mesmos, entre umas e outras), não me espanta que em vez de mergulhar “no mistério do sofrimento e da morte de Jesus Cristo”, eu me veja mais solidário com o sofrimento do ladrão ao seu lado. E não o “bom ladrão”, mas o “mau”. Penso nele e gostaria de me ver sensível ao sofrimento dele, tão humano. Teria ele uma mãe que algum dia o consolasse? Teriam um outro alguém? Morreu tão absolutamente só e sem sequer sob o olhar aos prantos de uma mãe e de outras mulheres e discípulos! Ele não se arrependeu porque talvez não tivesse nada do que se arrepender? Terá sido um mero ladrão, ou um corajoso revoltoso não subordinado nem aos sacerdotes e nem ao poder romano? Qual o seu nome?

E se por algumas palavras de medo e pesar um dos ladrões foi parar no Paraíso e outro não, do que vale o Paraíso para onde o outro foi?

Eu quero simplesmente isto: o impossível. 

Ver Deus.

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