Edição 460 | 16 Dezembro 2014

“Deus é antropocêntrico por ser amor”

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Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução: André Langer

Maximiliano Herraiz reflete sobre a importância de convertermos a suprema graça que nos constitui no desafio de englobar Divino e humano juntos

Para o pesquisador Maximiliano Herraiz, estudioso da mística de Santa Teresa, descentra o antropocentrismo cristão-teresiano do eu egoísta, voltando-se para o Deus que centra em nós sua divina comunicação. É isto que “nos faz romper com o antropocentrismo que suicida e nos abre ao que vivifica: o êxtase supremo, como o êxtase de nosso Deus, que se revela a nós ‘saindo de si mesmo’ para fazer-se um de nós, fazendo-nos sair de nós para ser amor que se entrega aos outros”.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, ele defende que o grande desafio não está na publicação das obras de Teresa de Jesus, mas em trazer leitores para suas obras, introduzindo-a na compreensão de sua confissão de vida. Compreender “o que Deus realiza em quem o acolhe, que pessoa nova vai nascendo na medida em que se responde a este Deus ‘louco de amor por sua criatura’, um Deus ‘que anda buscando ter a quem dar’”.

Maximiliano Herraiz García é padre da Ordem dos Carmelitas Descalços. Especialista nos estudos dos santos fundadores da Ordem, Teresa de Jesus e São João da Cruz, é escritor de trajetória e reconhecimento internacional. Espanhol de nascimento, vive há anos na África, tendo percorrido os cinco continentes evangelizando através dos místicos carmelitas. Atualmente é professor da Universidad de la Mística, em Ávila, Espanha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a atualidade e a importância das obras de Teresa de Jesus ?

Maximiliano Herraiz - A atualidade de Teresa de Jesus, como a de toda grande testemunha de Deus, é hoje mais atual que ontem: por sua palavra sobre Deus experimentado, sobre a pessoa que recria permanentemente a ação amorosa de Deus.

 

IHU On-Line - Quais são os maiores desafios em editar suas obras?

Maximiliano Herraiz - O desafio não está em editar suas Obras, mas em ajudar a pessoa de hoje a lê-las, introduzindo-a na compreensão de sua confissão de vida: o que Deus realiza em quem o acolhe, que pessoa nova vai nascendo na medida em que se responde a este Deus “louco de amor por sua criatura”, um Deus “que anda buscando ter a quem dar”.

 

IHU On-Line - Por que Moradas e O Castelo Interior são consideradas centrais nos seus escritos?

Maximiliano Herraiz - Porque a escritora Teresa estava na plenitude da sua vida humanamente divinizada e divinamente humanizada e, portanto, tinha uma visão mais profunda e humana do caminho que havia percorrido, e, além disso, tinha um manejo melhor da pluma: escritora consumada.

 

IHU On-Line - Como a categoria da liberdade perpassa os escritos teresianos?

Maximiliano Herraiz - Porque é o pressuposto e o fim de todo processo humano-espiritual. A consigna que ela nos entregou no caminho da perfeição é certeza e luminosa: “A verdade-humildade te torna livre para amar”. Onde não há luz, onde a verdade não ilumina os nossos passos não há nada, senão vazio e sombras. E onde há liberdade, fruto da verdade, está tudo: o amor verdadeiro e a liberdade verdadeira.

 

IHU On-Line - Em que medida a obra de Teresa de Jesus é uma resposta ao antropocentrismo que começava a tomar forma em seu tempo, nos começos da Idade Moderna?

Maximiliano Herraiz - Com toda simplicidade e verdade, segundo penso, porque Deus é antropocêntrico, por ser amor. O antropocentrismo cristão-teresiano é descentramento do eu egoísta e centramento agradecido no Deus que, centrando-se em nós, em sua divina comunicação, nos faz romper com o antropocentrismo que suicida e nos abre ao que vivifica: o êxtase supremo, como o êxtase de nosso Deus, que se revela a nós “saindo de si mesmo” para fazer-se um de nós, fazendo-nos sair de nós para ser amor que se entrega aos outros.

 

IHU On-Line - Como se mesclam em sua trajetória a busca pela verdade, a dimensão intelectual, reflexiva e uma afetividade poderosa?

Maximiliano Herraiz - Não se mesclam, crescem inevitavelmente unidas. Teresa é a conjugação perfeita de um coração que busca a verdade, um coração que faz amar e de uma verdade que faz viver. A ponte entre verdade e amor, inteligência e afetividade, adquire em Teresa uma harmonia perfeita.

 

IHU On-Line - Em que consiste sua argumentação na dissertação “Teresa de Jesus, em busca de letrados”?

Maximiliano Herraiz - Justamente no que acabo de dizer respondendo à pergunta anterior. Teresa busca em seu diálogo com os letrados que lhe assegurem que sua experiência está de acordo não com sua “teologia”, mas com a Palavra de Deus e, portanto, com a comunidade “guardiã e garante da Palavra de Deus”, a Igreja de pertença.

 

IHU On-Line - Quais são os traços fundamentais da teologia e da antropologia de Teresa de Jesus, conforme sua tese “Solo Dios Basta”?

Maximiliano Herraiz - Dito simplesmente: uma teologia e uma antropologia “do excesso”. Um Deus que não se cansa de dar, de SE dar, que não faria outra coisa se achasse a quem, e uma pessoa, infinita receptividade, por ser “criada à imagem e semelhança de Deus”. “Somos capazes de amar como somos amados.” João da Cruz  precisa que é no mistério trinitário que se chega à plenitude do ser: “calor e luz dão junto a seu Querido” (LI 3). Ou seja, que não só recebemos a comunicação infinita de nosso Deus, mas que damos ativamente a Deus, Deus mesmo.

 

IHU On-Line - Em que sentido os exercícios espirituais com Teresa de Jesus e São João da Cruz continuam inspirando as pessoas em busca de uma transcendência que se dá na imanência?

Maximiliano Herraiz - Porque o situam no centro mais íntimo e puro do Evangelho, a Boa Nova de Deus: somos tão filhos de Deus quanto Jesus; ele “por natureza” e “nós por adoção”. João da Cruz nos disse isso em sua primeira enunciação escrita de sua fé cristã. Ele coloca nos lábios do Pai, no diálogo com o Filho, estas palavras: “Ao que a ti te amar, meu Filho, / a mim mesmo me daria, / e o amor que eu em ti tenho, / nele mesmo eu o poria”.

 

IHU On-Line - Qual é o principal legado de Teresa de Jesus na atual Ordem Carmelita Descalça?

Maximiliano Herraiz - Para todos: que curemos toda dispersão “recolhendo-nos” no mais íntimo da nossa fé: a relação interpessoal com Deus e entre nós, que inclui na definição da oração: “tratar de [realizar a] amizade, conformando a nossa condição à sua”.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Maximiliano Herraiz - Mais sobre o mesmo: que convertamos a suprema graça que nos constitui no desafio único, que tudo engloba: “Divino e humano juntos”.

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