Edição 459 | 17 Novembro 2014

A Companhia de Jesus e a Modernidade de aspiração transcendental

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Márcia Junges | Fotos: Nahiene Machado

A Modernidade enquanto um momento de reconhecimento do ser humano como autossuficiente, racional e autônomo, bem como detentor da crença que a razão “ilumina” e é objetiva, foi a provocação inicial feita pelo Prof. Dr. Leandro Karnal na tarde da quinta-feira, 13-12-2014, na mesa-redonda intitulada A companhia de Jesus e a Modernidade.
Leandro Karnal na mesa redonda A companhia de Jesus e a Modernidade

Entre outros apontamentos, o pesquisador acentuou que esse período da História coincide com a criação da imprensa e a expansão marítima. Alguns historiadores apontam o ano de 1517, quando Lutero  prega na porta da Igreja de Wittenberg suas teses que deram vazão à Reforma, como o começo da Modernidade. Outros tributam ao invento da imprensa o começo desse período, ao passo que há uma corrente que localiza a descoberta da América como marco fundador.

Karnal acrescentou, ainda, que para compreender a política desse tempo é imprescindível ler o capítulo 18 de O Príncipe, o clássico de Nicolau Maquiavel.  “Trata-se de um manifesto do racionalismo político”, disse, referindo-se à obra. “A partir de Maquiavel fica claro que política não tem a ver com o bem comum. A política é, na verdade, um projeto para conquistar o poder e dele retirar benesses.” 

Esse projeto de Modernidade foi identificado com os jesuítas, que representavam uma modernidade religiosa, observa. Na literatura pós-pombalina domina a ideia de que os membros dessa ordem são mais modernos e autônomos. A Companhia de Jesus é tida como racional, prática, confiante na razão do homem. Além disso, os jesuítas são muito práticos e não têm inúmeras obrigações que outras ordens devem cumprir, como o voto de pobreza, por exemplo. “O jesuíta deve ser tão pobre quanto precise para realizar a sua missão.”

Karnal discutiu, também, o surgimento da propaganda na Igreja Católica através do domínio da escrita e da palavra. Enquanto uma sociedade letrada, a Companhia de Jesus domina sua própria propaganda e produção e consegue constituir a produção de um significado muito importante. 

Panóptico interior

A querela dos ritos, ocorrida na China em função da inculturação da religião católica naquele país, poderia ser vista como um passo para a Modernidade, pois faz uma distinção significado-significante, valendo-se do Cristianismo como chave de leitura de culturas. 

Já os Exercícios Espirituais nos convidam que façamos um panóptico de nós mesmos, algo como uma capacidade de internalizar a vigilância. “A Modernidade jesuítica é dialética, pois aponta para o controle do indivíduo sobre si, mas pode ser uma instrumentalização desse controle”, destacou.

Karnal observou que Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, pode ser considerado como um homem intelectualmente limitado. Ele aprendeu latim já adulto, e não conseguiu desenvolvê-lo bem como o fez Antonio Vieira.  Se Inácio é o fundador e possui tais senões, os autores da Companhia de Jesus tornam-se famosos como grandes intelectuais, conhecidos por sua inserção nas mais variadas áreas do saber.

Modernização reacionária

Seria uma moralidade conservadora aquela que “moderniza” a cristandade medieval? A pergunta de Karnal causa um certo desconforto na plateia. Toda a modernidade é instrumental e visa a um fim, e é elaborada para o controle de um grupo, emenda. “Toda modernização é, em si, conservadora. Não há modernização revolucionária, mas reacionária. O projeto de poder vem acoplado com um projeto de pensamento”.

Nesse contexto ele convidou a refletir sobre a chegada da Companhia de Jesus no Brasil, em 1549, quando Inácio ainda era vivo. “Esta era uma Companhia missionária”, embora seja fundamental compreender que a Companhia não é um bloco homogêneo, e assim não pode ser rotulada como um todo único. 

“Os jesuítas pertencem a um momento no qual está sendo elaborado o conceito de humanidade, no lugar de cristandade. Esse conceito estava longe de ser inclusivo, e assim é que precisa ser ponderada a defesa dos índios pelos jesuítas e o tráfico de negros pelos missionários na África”, acrescentou. Na realidade, pode-se falar de duas modernidades complementares: a de Lutero e a de Inácio.

Lutero, que utiliza a razão para denunciar que as indulgências são absurdas, é o mesmo homem que se alia aos nobres e manda afogar os camponeses em sangue. “As contradições de Lutero são as mesmas de Inácio”, sentenciou Karnal. Ele frisou, ainda, que é preciso pensar que tanto o surgimento da Companhia de Jesus, em 1540, bem como a sua restauração, em 1814, ocorrem em períodos econômicos decisivos da Europa sobre os outros continentes, e os jesuítas são protagonistas deste processo globalizador.

Ao final de sua fala, Karnal pontuou que a Modernidade à qual os jesuítas pertencem possui uma aspiração transcendental, com suas raízes fundadas no além, já que tudo deve ser feito “para a maior glória de Deus”, como diz o lema da Companhia de Jesus.

Quem é Leandro Karnal?

Leandro Karnal é graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, com doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo - USP. Trabalha há muitos anos com capacitações para professores da rede pública e publicação de material didático e de apoio aos professores. Atualmente é professor da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, membro do corpo editorial da Revista Brasileira de História e da Revista Poder & Cultura. Entre suas publicações, destacamos A Escrita da Memória - Interpretações e Análises Documentais (São Paulo: Instituto Cultural Banco Santos, 2004) e Cronistas da América (Campinas: Unicamp, 2004). 

Ecos do Evento

Celso Castro, Funcionário da UNISINOS 

Destaco a presença ininterrupta dos jesuítas. Apesar das mudanças ao longo da nossa história, eles continuam sempre perseverantes e construindo obras. Nunca se deixam vencer pelas vicissitudes e o mais importante é que, mesmo prevendo certas situações, ainda persistiram acreditando na maior glória de Deus.

Camila Corrêa, doutoranda de história na USP

Gostei muito da problematização que ele fez sobre a Companhia de Jesus enquanto representante da modernidade. Foi uma relativização bem interessante e importante. Karnal fez um debate sobre construção da memória e isso é importante para mim porque esse tema tem a ver com o meu estudo de doutorado.

Jefersson dos Santos Alves, bolsista 

A palestra do Karnal nos faz pensar que a imagem que temos pode ser consequência da construção que os agentes históricos buscaram construir é consequência da própria propaganda que fizeram. Resumindo a lição de hoje é: ter cuidado com aquilo que o próprio agente histórico quer passar, para não entrarmos na sua onda. 

Israel de Lima Miranda, estudante de história- UNISINOS 

Admiro muito o trabalho do Karnal; é sempre bom ouvir sobre a história da Companhia, quem estuda faz parte dela. Acho importante quando ele foca no assunto da verdade, para os historiadores não existe uma verdade absoluta, estamos sempre correndo atrás de uma possível verdade.

Leia mais...

- “Os jesuítas foram os primeiros do clero católico a entender a modernidade”. Entrevista com Leandro Karnal, na IHU On-Line 458, de 10-11-2014.

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