Edição 459 | 17 Novembro 2014

Cartografias dos caminhos, dos pensamentos e da saga dos jesuítas no século XVIII

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Ricardo Machado

Ugo Baldini, professor doutor da Università degli Studi di Padova, na Itália, tem um jeito tipicamente italiano de falar, por isso gesticula, arregala os olhos e dispara muitas palavras por minuto. Com bom humor, encerrou a conferência Os jesuítas missionários exilados para a Itália no século XVIII e sua contribuição para a história natural da América, sugerindo que “nós que somos mais velhos, devemos deixar algo para os jovens fazer”, brincou. O evento, que integra a programação do XVI Simpósio Internacional IHU - Companhia de Jesus. Da supressão à restauração, ocorreu no auditório Bruno Hames, na Unisinos, na noite da quarta-feira, 12-11-2014.
Ugo Baldini na conferência Os jesuítas missionários exilados para a Itália no século XVIII e sua contribuição para a história natural da América

Em aproximadamente uma hora o professor Baldini tratou do tema de sua conferência, dividindo sua fala em duas etapas: a primeira com relação ao exílio de inúmeros jesuítas na Itália; e a segunda com relação ao trabalho dos missionários na produção intelectual na área da história natural.

Rumo à Itália

O professor lembrou que, quando Marquês de Pombal prendeu parte dos jesuítas de Portugal e expulsou outro tanto, 1.105 deles chegaram à Itália. Situação semelhante ocorreu na Espanha, mas o número era cerca de cinco vezes maior, a ponto que foram enviados a Roma 5.550 jesuítas espanhóis. “Esse contingente de quase sete mil criou um problema para a Companhia de Jesus e para o Vaticano”, aponta o professor.

Onde foram colocados?

“Depois de muitas incertezas, o papado decidiu colocar todas essas pessoas na zona centro-setentrional do estado pontífice. Como a Companhia de Jesus ainda existia, os padres de localidades próximas em seus países de origem foram colocados juntos, e isso não foi por acaso”, explica Baldini. “Assim, essa residência obrigatória realizou uma concentração nunca antes vista, que, mais tarde, deu origem a muitas obras científicas”, completa.

Efeito colateral

Carlos III, Rei da Espanha, depois de ter expulsado os jesuítas de seu território, procurou-os novamente. “O apelo de Carlos III induziu muitos jesuítas a se empenhar no front de produzir obras como uma tarefa apologética; Carlos III ofereceu recompensas a quem escrevesse o que ele pedia e nisso floresceu, também, a produção naturalística, o que prosseguiu até o limite de 1800”, esclarece o conferencista.

Curso superior no século XVII

“Como muitos de vocês sabem, o curso superior no século XVII era um triênio de Filosofia: lógica, geografia e metafísica. Na maior parte dos casos, a matemática não era ensinada, e isso ocorreu por aproximadamente um século”, retoma o professor Baldini, destacando uma característica da formação dos jesuítas um século antes da supressão. De acordo com o professor, em Portugal, até 1686 o ensino de matemática era dado somente nas províncias de Lisboa e Coimbra.

"Na província do Brasil, até o final de 1600, existiam cursos de Filosofia na Bahia e no Rio de Janeiro, mas sem o ensino de matemática. Isso significa que todos os jesuítas que se formaram no Brasil, missionários nativos, não tinham uma formação científica avançada e isso impactou no tipo de produção científica que se poderia fazer”, analisa.

Província da Alemanha

Segundo Baldini, a Província da Alemanha tinha mais ensino de matemática que a soma de todas as demais províncias onde os jesuítas atuavam. “A realidade é que não era culpa da Companhia nem de seus estatutos. O fato é que existiam diferenças culturais importantes. Por sensibilidade cultural, o Geral da Companhia pressionava os provinciais, mas às vezes levava tempo para o aceite”, explica. “Os jesuítas não tinham uma base didática naquilo que chamamos de ciência biológica ou naturalista”, complementa.

Experiência

Para Baldini, a experiência desses homens era enorme. “Os escritos não pareciam científicos conforme o cânone moderno e, por isso, a produção não era utilizada pelos cientistas da época, pois eram tidas como pouco plausíveis, por isso o impacto só veio posteriormente”, sustenta.

Quanto ao trabalho dos jesuítas na produção naturalista na América Latina, o professor classificou em duas categorias. “Eu identifiquei os missionários das Colônias Ibéricas que não eram nem espanhóis nem portugueses — nesse caso muitos alemães que voltaram para suas comunidades e escreveram muitas obras no idioma nato — e os de origem latina", explica. “Tivemos, também, contribuições da China, das Filipinas, etc.”, acrescenta.

Trabalho de observação

“Essas obras tratam de modo geral da vida dos missionários, mas não do aspecto religioso, senão de uma observação do mundo onde estavam. Há um componente biológico — flora e fauna — no senso escrito”, descreve. “O componente geográfico é importante porque os jesuítas, para conhecer, tinham que passar pelos locais. Por isso seus mapas cuidam muito da parte hidrográfica, que era fundamental do ponto de vista do transporte", esclarece.

Experiência chinesa

Conforme o conferencista, a primeira tentativa sistemática feita pelos jesuítas para mapear um território segundo modelos modernos da época foi feita na China em dez anos, coincidentemente por dez homens. "Eles mapearam o território chinês do Tibete à Sibéria movendo-se cada ano por cerca de mil a 1,5 mil quilômetros. Porém, na América nada disso era possível, havia muitas florestas e rios, e por isso a cartografia americana é mais atrasada que a asiática", argumenta.

Caminho a trilhar

Baldini finalizou sua apresentação dizendo que boa parte da produção dos jesuítas ainda está sendo descoberta e que este é um campo que segue em desenvolvimento. “Concluo dizendo que este é um campo de pesquisa em fase de avanço, não somente na análise dos textos, mas também para obter outros textos. Existem bibliotecas que não estão no índice oficial e os textos podem ter terminado nos arquivos das famílias para as quais os jesuítas lecionavam. Essa pesquisa sistemática ainda deve ser feita, e nós, que somos mais velhos, devemos deixar algo para os jovens fazer”, disse, encerrando a palestra com o mesmo bom humor peculiar que abriu a noite.

Quem é Ugo Baldini

Ugo Baldini é graduado em Filosofia pela Universidade de Roma. Foi professor de História Moderna na Faculdade de Ciências Políticas da Università degli Studi di Padova e professor da Faculdade di Lettere dell’Università di Chieti. Foi Diretor do Departamento de Estudos Históricos e Políticos da mesma Universidade. Desde os anos 1980, realiza pesquisas em torno do tema da supressão da Companhia de Jesus, identificando relações filosóficas, pedagógicas, técnicas, e as influências sociais e políticas resultantes.

Possui uma vasta produção científica, da qual destacamos L’influenza del cursus gesutico nella strutturazione dei corsi superiori del Seminario padovano negli anni del Barbagio. Note preliminari e di metodo, in Recherche di storia sociale e religiosa (1996) e The jesuit College in Macao as a meeting point of the European, Chinese and Japanese mathematical traditions. Some remarks on the present state of research, mainly concerning sources (16th-17th centuries) (Singapore: World Scientific Publishing Company, 2008).

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