Edição 457 | 27 Outubro 2014

Pragmatismo e Pragmaticismo – O embate peirceano

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Andriolli Costa

Pesquisador da obra de Charles S. Peirce, Rodrigo Almeida explora os fundamentos para a máxima pragmática e reflete sobre suas dimensões lógica, ontológica e metafísica

Em 1878, mesmo sem sequer mencionar o termo, Charles Sanders Peirce lança a semente daquilo que seria considerado o marco fundador do Pragmatismo norte-americano. Sua máxima pragmática buscava ser um princípio regulador de lógica, ou uma ferramenta de definição de conceitos. Ao longo do tempo, desenvolvendo mais a ideia, Peirce estabelece a grande contribuição deste pensamento para a teoria do conhecimento: o significado de um conceito se encontraria, exclusivamente, na concepção dos hábitos gerais de conduta que a crença na verdade do conceito, em quaisquer circunstâncias concebíveis, originaria, de modo a nunca se reduzir a casos particulares. 

“Para um pragmaticista, um conceito não é uma mera abstração, mas sim uma elucidação do real, ou melhor, de relações reais, calcada na experiência dos efeitos concebíveis do conceito na conduta da vida”, relata o pesquisador Rodrigo Vieira de Almeida. Ainda de acordo com ele, em Peirce, teoria e vida não podem jamais estar apartadas. Esse pensamento vai se refletir até mesmo na concepção peirceana do método científico, visto “como um corpo vivo e em contínuo crescimento, estendendo indefinidamente as amostragens experimentais que tendem no limite ideal a alcançar a expressão verdadeira do real”.

Contemporâneos de Peirce, William James e John Dewey — que também passaram a ser conhecidos como pragmáticos — tinham concepções muito psicologizantes, dentro de uma perspectiva humanista da máxima pragmática, “ao passo que Peirce, decididamente antipsicologista e antinominalista, tendia mais para uma abordagem lógico-objetiva da mesma”. É por isso que, a partir de 1905, Peirce propõe um novo termo para se distanciar dos outros pensadores: pragmaticismo.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Rodrigo Almeida esclarece a diferença entre estas duas perspectivas, discorre sobre os modos como a máxima pragmática permeia a obra peirceana em suas conhecidas categorias fenomenológicas, explora a importância de uma comunidade científica interpretativa em Peirce e o papel ocupado pela dimensão lógica, ética e estética no pragmatismo. 

Rodrigo Vieira de Almeida é graduado em Letras pelas Faculdades Integradas Tibiriçá, com mestrado em Filosofia e semiótica pelo Mosteiro de São Bento de São Paulo — com a dissertação Uma propedêutica para uma reflexão sobre o conceito de imortalidade do homem na filosofia de Charles Sanders Peirce. Atualmente é doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP. Almeida é membro do Centro de Estudos de Pragmatismo da mesma universidade. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que consistia a máxima pragmática de Peirce? De que forma ela evoluiu ao longo dos anos em seu pensamento? 

Rodrigo Almeida – A máxima do pragmatismo configura um aspecto central da filosofia de Charles Sanders Peirce . Ela foi enunciada pela primeira vez no seminal texto Como tornar as nossas ideias claras (W 3.257-276) , publicado em 1878, na conhecida série chamada Ilustrações da Lógica da Ciência (W 3.242-338), onde Peirce, entre muitas outras coisas, procurou responder a questão acerca de qual seria o critério lógico suficiente para tornar as nossas ideias claras, primeira lição que deveríamos exigir da lógica, uma vez que os critérios de distinção (ligada ao conceito de intuição) e clareza, oriundos do cartesianismo, tinham sido considerados insuficientes pelo autor. 

Esse critério, que mais tarde ficaria conhecido como a máxima pragmática, posto que Peirce não usou esse termo e nenhum dos seus derivados na ocasião, fora assim enunciado: “Considere quais efeitos, que concebivelmente poderiam ter consequências práticas, concebemos ter o objeto de nossa concepção. Então, a concepção destes efeitos é o todo de nossa concepção do objeto.” (W 3.266). Sendo assim, a máxima pragmática nasceu como um princípio regulador de lógica, ou, em outros termos, como um método para determinar significados de conceitos.

No entanto, em 1878, Peirce equacionava consequências práticas com experiências sensíveis: “Nossa ideia de qualquer coisa é nossa ideia de seus efeitos sensíveis” (CP 5.401). Ou seja, a estratégia para se alcançar o significado de algo que é um conceito consistia em conceber quais são os efeitos sensíveis do objeto da nossa concepção, efeitos que fazem a diferença em nossas expectativas sobre o objeto em questão. O famoso exemplo do diamante serviu para clarificar esse ponto: dizer que um objeto, tal como um diamante, tem a propriedade de ser duro, é dizer que ele não será arranhado por outras substâncias, por isso se aplica a ele o conceito de dureza. O efeito sensível resultado da tentativa experimental de se tentar riscar o objeto concebido como duro, no caso o diamante, seria que ele permaneceria sem ser arranhado e não haveria mais nada, além disso, no conceito de dureza.

Por outro lado, embora possamos argumentar que já houvesse uma referência ao aspecto geral da máxima na enunciação de 1878, Peirce reconheceu, posteriormente, que equacionar consequências práticas com experiências sensíveis poderia ser um tanto perigoso, caso não entendessem o ponto central que estava por detrás dessa concepção, levando um leitor apressado a julgar que o significado da máxima pragmática deveria ser buscado exclusivamente nas experiências particulares, dado que experiências sensíveis se referem sempre a particulares. 

Pragmatismo e Pragmaticismo

Assim, foi exatamente para tornar mais precisa a ligação da máxima lógica do pragmatismo com a generalidade, que Peirce levou a cabo, a partir de 1903, com as suas Conferências de Harvard sobre o Pragmatismo (EP 2.133-241), passando por textos de 1905-1907 sob o título geral de Pragmaticismo (EP 2.331-433), e se estendendo até o final de sua vida, o projeto de expor aquilo que se pode chamar de uma concepção mais estrita sobre o que se deve entender como sendo a sua versão do pragmatismo, o pragmaticismo, termo cunhado pelo autor em um texto de 1905 chamado “O que é Pragmatismo” (EP 2.331), e, com isso, mostrar, também, seu total afastamento em relação a outros pensadores, que viam se chamando de pragmatistas e buscavam tornar o pragmatismo um princípio especulativo de filosofia.

Pode-se dizer que o caráter geral da reformulação proposta por Peirce da sua máxima consiste em mostrar que “o significado racional de uma palavra ou alguma outra expressão se encontra, exclusivamente, na concepção da sua influência concebível sobre a conduta da vida”, de modo que “uma vez que é óbvio que algo que não resulte de um experimento possa exercer qualquer influência direta sobre a conduta, se alguém for capaz de definir, com exatidão, todos os experimentos fenomênicos concebíveis que a afirmação ou negação de um conceito possa implicar, teria, então, a definição completa do conceito” (EP 2. 332). Isso quer dizer que, para o autor, o correto entendimento do significado de um conceito deve se iniciar pela esquematização, a partir da imaginação, das consequências práticas de uma dada representação e se dirigir, depois, ao mundo, buscando confirmação, ligando-se, assim, à experiência possível. Em outros termos, só pode haver significado concebível de experiências possíveis, sendo esse o caráter geral de todo o conceito: ele é aplicável ao contínuo de possibilidades reais e não está reduzido aos casos particulares ou às suas meras instanciações. 

Aprofundemos um pouquinho mais. Para Peirce, um conceito só pode ser aplicado àquilo que possui ordem. O conceito expressa as relações de ordem dos objetos e entre os objetos. Assim, um conceito representa a permanência de relações reais. A permanência, representada no conceito, está nas coisas e não configura, assim, uma imposição da subjetividade humana aos fenômenos, como querem os filósofos nominalistas, contra os quais Peirce tanto se opôs. Representar em um conceito as relações reais que governam um dado objeto é representar a conduta deste objeto. E, por outro lado, saber como se comporta um objeto é essencial para saber como se comportar diante deste objeto, de modo que se adquire, também, um hábito de comportamento em relação ao objeto conhecido. A conduta de qualquer objeto, bem como a conduta em relação ao objeto resultante do conhecimento, pode ser chamada de hábito. Um hábito, do ponto de vista lógico, pode ser descrito como o resultado interpretado dos significados de um conceito. 

Hábitos e conceitos

Mais que isso, o próprio significado/conceito é um hábito, equivalendo a um processo de generalização, de natureza indutiva. Portanto, do ponto de vista pragmaticista, os hábitos podem ser conceituados como generalizações de condutas permanentes, ou, em outros termos, o significado de um conceito aparece nos hábitos de conduta que ele origina. Por outro lado, se o significado de um conceito é a sua influência na conduta, e se os resultados experimentais são os únicos resultados que podem afetar a conduta humana, uma concepção esquemática, que é o conceito concebível, deve equivaler a uma prescrição geral que nada mais diz exceto que, se dadas certas circunstâncias experimentais, tais e tais consequências aproximadamente se seguiriam (would-be). O pragmaticismo, assim, pode ser lido como uma máxima que prescreve que os hábitos, sempre gerais, só podem ser verificados por meio de suas consequências práticas experimentais, sempre particulares. 

Sugere-se, enfim, que o pragmaticismo peirceano, tal como trazido à tona pioneiramente pela obra de Ivo Assad Ibri  não é meramente uma máxima lógica, mas também possui uma dimensão ontológico/metafísica cujo correto entendimento exigiria familiaridade com todo o arcabouço teórico de Peirce, sobretudo ciências e doutrinas como a Fenomenologia, as Ciências Normativas, a Metafísica, o Indeterminismo Ontológico, o Evolucionismo, o Falibilismo, o Idealismo Objetivo, o Sinequismo, a Semiótica, etc.

 

IHU On-Line - De que forma esta visão passou a contrastar com as visões de pragmatismo defendidas por James  e por Dewey ?

Rodrigo Almeida – Existem muitas maneiras de se abordar as diferenças entre o pragmaticismo de Peirce e o pragmatismo tal qual desenvolvido por James e Dewey. Nesta ocasião, gostaria de fazê-lo, sem nenhuma pretensão de esgotamento, pelo viés proporcionado pelo tipo radical de realismo implicado no pragmaticismo peirceano, pois este, acredito, encontra-se por detrás de todas as outras diferenças, como, por exemplo, a que se refere às divergências entre as concepções de verdade e investigação entre esses autores. 

Peirce definia o real como aquilo que é independente do que uma mente ou coleção de mentes possa pensar acerca dele (por exemplo, em CP 5.457). Tal concepção já estava presente na formulação da máxima do pragmatismo em 1878 e configurava aspecto central do método científico. Vejamos, brevemente, o que isso quer dizer. 

Métodos de fixação de crença

No texto Fixation of Belief, de 1877 (W 3.242-257), Peirce descreve os quatro métodos pelos quais se opera a fixação das crenças: o método da tenacidade, o método da autoridade, o método a priori e o método científico. O método da tenacidade é o método da teimosia, da recusa de adentrar numa investigação que nos leve a questionar nossos fundamentos. Segundo esse primeiro método, o que se deve fazer é simplesmente confiar inteiramente nas nossas crenças individuais já estabelecidas.

O segundo método, o da autoridade, consiste na força que uma organização, sociedade ou instituição opera nos indivíduos. Esse método consiste em ser a crença a opinião da autoridade. O terceiro método, o a priori, consiste em adotar crenças em conformidade com a razão. Nele estão inseridos todos os sistemas metafísicos que se fundam em algum tipo de apriorismo. Esse método, para Peirce, já representa um avanço em relação aos dois anteriores, mas acaba redundando em algo mais ou menos parecido com a autoridade, só que agora autoridade da razão.

O quarto e último método é o científico que, segundo Peirce, é o único que dá conta de satisfazer nossas dúvidas, exatamente por ser um método que se baseia em algo independente do ser humano, a saber, num princípio de permanência externa, sobre o qual o nosso pensamento não tem efeito. Nos três primeiros métodos é o entendimento humano que estabelece os termos, diferentemente do método científico, que está fundado no reconhecimento da alteridade e da realidade das relações contínuas entre as coisas no mundo.

Categorias fenomenológicas

Tal realismo adquire proporções ainda maiores no pensamento mais maduro do autor, que procurou mostrar como as suas conhecidas três categorias fenomenológicas, que receberam os nomes de primeiridade (que tipifica experiências espontâneas, livres e sem relação com nada mais, como, por exemplo, sentimentos ou qualidades), segundidade (que tipifica experiências de bruta alteridade) e terceiridade (que tipifica experiências cognitivas, relacionais, conceituais e de mediação), também representavam, do ponto de vista de uma metafísica científica, princípios ativos e operantes na natureza, a saber, Acaso, Existência e Lei, respectivamente, e que esses princípios deveriam ser objetivamente reconhecidos como reais, no sentido exposto acima . A filosofia peirceana mantém, assim, a realidade das três categorias e o realismo que subjaz em suas fundações recebe o nome de realismo escolástico, devido a reconhecida influência exercida por Duns Scotus  sobre esse aspecto do seu pensamento.

Pois bem, gostaria de sugerir que a principal diferença existente entre as versões do pragmatismo de James e Dewey, cada qual contendo o seu valor no âmbito do pensamento filosófico, e o pragmaticismo de Peirce consiste no fato de que, nem James e nem Dewey podiam abraçar as consequências do realismo radical de Peirce e, por isso, se voltaram para aplicações da máxima pragmática oriundas de uma visão de mundo que não considera o real como algo independente do pensamento humano. Em outros termos, James e Dewey, cada qual com seu pensamento específico, tendiam mais para um tipo de nominalismo e psicologismo nas suas interpretações da máxima pragmática, ao passo que Peirce, decididamente antipsicologista e antinominalista, tendia mais para uma abordagem lógico-objetiva da mesma. Assim, de modo geral, James considerava que as consequências práticas das nossas concepções deveriam ser tomadas como sendo particulares e que ideias abstratas devem ser, em última instância, sempre referidas às nossas experiências, práticas e ações concretas e Dewey, por sua vez, concebia o real apenas como relativo ao homem e tomava as mesmas consequências práticas das concepções expressas na máxima pragmática como instrumentos de adaptação e transformação da nossa conduta, instrumentos esses que devem ser considerados como bem-sucedidos na medida direta em que são úteis e eficazes, de modo que conhecer seria o mesmo que fazer e ser assertivo.

Parece ser evidente como ambas as posições distanciam-se, consideravelmente, do pragmaticismo peirceano que, conforme vimos, insiste, a partir do seu realismo escolástico, em tomar o hábito/conceito como invariavelmente representativo de relações gerais reais.

 

IHU On-Line – O pragmatismo, como método científico, se relaciona de que maneira com a verdade e a falsidade?

Rodrigo Almeida – Para Peirce, a verdade se identificaria com a opinião final a que a comunidade de investigadores chegaria, se tempo suficiente lhes fosse dado no processo de investigação de acordo com o método científico (por exemplo, em W 3.273). De outro lado, o real seria nada mais que aquilo que qualquer homem acreditaria e acerca do que estaria preparado para agir, se suas investigações fossem levadas suficientemente longe (por exemplo, em CP 8.41). Há, assim, no interior da filosofia de Peirce, uma identificação ou correspondência, se quiserem, entre o real e a verdade. Mas, por um lado, o real é definido como aquilo que é independente do pensamento de qualquer indivíduo ou conjunto de indivíduos e, ao mesmo tempo, como aquilo acerca do que a comunidade de investigadores concordaria no longo caminho (in the long run), sendo a opinião final a que se chegaria nada menos do que a verdade acerca do objeto investigado. Haveria aqui uma contradição, ou seja, o real seria e não seria, ao mesmo tempo, dependente e não dependente do pensamento? 

Há uma belíssima passagem na obra de Peirce, muito esclarecedora, que mostra que a contradição não é o caso aqui e que, por isso, merece ser citada na íntegra:

[...] de um lado, a realidade é independente, não necessariamente do pensamento em geral, mas somente do que você ou eu ou qualquer número finito de homens possa pensar acerca dela; de outro lado, embora o objeto da opinião final dependa do que a opinião é, ainda assim, o que tal opinião é não depende do que você ou eu ou qualquer homem pensa. A nossa perversidade e a de outros pode até, indefinidamente, atrasar o estabelecimento da opinião; pode até mesmo, concebivelmente, fazer com que uma proposição arbitrária seja aceita universalmente, enquanto a raça humana durar. Mesmo assim, isso não mudaria a natureza da única crença que resultaria da investigação carregada o suficientemente longe. E se, após a extinção da nossa raça, outra surgisse com as faculdades e a disposição para a investigação, aquela opinião verdadeira deve ser aquela a que chegariam (CP 5.408).

Parece-me claro a concepção de Peirce aqui exprimida, de modo que não estaria justificada a objeção, comumente estabelecida acerca do seu pensamento, segundo a qual não haveria lugar para a possibilidade de que haja verdades que não formem parte da opinião final da comunidade de investigadores. A resposta parece saltar a vista nesta passagem: se a verdade tomar parte ou não, ou seja, se ela for representada pelo homem ou não, não tem a menor importância. Em Peirce, não há lugar para antropocentrismos. “Uma verdade enterrada surgirá novamente”, rezava o poema citado por Peirce quase ao fim dessa passagem. Sendo assim, o que seria uma opinião falsa? Apenas uma característica de uma proposição que, do ponto de vista humano, se insistirmos em sua importância, é nada mais do que um reflexo do nosso falibilismo e da provisoriedade das nossas representações. O real, em termos peirceanos, permanece independente da falsidade de qualquer representação, bem como independente de qualquer representação verdadeira meramente atual. Em outros termos, mesmo a verdade enquanto opinião final não ultrapassa o campo do ideal, e é da idealidade que comungam todas as coisas, segundo o idealismo objetivo do autor. Por outro lado, esse ideal é pragmaticamente significativo, na mediada em que influencia a conduta, sendo a contraparte ontológica dessa linha de pensamento nada menos que o indeterminismo ontológico do autor.

 

IHU On-Line – Em Peirce, qual a importância de uma comunidade de investigadores para permitir o diálogo com a realidade?

Rodrigo Almeida – Trata-se de uma constante na obra de Peirce a concepção de ciência como configurando um corpo vivo e em crescimento (CP 6.428), constituída mais por um método autocorretivo e sempre voltado ao mundo fenomênico em busca de confirmações, do que por conclusões absolutas. Tal concepção contrasta claramente com as concepções da ciência calcadas em modelos que insistem em considerá-la como um conjunto de ideias abstratas e fixas à espera de serem conhecidas por observadores racionais e definidas por mera abstração. 

Segundo Peirce, o método científico deve ser pensado como um processo essencialmente comunitário e social, ou, em outros termos, como um procedimento de caráter irrevogavelmente cooperativo e público, que permite que as idiossincrasias individuais, eventualmente causadas pelas limitações de cada um dos investigadores particulares, possam ser ultrapassadas, de modo a corrigir, indutivamente, possíveis erros durante o percurso idealmente infinito da investigação, cuja direção é a verdade e cujo objeto é o real.  

Por isso, para Peirce, na própria origem da concepção de realidade encontra-se, essencialmente, a noção de uma comunidade de investigadores sem limites definidos, mas capaz de um aumento definido de conhecimento (CP 5.311), cuja atitude diante do mundo fenomênico, único lugar onde os hábitos gerais que configuram as leis da natureza podem ser confirmados pragmaticamente, deve ser sempre a de um profundo respeito, de caráter ontológico, que, de outro lado se reflete, epistemologicamente, na permanência do diálogo entre as representações e a realidade.

Isso é o que permite, em outro e convergente registro, fundar, do ponto de vista lógico, e tendo como pano de fundo o indeterminismo ontológico do autor, que professa estarem os objetos de investigação, tal como os signos que o interpretam, também inseridos em um processo evolucionário, o fato de que proposições possam capturar, mesmo em sua parcialidade, as ordens objetivas ou relações reais presentes nos objetos das investigações.

 

IHU On-Line - Ao propor que nossa concepção dos efeitos de um objeto corresponde ao todo de nossa concepção sobre o objeto, como Peirce revoluciona a teoria do conhecimento na modernidade?

Rodrigo Almeida – Já tivemos a oportunidade de verificar que a máxima do pragmaticismo nasceu como um princípio regulador de lógica, ou, em outros termos, como um método para determinar significados de conceitos e que, posteriormente, adquiriu importante estatuto ontológico na filosofia do autor. Tendo isso em mente, podemos agora acrescentar que a grande vantagem do pragmaticismo, sua revolução na teoria do conhecimento na modernidade, consiste no fato de relacionar o significado de um conceito diretamente ao processo de investigação, evitando, assim, imposições externas dadas na forma de meras definições.

Isso quer dizer que o significado de um conceito, para um pragmaticista, não é uma mera abstração, mas sim uma elucidação do real, ou melhor, de relações reais, calcada na experiência dos efeitos concebíveis do conceito na conduta da vida. Ou seja, para Peirce, a relação entre a verdade e a realidade não é questão apenas de uma epistemologia, mas também de uma ontologia, de modo que, se há qualquer sentido na elucidação de um dado conceito, isso se fará sentir por meio de consequências na experiência, que, no entanto, não precisam estar reduzidas ao elemento sensório. Experiência, para Peirce, é um conceito muito mais amplo, envolvendo todo o processo de investigação, a começar pela esquematização concebível de efeitos, o que claramente o diferencia dos partidários do método verificacionista.

Assim, teoria e vida, para um pragmaticista, não podem jamais estar apartadas, mas sim estritamente unificadas, ou em outros termos, em contínua conexão. O que também se reflete na concepção peirceana do método científico como um corpo vivo e em contínuo crescimento, estendendo indefinidamente as amostragens experimentais que tendem no limite ideal a alcançar a expressão verdadeira do real.

 

IHU On-Line – Qual o papel ocupado pela dimensão lógica, ética e estética no pragmatismo?

Rodrigo Almeida – Perguntar-se acerca de qual é o papel ocupado pela dimensão lógica, ética e estética no pragmaticismo peirceano equivale a se perguntar de que maneira as relações com fins gerais descritos por essas ciências influenciam a conduta. A resposta para essa questão é dada na própria relação que essas três ciências mantêm entre si, a saber, uma relação de dependência. Senão, vejamos. 

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que as ações humanas são ações razoáveis, ou seja, autocontroladas. Para controlar uma ação devemos, por um lado, estar movidos por um ideal que admiramos e, por outro, devemos representar bem esse ideal, para que possamos ter claras as ações que executaremos para chegar até o nosso ideal. Assim, o papel da lógica é representar com excelência, tanto a ação como o objetivo. O objetivo, por sua vez, é dado pela ética, e consiste na conduta que estamos preparados, deliberadamente, para adotar sob quaisquer circunstâncias. Por outro lado, “sob quaisquer circunstâncias” implica que esse fim deve possuir um caráter de fim último, imutável, sendo o fim ao qual queremos chegar por que o admiramos. Ora, esse “admirável”, por sua vez, é dado pela estética, consistindo nas qualidades, em si livres, mas tomadas como valor pelo agente. Em outras palavras, as ciências normativas devem formar um todo contínuo, que move o pensamento e a ação em direção a algo que se apresente como um bem e que, em última instância equivale, para o autor, ao crescimento da razoabilidade concreta no universo. Ao todo desse movimento relacional, Peirce chamou de estética total (CP 5.136), o que indica o primordial papel exercido pela estética na construção das Ciências Normativas: ela é a base sobre a qual se funda as outras duas, ética e lógica. Assim o bem ético seria o bem estético especialmente determinado por um elemento peculiar que se lhe acrescentou, a saber, o fato de o bem estético, o admirável em si, ser tomado como um ideal ou fim; o bem lógico, por sua vez, seria o bem moral especialmente determinado por um elemento especial que se lhe acrescentou, a saber, o fato de um bem estético, funcionando como um fim, ser bem representado e chegar a uma verdade que moverá a ação como um todo. 

Ora, toda a conduta humana, do ponto de vista pragmaticista, está fundada nessa relação. Assim, o movimento que vai do admirável, passando pela descrição do objetivo e da melhor forma de alcançá-lo, até a ação em si, é a forma geral como a conduta humana se dá. Uma conduta em direção a um fim admirável que se torna repetida configura um hábito. Hábitos de conduta, por sua vez, estão também sujeitos à crítica, ou seja, ao autocontrole, sendo, assim, passíveis de modificação. Dessa forma, a modificação da conduta está também sob o escopo da descrição das Ciências Normativas. 

É interessante notar que a visão das Ciências Normativas oferecida por Peirce não diz que existem regras a priori que são consideradas corretas e, partindo delas, devemos classificar se uma determinada ação está em concordância com tais regras e por isso deve ser chamada de ação eticamente correta. O movimento é na verdade oposto a esse: observam-se os fenômenos que aparecem ligados às ações, esses não sendo outros que não a conduta e hábitos humanos, e, partindo deles, vê-se que possuem formas gerais e relacionais, passíveis de serem descritas pelas ciências ditas normativas, ou seja, que descrevem (e não impõem) a forma como geralmente agimos em direção aos fins que admiramos, quaisquer que sejam eles. 

Por fim, tenha o leitor em mente que esse movimento de descrição normativo-científica pode e é estendido por Peirce até o universo, não ficando restringido apenas à conduta humana; a razoabilidade concreta, o fim último e incondicional, é um movimento evolucionário do qual participam todas as coisas. 

 

IHU On-Line – Como a continuidade manifesta pelo sinequismo colabora para uma compreensão complexa da realidade?

Rodrigo Almeida – Para Peirce, “o sinequismo é aquela tendência do pensamento filosófico que insiste na ideia de continuidade como de prima importância na filosofia e, em particular, sobre a necessidade de hipóteses envolvendo o verdadeiro contínuo” (CP 6.169). Em outros termos, o sinequismo é a doutrina que professa ser tudo o que é real, contínuo. Entender o que significa o sinequismo e como ele se relaciona com a compreensão da realidade exige, assim, entender o que significa o conceito de continuidade, pois, em última instância, o sinequismo é a extensão do que se entende por continuidade à totalidade do universo.

Brevemente, e desconsiderando, por questões de espaço, as problemáticas envolvidas na evolução deste conceito ao longo do pensamento do autor, o contínuo peirceano designa uma entidade geral, que consiste na possibilidade inesgotável de determinar um número de indivíduos maior que qualquer número já dado. Ou seja, um verdadeiro continuum, para Peirce, “é algo cujas possibilidades de determinação nenhuma multidão de individuais pode exaurir” (CP 6.170). Isto porque a continuidade é a conexão ininterrupta entre as partes e não um conjunto de partes que configuram uma pluralidade. Melhor seria dizer que o que constitui um continuum é o modo de conexão entre as partes, o que equivale a dizer que o tipo de partes conectadas é que deve ser considerado como ininterrupto no contínuo. Nessa conexão, os indivíduos deixam de possuir existência individual e ficam, por assim dizer, absolutamente fundidos. E este estar fundido é uma forma de unidade e generalidade. Por outro lado, deve-se sublinhar que o continuum é algo sobre o qual ocorrem descontinuidades, e uma descontinuidade é uma determinação, que configura uma quebra do contínuo perfeito. O contínuo é exatamente a possibilidade infinita dessas descontinuidades, que, por sua vez, carregam em seu bojo qualidades, o que unifica a teoria do contínuo com as três categorias fenomenológicas e metafísicas do autor.

Vimos que a possibilidade de conhecimento evidenciada pelo pragmaticismo peirceano envolve a noção de permanência das coisas, de regularidade, de repetição, de ordem, enfim, de lei (no entanto, tenha o leitor em mente que nada disso deve ser pensado como envolvendo regras estritamente necessárias e imutáveis, o que equivaleria a tomar Peirce como um necessitarista, o que não poderia estar mais distante do seu pensamento), de modo que todo o conhecimento, para Peirce, é algo direcionado para o futuro na medida direta em que é geral, e quando se afirma algo, afirma-se para o futuro indefinido. Tal procedimento, ou seja, a própria possibilidade de se fazer generalizações depende e está fundada na continuidade das relações reais. Pode-se, enfim, verificar que existe uma ligação muito forte entre continuidade e generalidade, de modo que a “continuidade é nada mais que perfeita generalidade de uma lei da relação” (CP 6.172). Portanto, sem continuidade não há conhecimento possível e, assim, o sinequismo ou teoria da continuidade é a garantia de todo o conhecimento acerca do real. Por isso, o próprio Peirce tomava essa doutrina como a pedra angular do seu pensamento (CP 8.257).

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar mais alguma coisa? 

Rodrigo Almeida – Sim, eu gostaria de acrescentar algumas palavras acerca da atualidade do pensamento de Peirce na contemporaneidade, por meio de um breve relato acerca de um grande evento ocorrido recentemente, entre os dias 16 e 19 de julho de 2014, na University of Massachusetts, Lowell, EUA, em comemoração ao Centenário da morte do autor (1839-1914), o The 2014 Charles S. Peirce International Centennial Congress: Invigorating Philosophy for the 21st Century. 

O sugestivo subtítulo do congresso foi sugerido pelo professor Ivo Assad Ibri , diretor do Centro de Estudos de Pragmatismo de São Paulo, com sede na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), vice-presidente da Charles Sanders Peirce Society, EUA, e também um dos organizadores do evento. O evento contou com dez conferências plenárias, proferidas pelos mais conceituados estudiosos da filosofia peirceana na contemporaneidade: Ivo Assad Ibri, Susan Haack , Douglas Anderson , Christopher Hookway , Nathan Houser , Cheryl Misak , Nicholas Rescher , Claudine Tiercelin , Fernando Zalamea  e Vincent Colapietro . Além das sessões plenárias, o evento proporcionou aos participantes a oportunidade de ter acesso a diversas sessões de conferências menores, que contaram com contribuições de mais de duzentos estudiosos da filosofia de Peirce oriundos dos mais diversos países, tais como China, Colombia, Grécia, França, Inglaterra, Canadá, Itália, e muitos outros, além, é claro, dos Estados Unidos e do Brasil, que contou com a participação de cerca de vinte expositores.

A diversidade de temas e abordagens acerca dos principais aspectos da filosofia peirceana, considerados em conexão com os mais abrangentes escopos das mais diversas ciências, tais como a Física, a Linguística, a Biossemiótica, a História, a Matemática, a Biologia e muitas outras, mas também com outros campos do saber, como, por exemplo, as Artes Plásticas, a Literatura, a Música, etc., configuraram evidência cabal da importância do pensamento deste grande autor no que tange a problemas que ainda assolam o pensamento contemporâneo. 

Também foi mais uma oportunidade de se perceber, experiencialmente, tal como exige o pragmaticismo, o alcance da concepção da ciência como uma prática viva e do papel da comunidade de investigadores em constante progresso em busca da verdade. O que permitiu, enfim, a atualização de um conselho ou, se quiser o leitor, de um convite, que se poderia dizer ter sido realmente exprimido na ocasião do evento pelo próprio Peirce, como apanágio de uma imortalidade semioticamente possível de ser alcançada por um homem: “Não bloqueie o caminho da investigação”.

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