Edição 457 | 27 Outubro 2014

A experiência sensorial dos meios e o surgimento da tecnocultura

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Ricardo Machado | Fotos: Larissa Tassinari

Nas sociedades tecnocientíficas contemporâneas, falar de tecnocultura é falar de uma dimensão muito familiar a todos nós, mas para Marshal McLuhan, que escreveu seu primeiro livro ainda na década de 1950, a questão não era tão clara assim. Para traçar um perfil do pensamento vanguardista do teórico da comunicação canadense, a professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo – USP Irene Machado apresentou a conferência “McLuhan, tecnocultura e midiatização no contexto das revoluções tecnológicas”, na tarde da quarta-feira, 22-10-2014, na sala 1F 102, da Unisinos. O evento integrou a programação do XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

“McLuhan não viveu a tecnocultura como vivemos hoje, mas o preâmbulo dessa transformação de estar no mundo, de se relacionar e de se conhecer. Ele dizia que vivemos numa época de cibernetização da cultura”, explica Irene. McLuhan havia compreendido que a eletricidade tinha promovido uma transformação radical da experiência humana com o mundo, mas não no sentido mais cartesiano do termo, ela tratava de outra dimensão, que era do ambiente de informação.

Ambiente de informação 

“Ambiente de informação é uma outra forma de perceber a força da eletricidade nos processos de formação de cultura, mas não exatamente como uma descoberta da eletricidade; não se trata da eletricidade meramente como transmissão de impulsos elétricos, mas, do ponto de vista histórico, ela tem a finalidade de promover a comunicação”, esclarece a professora.

Embrião da tecnocultura

Teoria da Informação e Cibernética são conceitos que começam a ser trabalhados em 1948, termos que surgem no pós-guerra e que estão, também, relacionados à quebra dos códigos de transmissão de dados e às tecnologias de comunicação, que serão, depois, impulsionadas pela Guerra Fria. Nesse contexto há um nome que é muito importante na vanguarda do pensamento tecnológico, Alan Turing.  “Ele [Turing] não foi somente um engenheiro que quebrou os códigos do nazismo, mas aquele que se indagou, talvez pela primeira vez, da possibilidade de as máquinas pensarem”, aponta Irene. 

Tecnocultura

Uma vez mais, durante sua conferência, a pesquisadora chamou atenção para o fato de que falar de tecnocultura não era algo simples na época de McLuhan. “Não era de tecnocultura que se falava, mas de cultura, e o desafio era, afinal de contas, como esses meios de comunicação se relacionam com o processo cultural”, lembra. A conferencista ressaltou que a sociedade que vivemos atualmente não se constitui a partir de um movimento de ruptura, mas de constante movimentação. “Só vai fazer sentido falarmos de revolução se inserirmos essas transformações em um processo de mudança que vai ocorrendo de forma paulatina.”

Transformação

“Se quiséssemos entender esse processo de mudança, era necessário incorporá-lo nos processos educativos. Trata-se sempre da importância dos meios tecnológicos em meios culturais ocupando sentido nos processos de comunicação. A partir do momento que esses meios são acolhidos como formas sociais históricas, levam-nos à compreensão de que cada um age dentro de seus espaços”, explica. 

Metodologia de pesquisa

De acordo com Irene, McLuhan não estava interessado em um trabalho de pesquisa dedutivo, mas indutivo, hipotético-poiético. “O método comparativo sugere que a linguagem icônica nos convida a uma relação mais aberta em relação à linguagem mais alfabética”, exemplifica. “A Gestalt está na base da imagem que, depois, vai aparecer no cinema, no quadrinho e até mesmo na fotografia. Estamos diante de uma imagem que tem todo o seu processo de construção, mas que está submetida a outros processos de produção de níveis de sentido diferenciados”, complementa.

Morfogênese das máquinas

O termo morfogênese em biologia está relacionado à modelagem dos organismos, como se constituem. Entretanto, ao pensar nessa perspectiva a partir da tecnocultura, é preciso resgatar o pensamento de Turing. “Ele foi o primeiro a falar sobre a morfogênese das máquinas. Nos meios tecnológicos, o conceito de linguagem não é o mesmo aplicado à linguagem humana, pois é preciso pensá-la como códigos dentro de um sistema de informação estabelecido para isso”, ressalta. “Quando falamos em algoritmos não estamos falando em números, mas em um padrão. É nesse sentido que o conceito de linguagem é estudado. O conhecimento não se dá no contato com os objetos, mas da interpretação deles”, sustenta.

Nova experiência

“A descida do homem à lua marcou muito o trabalho de McLuhan. A câmera apontando para a terra trouxe a reflexão: afinal estamos aqui ou lá? Isso os conduziu à noção de intervalo. É interessante porque essa perspectiva acaba prenunciando essa noção de mundo virtual que no final de contas é a mesma que McLuhan percebeu neste evento”, esclarece a pesquisadora. 

No fechamento de sua conferência, Irene frisou que, naquilo que convencionamos chamar de tecnocultura, é interessante pensarmos o reordenamento do campo da informação geopolítica, que passa a ser orientada pelos satélites. “Vivemos em um espaço fronteiriço, como uma espécie de processo complexo de mudança contínua que aumenta enormemente os poderes de percepção do homem”, finaliza. 

Quem é Irene Machado

Irene de Araújo Machado é graduada em Letras pela Universidade de São Paulo – USP. Realizou mestrado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - FFLCH-USP. Atualmente é Professora Associada da Escola de Comunicações e Artes da USP. É autora, entre outras obras, de Vieses da comunicação: explorações de Marshall McLuhan (São Paulo: AnnaBlume, 2014), Semiótica da cultura e semiosfera (São Paulo: AnnaBlume, 2007) e Escola de semiótica: a experiência de Tártu-Moscou para o estudo da cultura (São Paulo: Ateliê Editorial, 2003).

Ecos do Evento

“Eu gostei de como a conferencista faz um apanhado histórico desde os primeiros contatos das sociedades com o computador e a questão da cibercultura e da midiatização. O que acrescentou na minha área foi compreender a midiatização do conhecimento através desses novos meios, e a questão da influência deles na nossa transmissão de conhecimento.” Giovana Viana, mestranda em tecnologia aplicada à educação 

“O autor McLuhan foi o primeiro autor internacional que eu entrei em contato na comunicação e o título da palestra já me chamou atenção. O tema em si foi o que me convidou para vir nessa palestra em especifico, mas o evento eu venho todos os anos, então é muito especial estar aqui.” Adriane Roso, Professora de psicologia na Universidade Federal de Santa Maria

 “Eu estou trabalhando dentro dessa área, no sentido de mundo globalizado, nesse conceito de Aldeia Global com os terceiros anos do ensino médio. Além disso, trabalhamos um pouco a história das comunicações, das tecnologias, a partir do McLuhan e alguns conceitos dele. Não trabalhei em um sentido de revoluções tecnocientificas, foi mais no sentido de todas essas mudanças que ocorrem atualmente.” José Leon, professor de filosofia

 

Leia mais...

- 100 anos de McLuhan: um teórico de vanguarda. Edição 357 da IHU On-Line, de 11-04-2011.

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