Edição 457 | 27 Outubro 2014

Uma nova ontologia molecular da vida

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Márcia Junges | Fotos: Julian Kober

“A vida está se movendo do mistério para o mecanismo. Há uma nova ontologia molecular da vida”, destaca o sociólogo

A impressão de uma mão artificial, a criação de vida sintética, o transplante completo de face, uma nova droga que ajuda a controlar a dependência de bebida alcoólica e até mesmo a invenção de medicamentos como o Viagra. Essas invenções nos mostram que algo muito sério está em curso no mundo em que vivemos. “A vida está se movendo do mistério para o mecanismo. Há uma nova ontologia molecular da vida”, observa o biólogo, psicólogo e sociólogo britânico Nikolas Rose, docente no King’s College, em Londres, Inglaterra. Trata-se de um estilo molecular de pensamento. As reflexões foram estabelecidas na conferência da manhã de quarta-feira, 22-10-2014, no XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Rose aprofundou a discussão de que estamos numa era de controle biológico. Em sua fala, mencionou o controle dos corpos, das almas, e a ética somática na era do controle biológico. Retomando pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze , afirmou que deixamos a era da disciplina para nos assentarmos na era do controle. “Devemos perceber como se articulam forças de constrangimento e libertação em nosso tempo. Não estamos falando de disciplina, mas de controle nas sociedades em que vivemos”, completou.

As evidências empíricas de controle sobre o corpo são inúmeras. Lembremos, por exemplo, do episódio da clonagem da ovelha Dolly. “Em tese, podemos fazer o que queremos. A vida é limitada apenas pelas regras da lógica e da regulação ética de que impõe o que podemos ou não fazer.”

Segundo Rose, nossa ideia de vida está mudando, permanece em mutação. Contudo, as categorias de normal e patológico, na perspectiva estudada por Canguilhem , continuam sendo divisões do controle biológico ao qual estamos submetidos. Podemos trazer nosso futuro ao presente através da preempção oferecida pelas opções médicas. Fala-se, inclusive, na emergência de uma nova forma de vida, que nos transforma, e múltiplas transformações in loco dão conta disso. 

Cidadania biológica

Outro aspecto que gerou grande interesse na plateia foi a discussão sobre a cidadania biológica, completando aspectos como afiliações, obrigações e direitos em termos de nossa biologia. Isso é uma constante atualmente. Temos uma transformação da forma passiva de direitos para uma nova relação entre a expertise biomédica, novos modos de governo de si mesmo (na pessoa dos pioneiros éticos) e, igualmente, novas forças de exclusão e de cidadania de grupos na formação de aparatos políticos, ciência e comércio. 

Além da patologia

O redesenho dos indivíduos a partir do conhecimento científico foi um dos dados de grande repercussão abordados por Nikolas Rose. Hoje são realidade ambições antes impensadas como o “scan me”, o “decode me”, o “the book of me”, “personalise me”, o “know me” e outras prudências biológicas individualizadas. Trata-se de fantasias de controle e conhecimento, pontuou o pesquisador. Uma medicina personalizada, preditiva e preventiva continua a embalar os sonhos dos sujeitos de nosso tempo. Nesse sentido, é emblemático o caso da atriz hollywoodiana Angelina Jolie, que após descobrir que, por herança genética, teria grandes probabilidades de desenvolver câncer de mama, decidiu realizar uma dupla mastectomia. “Nossa vida está repleta de uma racionalidade biopolítica saturada pelas antecipações de futuro, como esperança, expectativa, desejo e ansiedade.”

Na segunda parte de sua exposição, Nikolas Rose discutiu como as mentes também se tornaram mecanismos, a exemplo dos corpos em nosso tempo. Primeiro eram os padres e poetas os engenheiros das almas, agora são os cientistas que ocupam tal posto, advertiu. Sinal disso é que a neurociência emerge com força total no começo do século XXI. O cérebro pode ser manipulado no nível molecular, e há uma proliferação de ciências de recorte “psi”: neuropsiquiatria, neurociência, neuropolítica, neurodireito, neuroeconomia, neuromarketing, neuroeducação, entre outras. 

Ao final da conferência, Rose ponderou que estamos numa era em que podemos governar nosso corpo através do nosso cérebro. Retomou as três perguntas fundamentais de Kant , provocando a plateia: “O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar?” Um novo pastorado para a administração de nossas capacidades, retomando Michel Foucault  em Segurança, território, população?

Quem é Nikolas Rose?

Nikolas Rose é professor de Sociologia e diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King's College de Londres. É codiretor do Centro de Biologia Sintética e Inovação (CSynBI), uma importante colaboração de pesquisa entre o King's College e o Imperial College de Londres. Biólogo, psicólogo e sociólogo, cofundou duas influentes revistas radicais nos anos 1970 e 1980, desempenhando um papel fundamental na introdução do pensamento crítico pós-estruturalista francês para o público anglófono e ajudou a desenvolver novas abordagens para a análise e a estratégia políticas. Publicou amplamente sobre vários campos e disciplinas, e sua obra foi traduzida para 13 idiomas. É ex-editor administrativo e coeditor-chefe da revista interdisciplinar BioSocieties. Seu último livro, escrito com Joelle Abi-Rached, intitula-se Neuro: The New Brain Sciences and the Management of Life (Princeton: University Press, 2013).

Ecos do evento

 “Eu acho bem importante essa discussão, mas eu não compartilho da ideia biologicista de entender a psiquê. Está certo que o cérebro cria a mente, mas alguns dispositivos de linguagem e formação de signos vão além. O pensamento vai muito além de sinapse nervosa. Eu acho interessante ele conciliar as teorias de beleza com essa nova neurociência.” Murilo Benites dos Santos, psicologia

“A palestra foi muito interessante. O que mais me chamou a atenção foi essa questão do controle biológico e genético com a desconexão das pessoas com seus processos naturais e a questão de racionalizar as coisas, querer brincar de Deus, coisa que na realidade não está certo. Eu não conhecia o trabalho de Rose e esse primeiro contato foi muito importante.” Juliana Antunes, Psicologia

“Eu achei a palestra bem interessante porque ele (Nikolas Rose) quis mostrar a nova tecnologia sobre a neurociência e para meu curso de biomedicina deu para ter uma base maior do que são esses estudos que ele nos apresentou hoje. É muito importante a Unisinos trazer um palestrante de fora, abrindo essa oportunidade.” Dandara dos Santos, Biomedicina

“Toda a discussão e problematização que Rose vem fazendo a respeito da neurociência para o campo da educação é muito pertinente no sentido de que cada vez mais nós somos invadidos por esse discurso da neurociência como direcionador das nossas práticas pedagógicas. Mas nós podemos problematizar isso para ter mais possibilidades de continuar pensando a educação a partir de outros lugares também”. Maurício Ferreiro, professor de Pedagogia

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