Edição 457 | 27 Outubro 2014

Ciências humanas e da vida. Separação e aproximação

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Andriolli Costa | Fotos: Andriolli Costa

O sociólogo britânico reflete sobre a relação entre Sociologia e Biologia, que se distanciaram ao longo dos séculos, mas que hoje parecem convergir para um lugar comum

Sociólogo e pesquisador de longa data da área da Saúde e da Medicina, o britânico Nikolas Rose acredita no estabelecimento de um diálogo mais profícuo entre as ciências da vida e as ciências sociais humanas. Sociologia e Biologia, afinal, se estabeleceram como disciplina ao mesmo tempo, em meados do século XIX. No entanto, em pouco tempo a razão empirista e cientificista fez com que uma se distanciasse da outra — e assim permanecessem.

Professor do King’s College de Londres, um dos maiores centros de formação médica da Europa, Rose fala em uma amizade crítica entre elas. “É uma amizade, e não uma parceria, porque eu posso ser seu amigo sem esperar algo em troca”, explica ele. A crítica, no caso, vem de uma postura de mútua colaboração, e não de um entusiasmo ingênuo que leva a uma “virada neurológica das humanidades”, por exemplo, ou da recusa ao progresso científico. Para Rose, é preciso “parar de analisar as regras e tomar parte no jogo”.

Tal amizade é construída a partir da percepção de que não há diferença entre o “lado de dentro e o lado de fora”. O ser humano, tal como é, não é resultado apenas da ação biológica, das ligações cromossômicas, da herança genética. Seu contexto histórico-cultural de inserção, suas experiências de vida, suas relações consigo e com o outro também são fundamentais para definir o que será ativado ou desativado na estrutura genômica (a chamada “epigenética”).

Rose palestrou na última sexta-feira (17) no Auditório Central da Unisinos, durante o XVII Colóquio Filosofia Unisinos: Filosofia e Bioética - Entre o cuidado e administração da vida. Seu tema, como não poderia deixar de ser, foi As Ciências Humanas na Era da Biologia. Sobre o assunto, ele afirma: “O fato de o ser humano ser um primata já diz muito sobre o seu modo de se relacionar com o mundo, das associações que fará com outros humanos e assim por diante”, relata ele, destacando um elemento primordial que mostra a ligação entre as duas ciências. Mas não é a única.

Para ele, as ciências da moral humana e da ordem social frequentemente se diferenciam daqueles das coisas vivas. No entanto, ao mesmo tempo, a ordem social e a ordem moral frequentemente são compreendidas em termos quase biológicos: “seja importando metáforas, como a ‘degeneração’, seja com estilos de pensamento, como a evolução”.

No próprio século XIX, a preocupação com a questão das populações também foi uma grande interface entre as ciências da vida e as sociais. O crescimento populacional, a natalidade e a mortalidade, a teoria malthusiana e a eugenia vinculam de imediato preocupações biopolíticas. 

“Eu trabalho há quase uma década com neurocientistas e posso dizer que neste espaço de tempo a ontologia do ser humano mudou, assim como a própria biologia”, defende Rose. Esta não é mais considerada com fatalismo, como determinadora de um destino inexorável para o indivíduo, mas como um horizonte de possibilidades. 

As próprias descobertas científicas modificaram sua própria ontologia. Passamos, assim, da “neuro-fixidez” para a neuroplasticidade. Da morte dos neurônios para a neurogênese, da unidade do organismo para o conceito de microbiomas existentes em cada ser vivo. “Na era da biologia, o que existia era a visão molecular da vida. Não mais mistério, mas mecanismo.” Com a abertura para o contexto, o cultural, a emoção e o sensível, no entanto, essa redução perde espaço para um neovitalismo. “O vitalismo, para mim, é um lembrete da essencialidade do vivo”, defende.

Quem é Nikolas Rose

Nikolas Rose é professor de Sociologia e diretor do Departamento de Ciências Sociais, Saúde e Medicina do King's College de Londres. Rose é codiretor do Centro de Biologia Sintética e Inovação (CSynBI), uma importante colaboração de pesquisa entre o King's College e o Imperial College de Londres.

Biólogo, psicólogo e sociólogo, Rose cofundou duas influentes revistas radicais nos anos 1970 e 1980, desempenhando um papel fundamental na introdução do pensamento crítico pós-estruturalista francês para o público anglófono e ajudou a desenvolver novas abordagens para a análise e a estratégia políticas.

Publicou amplamente sobre vários campos e disciplinas, e sua obra foi traduzida para 13 idiomas. É ex-editor administrativo e coeditor-chefe da revista interdisciplinar BioSocieties. Seu último livro, escrito com Joelle Abi-Rached, intitula-se Neuro: The New Brain Sciences and the Management of Life (Princeton: University Press, 2013), obra debatida no Evento Abrindo o Livro do IHU, no dia 09-10-2014. Uma entrevista sobre o livro pode ser lida no link http://bit.ly/ihuon455. 

XIV Simpósio Internacional IHU

O professor apresentou a conferência A biopolítica no século XXI: cidadania biológica e ética somática, no dia 22-10-2014, na Unisinos. O evento integrou a programação do XIV Simpósio Internacional IHU - Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea.

Ecos do Evento

“Nikolas Rose discute da perspectiva da sociologia a relação entre a vida humana e a sociedade. Ele articula questões da biopolítica e mostra a relação entre o poder e o controle da vida nas sociedades contemporâneas. Isso abre espaço tanto para o cuidado da vida quanto para sua instrumentalização.” Castor Ruiz, professor do PPG de Filosofia da Unisinos

 

“Rose traz uma abordagem provocativa, que nos convoca a ter outra postura diante dos avanços da biologia. As Ciências Sociais, no geral, são bastante críticas quanto aos avanços científicos. No entanto, é preciso pensar sobre elas para ter outros olhares sobre a vida humana e a saúde coletiva.” Tonantzin Gonçalves, professora do PPG de Saúde Coletiva da Unisinos

 

Leia mais...

- Biopolítica e complexidade. Da cidadania biológica à ética somática. Entrevista com Nikolas Rose publicada na edição 456 da IHU On-Line, de 20-10-2014.

- Neurociência e gestão da vida. Um olhar sobre a obra de Nikolas Rose. Entrevista com Eduardo Zanella e Miguel Herrera publicada na edição 455 da IHU On-Line, de 29-09-2014.

- A vida nas interfaces das mutações tecnocientíficas e suas repercussões sobre a subjetividade. Entrevista com José Roque Junges publicada na edição 454 da IHU On-Line, de 15-09-2014.

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