Edição 454 | 15 Setembro 2014

Corpo audiovisual – As implicações do capitalismo tardio na reconfiguração do humano

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

Para a pesquisadora Nísia Martins do Rosário, as revoluções tecnológicas são potencialmente positivas, entretanto a inclinação meramente mercadológica deve ser posta em causa

“O paradigma da felicidade embasada no progresso perdeu credibilidade na modernidade e, por isso mesmo, contemporaneamente instituiu-se um novo questionamento acerca das verdades, da felicidade e das metas sociais. Os mecanismos da ordem da produção, entretanto, não estão esquecidos, a sociedade do capitalismo tardio aplica a regra da liberação do fluxo do desejo para atingir o consumo. Essa abertura, por certo, estimula a aquisição de bens materiais, provocando, necessariamente, a atenção redobrada ao corpo, à saúde, ao prazer e à sexualidade”, argumenta a professora doutora e pesquisadora Nísia Martins do Rosário, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Ao debater sobre as reconfigurações do corpo na tecnocultura, a entrevistada sustenta que a vontade do ser humano de recriar a si próprio encaminhou as buscas pelo tecnológico, mas reconhece as limitações desse processo. “Nessa mesma via a medicina altera aparências em prol da estética com cirurgias plásticas, implantes, entre outros. Contudo, é preciso lembrar que essas inovações tecnológicas não estão disponíveis a todos os corpos que delas necessitam ou pensam necessitar. Entram aí variáveis econômicas que se cruzam com a tecnologia”, argumenta. “Na esteira da industrialização, há um atrelamento cada vez maior do ser humano à técnica e à tecnologia. Os meios de comunicação pegam carona com os avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo que se aperfeiçoam, funcionam como propulsores da reprodutibilidade técnica do corpo”, destaca.

Para a pesquisadora, os filmes trazem à tona desafios éticos e “questionam as possibilidades de as tecnologias serem nocivas ao humano. Não há mais, como outrora houve no cinema, a ideia da tecnologia como algo à parte do corpo humano, sendo objeto facilmente identificável pela distinção. A tecnologia, agora, está dentro do próprio homem, invisível, mas onipresente, já que a principal forma de domínio do homem sobre o artificial é a conexão mental”. Por fim, argumenta que os avanços tecnológicos permitiram avanços e melhorias na vida cotidiana, mas coloca em causa uma inclinação mercadológica que, avalia, deve ser questionada. “A quem pertence o domínio técnico? Se os interesses técnicos e financeiros se sobrepõem aos progressos genéticos e cibernéticos, qual o preço a ser pago para ser parte da hegemonia? E o que é, afinal, ser humano?”, provoca.

Nísia Martins do Rosário é professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, no curso de Comunicação Social e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação. Possui graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e mestrado em Comunicação pela Unisinos. Realizou doutorado em Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica – PUCRS. A ênfase de suas investigações é em Comunicação Visual e integra o Grupo de pesquisa semiótica e cultura da comunicação – Gpesc e o grupo de pesquisa Processos comunicacionais: epistemologia, midiatização, mediações e recepção – Processocom.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Que implicações e transformações as tecnologias contemporâneas trouxeram àquilo que entendemos como corpo?

Nísia Martins do Rosário - São muitas as implicações e transformações do corpo no mundo contemporâneo, mas é importante entendê-las como movimento contínuo, como processo complexo, articulado por diferentes variáveis, entre as quais as inovações tecnológicas. Ao longo da história da civilização o corpo sempre foi afetado por tecnologias das mais variadas, mas não com tanta velocidade e impacto como hoje em dia. Tentando responder de forma direta à pergunta, entendo que o corpo contemporâneo está mais potente porque aparatado pelas tecnologias que o tornam, de certa forma, um ciborgue. Se entendermos ciborgue na sua forma mais básica, veremos que o termo vem da junção dos prefixos cybernetic + organism e que, portanto, serve para representar a simbiose entre o orgânico e o inorgânico, e é justamente nesse último que o corpo se apoia para melhorar sua performance. De certa maneira, somos todos ciborgues se a tecnologia estiver ligada a nós, por exemplo, com o uso de óculos. Considerando a abrangência da noção de prótese, a classe dos ciborgues pode agrupar um número significativo de exemplares. O avanço tecnológico e a vontade do ser humano de recriar a si mesmo encaminharam as buscas pelo tecnológico. De certa forma, no início do século XXI a maioria dos seres humanos é um pouco prótese, um pouco reinvenção ou recriação.

Num contexto mais cotidiano, pode-se pensar, por exemplo, em como os avanços na área da medicina permitiram o prolongamento de vidas, a solução de problemas de saúde e a facilitação nos cuidados com o físico, inclusive com próteses diversas, implantes de chips, microcâmeras que percorrem os órgãos internos. Nessa mesma via a medicina altera aparências em prol da estética com cirurgias plásticas, implantes, entre outros. Contudo, é preciso lembrar que essas inovações tecnológicas não estão disponíveis a todos os corpos que delas necessitam ou pensam necessitar. Entram aí variáveis econômicas que se cruzam com a tecnologia. 

Ainda nessa perspectiva, as Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs permitem que pessoas possam interagir não presencialmente, numa ambiência de velocidade e instantaneidade. Os corpos, nesse caso, se conectam pela mediação da internet e, se agora é possível interagir com pessoas que não víamos há muito tempo, que estão distantes geograficamente, e até mesmo fazer cibersexo, alguns defendem que as pessoas não mais se comunicam, ficam presas em suas casas e às suas máquinas, um corpo que não age, um corpo preguiçoso do contato “real”. Enfim, há controvérsias sobre as implicações das tecnologias no corpo, mas entendo que isso seja muito positivo e faz parte do processo humano.

 

IHU On-Line – Que corpo é esse que emerge na tecnocultura? Como se difere do conceito moderno e até mesmo medieval de corpo?

Nísia Martins do Rosário - De acordo com Braunstein  e Pépin  (O lugar do corpo na cultura ocidental. São Paulo: Piaget, 2003), é possível afirmar que, ao longo dos séculos predominam no mínimo três formas diferentes de reflexão sobre o corpo: a ênfase na matéria e no seu controle e disciplina; a ênfase no espírito/razão e a busca da transcendência; e por fim, a harmonia entre a matéria e a parte abstrata. Entendo que essa última forma é a mais adequada para pensar o corpo, mas todas elas foram se tensionando ao longo da história.

O ponto de vista que enfatiza o espírito e a razão em detrimento do físico tem parte de sua episteme ligada a um conceito de corporificação vinculado ao entendimento modernista, à organização dual da sociedade, capaz de criar classificações de forma binária, assimétrica e polarizada (mente e físico). Pelo ponto de vista da articulação dual, o corpo operaria apenas como um mediador da mente ou da alma para com o mundo.

Mesmo se na Antiguidade já se pensava o ser humano como constituído por um corpo físico e uma outra parte subjetiva, a partir de Descartes  (Iluminismo) essa divisão dual foi consolidada e, consequentemente, o físico passou a estar a serviço da razão, a rex cogitans.  A sociedade ocidental, paulatinamente, parece ter incorporado esses sentidos, ampliando essa dualidade para outros preceitos como: espírito/matéria; masculino/feminino; branco/preto; dominante/dominado; civilizado/primitivo; culto/inculto; letrado/analfabeto; desenvolvido/subdesenvolvido. 

Na esteira da industrialização, há um atrelamento cada vez maior do ser humano à técnica e à tecnologia. Os meios de comunicação pegam carona com os avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo que se aperfeiçoam, funcionam como propulsores da reprodutibilidade técnica do corpo. A reprodução do corpo não fica mais somente no âmbito da pintura, do desenho e da escultura, ela, agora, pode atingir uma diversidade maior de indivíduos e apresentar um grande número de cópias, de poses, de formatos. O Instagram é um exemplo disso. Assim, o corpo pode ser mostrado, exibido, copiado, clonado, multiplicado, colocado em movimento sempre como signo.

Deve-se levar em conta também que o paradigma da felicidade embasada no progresso perdeu credibilidade na modernidade e, por isso mesmo, contemporaneamente instituiu-se um novo questionamento acerca das verdades, da felicidade e das metas sociais. Os mecanismos da ordem da produção, entretanto, não estão esquecidos, a sociedade do capitalismo tardio aplica a regra da liberação do fluxo do desejo para atingir o consumo. Essa abertura, por certo, estimula a aquisição de bens materiais, provocando, necessariamente, a atenção redobrada ao corpo, à saúde, ao prazer e à sexualidade. 

Se, na modernidade, o corpo perdeu definitivamente seu caráter uno, dividindo-se em dois — matéria física e a parte abstrata representada pela alma —, na contemporaneidade, o corpo é a própria fragmentação, parte-se em pedaços que adquirem significados próprios. O físico, agora, se de-compõe em músculos, glúteos, coxas, seios, bocas, olhos, cabelos, órgãos genitais, quadris, entre outras partes. Não se pode deixar de pensar, também, que a parte abstrata do ser humano recebeu sua cota de divisões. Ao que parece, coexistem dentro do corpo físico o espírito, a alma, a inteligência e a psiquê, todos com funções distintas e problemas particulares. A mídia — através dos recursos de pautas, closes, ângulos, recortes, edições — é a grande propulsora desse traço, transformando cada parte do corpo em um texto gerador de sentidos.

O corpo assume, então, um valor de significação que está intimamente ligado ao subjetivo, ao motivado (buscando romper com o arbitrário). Esse traço não está livre do ciclo da produção, mas volta-se com potência à fantasia, ao desejo e ao fictício, construindo cadeias de sentidos que se adequam a uma das necessidades dessa época: a visibilidade. Um corpo construído para ser visto. A sociedade somatófila — defendida por Maffesoli  — ancora-se no narcisismo que fundamenta os valores cotidianos e é o articulador da representação do ‘eu’. Paralelamente, ganham força o hedonismo, o presenteísmo, o sensualismo, tudo isso engendrando uma forma diferente de ‘estar junto’ e reforçando a exaltação do corpo. 

A estética que atravessa a construção do corpo se reflete de diferentes modos no mundo contemporâneo, inclusive retratando-se em correntes como o body building, o body modification e inspirando a body art. A estética da aparência está ligada, hoje, afinal, a corpos que simulam o ideal, o perfeito, sendo que essa ‘perfeição’ está dada pelo social, pela ciência, pela economia, pela filosofia e disseminada na cultura. Não tem, portanto, um sentido unívoco. Ao mesmo tempo, a construção e a modificação do corpo é hipervalorizada por vias diversas, que vão desde a musculação, passando pela cirurgia plástica e pelos implantes, até chegar ao naturalismo e ao vegetarianismo. Refazer-se melhor, mais saudável, mais perfeito, mais belo: essa é a meta. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que se multiplicam os corpos melhorados, mais saudáveis, mais jovens, mais esbeltos, multiplicam-se, também, os casos de obesidade, de anorexia, de bulimia, de vícios — drogas, fumo, álcool —, de depressão. 

 

IHU On-Line – Que imaginários os corpos eletrônicos cinematográficos constroem?

Nísia Martins do Rosário - Defendo a tese de que os corpos no cinema assumam o imaginário tecnológico da tecnofobia. Por um lado, a mídia informativa mostra que a tecnologia e a ciência invadem a vida cotidiana. Entre as pautas estão: a cura de transtornos do pânico através de tratamentos que nos levam a realidades alternativas com o uso de avatares; chips implantados em nossos corpos que farão com que não envelheçamos mais; as palmas das mãos servirão como suportes físicos de computadores. Em tal cenário apresentado pela mídia percebe-se uma ambiência de tecnofilia. As notícias se constroem num tom de descoberta, de inovação, de progresso, de salvação.

Por outro lado, no cinema o homem aparece como ser genial, criador do desenvolvimento e capaz de submeter a seu jugo o que está ao seu redor, mas é também subjugado à técnica e à tecnologia. Dessa maneira, é possível encontrar nos discursos do cinema de ficção científica sentidos de que a ciência pode ser sinônimo de melhorias, mas não necessariamente de evolução e de progresso. Basta ver filmes como o recente Robocop (2014); ou Transformers (2007); Avatar (2009); Distrito 9 (2009); Homem de Ferro (2008); Depois da Terra (2003); Gamer (2009); Substitutos (2009); Repo Men (2010). Todas as estórias retratam a tecnocultura ao centrarem-se em temáticas que dizem respeito a algum tipo de progresso científico: a produção de inteligência artificial ou de órgãos humanos artificiais para transplante; a disponibilização de robôs para substituírem os humanos; a potencialização do homem pela máquina; a criação genética de um ser híbrido (humano/extraterrestre) que tem mais habilidades que os humanos; o controle de pessoas através da implantação de chips no sistema nervoso central. A humanidade precisa jogar olhares para o futuro com vistas a prever fatos e acontecimentos. De certa forma, é isso que os filmes de ficção científica tentam fazer: construir representações do futuro com base nas experiências de vida do presente. 

 

IHU On-Line – Como tais produções cinematográficas do corpo colocam em causa as ideias iluminista e antropocêntrica do corpo?

Nísia Martins do Rosário - Conforme defendi anteriormente, as produções cinematográficas que envolvem a tecnocultura colocam em evidência os contextos de seus tempos. Atualmente, há quem defenda que nossa sociedade não é mais antropocêntrica, mas tecnocêntrica (e deixou para trás, há muito tempo, o teocentrismo). De qualquer forma, indo contra muitas posições, entendo que as questões da sociedade ainda se voltam para o humano, seja na relação com o deus mítico ou com o deus máquina.

Percebe-se que os avanços tecnológicos que resultaram, também, no aperfeiçoamento das técnicas de comunicação, permitiram uma eficiência maior na representação do corpo no imaginário cinematográfico. Unindo som, imagens em movimento e efeitos especiais, o audiovisual revela-se capaz de simular uma “realidade” muito semelhante à realidade cotidiana e estimular a crença na ficção, colocando em ação os sentidos produzidos em torno das imagens sociais. Tais características posicionam o audiovisual entre as chamadas “tecnologias do imaginário”, que são os instrumentos de ficcionalização de que o homem dispõe para criar, interpretar ou traduzir textos que se originam num processo de significação estruturado sobre um conjunto de códigos partilhados social e midiaticamente.

Vale ressaltar que, ao mesmo tempo em que as tecnologias possibilitam que o imaginário seja atualizado, elas também induzem à construção do imaginário tecnológico. Logo, o audiovisual — e mais propriamente o cinema — não apenas materializa o que já está presente no imaginário acerca da relação do homem com a tecnologia, como também constrói significações a partir do que representa.

É preciso considerar também que, a partir do cinema e da literatura, as expressões da subjetividade humana se mostram de diversas formas, e com as questões da tecnocultura não seria diferente. Nesse contexto aparecem muitas criaturas que, de alguma forma, representam o humano e que muitas das vezes estão também atravessadas pelo maquínico, pelo digital. Tornam-se tão interessantes, provavelmente, pelo elemento artificial que trazem, se contrapondo ao elemento humano — corresponde à carne, ao pensamento, à subjetividade.  Assim, seres como robôs, androides, mutantes, avatares são a representação da alteridade humana, uma outra forma de significar os monstros, os freaks, o estranho. 

Por outro lado, a modernidade, ao estabelecer dualidades para o pensamento, acabou por colocar em polos opostos conceitos e concepções que não podem ser pensadas separadamente. Assim, a dualidade humano e máquina — também expressa no pensamento clássico por alma e matéria e no marxismo por subjetivo e produção — forma dois polos que tendem a apagar-se na contemporaneidade devido aos novos rumos que assume o pensamento, sobretudo no que diz respeito às tecnologias do imaginário, à subjetividade e, logicamente, à relação homem/máquina. O atravessamento da vida pela tecnologia causa muitas inquietações acerca da subjetividade humana incorporada à máquina e que, do meu ponto de vista, estão bem expressas em um trecho do filme Eu, robô (2004).

Sempre existiram ‘fantasmas na máquina’. Trechos de códigos randômicos que se uniram para formar protocolos inesperados. De forma não antecipada, esses radicais livres elaboram perguntas sobre livre-arbítrio, criatividade e até mesmo a natureza daquilo que chamamos de alma. Por que será que, ao ficarem no escuro, eles procuram a luz? Por que será que, quando armazenado num lugar vazio eles se agrupam ao invés de ficarem sós? Como explicar tal comportamento? Segmentos randômicos de códigos? Ou é algo a mais? Quando um esquema de percepção se torna uma consciência? Quando calcular probabilidades começa a busca de verdade? Quando é que uma simulação de personalidade se torna o doloroso átomo de uma alma?

O que parece certo na contemporaneidade é que a tecnocultura e suas máquinas infocomunicacionais articulam transformações consideráveis no cotidiano humano, seja pelos dispositivos de produção de bens e de conteúdos, seja pelos dispositivos de produção de subjetividade.

 

IHU On-Line – De que forma as imagens do corpo eletrônico evoluíram no cinema? De que maneira as tecnologias foram se interconectando ao homem, migrando de uma perspectiva bem dualista em Metrópolis (1927) para as obras contemporâneas como Transcendence - A Revolução (2014)?

Nísia Martins do Rosário - Entendo como corpos eletrônicos, de maneira sintética, os corpos apresentados na televisão, no cinema e em produtos da internet em forma de imagens e que, portanto, são sempre signos, buscando dar significado às formas de expressão, ao imaginário, ao cotidiano, aos contextos culturais em que vivemos. Nesse sentido, o corpo eletrônico é produto da tecnologia e da possibilidade de reprodutibilidade do humano. Como produto, ele fica cada vez mais sofisticado em termos daquilo que pode representar e fazer em função do aparato técnico, ou seja, efeitos especiais, produções de maquiagem e figurino, etc. Ele nem precisa mais ter um referente materializado, precisa apenas das referências em linguagem algorítmica para se construir no ambiente digital. 

Se, como afirma Bystrina , o medo é a teleonomia mais forte da espécie humana, é relevante enfatizar que o cinema não o exclui, revela o que é comum desde o Iluminismo: o medo da ciência e das consequências que ela pode trazer. Mas, talvez, esteja implícito aí um receio mais essencial: o das ações humanas sobre a técnica. De qualquer forma, o cinema assume um papel de mediador da cultura, ao oferecer caminhos para dissipar esses temores através das histórias que conta, seja por meio de catarse ou de projeção. Assim, os discursos fílmicos, ao falarem do futuro e de todas as ansiedades relacionadas a ele, apresentam soluções, propiciam sentidos à vida e às vivências do próprio espectador no momento presente. 

Nessa perspectiva, é possível entender que os contextos das épocas em que os filmes são criados e produzidos, bem como as bases tecnológicas existentes naqueles momentos, têm repercussão sobre a forma como o corpo e o imaginário sobre ele é construído e inserido na narrativa. Por isso, Metrópolis (1927) parte de visão crítica ao capitalismo e ao mecanicismo, em meio ao expressionismo alemão, e Transcendence - A Revolução (2014) aborda o poder da onipresença online e a descorporificação do homem. É relevante que ambos — e muitos outros filmes entre esses dois — levantam questões éticas e questionam as possibilidades de as tecnologias serem nocivas ao humano. Não há mais, como outrora houve no cinema, a ideia da tecnologia como algo à parte do corpo humano, sendo objeto facilmente identificável pela distinção. A tecnologia, agora, está dentro do próprio homem, invisível, mas onipresente, já que a principal forma de domínio do homem sobre o artificial é a conexão mental.

Em complemento, pode-se dizer que o corpo eletrônico (tecnologizado) é um espelhamento do mundo que vivemos, da cultura, da sociedade, do imaginário. Mas, seja pelo brilho que a tela lhes concede ou pelo glamour do audiovisual, os sujeitos que aparecem na tela ganham um tipo de aura — que, claro, não é a mesma abordada por Walter Benjamin  — que lhes empresta signicidades (qualidades múltiplas de signos). Ver nas ruas, por exemplo, uma pessoa das telas causa um desajuste de compreensão inicial e, em seguida, obriga a uma reconstrução dos significados — por que o brilho se perdeu, o sujeito é mais baixo, ou tem menos cabelo, ou a pele é menos viçosa, entre outros. Os atores (apresentadores, etc.), em geral, decepcionam 'ao natural' porque o modo como as tecnologias nos afetam permite a impressão de que esses corpos (ao natural) estejam descorporizados ao saírem do ambiente eletrônico/digital.

Tendo em vista os traços do campo audiovisual, é preciso considerar, em primeiro lugar, que ele perpassa de uma forma ou de outra o domínio do corpo quando este se torna objeto da imagem e/ou do áudio. Em segundo lugar, deve-se ter em mente que o corpo eletrônico é um texto virtual — se se entender esse termo como aquilo que existe em potência e tende a atualizar-se. É justamente essa virtualidade que permite atualizá-lo com o auxílio da tecnologia de diferentes formas, multiplicando-o, ‘reencarnando-o’ em diferentes papéis e aparências. É assim, também, que o audiovisual pode usar o corpo como metáfora da sociedade, como recurso de dominação ou como possibilidade democratizante. 

 

IHU On-Line – O que os corpos tecnoculturais dizem sobre a nossa sociedade? Que debates éticos estão implicados nas construções destas corporalidades?

Nísia Martins do Rosário - Muitas são as implicações éticas advindas da tecnocultura em relação ao corpo, duas delas estão colocadas na resposta à primeira pergunta, no que diz respeito à medicina e à comunicação. Por um lado, a tecnologia propicia tantos avanços e melhorias na vida cotidiana, por outro, há uma motivação mercadológica a ser questionada. A quem pertence o domínio técnico? Se os interesses técnicos e financeiros se sobrepõem aos progressos genéticos e cibernéticos, qual o preço a ser pago para ser parte da hegemonia? E o que é, afinal, ser humano?

Sem dúvida, o modo como esses corpos são construídos, significados, reproduzidos e imaginados, tanto no cotidiano como no audiovisual, está falando sobre a nossa sociedade, essa é uma das maneiras de expressar receios, expectativas, potencialidades, discordâncias, aquiescências, indiferenças.

A tecnocultura, sem dúvida, fortalece um estreitamento na relação homem-máquina e levanta muitos questionamentos éticos e morais. Mas, de certa forma, essa inquietação se estabeleceu desde que o homem percebeu que poderia valer-se de mecanismos capazes de amplificar a força e a rapidez muscular na execução de determinadas tarefas. Essa ligação passou por diversos estágios, seguindo numa linha evolutiva que traça, paralelamente, os usos que a humanidade deu para as máquinas, para o desenvolvimento da tecnologia e para as questões mitológicas que permeiam a cultura. Essa relação prosseguiu com a invenção dos dispositivos sensoriais — que já traziam em seus mecanismos certo nível de inteligência — visto que reproduziam sentidos humanos em seu funcionamento, até o surgimento das máquinas cerebrais, que trouxeram consigo novos rumos para o envolvimento sociocultural. 

Toda essa problemática que envolve o homem, a máquina e a cultura não se deve tão somente às insatisfações surgidas das restrições mecânicas, tecnológicas e de aperfeiçoamento e aproveitamento dos aparelhos, mas também pela necessidade de superar as limitações que o homem percebeu acerca do próprio corpo.

 

IHU On-Line – O que há de mais humano nos corpos eletrônicos? Como são capazes de revelar a nossa própria (des)humanidade?

Nísia Martins do Rosário - Os corpos eletrônicos (tecnologizados) são sempre uma representação do humano e de sua subjetividade, podendo ser produzidos analógica, digital ou figurativamente; assim, deve-se ter em mente que ele é um texto virtual. Contudo, são criações feitas pelo humano (dos homens e mulheres que trabalham com audiovisual) e, nessa via, representam tanto as humanidades quanto os aspectos desumanos na nossa sociedade e cultura. O que os corpos eletrônicos têm de mais humano? A criação pelo humano.

É preciso levar em conta, entretanto, que para se tornar corpo eletrônico deve se submeter à linguagem, à técnica e ao discurso próprios das audiovisualidades. Em decorrência dessa premissa, o corpo eletrônico só tem existência nos domínios do audiovisual (delineados aqui pelos meios televisão, cinema e internet). São, portanto, os corpos representados por essas mídias e que, em função disso, adaptam-se às suas linguagens, tanto nos aspectos culturais quanto semânticos. O corpo eletrônico se constrói a partir de normas e regras próprias das técnicas e estéticas audiovisuais e habitam suas narrativas por meio de construções imaginárias que de alguma forma estão em potência no mundo “real”. Seu êxito é justamente unir aos padrões e ao léxico audiovisual as características do cotidiano, construindo a naturalização sobre o artifício. Assim, ele representa não apenas como interpretação pura, mas até mesmo como simulação eletrônica.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição