Edição 452 | 01 Setembro 2014

Redução do desperdício é trabalho para toda a sociedade

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Luciano Gallas

Conforme Celso Luiz Moretti, em torno de 20 a 25% dos grãos produzidos no Brasil são desperdiçados, enquanto que de 30 a 50% das frutas e hortaliças são descartadas sem serem aproveitadas para consumo humano ou pela indústria

“O consumidor, quando está bem informado, pode contribuir para exigir maior qualidade dos alimentos. A relação dele é com os pontos de venda, com os supermercados. Vemos em outros países como isso ocorre, de forma que a exigência do consumidor por maior qualidade acaba reverberando lá no campo, na produção de um alimento de maior qualidade. Se a questão da qualidade for trabalhada em toda a cadeia, o que inclui a conscientização sobre o uso correto e adequado de fertilizantes, da água, de agrotóxicos, com certeza os alimentos que chegam na ponta, para o consumo, vão apresentar maior qualidade”, aponta o agrônomo e doutor em Fitotecnia Celso Luiz Moretti nesta entrevista, concedida por telefone à IHU On-Line.
   
De acordo com ele, dependendo da cadeia produtiva em que é observado e da metodologia utilizada, o desperdício atinge de 20 a 25% dos grãos produzidos no Brasil e de 30 a 50% das frutas e hortaliças, alimentos que são descartados sem qualquer tipo de aproveitamento. “A redução do desperdício é um desafio muito grande, não só no Brasil, mas em todo o mundo. No ano passado, vimos a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura - FAO realizando uma ação grande para divulgar o tamanho deste problema em vários fóruns, e estivemos envolvidos em vários momentos com esta discussão. Este é um trabalho de todos nós, de toda a sociedade, desde quem está na produção até os consumidores, para que tenhamos um mundo mais consciente, capaz de trabalhar de forma mais sustentável, minimizando os desperdícios e fazendo com que mais pessoas tenham acesso a mais alimentos e com mais qualidade”, pondera o pesquisador.

Celso Luiz Moretti é graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa - UFV, possui especialização em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e obteve mestrado e doutorado em Fitotecnia (Produção Vegetal) pela UFV. É pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, tendo exercido o cargo de chefe-geral do Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças, em Brasília/DF, de 2008 a 2013. Atualmente, ocupa o cargo de chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa. É professor convidado do Departamento de Horticultura da Universidade da Florida, em Gainesville, Estados Unidos; professor colaborador dos departamentos de Ciências da Saúde e Nutrição Humana da Universidade de Brasília - UnB e professor honorário do Departamento de Agroindústria da Universidad Nacional del Santa, Peru. Tem experiência na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, com ênfase em Fisiologia Pós-Colheita.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a extensão do desperdício de alimentos no Brasil?
Celso Luiz Moretti -
Dependendo da cadeia produtiva em que é observado, dependendo da metodologia utilizada, este número varia. Mas trabalhamos com a ideia geral de que, no caso dos grãos, algo em torno de 20 a 25% do que é produzido é desperdiçado, enquanto que, para as frutas e hortaliças, que são mais perecíveis, acredita-se que varie em torno de 30 a 50%, dependendo do produto que é observado.

IHU On-Line – No Brasil, a principal incidência de perdas e desperdício de alimentos está no transporte?
Celso Luiz Moretti -
É uma sequência de problemas, desde a determinação adequada do ponto de colheita, que às vezes é feita no momento inapropriado, o uso de embalagens impróprias, o transporte realizado em rodovias precárias ou mesmo sem refrigeração, que é necessária no caso de algumas frutas e hortaliças, até a comercialização. Então há vários pontos, desde o campo até o consumidor, na chamada “cadeia pós-colheita” que podem levar ao desperdício de alimentos.

IHU On-Line – De que forma as pesquisas científicas realizadas no Brasil têm trabalhado para resolver esta situação?
Celso Luiz Moretti -
Temos desenvolvido uma série de ações, um conjunto de projetos, que vêm atacar estes vários pontos que coloquei como problemáticos na cadeia pós-colheita. Desde o desenvolvimento de embalagens mais adequadas, mais apropriadas para o acondicionamento dos produtos depois de serem recolhidos, o estudo de sistemas de transportes mais adequados e eficientes, o uso de refrigeração, quando for o caso, para as frutas e hortaliças, até a parte de treinamento, de capacitação, oferecida pelos colegas da área de extensão rural aos produtores. É um conjunto de ações que a Embrapa e seus parceiros vêm desenvolvendo visando minimizar este problema, que é muito grave.

IHU On-Line – É possível produzir alimentos com desperdício zero?
Celso Luiz Moretti -
É difícil, porque você tem vários passos, desde a produção do alimento até sua chegada à gôndola do supermercado ou à mesa do consumidor, que muitas vezes são difíceis de ser eliminados completamente. Eu diria que seria utópico falar em desperdício zero, mas com certeza poderíamos trabalhar para reduzir significativamente a incidência atual de perdas e desperdício.

IHU On-Line – Qual seria o impacto da produção orgânica para a redução do desperdício?
Celso Luiz Moretti -
Eu não vejo relação com o desperdício entre a produção orgânica e a produção convencional. Os mesmos problemas em termos de desperdício verificados nos produtos orgânicos são verificados também nos produtos convencionais. Não creio que haja qualquer relação direta entre sistema de produção e desperdício.

IHU On-Line – O fato de a produção orgânica se dar em geral em escala mais reduzida na comparação com a produção convencional não acarretaria em diminuição do desperdício?
Celso Luiz Moretti -
Há produtores orgânicos que trabalham bem a parte da cadeia pós-colheita, mas há também produtores orgânicos que têm um pouco mais de dificuldades. Há produtores convencionais que são pequenos, e há outros produtores convencionais que são maiores, mas que também trabalham bem a pós-colheita. Então a questão do desperdício está mais associada ao acesso e à adoção da tecnologia do que ao método de produção.

IHU On-Line – E a organização dos agricultores em cooperativas, o que pressupõe o domínio de alguma tecnologia, favorece a adoção de práticas de produção que evitem o desperdício?
Celso Luiz Moretti -
Sem dúvida a questão da organização dos produtores de maneira associativa, por meio de cooperativas, por meio de associações, tende a levar a uma redução do desperdício, a partir do momento em que se consegue melhor programar a colheita, se consegue ter condições de armazenamento mais adequadas, condições de ecoar a produção de maneira mais organizada. Isso tudo ajuda a evitar o desperdício.

IHU On-Line – Neste sentido, de que forma a Embrapa tem colaborado com as ações de cooperativas de agricultores?
Celso Luiz Moretti -
A Embrapa tem trabalhado em vários momentos em parceria com associações de produtores e cooperativas para desenvolver projetos e tecnologias dentro deste processo de redução do desperdício, tanto de produtores de grãos quanto de associações de produtores convencionais e orgânicos. Posso falar com mais propriedade de um trabalho que fizemos há pouco tempo, com produtores de morango do Distrito Federal. Realizamos a capacitação dos produtores no processo pós-colheita, no processo de manuseio da hortaliça, objetivando reduzir sua contaminação, por meio de um convênio da Embrapa com os ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura. Foi um trabalho bastante interessante.

IHU On-Line – Qual a participação da Embrapa em ações do tipo colheita urbana? Como é possível garantir a qualidade dos alimentos neste tipo de ação?
Celso Luiz Moretti -
Temos acompanhado alguns bancos de alimentos. São iniciativas da sociedade civil que realmente contribuem para a redução do desperdício e para levar uma quantidade maior de alimento para as populações. Não temos envolvimento específico direto na atividade de coleta, mas temos oferecido capacitação em termos de segurança do alimento que é coletado para ser armazenado ou repassado. Fizemos alguns anos atrás um trabalho com o Tribunal de Contas da União, quando prestamos assessoria técnica para projetos relacionados a bancos de alimentos financiados com recursos públicos. Temos uma diretoria na Embrapa focada em transferência de tecnologias, em cada unidade nossa há também uma área de transferência de tecnologias. Nelas, focamos a questão da capacitação, dos treinamentos, contribuindo para que as tecnologias geradas cheguem até os produtores.

IHU On-Line – Como a educação pode favorecer uma participação mais ativa da população para evitar o desperdício?
Celso Luiz Moretti -
O consumidor, quando está bem informado, pode contribuir para exigir maior qualidade dos alimentos. A relação dele é com os pontos de venda, com os supermercados. Vemos em outros países como isso ocorre, de forma que a exigência do consumidor por maior qualidade acaba reverberando lá no campo, na produção de um alimento de maior qualidade. Se a questão da qualidade for trabalhada em toda a cadeia, o que inclui a conscientização sobre o uso correto e adequado de fertilizantes, da água, de agrotóxicos, com certeza os alimentos que chegam na ponta, para o consumo, vão apresentar maior qualidade.

IHU On-Line – Gostaria de adicionar algo?
Celso Luiz Moretti –
A questão da redução do desperdício é um grande desafio, não só no Brasil, mas em todo o mundo. No ano passado, vimos a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura - FAO realizando um conjunto de ações em nível mundial para divulgar o tamanho deste problema em diversos fóruns, e a Embrapa esteve envolvida em vários momentos com esta discussão. Este é um trabalho de todos nós, de toda a sociedade, desde quem está na produção até os consumidores, para que tenhamos um mundo mais consciente, capaz de trabalhar de forma mais sustentável, minimizando os desperdícios e fazendo com que mais pessoas tenham acesso a mais alimentos e com mais qualidade.

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