Edição 450 | 11 Agosto 2014

O pós-colonialismo e a fé cristã. Desafios

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Márcia Junges e Ricardo Machado | Tradução: Walter O. Schlupp

Diarmuid O'Murchu, em seu recente livro On Being a Postcolonial Christian: Embracing an Empowering Faith, debate costumes enraizados cujos sentidos são irrelevantes para nosso tempo

O psicólogo social e membro dos Missionários do Sagrado Coração Diarmuid O'Murchu lançou, em maio deste ano, o livro On Being a Postcolonial Christian: Embracing an Empowering Faith (New York: Amazon, 2014), em tradução livre: Sobre ser um cristão pós-colonial: abraçando e empoderando a fé. 

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, ele comenta a obra, afirmando que o pós-colonialismo “analisa as consequências, o impacto que continua atuando anos depois que a influência colonizadora em si deixou de existir, ou tenha perdido grande parte de sua influência”, explica. “Um exemplo simples é a dos paramentos, que o sacerdote usa ao celebrar Eucaristia: eles são modelados conforme os trajes usados pelas elites masculinas na época romana dos séculos IV a V. Por que continuamos agarrados a essa ultrapassada bagagem associada a uma superada cultura imperial?”, questiona. 

“O próprio papado, além de várias características de autoridade em todas as Igrejas cristãs, continua usando símbolos cujo significado está enraizado em costumes e práticas que, além de serem irrelevantes para o nosso tempo, poderiam até mesmo ser considerados blasfemos desvios da vivência de uma fé mais autêntica”, provoca Diarmuid. Ao propor uma perspectiva mais crítica com relação a costumes, que na sua avaliação são imperiais, o autor defende que o “pós-colonialismo é muito mais um instrumento ou recurso que provoca um despertar adulto para as formas como temos sido engambelados por muito tempo. Ele mostra os comportamentos codependentes detectados em todos os principais sistemas de fé, induzindo os devotos a se comportar como crianças passivas, em vez de adultos criticamente envolvidos”.

Por fim, ele destaca que no caso do cristianismo há todo um linguajar suntuoso onde Deus é tratado com um rei, adotando um repertório tipicamente imperial. “Dirigir-se a Deus como rei, adotando todo um repertório de constructos imperiais, nada tem a ver com a mensagem do Evangelho original, com a qual Jesus denunciou veementemente a instituição da realeza. Na verdade, esses constructos se devem à influência patriarcal de gente como Constantino, que se agarraram ao poder, minando a autêntica fé cristã ao longo de vários séculos, até os nossos dias”, aponta.

Diarmuid O'Murchu é psicólogo social e membro da Sociedade dos Missionários do Sagrado Coração. Durante anos atuou no aconselhamento de casais, portadores de HIV, moradores de rua e refugiados. Agiu ainda como facilitador da organização de grupos para propagação da fé em países como Europa, Estados Unidos, Austrália, Filipinas, Tailândia, Índia e Peru. Além do livro que abordamos nesta entrevista, Diarmuid O'Murchu escreveu, entre outras obras, Christianity's Dangerous Memory (New York: The Crossroad Publishing Company, 2011), In the Beginning was the Spirit (New York: Orbis Books, 2012) e God in the Midst of Change (New York: Orbis Books, 2013).

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Que é pós-colonialismo e o que é um cristão pós-colonial?

Diarmuid O’Murchu - O pós-colonialismo estuda o que resta do poder colonial. Ele destaca e analisa as consequências, o impacto que continua atuando anos depois que a influência colonizadora em si deixou de existir, ou tenha perdido grande parte de sua influência. Um exemplo simples é a dos paramentos, que o sacerdote usa ao celebrar Eucaristia: eles são modelados conforme os trajes usados pelas elites masculinas na época romana dos séculos IV a V. Por que continuamos agarrados a essa ultrapassada bagagem associada a uma superada cultura imperial? O próprio papado, além de várias características de autoridade em todas as Igrejas cristãs, continua usando símbolos cujo significado está enraizado em costumes e práticas que, além de serem irrelevantes para o nosso tempo, poderiam até mesmo ser considerados blasfemos desvios da vivência de uma fé mais autêntica.

 

IHU On-Line - Quais são os desafios e as possibilidades que emergem de tal visão para o cristianismo?

Diarmuid O’Murchu - O pós-colonialismo faz uma crítica penetrante do poder imperial (patriarcal) com seu dissimulado vício de perpetuar-se ad infinitum. Ele vai mais fundo que outras ferramentas de análise, focalizando principalmente a forma como língua e literatura continuam a esposar e valorizar práticas e concepções que mascaram o jogo de poder que precisa ser exposto, em nome da verdade e da justiça.

 

IHU On-Line - Até que ponto essa perspectiva pós-colonial implica um novo uso e um novo significado para a fé?

Diarmuid O’Murchu - O pós-colonialismo é muito mais um instrumento ou recurso que provoca um despertar adulto para as formas como temos sido engambelados por muito tempo. Ele mostra os comportamentos codependentes detectados em todos os principais sistemas de fé, induzindo os devotos a se comportar como crianças passivas, em vez de adultos criticamente envolvidos.

 

IHU On-Line - Será que se poderia mesmo falar de um retorno para uma fé mais autêntica, com base nessa perspectiva pós-colonial? Por quê?

Diarmuid O’Murchu - O pós-colonialismo critica aquilo que ele considera superficial, convidando o praticante da fé a buscar sentidos mais profundos. No caso do cristianismo, o pós-colonialismo destaca o fato de que todo esse linguajar suntuoso — dirigir-se a Deus como rei, adotando todo um repertório de constructos imperiais — nada tem a ver com a mensagem do Evangelho original, com a qual Jesus denunciou veementemente a instituição da realeza. Na verdade, esses constructos se devem à influência patriarcal de gente como Constantino , que se agarraram ao poder, minando a autêntica fé cristã ao longo de vários séculos, até os nossos dias.

 

IHU On-Line - Partindo dos conhecimentos de História, da Teologia e das Ciências Humanas, quais evidências demonstram que o cristianismo promove o poder imperial?

Diarmuid O’Murchu - A evidência se manifesta na incontestada submissão à instituição da realeza e na maneira indiscriminada e irrefletida com que qualidades imperiais são atribuídas a Jesus e foram adotadas em várias práticas da Igreja ao longo de muitos séculos. 

 

IHU On-Line - Até que ponto essa postura do cristianismo em relação ao poder imperial chegou a causar problemas, como a falta de diálogo inter-religioso, por exemplo?

Diarmuid O’Murchu - A mentalidade imperial não é apenas uma espécie de obediência cega a certas formas e estruturas de poder, mas também tende a opor-se a qualquer outro sistema de fé que venha a desafiar seus pressupostos. Quando outras religiões também usam linguagem e imagens "régias", essas mesmas religiões imperiais provavelmente deixarão de concordar entre si e acabarão condenando-se mutuamente, por não adotar a versão "pura" de determinado poder. A dominação imperial geralmente é acompanhada de um tipo perigoso de arrogância e, como mostram os estudos pós-coloniais, pode levar a uma série de desvirtuamentos, distorções, e mais: a conluios pouco salutares.

 

IHU On-Line - Existe uma conexão entre o cristianismo pós-colonial e uma "perigosa" memória cristã?

Diarmuid O’Murchu - A "perigosa memória cristã" mencionada por uma série de estudiosos cristãos é a noção de Evangelho do Reino de Deus, que eu sugiro seja melhor traduzida (do original aramaico) como Companheirismo do Empoderamento, característica central da vida e do testemunho do Jesus histórico. É a antítese da colonização que os estudos pós-coloniais procuram denunciar e desmascarar.

 

IHU On-Line - Na América Latina, a Teologia da Libertação tem promovido uma revitalização da fé católica e da resistência ao poder opressor. Em que sentido pode essa teologia ser vista como expressão do cristianismo pós-colonial?

Diarmuid O’Murchu - A Teologia da Libertação com razão critica a opressão e a dominação sofridas pelos pobres e marginalizados sob o poder de forças imperiais profanas. Apenas raramente ela critica abertamente a própria Igreja, particularmente a sua submissão a estruturas de poder que, em si, representam uma traição do empoderamento libertador do Evangelho, o qual se manifesta de uma forma única na vida e na práxis do Jesus histórico.

 

Leia mais...

- Por uma evolução consciente, dinâmica e proativa. Entrevista com Diarmuid O’Murchu publicada na edição 448 da IHU On-Line, de 28-07-2014. 

- Pós-colonialismo e pensamento descolonial. A construção de um mundo plural. Edição 431 da IHU On-Line, de 04-11-2013. 

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