Edição 448 | 28 Julho 2014

Cooperação para fazer prosperar o que deve prosperar

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Márcia Junges e Luciano Gallas / Tradução: Walter Schlupp

“Há muito mais no nosso mundo do que a ciência possa descobrir, uma vez que ela exclui tudo que não seja mensurável com instrumentos feitos pela mão humana”, adverte Elisabet Sahtouris

“Transcendência e mistério foram absolutamente excluídos da ciência ocidental, que nem sequer vê a Terra como planeta vivo, muito menos o universo como cosmos vivo e consciente. Mas a nossa experiência humana, nossas buscas espirituais nos têm revelado que há muito mais no nosso mundo do que a ciência possa descobrir, uma vez que ela exclui tudo que não seja mensurável com instrumentos feitos pela mão humana. Uma vez que entendemos o que a ciência pode estudar e o que ela impede a si própria de investigar, ficamos livres para fazer nossa própria pesquisa em mundos interiores”, aponta a bióloga Elisabet Sahtouris em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “É importante entender que não pode mais haver uma única ciência verdadeira, assim como não pode haver só uma religião verdadeira”, complementa.

Elisabet Sahtouris se mostra cética com as tentativas humanas de melhoramento genético de sua própria espécie ou de quaisquer outras, justamente porque nossa ciência atual não consegue alcançar a essência da vida, nem compreender seu funcionamento complexo e interdependente. “Acreditar que, a nosso bel-prazer, podemos simplesmente remover e inserir genes em genomas que evoluíram ao longo de bilhões de anos, está se mostrando desastroso. Essa ‘engenharia genética’ não demonstrou quaisquer melhorias reais, e está cada vez mais óbvio que ela provoca um grande estrago. Apenas como exemplo, o trigo transgênico vem causando violentas alergias, intolerâncias e danos intestinais e outros nos seres humanos, pois suas proteínas são tão distorcidas que destroem as bactérias intestinais que controlam 80% do nosso sistema imunológico. Soja e milho também estão causando danos, e os glifosatos do Roundup da Monsanto, com o qual todos esses produtos transgênicos são cultivados, provocam distúrbios do sistema imunológico e doenças crônicas, como o Parkinson”, explica.

A bióloga adverte que as mudanças climáticas que estamos enfrentando hoje é resultado de uma co-criação humana, baseada, infelizmente, na nossa ganância e na queima desenfreada de combustíveis fósseis para expansão econômica e financeira. Ela defende uma cocriação baseada em outros valores. “Podemos nos considerar conscientes co-criadores do futuro de acordo com o que acreditamos ser possível, de acordo com as histórias pelas quais optamos para orientar nossa vida. A concepção de tempo varia entre diferentes culturas; nós o encaramos como linear; algumas civilizações, como na Índia e nos Andes, o consideram cíclico. A realidade profunda sempre é um eterno agora. Nossas histórias, nossos conceitos formam nossas realidades. O futuro não é algo inevitável e previsível, mas algo possível de ser criado”. Nesta co-criação de um futuro mais limpo, a entrevistada enfatiza que a humanidade deve eliminar as guerras e os agrotóxicos, não gerar concentração de riqueza e acreditar em um universo com propósito e vivo. “Gere economias locais de cuidado e de partilha, para então deixá-las se formar em todo o planeta. Não lute contra o que não funciona; apenas faça crescer tudo aquilo que funciona!”, nos ensina.

Elisabet Sahtouris é uma bióloga da evolução, futurista, professora, autora e consultora de sistemas biológicos para desenho organizacional em empresas e governos. Ela é membro da World Business Academy e assessora da EthicalMarkets.com e do Programa de Mestrado em Negócios no Schumacher College, Inglaterra. Organizou dois simpósios internacionais sobre os fundamentos da ciência e cosmologias integrais. Entre seus livros, estão A Walk Through Time: from Stardust to Us (“Um passeio através do tempo: da Stardust para nós” – New York: Wiley, 1998), Biology Revisioned (“Biologia Revisada” - Berkeley: North Atlantic Books, 1997), em coautoria com Willis Harman, e EarthDance: Living Systems in Evolution (“Dança da Terra: sistemas vivos em evolução” - Bloomington: iUniverse, 2000). O sítio da autora pode ser acessado em www.sahtouris.com. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em que consiste “a dança da Terra” e os sistemas vivos em evolução aos quais se refere em sua obra?

Elisabet Sahtouris - EarthDance: Living Systems in Evolution é o título do meu livro. Uso a metáfora da dança improvisada para a evolução biológica, porque vejo a Terra como um único sistema vivo que se cria por meio de mudanças ao longo do tempo, assim como bailarinos fazem evoluir as etapas em sua dança.

 

IHU On-Line - Acredita que a compreensão sobre a ligação sistêmica que existe entre todas as formas de vida pode fazer com que o antropocentrismo seja relativizado?

Elisabet Sahtouris - Todas as culturas indígenas se viam como uma espécie entre inúmeras outras e consideravam todas elas sagradas. O antropocentrismo era desconhecido em suas culturas e temos de aprender a sacá-lo da nossa própria cultura a fim de recuperar o respeito pelos sistemas vivos que nos sustentam. Para fazer isso, devemos reconhecer os perigos da nossa arrogância de acreditar que somos mais espertos do que a natureza e que temos o direito de explorá-la e poluí-la sem sofrer as consequências.

 

IHU On-Line - Há influências da Teoria dos Sistemas de Bertalanffy  nessa compreensão da evolução consciente?

Elisabet Sahtouris - Von Bertalanffy, Bateson  e outros pioneiros da teoria de sistemas foram uma importante força contra a fragmentação que nossa sociedade faz com a natureza e com a própria sociedade humana, a ponto de colocarmos tudo em caixas separadas (como árvores, animais, micróbios, economia, política, arte), o que nos impediu de enxergar como tudo está intrinsecamente ligado e interdependente. Essa interdependência nos mostra, entre tantas outras coisas, como a natureza entrelaça a vida de tal forma que o resíduo de uma espécie é a comida da outra. Tal entendimento dos sistemas naturais nos ajuda a ver como podemos optar conscientemente por evoluir sem causar danos, em harmonia com outras espécies.

 

IHU On-Line - Em que sentido a humanidade está “fechada” à Transcendência e ao Mistério, de forma a não perceber a dança da Terra e nossa participação nela?

Elisabet Sahtouris - Transcendência e mistério foram absolutamente excluídos da ciência ocidental, que nem sequer vê a Terra como planeta vivo, muito menos o universo como cosmos vivo e consciente. Mas a nossa experiência humana, nossas buscas espirituais nos têm revelado que há muito mais no nosso mundo do que a ciência possa descobrir, uma vez que ela exclui tudo que não seja mensurável com instrumentos feitos pela mão humana. Uma vez que entendemos o que a ciência pode estudar e o que ela impede a si própria de investigar, ficamos livres para fazer nossa própria pesquisa em mundos interiores. É claro que muitas ciências antigas, como a védica, a taoísta e ciências indígenas, podem nos ajudar nesse empenho. A ciência védica, por exemplo, tem estudado a natureza da mente por milhares de anos, como nós mesmos começamos a perceber ao estudar técnicas de ioga e meditação. É importante entender que não pode mais haver uma única ciência verdadeira, assim como não pode haver só uma religião verdadeira.

 

IHU On-Line – O estudo da evolução dos sistemas vivos oferece oportunidade de um melhoramento não apenas biológico da espécie humana, mas também de sua consciência e, portanto, de suas ações?

Elisabet Sahtouris - Sou muito desconfiada de tentativas de melhorar biologicamente a espécie humana, ou qualquer outra espécie, pela simples razão de a ciência ver os organismos vivos como mecanismos, assim não conseguindo compreender a própria essência da vida. Acreditar que, a nosso bel-prazer, podemos simplesmente remover e inserir genes em genomas que evoluíram ao longo de bilhões de anos, está se mostrando desastroso. Essa "engenharia genética" não demonstrou quaisquer melhorias reais, e está cada vez mais óbvio que ela provoca um grande estrago. Apenas como exemplo, o trigo transgênico vem causando violentas alergias, intolerâncias e danos intestinais e outros nos seres humanos, pois suas proteínas são tão distorcidas que destroem as bactérias intestinais que controlam 80% do nosso sistema imunológico. Soja e milho também estão causando danos, e os glifosatos do Roundup  da Monsanto, com o qual todos esses produtos transgênicos são cultivados, provocam distúrbios do sistema imunológico e doenças crônicas, como o Parkinson, agora chamado de "mal dos agricultores" na Alemanha. Alguns estados brasileiros lutaram contra a adoção de culturas geneticamente modificadas, mas acredito que as empresas que exigem e vendem esses produtos infelizmente conseguiram se impor contra essa oposição saudável. 

 

IHU On-Line - Em termos existenciais, de que forma esse estudo pode alterar nosso futuro no planeta?

Elisabet Sahtouris - A teoria dos sistemas vivos pode nos ensinar o nosso papel apropriado na grande teia da vida e levar-nos a um futuro realmente benfazejo e muito mais feliz. Para mim como bióloga da evolução, o reconhecimento mais importante foi que as espécies passam por fases de juventude, em que são criativas e competitivas à medida que aumentam sua população e desenvolvem suas economias. Chega um ponto em que esse processo fica muito caro em termos de energia, as espécies precisam alcançar a maturidade de economias estáveis ou então perecem. Elas podem alcançar a maturidade, por exemplo, entrando em amizade com inimigos e desenvolvendo economias de cooperação com eles .

 

IHU On-Line - Que descobertas da física quântica e da nova biologia são vitais para o futuro da humanidade?

Elisabet Sahtouris - Para mim, a melhor descoberta da física é que este é um cosmos conscientemente autocriado e que a sua criação é contínua — não um Big Bang que se desenrola e acaba como uma bateria, mas um processo interminável de matéria aparecendo dentro de pura energia à medida que se recicla simultaneamente nessa energia, sendo que observadores como nós a vão formando e dando-lhe padrões . Quanto à nova biologia, o que ocorre é que estamos no ponto de maturação, como espécie humana, deixando a concorrência hostil para entrar em cooperação madura uns com os outros e com todas as outras espécies.

 

IHU On-Line – Albert Einstein afirmava que era preciso uma nova maneira de pensar a humanidade para continuarmos vivos. O que precisa mudar com urgência a fim de que seja mantida a vida na Terra?

Elisabet Sahtouris - Precisamos elevar nosso pensamento a um novo nível em que podemos nos ver como seres ainda imaturos, e também como espíritos em evolução através da experiência humana. Só então é que vamos optar conscientemente por não fazer guerras, não praticar o racismo, não dar preferência ao dinheiro em detrimento de relacionamentos, não acreditar arrogantemente que somos superiores a todo o resto da natureza, em suma, ganhar humildade, abandonar a economia competitiva e construir economias de cuidado e de partilha.

 

IHU On-Line – Como perceber as ideias da evolução consciente e da nova biologia em contraposição a prognósticos assustadores como os divulgados pelo IPCC , por exemplo?

Elisabet Sahtouris - Acredito que seria melhor prestarmos atenção ao que o IPCC constata, porque o aquecimento global é o que temos co-criado com nossa ganância, com nossa queima de combustíveis fósseis para expandir ilimitadamente a nossa economia global, com as nossas crenças na nossa invencibilidade. Enquanto não mudarmos nossas crenças sobre nós mesmos, sobre nosso planeta e nosso cosmos, não vamos mudar nosso comportamento para sobreviver e prosperar. Conseguimos, sim, adaptar-nos a um planeta mais quente, mas precisamos entrar nesse futuro com ar limpo, solos saudáveis e água doce pura. Portanto, há muito a fazer!

 

IHU On-Line - A evolução consciente já está acontecendo? Em que medida devemos pensá-la fora de uma concepção linear de tempo?

Elisabet Sahtouris - Com certeza estamos cada vez mais conscientes da nossa própria evolução e do nosso papel nela. Podemos nos considerar conscientes co-criadores do futuro de acordo com o que acreditamos ser possível, de acordo com as histórias pelas quais optamos para orientar nossa vida. A concepção de tempo varia entre diferentes culturas; nós o encaramos como linear; algumas civilizações, como na Índia e nos Andes, o consideram cíclico. A realidade profunda sempre é um eterno agora. Nossas histórias, nossos conceitos formam nossas realidades. O futuro não é algo inevitável e previsível, mas algo possível de ser criado.

 

IHU On-Line - Em que medida somos, cada um de nós, a borboleta azul que se metamorfoseia no universo?

Elisabet Sahtouris - Estamos todos passando por este processo de amadurecimento da competição para a cooperação. Como a metamorfose da lagarta à borboleta, há uma fase de declínio do antigo ao mesmo tempo em que o novo se forma.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Elisabet Sahtouris - Minha maior esperança eu deposito nos jovens, que podem mudar o mundo para melhor, simplesmente por não fazerem as coisas que as gerações mais velhas fizeram, e que levaram à crise atual. Se eles não fizerem guerra, não queimarem combustíveis fósseis, não assumirem dívidas para ter dinheiro, o que inevitavelmente leva a concentrações desequilibradas de riqueza, não colocarem tóxicos em alimentos e outros produtos, não acreditarem num universo sem propósito e sem sentido, a decair pela entropia, mas sim num universo vivo, inteligente e co-criativo, o mundo mudará para muito melhor em uma única geração. Gere economias locais de cuidado e de partilha, para então deixá-las se formar em todo o planeta. Não lute contra o que não funciona; apenas faça crescer tudo aquilo que funciona!

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