Edição 444 | 02 Junho 2014

Sistemas organizacionais – O pensamento em rede na lógica empresarial

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Andriolli Costa

César Tureta de Morais explora a relevância da introdução da lógica sistêmica na teoria organizacional

“A concepção reducionista de empresa, como simples agente econômico gerador de lucro, não se sustenta mais”, defende o professor e administrador César Augusto Tureta de Morais. Em um contexto de recentes e consecutivos escândalos corporativos, com a revelação da exploração de mão de obra, de fraudes em licitações ou de poluição ambiental, o pesquisador defende que é importante rever os valores de sustentabilidade empresarial em suas diversas dimensões. Assim, envolve-se “a comunidade local, a sociedade civil organizada e o poder público para que decisões coletivas, que visem à melhoria das condições de vida da população, possam ser tomadas”. E destaca: “A transparência é hoje um elemento fundamental”.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Tureta aborda a incorporação da teoria sistêmica dentro do contexto organizacional e a mudança de perspectiva que ela trouxe. Dessa forma, a partir da assunção de um pensamento em rede, as organizações passam a ser vistas como a reunião de um conjunto de elementos técnicos e sociais. “Essa abordagem representou uma significativa contribuição para a análise organizacional ao mostrar que os elementos internos de uma organização são interdependentes e diretamente afetados por elementos extrínsecos a ela, bem como o todo é maior que o somatório individual das partes.”

O pesquisador trata ainda das diferenças de abordagem entre as teorias Sistêmica, Contingencial e de Ecologia Organizacional; destaca os modelos mais propensos a serem valorizados pelas empresas do futuro e ainda explora o tema de seu doutorado: a estrutura organizacional das Escolas de Samba. Segundo ele, “proporcionar experiências positivas, criar um bom clima de trabalho, saber lidar com a diversidade de pessoas e possibilitar que elas se autodesenvolvam" talvez sejam os principais aprendizados que as empresas podem extrair destas organizações populares. 

César Augusto Tureta de Morais é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado na Universidade Federal de Lavras (MG) e doutorado na Fundação Getulio Vargas, ambos na mesma área. Atualmente é professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Tureta participa, nesta segunda-feira (02), do III Seminário preparatório ao XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, ocorreu na sala Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. Veja a programação do Simpósio no link http://bit.ly/XIVSIHU.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como compreender o conceito de redes pela perspectiva organizacional? 

César Augusto Tureta de Morais – A ideia de redes pode ser encontrada em várias áreas do conhecimento. No campo dos estudos organizacionais, a partir dos questionamentos sobre a adequação do modelo burocrático de organização, o conceito de redes possibilitou pensarmos as organizações dentro de um sistema de arranjos interorganizacionais. De um modo amplo, as redes interorganizacionais podem ser definidas como um conjunto de organizações que se propõem a alcançar um determinado objetivo em comum, que dificilmente poderia ser realizado de maneira isolada por cada um dos atores. A relação estabelecida entre os integrantes da rede tende a ser pautada pela intensa troca de informações, confiança e reciprocidade, o que reduz os custos de transação dos agentes envolvidos e aumentam a competitividade das empresas. 

Mecanismos de governança são utilizados para incentivar a interação, o benefício mútuo e reduzir possíveis comportamentos oportunistas. Obviamente que, mesmo com tais mecanismos, podem surgir divergências pontuais na condução do negócio ou conflitos derivados de situações não previstas, inicialmente, na formação do arranjo interorganizacional. Porém, a despeito de possíveis problemas ou dificuldades, a estrutura em rede tem se mostrado bastante atrativa para as empresas, pois são potencializadas e se beneficiam das tecnologias de informação e comunicação que foram desenvolvidas nos últimos anos e que se tornam cada vez mais sofisticadas. Tais tecnologias facilitam a relação interorganizacional, permitindo que as empresas interajam com mais frequência e intensidade, gerando ganhos tanto para elas quanto para seus consumidores. 

 

IHU On-Line - Quais extrapolações podem ser feitas pela teoria organizacional ao conceito de ator-rede, de Bruno Latour ?

César Augusto Tureta de Morais - A Teoria Ator-Rede (TAR) foi desenvolvida a partir dos Estudos da Ciência e da Tecnologia. Uma de suas ideias básicas é que o social é uma rede de materiais heterogêneos, composta não somente por pessoas, mas também por objetos, textos, artefatos, arquitetura e fenômenos naturais. Isso significa dizer que as interações sociais são mediadas por elementos não humanos. Nesse sentido, os fenômenos são consequência da associação de uma série de elementos e qualquer forma de ordenamento ocorre por meio de redes de atores, em um processo cujo início e fim não são claramente definidos. 

A noção de processo da TAR talvez seja uma das suas principais contribuições para a teoria organizacional. As organizações passam a ser vistas, então, como a reunião de um conjunto de elementos técnicos e sociais, não podendo ser assumidas mais como indefinidamente estáveis, pois seu sucesso é uma questão contingencial. Na perspectiva da TAR, o processo organizativo não obedece, necessariamente, uma ordem fixa de organização, nem pode ser visto como uma dimensão separada do ambiente externo. Logo, as fronteiras de uma organização são tênues e entender seus processos requer “seguir os passos” dos atores (humanos e não humanos) que produzem um determinado fenômeno. 

 

IHU On-Line - Em que consiste pensar a estratégia como prática social?

César Augusto Tureta de Morais - A estratégia como prática social é uma perspectiva analítica que procura compreender como a estratégia é (re)constituída no cotidiano das organizações. Mais do que algo que uma empresa possui, a estratégia é algo que as pessoas fazem durante sua interação com diversos atores da organização e de fora dela. Assim, o fazer estratégia é visto como uma prática como outra qualquer. A estratégia como prática social descentraliza a figura heroica do estrategista poderoso e promove uma visão mais mundana sobre o fazer estratégia. 

Para entender o processo de constituição das estratégias organizacionais é preciso a) considerar quem são os estrategistas, ampliando seu escopo para um maior número de pessoas e não somente a alta gerência; b) quais são as práticas utilizadas pelas empresas, sejam elas modelos gerenciais difundidos em um dado setor ou rotinas organizacionais preestabelecidas; e c) como os estrategistas implementam, utilizam e ressignificam essas práticas durante o estrategizar como, por exemplo, em reuniões, workshops ou até mesmo em uma conversa informal no almoço.

 

IHU On-Line - De que forma a perspectiva sistêmica se instaura no campo das teorias organizacionais? Como ela é aplicada ou manifesta seus efeitos?

César Augusto Tureta de Morais - A Teoria Geral dos Sistemas tem como um dos seus principais precursores o biólogo Ludwig Von Bertalanffy . Nessa teoria, os sistemas, em geral, são concebidos como um complexo de elementos em constante interação e intercâmbio com o ambiente externo. Na teoria organizacional, o desenvolvimento da perspectiva sistêmica ocorreu a partir dos trabalhos realizados pelo Instituto de Relações Humanas de Tavistock . 

O enfoque de sistemas parte do princípio de que as organizações são sistemas abertos que interagem com o ambiente, do qual fazem parte, e precisam manter uma relação adequada com este, para que possam sobreviver. Essa abordagem representou uma significativa contribuição para a análise organizacional ao mostrar que os elementos internos de uma organização são interdependentes e diretamente afetados por elementos extrínsecos a ela, bem como o todo é maior que o somatório individual das partes.

 

IHU On-Line - Quais as diferenças de abordagem entre as teorias Sistêmica, Contingencial e de Ecologia Organizacional?

César Augusto Tureta de Morais - A teoria sistêmica serviu de ponto de partida para grande parte do desenvolvimento da teoria da contingência, já que a primeira assume a organização como um sistema aberto influenciado pelo ambiente externo e a teoria da contingência possui como premissa básica a ideia de que a estrutura de uma organização depende de um conjunto de fatores contingenciais. 

Nesse sentido, para a teoria da contingência não existe uma estrutura organizacional única que possa ser eficiente para todas as organizações, pois a estrutura ótima dependerá de fatores contingenciais: estratégia, tamanho, incerteza da tarefa e tecnologia. Não há planejamento, formas de governança, liderança ou estruturas adequados a todas as situações, por isso as empresas devem se conformar ao ambiente, fazendo ajustes de acordo com as contingências. 

Já os ecologistas organizacionais argumentam que o enfoque contingencial atribui às organizações muita flexibilidade de adaptação. Dessa forma, para entender as estruturas organizacionais, deveria se verificar como os ambientes selecionam as organizações e não como elas se adaptam ao meio, direcionando o nível de análise às populações de organizações, pois a natureza, o número e a distribuição delas dependem da disponibilidade de recursos, bem como da competição dentro e entre as diferentes espécies. Assim, é o ambiente que passa a determinar quais competidores terão êxito.

 

IHU On-Line - Como cada uma destas colaborou para a mudança da forma como era vista a ecologia organizacional de uma empresa?

César Augusto Tureta de Morais - Embora possuam seus próprios conceitos e características específicas, essas são abordagens complementares que podem, conjuntamente, ser empregadas para a análise da ecologia organizacional.

 

IHU On-Line - Seu doutorado envolveu o estudo das práticas organizativas em Escolas de Samba. Como foi a experiência de avaliar um comportamento tipicamente empresarial em uma disposição popular?

César Augusto Tureta de Morais - A organização escola de samba faz parte da cultura nacional e representa um dos símbolos do maior carnaval do mundo. Seus desfiles são atualmente a principal expressão do carnaval brasileiro. O estudo das práticas organizativas em uma escola de samba foi desenvolvido porque essa agremiação carnavalesca é uma forma de organização ainda pouco explorada pela administração, apesar de sua importância cultural, social e econômica. Além disso, as escolas de samba vêm passando por intensas transformações, no que tange à sua profissionalização, levando muitos a defini-las como verdadeiras empresas. 

Para a produção de um desfile, há a mobilização de um grande número de pessoas e profissionais das mais variadas áreas, desde artistas (carnavalesco e compositores) até marceneiros, ferreiros, costureiras e bordadeiras. Nas proximidades do carnaval, as escolas de samba se tornam uma atração turística importante, além de serem responsáveis por movimentar o comércio, a produção de empresas fornecedoras de matéria-prima e oficinas terceirizadas que fabricam as fantasias e os adereços. Improviso, criatividade e tomada de decisão com recursos escassos são elementos marcantes nessas formas de organização. Proporcionar experiências positivas, criar um bom clima de trabalho, saber lidar com a diversidade de pessoas e possibilitar que elas se autodesenvolvam e se realizem dentro das organizações, talvez seja o principal aprendizado que as empresas podem extrair das escolas de samba.

 

IHU On-Line - Quais modelos você encara como os mais relacionados a empresas do futuro ou que vislumbram a inovação?

César Augusto Tureta de Morais - Atualmente estamos passando por um momento de bastante discussão e reflexão sobre o nosso país, no que diz respeito à economia, política, segurança pública e educação. Apesar de grande parte do debate se direcionar para o papel do Estado nesse processo, vale ressaltar a atuação das empresas como um importante ator na sociedade. A concepção reducionista de empresa, como simples agente econômico gerador de lucro, não se sustenta mais, principalmente tendo em vista os recentes e consecutivos casos de escândalos corporativos como, por exemplo, exploração de mão de obra em condições análogas à escravidão, fraudes em licitações, destruição do meio ambiente, assédio moral, dentre outras situações nas quais há claramente a perseguição do interesse privado em detrimento do interesse da sociedade como um todo. 

Nesse sentido, é necessária a construção de modelos de negócios inovadores que levem em conta as demandas atuais, no sentido de que as empresas sejam sustentáveis em várias dimensões (social, econômica, ambiental, ética, etc.), e não apenas persigam, arbitrariamente, seus interesses, mas envolvam a comunidade local, a sociedade civil organizada e o poder público para que decisões coletivas, que visem à melhoria das condições de vida da população, possam ser tomadas. A transparência é hoje um elemento fundamental.

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