Edição 444 | 02 Junho 2014

Para existir, a ciência tem que dar acesso à informação

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Luciano Gallas

O biblioteconomista Fernando Leite analisa a disseminação e a distribuição do conhecimento científico, ampliadas a partir da constituição das redes de informação de acesso aberto

“A ideia não é eliminar os editores científicos comerciais, e sim desobstruir o fluxo da informação científica em escala global. Isto significa, entre outros aspectos, a não cobrança do acesso aos resultados de pesquisa publicados. Esse movimento depende do esforço conjunto das universidades e institutos de pesquisa, por meio de suas bibliotecas, pesquisadores e tomadores de decisão, agências de fomento, editores científicos, sociedades científicas. À medida que cada instituição tornar a totalidade de sua produção científica disponível e acessível por meio de repositórios institucionais, teremos cada vez mais completa uma rede global e aberta promovendo fluxos desimpedidos de informação. Esta é uma condição para a existência e o avanço do conhecimento científico”, afirma Fernando Leite.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o biblioteconomista aborda as características principais das redes de acesso aberto à informação científica, entre as quais, a disseminação ampliada das pesquisas científicas, tanto para a sociedade quanto para o próprio pesquisador — o que é fator imprescindível para a própria produção científica —, a integração dos sistemas de informação que constituem a rede, a gratuidade do acesso às informações e a liberação da distribuição dos conteúdos disponibilizados. O professor também analisa a organização dos repositórios institucionais e temáticos de informação científica e as barreiras ao acesso ao conhecimento existentes no modelo tradicional de periódicos. 

Fernando Cesar Lima Leite é graduado em Biblioteconomia, mestre e doutor em Ciência da Informação, editor, pelo Brasil, do Eprints in Library and Information Science - E-LIS (repositório temático internacional da produção científica em Ciência da Informação). Atualmente, exerce a função de professor adjunto na Faculdade de Ciência da Informação da Universidade de Brasília - UnB.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Há um movimento mundial pela ampliação do acesso ao conhecimento científico? Em que tempo e espaço este movimento se consolidou?

Fernando César Lima Leite - Sim. De algum modo desde o surgimento da Internet, mas especialmente a partir dos anos 2000, pesquisadores de todas as áreas do conhecimento, juntamente com bibliotecários, editores não comerciais e instituições produtoras de conhecimento científico, passaram a se organizar para tornar cada vez mais acessível o conhecimento científico publicado. Esse movimento nasceu e tem se consolidado no seio da comunidade científica.

 

IHU On-Line - Quais são as principais características das redes de informação de acesso aberto (ou open source) à pesquisa científica?

Fernando César Lima Leite - Entre as principais características estão a possibilidade do pesquisador de disseminar mais amplamente aquilo que produz e que foi publicado ou aceito para publicação, de modo a obter maior visibilidade, além da possibilidade de acessar aquilo que necessita para produzir conhecimento científico. Além dessas, outras características são a integração dos sistemas de informação que constituem essa rede, a gratuidade do acesso e a liberdade de distribuição e redistribuição dos conteúdos.

 

IHU On-Line - As redes de acesso aberto podem aproximar as universidades da gestão pública? Dito de outra forma, as redes de acesso aberto podem retirar as instituições de ensino e pesquisa do isolamento em que atualmente se encontram, aproximando-as da sociedade?

Fernando César Lima Leite - À medida que o acesso aberto se consolida, as instituições que produzem conhecimento científico e que inauguram suas iniciativas de acesso aberto passam a estar cada vez mais presentes e provendo conteúdos na Internet. Nesse sentido, tudo aquilo que se produz estará, além de disponível, acessível na Internet, de modo que todos os segmentos da sociedade, e não apenas a comunidade científica, possam estar cientes das atividades desempenhadas por essas instituições. Universidades e centros de pesquisa têm condições de "prestar contas" daquilo que fazem por meio da ampla circulação da informação científica.

 

IHU On-Line - De que forma os repositórios de acesso aberto favorecem a divulgação do conhecimento produzido pelas universidades e centros de pesquisa?

Fernando César Lima Leite - Os repositórios institucionais de acesso aberto reúnem, organizam, armazenam, preservam, recuperam, disseminam e criam oportunidades para o uso da informação que resulta da atividade de pesquisa de universidades e institutos de pesquisa. Na medida em que esses processos de gestão da informação são apropriadamente conduzidos, essas instituições fortalecem e potencializam sua participação no sistema de comunicação científica, que é global e que visa, entre outros aspectos, ampla circulação do conhecimento científico materializado em informação (artigos científicos, livros, capítulos de livros, artigos publicados em anais de conferências, teses, dissertações, relatórios de pesquisa, etc). Esses repositórios que gerenciam tais conteúdos estão integrados com outros sistemas de todo o mundo, o que favorece os fluxos desimpedidos de informação.

 

IHU On-Line - Quando é mais adequado implementar um repositório institucional em detrimento de um repositório temático (organizado por área de pesquisa)?

Fernando César Lima Leite - O repositório institucional tem prioridade sobre os repositórios temáticos no momento em que se pretende privilegiar a produção científica de uma universidade ou instituto de pesquisa. Ou seja, cria-se repositórios institucionais para reunir, organizar, armazenar, preservar, recuperar e disseminar a produção científica institucional. Nesse caso, a iniciativa tem objetivos e limites institucionais, busca-se a visibilidade da instituição, do pesquisador e da produção científica dessa universidade ou instituto de pesquisa. Os repositórios temáticos são horizontais. Eles não estão circunscritos a qualquer instituição, e sim a tópicos de pesquisa, disciplinas ou áreas do conhecimento. De um modo geral buscam ser internacionais e pretendem reunir, organizar, armazenar, preservar, recuperar e disseminar a informação científica.

 

IHU On-Line - De que modo as redes de acesso aberto impactam sobre a circulação dos tradicionais periódicos científicos digitais?

Fernando César Lima Leite - As estratégias de acesso aberto criam vias alternativas de disseminação e de acesso aos artigos que são publicados pelos periódicos científicos. Ou seja, no momento em que os trabalhos publicados ou aceitos para publicação nesses periódicos são também depositados em repositórios de acesso aberto, a comunidade científica passa a ter maiores e melhores condições de acessá-los e utilizá-los em outros processos de produção do conhecimento científico. Há uma maximização do impacto dos resultados de pesquisa publicados em periódicos, por meio da maximização do acesso e do uso desses resultados.

 

IHU On-Line - O que significa exatamente não haver barreiras financeiras, legais ou técnicas para o acesso e circulação das informações científicas disponibilizadas nas redes de acesso aberto?

Fernando César Lima Leite - Barreiras financeiras são basicamente a cobrança pelo acesso à informação científica publicada. O preço normalmente exorbitante das assinaturas de periódicos científicos de grandes editoras científicas comerciais são exemplos disso. Barreiras legais são aquelas que limitam especialmente a distribuição e redistribuição da informação científica publicada. Um exemplo são as licenças restritivas adotadas por editoras científicas comerciais, as quais impedem que os conteúdos sejam redistribuídos por repositórios institucionais de acesso aberto. Barreiras técnicas são aquelas relacionadas especialmente com as tecnologias empregadas para a gestão da informação científica. Um exemplo de barreira técnica é o não respeito à necessidade de integração de um determinado sistema de informação científica com outros, ou seja, o sistema de não interoperável. As redes de informação de acesso aberto pressupõem a eliminação de tais barreiras.

 

IHU On-Line - Como garantir a integridade da obra e o reconhecimento de seus efetivos autores nas redes de acesso aberto? Quais são as principais diferenças neste aspecto em relação aos modelos tradicionais de divulgação científica?

Fernando César Lima Leite - A integridade da obra e o reconhecimento dos autores por meio da citação são pressupostos do acesso aberto reconhecidos nas primeiras grandes reuniões que fundaram o movimento e são propagados recorrentemente. Na prática, esses aspectos são fundamentos embutidos no próprio sistema de comunicação científica e no comportamento esperado de pesquisadores como usuários de informação. O acesso aberto reforça a necessidade desses comportamentos. No que concerne a direitos autorais, o acesso aberto traz consigo a necessidade de os autores manterem, além do direito moral, o direito patrimonial de seu trabalho, que é recorrentemente cedido de forma exclusiva aos editores. A ideia é que os autores possam continuar dispondo de sua obra do modo que lhe for conveniente. Em linhas gerais, aos editores são cedidos os direitos não exclusivos de distribuir e comercializar (se for o caso). Há inúmeras possibilidades de configuração de acordos e de negociação entre autores e editores, mas é necessário que os autores preservem não apenas a autoria, que sempre lhe foi garantida, mas também o patrimônio.

 

IHU On-Line - Qual é a realidade atual em termos de acesso das instituições e centros de pesquisa às redes de informação de acesso aberto?

Fernando César Lima Leite - Tanto a Via Dourada (acesso aberto diretamente nos periódicos científicos) quanto a Via Verde (depósito da produção científica publicada ou aceita para publicação em repositórios) são uma realidade crescente em todo o mundo. A Via Dourada é uma realidade muito próspera na América Latina e Caribe, pelo fato de a maior parte dos editores científicos dessa região não ser comercial. Na Europa e América do Norte, a Via Dourada cresce, mas com dificuldades decorrentes da existência de editores comerciais de prestígio. A Via Verde, por outro lado, é crescente em todo o mundo, mas depende de iniciativas institucionais não só de estabelecimento dos repositórios institucionais, mas de políticas institucionais mandatórias, ou seja, que obriguem que a produção científica de membros da instituição seja depositada. De qualquer forma, os indicadores de crescimento dessas estratégias em todo o mundo são muito positivos.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algo?

Fernando César Lima Leite - O acesso aberto à informação vem ao encontro das expectativas da comunidade científica. A ideia não é eliminar os editores científicos comerciais, e sim desobstruir o fluxo da informação científica em escala global. Isto significa, entre outros aspectos, a não cobrança do acesso aos resultados de pesquisa publicados. Esse movimento depende do esforço conjunto das universidades e institutos de pesquisa, por meio de suas bibliotecas, pesquisadores e tomadores de decisão, agências de fomento, editores científicos, sociedades científicas. À medida que cada instituição tornar a totalidade de sua produção científica disponível e acessível por meio de repositórios institucionais, teremos cada vez mais completa uma rede global e aberta promovendo fluxos desimpedidos de informação. Esta é uma condição para a existência e o avanço do conhecimento científico.

 

Leia mais...

- A ciência se torna um livro aberto. Matéria publicada nas Notícias do Dia, em 22-05-2014;

- A revolução do conhecimento. Entrevista especial com Ladislau Dowbor, de 20-08-2013;

- "O mundo mudou e com ele as formas de propriedade também mudaram". Entrevista especial com Sergio Amadeu, de 17-11-2009.

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