Edição 203 | 06 Novembro 2006

Uma filosofia da emancipação

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Momentos antes de coordenar uma mesa temática sobre Filosofia Francesa Contemporânea no XII Encontro Nacional de Filosofia da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), em Salvador, em 26-10-2006, o filósofo português Diogo Sardinha disse, com exclusividade à IHU On-Line, que “permanecer fiel a um texto de Foucault é, no fundo, permanecer fiel ao espírito de Foucault, que sempre o conduzia a reescrever os seus textos e a fazer, muitas vezes, coisas que ele tinha sugerido que não seriam interessantes de fazer”. Para Sardinha, “Foucault se reescreve permanentemente”.

Sobre as contribuições desse pensador à educação, Sardinha revela que o que mais lhe chama a atenção nesse aspecto “não foi tanto como educar os outros, mas como trabalhar a sua própria educação, como trabalhar a si mesmo, com vista à emancipação. Em princípio, a educação serve para quê? Para tornar você adulto, tornar você maior, para dominar um conjunto de técnicas e conhecimentos que permitam a você escolher a si mesmo, viver por si mesmo”.
Sardinha está no Brasil cursando um pós-doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com a Prof.ª Dr.ª Salma Tanus Muschail, iniciado na Universidade de Paris I, Sorbonne, na França. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, Portugal, Sardinha é doutor pela Universidade Paris X, Nanterre e palestrou no III Colóquio Franco-Brasileiro de Filosofia da Educação: "Foucault, 80 anos", ocorrido de 9 a 11-10-2006 no Rio de Janeiro. Atualmente, leciona Filosofia em Paris.

IHU On-Line - Por que razão Foucault deixou de referir-se a Artaud, figura essencial em seus textos dos anos de 1960 sobre a trangressão e a loucura?

Diogo Sardinha
- Efetivamente isso foi uma questão que me preocupou, que me intrigou num certo momento, porque um conjunto de autores, entre eles Artaud , que eram tão importantes para Foucault, e ajudavam tanto ele a pensar e teorizar certas questões na época, que era sobretudo o princípio dos anos 1960, eles desaparecem mais tarde. A conclusão a que cheguei é que as preocupações que Foucault vai ter mais tarde começam a ser trabalhadas pelos mesmos autores que o inspiraram anteriormente. O caso mais explícito, mais radical, digamos, o ponto mais oposto a esse, que era de grande inspiração literária, dessa “loucura solar”, é que tinha Artaud muitas referências a Nietzsche, a Hölderlin . As preocupações dessa época vão perder espaço em favor de outros problemas e questões. E, para tratar essas outras questões, Foucault precisa tratar outros autores, não os autores que tinham permitido estudar e teorizar a morte do sujeito, mas precisamente autores que ajudam agora repensar uma nova figura do sujeito. Artaud é um pensador do excesso, é uma figura da loucura, uma figura da dor e do excesso, da morte, e mais tarde Foucault procura outros pontos de reflexão, que são de como o sujeito pode se constituir e se manter de uma forma equilibrada. Equilibrada não quer dizer normal. É para tratar essas outras questões que ele busca outros recursos.

IHU On-Line - Qual é a maior contribuição de Foucault no campo da educação hoje? Qual é a atualidade de seu pensamento nesse aspecto?

Diogo Sardinha
- Aquilo que mais me interessou no aspecto da educação não foi tanto como educar os outros, mas como trabalhar a sua própria educação, como trabalhar a si mesmo, com vista à emancipação. Em princípio, a educação serve para quê? Para tornar você adulto, tornar você maior, para dominar um conjunto de técnicas e conhecimentos que permitam a você escolher a si mesmo, viver por si mesmo. Eu me interessei nem tanto pela forma de educar os outros, mas pelo trabalho sobre a sua própria educação. Como se emancipar. Foucault talvez seja um dos filósofos contemporâneos que mais coloca no centro do seu trabalho o problema da emancipação, e isso é muito nítido nos seus últimos textos - como se tornar maior, num regresso a Kant. Foi isso mais que eu procurei trabalhar, de como se servir ao seu próprio entendimento, da sua própria razão. Não de uma razão universal, de uma razão que se dobra, se verga a uma lei moral universal, mas uma razão que dá a si mesma princípios de ação que são éticos, mas são princípios de intervenção na vida política, de inscrição no campo do saber. Esse é um recorte de inspiração kantiana, mas em todo caso de um certo Kant, não o mesmo Kant que Foucault tinha criticado nos anos 1960, precisamente quando ele falava de Artaud, Bataille , Klossovski , mas um outro Kant, que é o da atualidade, do Iluminismo, do Esclarecimento, desse outro Kant que escreve como programa das luzes o tornar-se maior, tornar-se independente.

IHU On-Line - Quais seriam as principais idéias de Focault para pensarmos a relação do homem com o outro?

Diogo Sardinha
- Aquilo que mais me parece importante é no fundo a conclusão de que você só pode construir uma relação interessante com os outros se construir primeiro uma relação interessante com você mesmo. Uma relação rica com os outros primeiro deve passar por uma relação rica consigo mesmo. Então, no fundo a relação com o outro, essa alteridade, depende muito do modo como você quer ser naquela relação, no modo como você quer parecer aos outros. Nesse aparecimento ao outro, em que naturalmente você esta aberto também às reações dos outros que vão mudar, alterar as relações nos dois sentidos, ela passa primeiro por uma relação rica com você mesmo. A relação com o outro só é interessante se você for interessante, se você trabalhar para ser alguém interessante por você mesmo. Uma relação torna-se interessante, se houver uma abertura às preocupações dos outros, à sensibilidade dos outros. Segundo Foucault, você tem que se tornar interessante, você tem que se tornar uma pessoa rica. Só uma pessoa rica pode oferecer coisas aos outros e pode também enriquecer essa relação com o outro, senão passa a ser apenas uma relação social, superficial, em que você não está preocupado com aquilo que é. Você tem que se tornar algo que ainda não é, tem que ser mais profundamente uma coisa que já está tentando ser. Se há uma dimensão de sabedoria no sentido clássico, essa dimensão é aquela que diz que você tem que trabalhar primeiro sobre você. Em uma última análise, o sábio é aquele que não precisa do outro, que pode resistir ao abandono de todos os outros. É claro que não é o caso de Foucault. Cada um utiliza Foucault como entende, com a sua sensibilidade. Para mim, foi muito importante essa lição do trabalho sobre si mesmo, das escolhas que fazemos de nós mesmos, sem qualquer valor moral imposto de fora. É o exercício da sua liberdade, o que você quer ser, claro, que sempre com seus constrangimentos sociais, a educação que recebeu, o papel que as pessoas esperam que você exerça, mas ainda assim tem um espaço para você decidir o que quer ser.

IHU On-Line - Sobre Vigiar e Punir, uma das obras mais conhecidas e discutidas de Foucault, como ela poderia ajudar a fazermos uma leitura crítica do sistema prisional?

Diogo Sardinha
- Vigiar e punir: nascimento da prisão. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991  foi encarado por muitas pessoas como um instrumento de ação, um instrumento de reflexão na luta pelos direitos dos prisioneiros, na luta por reformas nas estruturas prisional e judiciária, e isso ainda hoje exerce seus efeitos. Ainda hoje há muita gente trabalhando sobre a questão das prisões, que se inspira de uma pesquisa que Foucault fez com conclusões muito duras. Com relação a reformas prisionais, eu não saberia dizer especificamente no que a obra poderia auxiliar porque não estou a par desses debates. Mas posso dizer que, ainda hoje, Vigiar e Punir é uma referência importante para pessoas que se dedicam a esse trabalho.

IHU On-Line - “A modernidade que descobriu a liberdade, também descobriu as disciplinas”. Como essa afirmação de Foucault pode expressar o surgimento desse paradoxo do aumento da liberdade na nossa sociedade, mas por um outro lado, também do aumento da coerção?

Diogo Sardinha
- Se você fala num aumento da liberdade, aquilo que você acaba de ler não fala de aumento da liberdade, mas da invenção das liberdades, como se as liberdades antes não existissem. Foucault sempre resistiu a fazer esse tipo de medida, de avaliar a quantidade de liberdade, por exemplo, se antes éramos mais ou menos livres. A Modernidade inventou certas liberdades, por exemplo, a liberdade de circulação, que era muito restrita, que era subordinada a limites muito rígidos na época medieval, até pela própria estrutura fundiária, a relação entre as cidades e o campo. Na verdade, a liberdade de circulação, de contratação, de expressão, todas essas liberdades, no fundo o que ele quer nos dizer é que elas apareceram ao mesmo tempo que as disciplinas. Mas no fundo essa frase tem outras coisas por trás, e outras coisas que podem resumir a idéia seguinte: as liberdades só vieram a parecer como tal, porque houve uma generalização das disciplinas.

As disciplinas acabam por ser quase que o fundamento das liberdades, a condição de possibilidade das liberdades. Isso é que é dramático, é nós acharmos que as nossas liberdades, no fundo não são nada mais do que aquilo que vem à superfície desse trabalho profundo, que é o trabalho disciplinar e o trabalho de normalização. Essa idéia, que é muito radicalmente expressa em Vigiar e Punir, é, por um lado, muito tentadora e, por outro, muito difícil de aceitar. Mesmo Foucault não aceitou essa sua própria idéia, tanto que nos cursos que estão sendo agora publicados, ele volta a essa questão, e vai trabalhar as liberdades de outro ponto de vista, do liberalismo. O liberalismo é a sociedade das liberdades. E aí a dimensão disciplinar perde um pouco de espaço e permite o aparecimento de outras estruturas, de outras modalidades de governo, sobretudo no aspecto da biopolítica.

IHU On-Line - Os dispositivos de controle hoje da nossa sociedade seriam uma espécie de panópticos? Estaríamos vivendo em uma sociedade de maneira aberta, mas constantemente vigiada?

Diogo Sardinha
- O interessante é que Foucault sublinha que não quer ter idéias gerais sobre a sociedade, uma idéia global. No fundo, lemos Vigiar e Punir como ele quase nos convida a fazê-lo, podendo extrair desse livro uma idéia da sociedade. Foucault escreve isso com todas as letras, de que nós vivemos em uma sociedade panóptica, de plena visibilidade, de vigilância. Eu não acho que isso resuma a verdade da sociedade. Em Vigiar e Punir, no fundo Foucault veio opor-se aos teóricos da sociedade do espetáculo, dizendo que nós não vivemos na sociedade do espetáculo, mas que vivemos na vigilância. Mas isso não é verdade. Nós vivemos também na sociedade do espetáculo. Nós vivemos em uma sociedade que tem aspectos de vigilância, aspectos de segurança, de espetáculo. Podemos decidir um pouco das nossas vidas, nós não temos que decidir tudo consoante com a vigilância do outro. Essa teoria não pode nos bastar, e não foi suficiente para ele, por isso ele depois de Vigiar e Punir continuou escrevendo, dando aulas e, muitas vezes, repudiando aquilo que tinha escrito, ou mesmo reescrevendo seus próprios livros. Quando ele vai trabalhar o liberalismo nos curso do Collège de France, no final dos anos 1970, ele vai pôr em causa muito boa parte da estrutura de Vigiar e punir. Quando ele vai se dedicar à ética, ele vai descobrir um espaço de liberdade que ele não havia levado em conta em Vigiar e punir. Então, permanecer fiel a um texto de Foucault, é, no fundo, permanecer fiel ao espírito de Foucault, que sempre o conduzia a reescrever os seus textos e a fazer, muitas vezes, coisas que ele tinha sugerido que não seriam interessantes de fazer. Quando ele trabalha a sociedade com base no regime da prisão, e quando ele acha, nesse momento que não é interessante trabalhá-lo com base no regime das liberdades, ele muda de opinião mais tarde e trabalha com base nas questões das liberdades - a liberdade econômica, de circulação, de contratação, de trabalho. Trabalhando a sociedade sob esse outro ponto de vista, que, no princípio, ele tinha quase renegado, ele descobre outras coisas. Para nós, permanecer fiel a uma coisa interessante que Foucault tenha dito é não ficar acantonado em um tipo de análise que ele fez, porque ele foi o primeiro a reanalisar os mesmos problemas de outros pontos de vista, e a trazer coisas nessas novas análises, coisas completamente inesperadas para ele mesmo. Lendo seus textos, seus cursos, vemos como ele está, ao mesmo tempo, surpreso pelo que descobre e como tenta, digamos, conciliar aquilo que diz agora com tudo o que disse no passado. Foucault se reescreve permanentemente. Mudar de opinião, de conclusões e de pistas com relação às pistas que foram as dele, às conclusões que foram as dele, é algo que ele faz permanentemente.

IHU On-Line - Quanto a uma análise do estigma, sobre os loucos e presidiários, especificamente, ela permanece atual ao que hoje se apresenta em nossa sociedade?

Diogo Sardinha
- A realidade muda muito em pouco tempo. A realidade do sistema prisional mudou muito nos últimos vinte, trinta anos. A realidade do mundo psiquiátrico mudou também, houve movimentos antipsiquiátricos muito fortes, houve um rescaldo a esses movimentos, reformas em vários países, descobertas que mudaram o modo de tratar aquilo que chamamos de loucura ou doença mental. Quanto à reatualização dessas análises, esse seria um trabalho a ser feito, e que eu não fiz, mas talvez outros tenham feito. Em todo caso, o trabalho de Foucault se mantém como inspiração. Hoje em dia, é muito difícil para nós pensarmos em normalidade e anormalidade, razão e loucura, sem ter em conta aquilo que ele escreveu e sem ter em conta precisamente essa dimensão do estigma e da forma, como nós podemos incluir ou excluir outras pessoas porque elas são loucas, ou anormais, ou criminosas. Claro que todas essas análises mudaram muito na influência daquilo que ele escreveu. Entretanto, cada um desses aspectos talvez precise ser analisado com um novo olhar para ver como seria o diagnóstico de hoje.

IHU On-Line – O senhor gostaria de acrescentar mais algum aspecto não questionado?

Diogo Sardinha
- Aquilo que nos ensinam todos os grandes pensadores, e Foucault é um deles, é que, se a educação passa pela nossa própria educação, ela passa também pela nossa emancipação em relação aos grandes autores. Não se trata de esquecer Foucault, mas trata-se de pensar além dele, não ficar preso nas análises que ele fez. A emancipação de todos que se interessam pela obra de Foucault, passa por um trabalho para além de Foucault, não apenas na repetição e na inspiração, mas talvez lendo certos autores que Foucault criticou num dado momento de sua vida e que ele não pôde recuperar num outro momento, porque ele morreu. Se ele vai recuperar um certo Kant no final da vida, porque nós hoje não poderíamos recuperar um certo Hegel, ou um certo Marx, ou outros autores que eram alvos fortes da obra dele. Por que hoje não ler esses autores, não esquecendo Foucault, mas depois de Foucault? Foucault é um dos pensadores da morte do homem, mas hoje existe o humano, ou seja, como nós podemos pensar hoje o humano depois de Foucault? Foucault é um dos autores da dispersão. O saber não se confunde com o poder, ou o poder entra em certas relações com o saber, mas, no final da vida, ele insiste para que nós tenhamos um olhar sobre cada experiência, de um modo sistemático, cruzando essas três dimensões que aparentemente pareciam separadas. Talvez o nosso trabalho hoje não seja mais de separar, como ele fez, mas de reinventar uma sistematicidade do pensamento. Essas são tarefas que podem parecer ir contra a obra de Foucault, mas na verdade eu penso que não, os desafios que ele nos lança devemos tomar a sério, mesmo se, ao fazermos isso, damos a falsa impressão de ir contra o trabalho dele.

 

Últimas edições

  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição
  • Edição 528

    China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

    Ver edição