Edição 442 | 05 Mai 2014

A lightização da existência humana

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Andriolli Costa

Para a nutricionista Ligia Amparo da Silva Santos, a apologia ao corpo perfeito traz mais danos que benefícios ao ser humano, inserida que está no projeto de modernidade que transforma o corpo em mercadoria

Basta uma breve volta pelos corredores das grandes redes de supermercado para perceber a explosão de produtos e soluções lights, de alimentos funcionais ou de suplementação proteica. No próprio âmbito digital, um passeio pelas páginas das redes sociais exibe mulheres de corpos supostamente perfeitos e “barrigas negativas” que angariam milhares de seguidores, elogiando, aspirando e cobiçando a magreza e a força de vontade que a ela levaram. 

Para a nutricionista e pesquisadora Ligia Amparo da Silva Santos, essa lightização da vida, que manifesta a busca por leveza e pela ideia de escolha de um estilo de vida, leva a uma interpretação de “liberdade” forjada no neoliberalismo. Fenômenos de apologia ao corpo perfeito, e da tríade magreza—juventude—beleza. “Os meios de comunicação são campos de conflito que, em parte, formam a realidade, mas também refletem o mundo social em que vivemos. Estamos tratando de uma sociedade consumista, narcisista, e que tais exposições respondem de alguma maneira a tais movimentos”, destaca.

Santos afirma, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, que há uma “convergência dos discursos da saúde e estéticos — assim como dos midiático-publicitários e hedonistas — que, de forma cacofônica, integram aos discursos dos sujeitos”. Tais discursos, por vezes, traduzem que “um corpo magro é por si só um corpo saudável, o que não é necessariamente verdade”. Ainda nesta entrevista, Santos trata do equilíbrio entre os alimentos regionais e os funcionais, respeitando a cultura local; a alimentação a partir da lógica da precarização do trabalho; e a relação entre corpo e felicidade.

A pesquisadora ministra a conferência Alimento e nutrição para o desenvolvimento do ser humano nos diversos ciclos de vida e especificidades étnico–raciais, durante o XV Simpósio Internacional lHU - Alimento e nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, no dia 06-05, às 20h. Mais informações, incluindo a programação completa, pelo link http://bit.ly/XVSIHU.

Ligia Amparo da Silva Santos possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Bahia e em Educação Física pela Universidade Católica do Salvador. Concluiu ainda o Master Course In Medical Education - University of Dundee, Escócia, e doutorado em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo — com sanduíche no Centre d’Études Transdisciplinaires Sociologie, Anthropologie, Histoire, na École des Hautes Études en Sciences Sociales CETSAH/EHESS. Atualmente é professora da Universidade Federal da Bahia, nos cursos de Nutrição e no Programa de Pós-graduação em Alimentos, Nutrição e Saúde, bem como no Programa de Mestrado em Saúde, Ambiente e Trabalho. Coordena ainda o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura – NEPAC. É autora do livro O corpo, o comer e a comida: um estudo sobre as práticas corporais alimentares cotidianas a partir da cidade de Salvador (Salvador: EDUFBA, 2008). 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Eu seu livro, O Corpo, o Comer e a Comida, você usa o termo lightização da vida. De que forma a busca pelo corpo perfeito e pela adequação a padrões estéticos impostos se refletem não apenas nos alimentos que selecionamos, mas também em outras esferas do nosso cotidiano?

Ligia Amparo Santos – A utilização deste termo é um dos principais argumentos do livro: o fenômeno da lightização dos corpos e das práticas alimentares, a construção do gosto light, da comida light, podem representar um processo de lightização da própria existência humana. A ideia da lightização nos remete a uma espécie de valorização da leveza que, obviamente, não é algo novo na história: a leveza da alma frente ao fardo do corpo, com a consequente busca de práticas corporais que buscam produzir uma espécie de libertação. No contexto da modernidade, a leveza também perpassa pela construção do indivíduo supostamente liberto das constrições sociais e familiares, sendo agora supostamente responsável pelo seu destino e definição dos seus próprios valores morais e éticos. 

Há, então, uma interpretação de “liberdade” forjada no neoliberalismo que se configura fundamentalmente na liberdade para consumir, coadunando com o contexto contemporâneo no qual a fluidez e velocidade intensa da vida exige esta espécie de leveza. Eu argumento que, entretanto, é no corpo magro, jovem e saudável e no gosto light que a noção de leveza encontra algumas de suas materialidades mais expressivas hoje, correspondendo a estes fenômenos de apologia ao corpo perfeito, e da tríade magreza—juventude—beleza.

 

IHU On-Line – Pensando ainda na questão do corpo, a internet tem se mostrado um espaço decisivo na exposição da “perfeição corporal”. Em redes sociais como o Instagram, por exemplo, diversos usuários exibem corpos magérrimos e “barrigas negativas” — muitas vezes de maneira pouco saudável. É como no caso da jovem gaúcha de 21 anos, com 17 mil seguidores, que morreu por complicações de sua anorexia . Como você percebe os usos e perigos destes espaços?

Ligia Amparo Santos – Esta é uma questão complexa e multifacetada. Normalmente dizemos que a mídia “impõe” padrões de beleza, mas creio que esta afirmativa não é suficiente para compreender o fenômeno. Não há como discutir a questão da mídia, das tecnologias de comunicação, de forma isolada. Os meios de comunicação são campos de conflito que, em parte, formam a realidade, mas também refletem o mundo social em que vivemos. Estamos tratando de uma sociedade consumista, narcisista, e que tais exposições respondem de alguma maneira a tais movimentos. Por outro lado, há de se pensar que essas tecnologias também podem — e são, infelizmente, em menor escala — ser utilizadas para proferir outros discursos com referência a valores ético-morais mais solidários, que possam respeitar as diferenças e proteger os sujeitos de tais processos promovendo uma vida saudável. 

 

IHU On-Line - Além das opções light, existe hoje uma predominância de alimentos funcionais, com a introdução de farinhas integrais e proteína de soja. Você acredita que isto se deve mais à busca por um corpo nutrido ou por um corpo “perfeito”? Ou seriam estas duas características indissociáveis?

Ligia Amparo Santos – O que temos percebido nos nossos estudos é que há uma convergência dos discursos da saúde e estéticos — assim como dos midiático-publicitários e hedonistas — que, de forma cacofônica, integram aos discursos dos sujeitos. Estes discursos ora convergem, mas por vezes divergem, o que pode chegar a traduzir que um corpo magro é por si só um corpo saudável, o que não é necessariamente verdade. Desse modo, observamos que os sujeitos também mesclam nas suas narrativas e nas suas práticas esta relação saúde—beleza—estética que precisa ser repensada. 

 

IHU On-Line - Dentro do âmbito da cultura popular, as comidas típicas ocupam um papel bastante importante na construção da identidade regional e mesmo nacional. Acarajé, churrasco, feijoada são marcas da tradição, mas ao mesmo tempo parecem não encontrar a mesma penetração em um universo light. Como se estabelece a relação entre a cultura local e esse novo contexto?

Ligia Amparo Santos – Esta é uma questão importante. De um lado, tem-se o discurso da promoção da alimentação saudável e, de outro, o respeito à cultura alimentar local. Os documentos que tratam das políticas de alimentação e nutrição têm feito referência ao respeito aos hábitos alimentares regionais; entretanto, na prática, esta relação ainda está sendo estabelecida. Ou seja, como promover alimentação saudável e, ao mesmo tempo, respeitar os hábitos alimentares regionais? 

Creio que a dimensão do saudável não se resume a um conjunto de prescrições a serem seguidas, e sim proposições a serem construídas nas práticas alimentares dos sujeitos de acordo com as realidades vividas. Do mesmo modo, o conceito de tradição não é de algo imutável, considerando que as tradições só sobrevivem por se renovarem constantemente. Eu penso que a partir destas premissas é que se pode estabelecer um diálogo e construir um mundo saudável, respeitando as identidades e diferenças de cada local. 

 

IHU On-Line - Como articular os hábitos alimentares regionais e a alimentação infantil tanto em casa quanto em ambiente escolar?

Ligia Amparo Santos – Eu creio que esta articulação deve ser promovida pelas políticas públicas em alimentação e nutrição em diferentes esferas sociais — atenção à saúde infantil, programas de alimentação escolar, assim como a regulação da publicidade de alimentos, dentre outras ações. Desse modo, pode-se ofertar aos sujeitos envolvidos na comensalidade infantil — pais, professores, profissionais de saúde, merendeiros, dentre outros tantos — condições de articular uma valorização dos produtos locais, compreendendo as suas potencialidades nutricionais e construindo desde a infância uma biografia alimentar mais saudável e consciente. 

 

IHU On-Line – Como alimentos baratos, de acesso rápido e consistentes, as fast foods, por vezes, não se inserem somente num estilo de vida junkie, mas também fazem parte de uma lógica de fetiche pela rapidez na produtividade e precarização do trabalho. Como você compreende esta relação? De que forma escapar das facilidades que ela proporciona em um ambiente que não preza pela qualidade de vida do funcionário?

Ligia Amparo Santos – Eu reforço a importância de políticas de promoção da alimentação saudável que estejam conectadas a um projeto de construção de um mundo mais saudável, humano e sustentável e que passam, no caso específico do exemplo dado, também pela discussão do trabalho e das suas condições. Decerto que os profissionais de saúde possuem estratégias que podem colaborar para minimizar os danos causados à saúde pelos modos de comer moderno, baseados na lógica do fast food. Entretanto, isso ainda é muito pouco diante da complexidade da questão alimentar e da relevância da dimensão política. 

Destaco ainda que a dimensão educacional é fundamental, pois, a partir da compreensão do fenômeno alimentar, é possível construir políticas locais mobilizadas pelos próprios sujeitos. No exemplo dado, o empoderamento e a mobilização dos sujeitos por condições de trabalho mais humanas, ampliando, por exemplo, o tempo destinado para o almoço, reivindicando acesso a refeições mais saudáveis, também passa pela educação alimentar e nutricional. 

 

IHU On-Line - Qual a importância da alimentação adequada nos diversos ciclos da vida? Em que momento regimes exagerados são mais prejudiciais?

Ligia Amparo da Silva – Não parece haver dúvidas quanto à importância da alimentação adequada nos diversos ciclos de vida — embora possa haver imprecisões do que seria uma alimentação adequada —, como também de que qualquer regime exagerado é prejudicial — temos hoje o fenômeno da ortorexia , considerado como um comportamento de cuidado extremo com a alimentação saudável. Na maioria das vezes, as recomendações da alimentação saudável focam mais no autocontrole do que no autocuidado. 

Creio que este último seria um conceito fundamental para pensar a alimentação no curso da vida, que pode ser visto como uma atitude diante de si, dos outros e do mundo. Assim, o autocuidado alimentar demanda dos sujeitos uma reflexão sobre os modos de ser e de agir com a comida. E é no curso da vida, se relacionando uns com os outros, com as diferentes gerações, com o ambiente em que se vive que os sujeitos podem construir as suas práticas alimentares, respeitando as suas especificidades biológicas, ambientais, culturais, dentre outras.

 

IHU On-Line - Em oposição à apologia ao corpo perfeito, existe uma corrente que defende que, mesmo acima do peso, as pessoas podem ser mais felizes caso se aceitem como são. Qual a sua visão sobre isso?

Ligia Amparo Santos – Eu concordo, pois a vida, a beleza, a saúde, assim como a felicidade, são fenômenos complexos que não podem ser reduzidos ao peso corporal. Decerto que a desnutrição e a obesidade são importantes problemas de saúde no contexto contemporâneo e devemos ter atenção, mas é urgente a necessidade de repensarmos a relação que temos estabelecido com os nossos corpos, pois a apologia ao corpo perfeito tem trazido muito mais danos do que benefícios. A ideia de felicidade como uma experiência humana subjetiva que envolve estados emocionais positivos de bem-estar e prazer, atribuindo assim significados à existência, tem sido reduzida, no projeto da modernidade, a uma lógica do consumo, como se ela pudesse ser “vendida” através de conquistas materiais e de uma aparência física em que o próprio corpo se transforma em mercadoria. 

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