Edição 441 | 28 Abril 2014

A questão da técnica e da antropotécnica em Sloterdijk

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Andriolli Costa

Para Franz Josef Brüseke, o filósofo alemão busca alcançar o outro lado do abismo vislumbrado por Martin Heidegger, desvelado pela técnica desenfreada

Em 1999, o filósofo alemão Peter Sloterdijk proferiu uma série de conferências que geraram controvérsia em toda a comunidade filosófica alemã — e que viriam a se tornar o livro Regras para o Parque Humano - Uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo (São Paulo: Estação Liberdade, 2000). Foram levantadas acusações de eugenia, de uma visão leviana da antropotécnica, o que levou até mesmo a uma polêmica intermitente com o também filósofo Jürgen Habermas. 

Para o filósofo Franz Brüseke, a reação de Habermas e dos demais participantes da polêmica foi bastante desproporcional, movida por “vaidades feridas e interesses jornalísticos de ver um escândalo onde não houve”. Se houve algum sentido, de acordo com ele, foi de estimular as discussões sobre as projeções eugênicas, seus benefícios e os desafios que provocam na imagem do anthropos que nos é familiar na medida em que o DNA humano deixa de ser um limitante. 

“Na perspectiva das possibilidades da biotecnologia aparece uma quimera transumana que para uns tem os traços simpáticos de um Avatar, para outros significa a perda total da identidade do homem”, provoca. “Somente o fato de que podemos hoje discutir se é vantajoso ou não manter as características da espécie humana já documenta as mudanças em curso.”

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o filósofo descreve o pensamento em esferas e a importância do útero, a esfera original, e a hipercomplexidade da sociedade em “espuma”, dando vazão às várias imagens e metáforas construídas pelo pensador alemão. Aborda também a questão da técnica na filosofia de Sloterdijk e sua relação com o pensamento heideggeriano, que, para Brüseke, não desvalida, mas complementa as reflexões de Martin Heidegger. No contexto de Sloterdijk, a técnica é vista “como parte integrante do homem, não podendo fugir dela. A única opção é melhorar a técnica e sistemas imunológicos que nos protegem contra técnicas nocivas”.

Franz Josef Brüseke é mestre e doutor em Sociologia pela Westfälische Wilhelms Universität Münster, Alemanha. Foi coordenador de departamento da Volkshochschule Hamm, Alemanha, e perito integrado do Centre for International Migration & Development - CIM/GTZ. Foi docente em várias universidades brasileiras e desde 2006 é professor da Universidade Federal de Sergipe, onde coordena o Núcleo de pesquisa Sociedade, Ciência e Técnica (SOCITEC). O professor participa nesta segunda-feira, às 19h30, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU, do III Seminário em preparação ao XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea citar o subtítulo com a palestra A questão da técnica em Sloterdijk e o parque humano. A programação completa do evento pode ser vista no link http://bit.ly/XIVSIHU. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em sua trilogia Esferas, Sloterdijk  pensa o homem a partir das microesferas e macroesferas, abordando a tentativa de recriar o conforto do útero materno (a esfera original) pelas vias da ciência, da ideologia e da religião. Como esta imagem colabora para a visão do filósofo de uma teoria moderna da pessoa humana?

Franz Josef Brüseke – Já Hannah Arendt , na condição humana, complementou o olhar heideggeriano na direção da morte e da finitude pela percepção da “natalidade” do homem. Sloterdijk amplia essa perspectiva quando procede na direção de uma topologia da relação da díade, mãe-filho. Sua “uterologia” já começa no ventre da mãe e mergulha literalmente nos movimentos, sons e sentimentos daquele que está por vir. Uma parte da sua análise das “bolhas” é dedicada à análise do uterotopo, análise que, todavia, não se deixa captar por simplificações feministas, pois o pai e as instituições podem substituir a “mãe”, assumindo a função da “mãedade” (Mutterheit). Aqui e em outros momentos Sloterdijk mostra-se como filho do seu tempo e habitante de um pedaço de “espuma” (a Alemanha europeizada na virada do milênio) interpretado, não obstante, de maneira provocativa, bem humorada e longe do mainstream.

 

IHU On-Line - É possível considerar o pensamento de Sloterdijk como pós-humanístico? Que humanismo é este que o filósofo defende? 

Franz Josef Brüseke – Para Sloterdijk, o que chamamos humanismo é basicamente um fenômeno literário. Os gregos antigos letrados passaram para os romanos letrados as suas “cartas” filosóficas, poéticas e políticas. Os romanos, por sua vez, passaram essas “cartas” adiante usando pela primeira vez a expressão humanitas para a comunidade dos letrados e cultos. Formando, desta maneira, as bases do “humanismo”, deram o conceito-chave para uma educação literária que moldou a educação ginasial conforme os diversos canons literários das burguesias nacionais da Europa, entre a Revolução Francesa e a Segunda Guerra Mundial. Hoje, todavia, vivemos numa época em que somente marginalmente a literatura e o ideário humanista fornecem a síntese das sociedades massificadas. A cultura literária e humanista ainda existe, mas somente enquanto subcultura de uma sociedade permeada por meios de comunicação eletrônica. 

 

IHU On-Line - Em 1999, Peter Sloterdijk profere a conferência Regras para o Parque Humano, propondo uma resposta à Carta sobre o Humanismo, de Heidegger  (1947). Qual a diferença entre a visão de técnica entre os dois pensadores?

Franz Josef Brüseke - Sloterdijk compartilha com Heidegger a seguinte visão: a modernidade cumpriu uma das suas promessas; ela abriu novas possibilidades de estar-no-mundo, destruindo, ao mesmo tempo, aquilo que foi considerado durante milhares de anos o mais importante: se distinguir radicalmente deste mundo. Essa situação se expressa filosoficamente mais adequada na obra do jovem Heidegger, que descreveu o homem não como um sujeito autônomo e distante das suas circunstâncias mundanas, mas como ser que está junto com outros seres, sejam eles animados ou simplesmente coisas. Também, Heidegger descreve o homem como alguém que não dispõe mais de uma interioridade que pode servir como abrigo, para o fugitivo do mundo que ele, eventualmente, escolheria ser. Se Heidegger parou nas suas reflexões sobre a modernidade técnica na beira do abismo aberto pelo desocultamento técnico desenfreado, Sloterdijk tenta alcançar o outro lado, sem medo de mobilizar a própria técnica para “melhorar o homem” e suas condições imunológicas.

 

IHU On-Line - Regras para o Parque Humano movimentou a comunidade filosófica na Alemanha, gerando até mesmo uma resposta do filósofo Jürgen Habermas . O que levou à polêmica com Habermas? Como essa discordância se desenvolve atualmente? 

Franz Josef Brüseke – A reação de Habermas e de alguns comentaristas a uma palestra de Sloterdijk proferida em 1999 era — isso podemos ver hoje com uma segura distância de 15 anos — bastante desproporcional. Se essa polêmica promovida por vaidades feridas — e interesses jornalísticos de ver um escândalo onde não houve — teve algum sentido, somente pode ser de ter estimulado a discussão sobre a seguinte questão: as projeções eugênicas, quando se limitam ao campo das medidas que diminuem problemas de saúde e contribuem para um prolongamento da vida, ainda não desafiam a imagem do anthropos que nos é familiar. Pois, na medida em que sequências do DNA de origem animal podem ser integradas no DNA humano, começam a ser tocados os limites entre o ser humano e o ser animal. Na perspectiva das possibilidades da biotecnologia aparece uma quimera transumana que para uns tem os traços simpáticos de um Avatar, para outros significa a perda total da identidade do homem. Somente o fato de que podemos hoje discutir se é vantajoso ou não manter as características da espécie humana já documenta as mudanças em curso.

 

IHU On-Line - Críticas a Sloterdijk apontam para um determinismo genético evidente ou de retomar de maneira irresponsável a palavra “eugenista” na Alemanha (ainda marcada pelo discurso nazista). Como você enxerga estas controvérsias? 

Franz Josef Brüseke – A eugenia, emergida na primeira metade do século XX entre pesquisadores americanos e na Europa principalmente entre russos e alemães, teve, desde sua adoção pelos nacional-socialistas com a finalidade de manter a pureza de uma suposta “raça ariana”, exatamente a imagem da promoção genética de uma ideologia racial. Não surpreende tanto que, ainda em 1999 quando Peter Sloterdijk proferiu uma palestra em Schloss Elmau e perguntou se um melhoramento genético do homem seria possível, as ondas da indignação percorreram a opinião pública da Alemanha. Onde uns acreditaram poder pegar um protofascista em flagrante, revelou-se, à revelia do politicamente correto, um pensamento complexo e original sobre a antropotécnica que foi apresentada na sua mais recente e completa versão na obra Você deve mudar sua vida! (Untertitel: Über Anthropotechnik, 2009). 

 

IHU On-Line - O filósofo defende a hipercomplexidade das relações em razão aos dualismos (sujeito-objeto, homem-natureza, etc.). Como perceber a relação do homem com a técnica a partir de um universo complexo? 

Franz Josef Brüseke – A sociedade é, para Sloterdijk, uma “espuma”, o que quer dizer que a “sociedade” não pode mais ser entendida “de fora”, seguindo assim uma conceituação hierárquica e geral. Pelo contrário, ela precisa ser interpretada “de dentro” como conjunto de subculturas, comunidades e redes, um conjunto de unidades isoladas, mas conectadas midiaticamente, o que já envolve a técnica desde o início. Sloterdijk dedica à explicação e interpretação dessa “espuma” todo terceiro volume das “esferas”, onde  apresenta em mais de 900 páginas uma curiosa filosofia e sociologia do espaço habitado. Não seria exagerado dizer que Sloterdijk desloca a ênfase do pensamento contemporâneo de uma filosofia do tempo para uma filosofia do espaço. Com isso não desvalida, mas complementa as reflexões que o precedem, em primeiro lugar a obra de Martin Heidegger, Ser e Tempo (Petrópolis: Editora Vozes, 2006), publicado em 1927. A técnica é vista, neste contexto, como parte integrante do homem, não podendo fugir dela. A única opção é melhorar a técnica e sistemas imunológicos que nos protegem contra técnicas nocivas.

 

IHU On-Line - De que forma o pensamento do místico Osho Rajneesh  influenciou o pensamento e a obra de Sloterdijk?

Franz Josef Brüseke – Sloterdijk trata com respeito e interesse o pensamento oriental; em especial Raijneesh Osho deixou marcas nas suas primeiras publicações dos anos 1980. Até hoje, apesar da sua percepção clara da crise da sociedade moderna e sua relação crítica com ela, Sloterdijk mantém uma perspectiva “distraída”. Eventualmente podemos ver, nessa “leveza” e nesse “distanciamento” do “mundo comum”, que Sloterdijk demonstra, até hoje, respingos das suas experiências de juventude. Essa “distração” que também pode ser vista no seu “relaxamento” ideológico combinado com pragmatismo político é, todavia, plenamente mundana; não chega a ser um otimismo, mas avista um projeto civilizatório para todos, ocidentais e orientais, no horizonte da contemporaneidade espumante.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar mais alguma coisa?

Franz Josef Brüseke – Apesar do seu sucesso no mercado editorial, dificilmente vai surgir um novo “-ismo”, essa vez com Sloterdijk como founding father. Difícil demais reproduzir seu estilo cheio de neologismos, alusões poéticas e conclusões inesperadas. Todavia, o autor se oferece como divisor de águas, como nenhum outro entre os contemporâneos. Se procurarmos um autor capaz de sacudir o mundo do politicamente correto, sem cair nas armadilhas moralistas colocadas pelos “bons homens”, o seu nome é: Peter Sloterdijk.

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