Edição 438 | 24 Março 2014

Teodiceia e Antropodiceia - O mal na teologia depois de Auschwitz

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Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução: Walter O. Schlupp

Para o teólogo Karl-Josef Kuschel, após o holocausto a crença na “boa criação” e no “bom criador” está falida de uma vez por todas

A teologia clássica sempre relativizou o conceito de "Mal", de forma que ele não fosse encarado como o oposto, mas como ausência do Bem. No entanto, após a experiência do Holocausto, a visão de um Deus pai bondoso e que sempre olha pelos seus filhos perdeu força, dando lugar a questionamentos sobre a relação do homem com o divino. Assim, na chamada teologia depois de Auschwitz, “a crença na ‘boa criação’ e no ‘bom criador’ está falida de uma vez por todas. As perguntas a Deus e aos seres humanos ficaram mais contundentes, insistentes, eivadas de dúvida”, esclarece o teólogo Karl-Josef Kuschel.

Retoma-se, assim, uma antiga discussão que no estudo religioso recebe o nome de teodiceia: “como pode o bom Deus Criador permitir o mal?”. Da mesma forma, Kuschel destaca uma antropodiceia: “Como as boas criaturas de Deus podem perpetrar crimes como esses?”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o teólogo explora o lugar do mal na teologia e em como este conceito vai se transformando. Kuschel perpassa pela banalidade do mal, de Hannah Arendt, e alerta que o mal continua aparecendo em nossa época “sob formas que, ou não percebemos, ou não queremos perceber”.

Guerras, massacres e atentados fazem o mal irromper a qualquer momento. No entanto, a maldade velada é talvez a que mereça ainda mais atenção. “O horror, portanto, é que ‘o mal’ nem sempre é reconhecível como tal, nem sempre apresenta a careta do diabo e, em plena atualidade, muitas vezes se apresenta por detrás da máscara de ‘cidadão de bem’”, conclui o teólogo, em diálogo direto com a “busca por justiça” que percebemos na sociedade brasileira.

Karl-Josef Kuschel leciona Teologia da Cultura e do Diálogo Inter-religioso na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tübingen. É autor, entre outros, de Jesus im Spiegel der Weltliteratur. Eine Jahrhundertbilanz in Texten und Einführungen [Imagens de Jesus na literatura mundial. Textos e informações introdutórias para um século em perspectiva] (Düsseldorf, 1999) e Jud, Christ und Muselmann vereinigt? Lessings “Nathan der Weise” (Judeu, cristão e mulçumano unidos? “Natã, o sábio”, de Lessing) (Düsseldorf, 2004).

Os textos de Kuschel já foram publicados pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU em algumas oportunidades. A primeira, no Cadernos Teologia Pública nº 21, traz o tema Bento XVI e Hans Küng: contexto e perspectivas do encontro em Castel Gandolfo. Já na edição nº 28, a discussão é Fundamentação atual dos direitos humanos entre judeus, cristãos e muçulmanos: análises comparativas entre as religiões e problemas. Já na edição nº 49, o tema foi Os relatos do Natal no Alcorão (Sura 19, 1 - 38; 3, 35 - 49) Possibilidades e limites de um diálogo entre cristãos e muçulmanos. Por fim, no nº 61, Kuschel traz o artigo Narrar Deus: meu caminho como teólogo com a literatura. Os links para essas publicações estão no final desta entrevista.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que é o mal segundo a teologia?
Karl-Josef Kuschel -
A teologia clássica relativizou bastante o "mal", a fim de evitar que se tornasse um princípio oposto ao bom Deus Criador. Sob a influência do grande mestre latino Agostinho , dizia-se: "o mal" não tem substância própria, é apenas "privatio boni", "carência do bem". De acordo com nossas experiências históricas no século XX (Verdun , Auschwitz , Tuzla , 11 de setembro , etc.), o mal tem se revelado numa radicalidade que levou ao questionamento radical da imagem tradicional de Deus e do ser humano.

IHU On-Line - Na teologia, os campos de concentração despertaram quais abordagens da discussão sobre o mal?
Karl-Josef Kuschel –
Há, desde os anos 1970, uma "teologia depois de Auschwitz". Foi desenvolvida por teólogos judeus, como Richard Rubenstein  e Emil Fackenheim , e retomada por teólogos cristãos como Dorothee Sölle , no lado protestante, e Johann Baptist Metz , no lado católico, para citar apenas alguns representantes dos países de língua alemã. Essa teologia quer dar a entender que, "depois de Auschwitz", a teologia e a antropologia não podem simplesmente continuar como antes. A crença na "boa criação" e no "bom criador" está falida de uma vez por todas. As perguntas a Deus e aos seres humanos ficaram mais contundentes, insistentes, eivadas de dúvida. Em linguagem teológica, voltou à tona a questão da teodiceia: como pode o bom Deus Criador permitir o mal? E também eclodiu a questão da antropodiceia: como é que as boas criaturas de Deus podem perpetrar crimes como esses?

IHU On-Line - Como as religiões e a literatura em geral, em face do Holocausto, processaram a questão do mal e do sentido da vida?
Karl-Josef Kuschel -
Não posso falar em nome "das religiões". Eu consigo visualizar principalmente as religiões monoteístas, proféticas, que são Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Em termos de percepção do problema, que são as experiências do mal, existem assimetrias entre as religiões e no seio das próprias religiões. Nem todos os teólogos e teólogas judeus e cristãos se sentem desafiados a tratar as experiências do mal. Continuam utilizando as antigas respostas, como se essa realidade nada tivesse a ver com eles ou elas.

A mesma coisa vale para teólogos islâmicos. Praticamente não existe um tratamento radical da questão da teodiceia, a qual também é uma questão da antropodiceia. O personagem Jó também aparece no Alcorão, porém não como quem se rebela contra Deus, mas apenas como pessoa que paciente e piedosamente vai aguentando. Já na literatura maior a coisa é diferente. Aí os autores teuto-judaicos como Nelly Sachs , Paul Celan  e Elie Wiesel , ganhador do Prêmio Nobel da Paz, assim como o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Imre Kertész , húngaro de origem judaica, apresentam exemplos impressionantes de como lidar com aquilo que é radicalmente mau, da forma como se evidenciou no Holocausto.

IHU On-Line - Arendt levantou o conceito de banalidade do mal. Quão atual é esse conceito? Até que ponto se refletem aí os eventos da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, e também a reação dos Aliados, sob outras circunstâncias?
Karl-Josef Kuschel -
A questão da "banalidade do mal" continua relevante para fins de diagnóstico. Mas é preciso evitar que seja mal-entendido: Hannah Arendt o utilizou ao acompanhar, em Jerusalém, o processo contra o antigo funcionário da SS, Adolf Eichmann, que organizou a "solução final da questão dos judeus" pelos nazistas. A intenção dela não era relativizar a monstruosidade do holocausto. Banal, aqui, não é o mal que ali se evidenciou. O que interessa é que "o mal" nos é apresentado em personagens relativamente medíocres, que nesse sentido são "banais": são meros burocratas delinquentes, que continuam reclamando sua legitimidade com base na "ordem do Führer", mesmo depois que [souberam que] milhões de pessoas foram assassinadas. O horror, portanto, é que "o mal" nem sempre é reconhecível como tal, nem sempre apresenta a careta do diabo e, em plena atualidade, muitas vezes se apresenta por detrás da máscara de "cidadão de bem".

IHU On-Line - Em que medida a Literatura desvela a pátina de civilização que recobre a política no Terceiro Mundo?
Karl-Josef Kuschel - J
ustamente a experiência do Holocausto ou de outros crimes contra a humanidade (mais de 100 mil mortes atualmente na Síria!) mostra a nós “pessoas esclarecidas”  que nenhum padrão civilizado está garantido. A pátina da civilização é muito fina. "O mal" pode irromper a qualquer momento. Por isso é preciso manter-se alerta. O combate ao mal e a defesa dos direitos humanos são uma luta inconclusa. Nada está garantido de uma vez por todas. Quem não reconhecer isso estará enganando a si próprio.

IHU On-Line - No Brasil e muitos outros países da América Latina, as ditaduras se valeram de técnicas de tortura e perseguição. Que análise pode ser feita
dessas situações a partir do conceito de banalidade do mal, de Hannah Arendt?
Karl-Josef Kuschel –
Aquilo que um carniceiro como Eichmann perpetrou com a maior frieza, repete-se de outra forma em outros países, infelizmente. Com isso não quero relativizar o crime cometido contra o povo judeu, mas dizer apenas o seguinte: o mal continua aparecendo em nossa época sob formas que, ou não percebemos, ou não queremos perceber. Ditadores mundo afora mandam cometer crimes clamorosos sob o manto do direito. A análise feita por Hannah Arendt continua plenamente válida.

IHU On-Line - A partir da controvérsia acerca de Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, como analisa o rompimento entre Hans Jonas  e Hannah Arendt?
Karl-Josef Kuschel -
Se estou bem informado, Hans Jonas, cuja mãe foi assassinada em Auschwitz, não rompeu sua amizade com Hannah Arendt por causa da interpretação que ela fez sobre Eichmann, mas porque, por ocasião do processo contra Eichmann, ela — que, como Jonas, era de ascendência judaica e refugiada da Alemanha nazista em 1933 — criticou as organizações judaicas e funcionários judeus por terem oferecido e organizado muito pouca "resistência". Não tenho condições de avaliar se essa crítica dela é válida ou não. Porém, no meio judaico, suscitou reações indignadas que fizeram estremecer algumas relações de amizade de Hannah Arendt. Mas, justamente na qualidade de judia, ela acreditava ter de apresentar a sua convicção.

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é a importância do diálogo entre Teologia e Literatura para se refletir sobre o Mal?
Karl-Josef Kuschel -
A experiência do mal é tratada pela teologia e pela literatura a partir de perspectivas diferentes. O papel assumido pela literatura tem sido o de descrever a realidade sem papas na língua, perceber a complexidade do mal nas diversas formas em que se apresenta e evitar toda e qualquer abstração (6 milhões de vítimas do holocausto, 3 mil mortos em 11 de setembro!) ao apresentar as pessoas concretas em sua sina. Nesse aspecto, a literatura é imprescindível. O forte dela é ilustrar as situações individuais. Em seguida vem o processo de interpretação. É aí que a teologia entra no "jogo". Afinal, desde os tempos de Jó a teologia enfrenta a questão de duas faces: primeiro, como conciliar a existência do mal com a fé numa Criação boa e num Criador justo? Segundo, o que há no ser humano que o capacita a sempre voltar a cometer crimes de lesa-humanidade?

Assim sendo, tanto a literatura quanto a teologia se empenham por respostas para a experiência do "abismo Deus" e do "enigma pessoa humana". Isso dá vida a ambas. O medo da teologia e da literatura não é o de viver com respostas incompletas, e sim a insofismável indiferença das pessoas que não se impressionam com mais nada.

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