Edição 438 | 24 Março 2014

Violência e resistência da força-tarefa nazista

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução de Walter O. Schlupp

O historiador Andrej Angrick propõe que, mesmo que poucos integrantes do Einsatzgruppen tenham efetivamente se recusado a promover o genocídio, o sadismo não imperava na tropa

Quando pensamos nos horrores da Shoah, é comum remetermos aos campos de concentração ou de extermínio nazistas. No entanto, milhares de judeus foram massacrados ainda longe dos campos graças à violenta ação dos Einsatzgruppen, as unidades móveis de extermínio do III Reich. Estas milícias paramilitares tinham como tarefa assassinar pessoas suspeitas de serem inimigas do regime e tinham total liberdade para agir violentamente.

Segundo o historiador alemão Andrej Angrick, quando a polícia ou integrante da SS assassinava ou torturava judeus por conta própria, a orientação era processar e condenar o sádico. No entanto, caso fosse um integrante dos Einsatzgruppen, o ocorrido não era nem indiciado. “Nesse caso, o respectivo [autor do ato] apenas recebia uma advertência ‘entre colegas’: atiradores que cometiam excessos eram coibidos ou impedidos de acessar a vala [de vítimas]”.

Com o final da II Guerra Mundial, os líderes do Einsatzgruppen foram processados em 1948 por crimes contra a humanidade e de guerra.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, no entanto, Angrick relata que, mesmo violentos, os homens que participavam da milícia não eram sádicos, apenas acreditavam responder a operações militares. Acreditavam ainda que protegiam o país contra os judeus donos do capital, conceito que no contato com os guetos judeus no leste europeu passava pouco a pouco a ser revisto — ainda que de forma insuficiente para interromper o genocídio.

“Não demorou muito e o tipo de vítima foi sendo rapidamente ampliado: além de homens em idade de serviço militar, incluíam-se velhos, mulheres e finalmente crianças”, resgata Angrick. “Os atiradores começaram a se dar conta de que estavam sendo usados para um genocídio, de modo que muitos das subunidades dos Einsatzgruppen insistiram em ser substituídos por causa da carga psicológica que não mais conseguiam suportar.”

Andrej Angrick estudou História, Língua Germânica, Educação e Filosofia. A partir de 1997, trabalhou como assistente de pesquisa na Fundação Hamburgo para a Promoção da Ciência e da Cultura Jan Philipp Reemtsma. Concluiu seu doutorado na Universidade Técnica de Berlim, com uma dissertação sobre os Einsatzgruppen. É autor, entre outros, de Besatzungspolitik und Massenmord. Die Einsatzgruppe D in der südlichen Sowjetunion 1941 – 1943 (Política de ocupação e assassinatos em massa - Einsatzgruppe na União Soviética 1941-1943, Hamburgo: Hamburger Edition, 2003) e Die “Endlösung” in Riga: Ausbeutung und Vernichtung 1941–1944 (A "Solução Final", em Riga. A exploração e destruição; 1941-1944, Darmstadt: WBG, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o documentário Das radikal Böse (O Mal Radical, 2013), de Stefan Ruzowitzky , retrata os motivos que levaram os soldados dos Einsatzgruppen a torturar prisioneiros?
Andrej Angrick - O filme é uma tentativa de usar documentos originais, citações próprias, autos judiciais, etc. para tentar entender a natureza daqueles homens que tiveram participação essencial no genocídio no leste europeu, geralmente soterrado pela notoriedade de Auschwitz. O filme tenta esclarecer isso com base na máxima de Kant (que, em minha opinião, se baseia em Agostinho ), segundo a qual o mal é uma opção do indivíduo dentro da sua noção de liberdade e do seu impulso para ela. Procura-se mostrar o fato e o porquê desse mal poder se concretizar nesses homens dos Einsatzgruppen. Os fatos são encenados no filme e comentados por especialistas de várias disciplinas.

IHU On-Line - Membros do Einsatzgruppen que se recusavam a participar de esquadrões da morte eram transferidos para realizar outras tarefas. Contudo, o senhor afirma que o soldado não precisava temer ser excluído nem punido. Desta forma, como podemos entender o posicionamento dos soldados em cometer crimes?
Andrej Angrick - Em primeiro lugar é preciso constatar que foi pequeno o número dos que se negaram. Será que isso significa que a maioria dos que aceitaram realizaram o ato com convicção? Eu diria que não. Na verdade, inicialmente as coisas eram conduzidas de uma forma habilidosa, no sentido de induzir os atiradores a matar. Ou seja, adotava-se uma forma de execução que na época era considerada aceitável em caso de guerra: mediante sentença oficial de um tribunal. Concretamente, as vítimas — homens em idade própria para o serviço militar — eram alinhadas em frente aos atiradores. Para cada vítima havia dois atiradores, um mirando na cabeça, outro no coração. Um oficial, geralmente empunhando um sabre, dava o comando de fogo depois de proferir as palavras: "Os senhores serão executados por atentarem contra o império alemão, por ordem do Führer".

Para os atiradores simplórios isto pode ter parecido duro, porém "necessário", uma vez que toda essa encenação parecia, à primeira vista, estar sendo levada a cabo dentro dos padrões militares. Não demorou muito e o tipo de vítima foi sendo rapidamente ampliado: além de homens em idade de serviço militar, incluíam-se velhos, mulheres e finalmente crianças. Então os atiradores começaram a se dar conta de que estavam sendo usados para um genocídio, de modo que muitos das subunidades dos Einsatzgruppen (no caso, os policiais do PRB 9 e integrantes da Waffen-SS  e da [unidade especial] z.b.V. Dern) insistiram em ser substituídos por causa da carga psicológica que não mais conseguiam suportar.

IHU On-Line - Em que medida a doutrinação propagandística se mostrou eficaz na consolidação das ações dos Einsatzgruppen?
Andrej Angrick - Isso está ligado ao que dissemos acima. Provavelmente houve pouca doutrinação. Naturalmente houve eventos de instrução antissemita e, antes de uma execução, para justificar o procedimento, apresentava-se algum filme como Jud Süß . Uma das motivações mais fortes para integrantes dos Einsatzgruppen devem ter sido as vítimas do NKWD [Ministério do Interior soviético], encontradas nas prisões de Lemberg ou Riga, por exemplo. Elas confirmavam a propaganda nazista de que “o bolchevismo judeu”  era bestial e precisava ser extinto. Entretanto, com o avanço das tropas para o leste europeu, [os integrantes dos Einsatzgruppen] entravam em contato com moradores do gueto, passavam a conhecer judeus que demonstravam ter cultura, ou eram "judias charmosas". Aí aquela impressão [criada naquelas prisões soviéticas supostamente "judaicas"] acabou sendo revogada; conseguiram distinguir entre a impressão negativa dada pelos judeus [integrantes do] NKWD [soviético] e o cotidiano que estavam vivenciando. Só que isso não bastava para coibir a dinâmica dos assassinatos. O resultado foram lucubrações insolúveis [na cabeça dos integrantes dos Einsatzgruppen]. Somente em casos excepcionais alguém se negou a participar, como Martin Mündschütz  do Ek 12, que antes também tinha participado das execuções, e alegou ter uma natureza sensível.

IHU On-Line - Os Einsatzgruppen guardam alguma peculiaridade em relação a outros grupos que atuaram no regime nazista? Por quê?
Andrej Angrick - Talvez se possa dizer que eles provinham de unidades sociais menores. Por exemplo: as unidades militares em nível de regimento ou companhia vinham de uma mesma cidade. Ou seja: todos eram de Berlim, ou de Regensburg, ou de Düsseldorf, etc. Já no caso dos Einsatzgruppen, compunham-se de guardas [civis] de Berlim; pessoal da Waffen-SS colocado em disponibilidade; pessoal convocado para serviços de emergência (motoristas, padeiros convocados de qualquer lugar como indivíduos para integrar os Einsatzgruppen); intérpretes provenientes da região do Báltico, Cáucaso ou Volínia-Podólia (os quais acabaram sendo um elemento radical e radicalizante); e finalmente pessoal do serviço secreto, como, por exemplo, investigadores e funcionários da Gestapo, os quais foram convocados para o front no leste por serem dispensáveis em seu domicílio ou por causa das suas relações pessoais com os chefes dos Einsatzgruppen.

IHU On-Line - Em que medida houve uma influência do contexto social nos fatos que se deram na Alemanha da II Guerra Mundial?
Andrej Angrick - Considero bastante limitada essa influência. Por exemplo: antigos integrantes do partido Social Democrata da Alemanha, na categoria de Mannschaftsdienstgrad (soldados), também fizeram parte dos atiradores; em contraponto, hesitaram integrantes dos Völkische [DVFP, partido direitista, antissemita], principalmente quando a pressão do grupo era grande (elemento esse muito mais importante), porque nessa situação seguiam as orientações de outros, embora resistindo interiormente, agindo não por convicção própria.

Mesmo para a liderança da SS o genocídio total estava sendo um experimento social. Tinham plena consciência de que estariam sendo executados homens em idade de serviço militar, conforme dito acima. Mas será que os assassinos também funcionariam quando se tratasse de executar criancinhas? É só por aí que se pode explicar a utilização de vagões de gás e (depois) a introdução de campos de extermínio. Estes eram preferidos não tanto por causa da sua suposta eficiência, mas porque o assassinato precisava de menos executantes, não seriam tantas as pessoas cujas consciências acabariam oneradas; seu empenho na guerra não mais lhes acarretaria tanto trauma psicológico. Ora, Himmler  havia tido a fantasiosa ideia de que as vítimas apenas adormeceriam com o gás, ou seja, não precisariam sofrer tanto, desnecessariamente. Himmler não estaria querendo fazer os outros sofrer, mas apenas fazer o "necessário". Aliás, essa postura de Himmler implicaria que ele não representaria o tipo do [mal] radical de Kant. Ele não seria mau, mas um "punidor justo".

IHU On-Line - Qual foi o papel da Justiça alemã durante o conflito e suas exceções e depois, quando a Alemanha perdeu a guerra e teve que se confrontar com esses atos?
Andrej Angrick - Durante a guerra o judiciário não esteve envolvido [ativamente na perseguição a judeus e outros] porque continuava em vigor o parágrafo 211 do Código Penal StGb, referente a assassinatos. Mesmo assim o judiciário da SS e da polícia intervinha quando o integrante da SS ou da polícia assassinava judeus por conta própria, divertia-se com o sofrimento deles ou mesmo mostrava fotos sensacionalistas do ato entre seus conhecidos. Nesse caso se acreditava ter de processar e condenar o sádico. Entretanto, quando esse tipo de pessoa aparecia como integrante de Einsatzgruppen, deixava-se de indiciar o fato. Nesse caso, o respectivo [autor do ato] apenas recebia uma advertência "entre colegas": atiradores que cometiam excessos eram coibidos ou impedidos de acessar a vala [de vítimas].

Para o pós-guerra na Alemanha é preciso constatar que inicialmente o judiciário nem tinha direito de processar crimes dos Einsatzgruppen, uma vez que sua competência abrangia [apenas] crimes cometidos por alemães, contra alemães, em território alemão. Concretamente isso valeu para assassinatos de eutanásia, em que o judiciário alemão obteve algum êxito. Só mais tarde a República Federal da Alemanha obteve a soberania judiciária, passando então a investigar integrantes dos Einsatzgruppen. Doravante era preciso provar a culpa do acusado como pessoa individual, e não como parte de um coletivo ou coadjuvante no assassinato [Beihilfe zum Mord], o que não deixa de ser bastante difícil de provar. Outros crimes, como homicídio, ou privação da liberdade com morte por consequência (como no caso das deportações), já estavam prescritos, ou seja, a pessoa não era inocente, mas também não mais podia ser processada.

IHU On-Line - Qual é o grau de responsabilidade histórica do Estado e, em última instância, de cada um dos soldados que cometeu tortura?
Andrej Angrick - O Estado, isto é, os agentes principais, desenvolveram o plano, criaram o ambiente, aliciavam com recompensas e puniam os que se negavam [a participar]. Mas é responsável o indivíduo que tenha participado dos crimes intencionalmente e com "prazer". Mas o que é mais grave (deixo agora de lado a questão da culpa) é o fracasso humano da grande maioria dos integrantes dos Einsatzgruppen. Se essas pessoas tivessem se negado, o projeto "solução final" no leste da Europa não teria sido viável na forma como foi encaminhado. Num sistema [político] diferente [p. ex., em uma democracia], elas dificilmente teriam deixado se envolver no crime; eram cidadãos normais, geralmente de boa fama na sociedade. Considerando as consequências assassinas, seu envolvimento é muito grave, mesmo que pessoalmente tivessem pouca ou nenhuma identificação com o agente criminoso.

IHU On-Line - Sob que aspectos no Estado nazista a utopia germânica era uma promessa de felicidade, de uma sociedade perfeita?
Andrej Angrick - Para muitos integrantes dos Einsatzgruppen estava claro que a guerra contra a União Soviética também representava uma promessa de felicidade [Heil]. Quanto mais cultos eram, mais acreditavam nisso. [Para eles] essa guerra acabaria eliminando o inimigo de morte, o adversário ideológico. Mas a questão não era somente proteger-se de Stálin. Se analisarmos os registros de Himmler nos anos 1940/42, observamos que, além dos eventos da guerra, o que mais o ocupava eram os próximos assentamentos no leste europeu. Ele e Hitler queriam realizar uma utopia germânica no leste europeu: novas cidades e vilas refletiriam a estética [com que pessoalmente se identificavam]: Arno Breker  e Richard Wagner , Brückner  e Leni Riefenstahl . E o cidadão comum naturalmente pensava que em termos econômicos ele também levaria uma vida melhor, que depois da "vitória final" cada alemão acabaria virando prefeito numa sociedade de helotes [isto é, escravos].

IHU On-Line - Se por um lado Kant menciona o “mal radical”, Hannah Arendt formula o conceito de “banalidade do mal” ao se referir a Adolf Eichmann. Sob uma perspectiva histórica, como esses posicionamentos refletem o mal que nunca cessou de existir em cada um de nós?
Andrej Angrick - Na minha opinião, essa discussão gira em torno das diferentes interpretações do que se entende por "banal". Eichmann, com seu jeito de falar, de pequeno-burguês, parece banal, o que mostra que não é preciso ser um Mefistófeles para planejar e executar um crime dessas dimensões. Entretanto, o crime em si, que foi o genocídio contra judeus, nada tem de banal. Sua abrangência e radicalidade são de uma dimensão inconcebível. Aí, sim, é que se apresenta o mal radical, só que não no sentido de Kant, relativo ao indivíduo, mas de feições escatológicas, numa cosmovisão teológica.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Andrej Angrick - Ao fim e ao cabo permanece válida a constatação de Primo Levi : "Aconteceu e pode acontecer de novo." Portanto importa ficar alerta ao conversarmos com conhecidos, com a família e com os amigos, na discussão sobre soluções políticas e sobre casos isolados. Pois é aí que começa. Quem leva ao ato é a ideia. Importante é ficar atento com o que se passa dentro de nós mesmos, não deixar a própria consciência ser corrompida, independentemente de quem esteja fazendo pressão, ou de qual promessa estejamos recebendo. Fácil de dizer, difícil de fazer.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição