Edição 202 | 30 Outubro 2006

"Não faz sentido o Brasil retomar a opção pela energia nuclear"

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IHU Online

A nova editoria Terra habitável reproduz nesta semana a entrevista com Washington Novaes e a reportagem do jornal Repubblica. Tudo foi publicado nas Notícias Diárias da página do IHU nos dias 28-10 e 26-10 respectivamente. No dia 29-10, reproduzimos um artigo de Marcelo Leite, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp intitulado “Pegada ecológica. Espécie humana vai consumir o dobro do ideal até o ano 2050”.

Washington Novaes fala em entrevista à IHU On-Line sobre energia nuclear, transposição do Rio São Francisco, transgênicos e o governo Lula e as questões ambientais. “O Ministério do Meio Ambiente defendia a necessidade de aplicar o princípio da precaução e estudos prévios de impacto ambiental e epidemiológicos. Ele foi derrotado no Congresso pelo próprio partido do governo que comandou a votação.”, avalia Novaes.

Washington Novaes é um jornalista especializado nas questões ambientais. Bacharel em Direito e jornalista há mais de 45 anos, já foi repórter, editor, diretor e colunista em várias das principais publicações brasileiras. Ganhou diversos prêmios, entre outros, O Prêmio de Jornalismo Rei de Espanha, o troféu Golfinho de Ouro e o Prêmio Esso Especial de Meio Ambiente. Também foi consultor do primeiro relatório nacional sobre biodiversidade. Participou das discussões para a Agenda 21 brasileira. Atualmente, é colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Popular, de Goiânia. Entre suas publicações destacam-se A década do impasse: da Rio-92 à Rio + 10. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. Xingu: Uma flecha no coração. São Paulo:Brasiliense, 1985.

IHU On-Line - O governo federal elaborou um estudo pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) prevê a construção de mais sete reatores nucleares no Brasil, no máximo até 2025. Qual a sua opinião sobre essa notícia?

Washington Novaes
- A meu ver não traz nenhum sentido o Brasil voltar à opção da energia nuclear por muitas razões. Primeira delas é que a energia nuclear é mais cara que qualquer outra forma de energia. Existem estudos no mundo inteiro, mostrando isso. Segundo, que a energia nuclear não tem destinação para os resíduos de lixo nuclear que ela produz. O Brasil continua com dezenas de milhares de toneladas de resíduos nas usinas de Angra I e II, por não ter onde depositá-lo. Primeiro, por que ninguém aceita o lixo. Segundo, por que não há uma tecnologia segura para ele. Ninguém no mundo encontrou uma forma segura de depositar o lixo nuclear em algum lugar. Os Estados Unidos estão tentando encontrar uma solução, construindo um depósito debaixo da Yucca Mountain, em Nevada, a trezentos metros abaixo do solo. Entretanto, há objeções muito sérias dos geólogos por acharem que não há como garantir que vá resistir durante milhares de anos e que o lixo vai continuar radioativo. Para os hidrólogos, pode haver infiltração. Os vulcanologistas não garantem que os dois vulcões que são próximos ao depósito continuem inativos e também. Por sua vez, os sismólogos lembram que, há alguns anos, houve um abalo de 5.3 graus na Escala Richter a três milhas do local do depósito.

Quando visitei o depósito, eu perguntei ao engenheiro do Departamento de Energia dos Estados Unidos que nos acompanhava se havia ocorrido algum abalo ali. Ele confirmou que sim, mas que o depósito resistiu bem. E eu voltei a perguntar: “E se hlegarante”. A implantação de mais depósitos está embargado pela justiça nos Estados Unidos. As autoridades não consideram seguro pelo tempo de vida que o depósito vai ter. Ainda existe uma última questão que pergunta como os Estados Unidos farão para transferir os resíduos de mais de 100 usinas que eles têm em atividade para esse único local no estado de Nevada. Então, o Brasil voltar a isso não faz nenhum sentido. E inclusive, o País não pode fazer esse tipo de opção antes de mostrar para a sociedade com clareza qual é o quadro da matriz energética brasileira. Há pouco tempo, saiu um estudo do WWF, feito por técnicos da Universidade de Campinas, mostrando que o Brasil pode economizar 30% na energia que consome hoje sem nenhum prejuízo. E pode também ganhar com a repotenciação de usinas que estão chegando ao seu prazo de validade.  Parece-me uma opção, se acontecer, injustificada e inapropriada para o País.

IHU On-Line - Como o senhor vê a questão da transposição do Rio São Francisco em um segundo mandato de Luís Inácio Lula da Silva?

Washington Novaes
- O projeto está embargado na justiça. Para poder ser tocado, ele precisa ser liberado na justiça porque há muitas questões que precisam ser esclarecidas e respondidas antecipadamente. Acredito que o projeto não faz nenhum sentido. Ele foi aprovado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos, passando por cima da decisão do Comitê de Gestão da Bacia do Rio São Francisco, que é o órgão que devia ser respeitado. O Comitê da Bacia votou por 44 votos a 2 contra o Projeto de Transposição, dando prioridade para a revitalização. Mas o Conselho Nacional de Recursos Hídricos do governo federal, tem maioria absoluta  e desrespeitou o Comitê de Gestão e aprovou esse projeto. A alegação é que assim pode-se levar uma caneca de água para milhões de pessoas que sofrem com a seca. É evidente que isso não vai acontecer. As pessoas que sofrem com a seca no Nordeste são as que vivem em pequenas comunidades isoladas, e a transposição não vai chegar até elas. Não se vai fazer uma adutora para atender uma casa ou duas.

Para essas pessoas a solução mais adequada é a de cisternas de placa que são feitas pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e pelo Projeto Fome Zero. Já tem 160 mil cisternas instaladas. As cisternas são muito eficientes e tornaram-se uma bênção na vida daquelas pessoas. Isso custa muito mais barato do que fazer transposição. A água da transposição destina-se a grandes projetos de frutas, flores, camarões para exportação. É o velho modelo de continuar exportando produtos primários com baixos preços para atender os países industrializados. Mais de 70% da água será para isso. A análise do projeto que o Ibama fez diz que mais de 60% das terras que serão irrigadas estão em início de desertificação. Há muitas questões que deveriam ser respondidas antes de se entrar num projeto como esse que é caríssimo e que não vai atender a essas populações. Fora o fato de que a água que virá desse projeto será uma água cara. O semi-árido brasileiro, segundo o diagnóstico de vários especialistas respeitados como o professor Maldo Rebouças, da Universidade de São Paulo, e o professor João Abner, do Rio Grande do Norte, não é de escassez de água, e sim de má gestão da água.

IHU On-Line - De que forma o Brasil deve administrar essa crise entre a Petrobras e a Bolívia?

Washington Novaes
- Eu creio que é uma questão complicada. Evidentemente a Bolívia tem o direito de usar como entender melhor os seus recursos naturais. Agora, ela tem também de respeitar contratos. Se a Bolívia acha que deve confrontar esses contratos é preciso ver os direitos da Petrobras nessa questão.

IHU On-Line - Que fontes alternativas de combustível e energia são viáveis ao Brasil hoje?

Washington Novaes
- O Brasil tem muitas alternativas se precisar. Entretanto, eu insisto que o País não precisa ampliar o seu potencial instalado. O Brasil tem a hidroeletricidade nos lugares em que ela for adequada e não provocar problemas, e energias todas renováveis que se pode usar como a eólica, a energia de marés ou como as de biomassas. São muitas as alternativas que o País tem.

IHU On-Line - Como o senhor analisa o governo Lula no aspecto ambiental?

Washington Novaes
- A chamada questão ambiental não foi prioridade no governo Lula, muito ao contrário. O Ministério do Meio Ambiente sempre falou muito na necessidade de implantar uma política transversal no sentido de uma política que fosse comum a todas as áreas de governo e ministérios. Mas isso não aconteceu na prática. Nem o Ministério da Agricultura, Ministério dos Transportes, Ministério do Desenvolvimento e Minas de Energia, colocou ênfase e importância na questão ambiental. Ao contrário, o Ministério do Meio Ambiente foi sistematicamente derrotado em várias questões. Por exemplo, a questão de importar pneus usados do Uruguai. Foi uma decisão imposta pelo Itamaraty sob a alegação de que um tribunal arbitral do Mercosul exigia isso. No entanto, nenhum país do Mercosul cumpre isso, só o Brasil. E passou a importar lixo. Na questão dos transgênicos que o Ministério do Meio Ambiente defendia a necessidade de aplicar o princípio da precaução e estudos prévios de impacto ambiental e epidemiológico, ele foi derrotado no Congresso pelo próprio partido do governo que comandou a votação.

Quanto à redução da mistura de álcool na gasolina para poder exportar mais álcool para a Suíça e o Japão, países que usam o álcool para reduzir emissões de gases poluentes, o Ministério do Meio Ambiente foi vencido também. E nós ficamos com o ar mais poluído aqui para que se exportasse álcool para países que querem reduzir a poluição. E assim por diante, foram muitas derrotas. Há a questão da Amazônia que não teve políticas eficazes e não concordo com o projeto aprovado de cessão de florestas públicas para empresas privadas fazerem o manejo sustentável. Os próprios índices de desmatamento na Amazônia. Vejo que isso tudo mostra que o meio ambiente não foi prioritário, foi um gueto dentro de governo com um orçamento insignificante, pouco mais de ½ do orçamento federal. Além disso, o governo nem sequer percebeu que precisaria ter uma estratégia para essa área, porque hoje no mundo, está ficando evidente a escassez de recursos e serviços naturais. Um país que tem a biodiversidade que o Brasil tem, os recursos hídricos, a insolação o ano todo, enfim, com a riqueza que o País tem, deveria haver uma estratégia que colocasse esse fator escasso no mundo numa posição privilegiada como base de políticas. Entretanto, essa estratégia não existe.

IHU On-Line - Qual a sua visão sobre a utilização de transgênicos no País?

Washington Novaes -
Penso que deveria vigorar o princípio da precaução. É preciso saber antecipadamente quais são as conseqüências ambientais e epidemiológicas para a saúde da utilização destes transgênicos. Isso foi derrotado no projeto que foi para o Congresso. O Ministério da Saúde e do Meio Ambiente perderam o direito de exigir isso previamente. Há muitos estudos no mundo, mostrando várias questões. Por exemplo, existe um estudo do governo inglês que foi feito com a canola, a beterraba e o milho. Só o milho não contaminou plantações vizinhas. O governo inglês se dispôs a liberar a plantação de milho transgênico se os produtores de sementes e os plantadores assumissem por escrito o risco em relação a eventuais danos que pudessem acontecer e seguissem regras estabelecidas pelo governo. Eles se recusaram. Na Bélgica, os produtores também não aceitaram esse compromisso. A União Européia continua mantendo restrições a esses transgênicos. Nos Estados Unidos, há vários estudos, mostrando que a produtividade dos transgênicos é inferior. São muitas as razões fora o fato de que nesse sistema, o produtor fica dependente da empresa produtora de transgênicos. Ele tem que comprar a semente todo ano. Ele não pode usar a sua própria produção para gerar semente.

IHU On-Line - Como a teoria de Gaia poderia chegar aos governantes? O senhor poderia dar uma explicação sobre esta teoria?

Washington Novaes
- A Teoria de Gaia que foi formulada por James Lovelok fala que o Planeta é um organismo vivo em que tudo está relacionado com tudo. Não há nada que seja isolado. Tudo que está no meio físico depende de tudo, inclusive os seres humanos. O nosso corpo é formado de água e minérios. Nós respiramos ar, nos alimentamos de outros seres vivos. O que acontecer no meio físico acontecerá também no nosso organismo. Mais recentemente o James Lovelok, disse que os danos que o Planeta já está sofrendo em função de mudanças climáticas são irreversíveis e serão maiores. A única forma de deter isso seria utilizar a energia nuclear para substituir as outras fontes como o petróleo, gás e o carvão, porque para fazer isso por outro caminho levaria muito tempo e o resultado não daria certo. É uma posição. Ele está sendo muito criticado por ela. Eu mesmo não estou de acordo com essa idéia. Entretanto, tudo o que o ser humano faz tem impactos sobre o meio físico, e se é assim, em todas as políticas públicas, e em todos os empreendimentos privados, esses impactos deveriam ser calculados previamente para saber se vale à pena correr o risco desses impactos no meio ambiente. E saber quem vai arcar com esses custos que eles vão produzir.Quando não se faz isso quem paga o preço é a sociedade enquanto algumas poucas pessoas se beneficiam do projeto específico. Não se trata apenas de proteger o meio ambiente, não é isso. São vários estudo sérios mostrando que nós já ultrapassamos os limites de segurança, seja na área de mudanças climáticas ou padrões de produção e de consumo. Nós estamos consumindo mais do que a biosfera terrestre pode repor. Caminhamos para a falência. Mudanças climáticas são um problema já presente e em andamento.

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