Edição 435 | 16 Dezembro 2013

O percurso da mística no cristianismo

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Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução: Moisés Sbardelotto

Bernard McGinn, especialista na história do pensamento cristão, expõe o trajeto e as características da mística nesta religião

“Embora alguns estudiosos da religião tenham resistido a aplicar os termos ‘místico’ e ‘mística’ a outras religiões, nos estudos contemporâneos, a mística tem sido adotada como um termo geral da arte para descrever uma importante dimensão do fenômeno da religião”, defende o teólogo Bernard McGinn. No entanto, ainda que presença fundamental em inúmeras religiões, McGinn afirma que é justamente no cristianismo que os termos “místico” e “mística” foram desenvolvidos.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele que é especialista na história do cristianismo recupera que embora a Bíblia não use exatamente estes termos, muitos de seus textos falam sobre a relação de amor de Deus pelo seu povo, sobre o anseio de ver a face de Deus e sobre sentir a presença divina. Trechos que falam sobre “ser em Cristo” e “tornar-se um com Jesus e seu pai”, assim como a própria ascensão ao céu. É esta experiência do inefável que caracterizaria as bases do pensamento místico. 

“Logo o termo "místico" foi usado para caracterizar todo o significado interior da vida cristã — rituais místicos como o Batismo e a Eucaristia, oração mística e contemplação de Deus e, finalmente, teologia mística, que era vista não apenas como uma forma de ensino, mas também de vida em busca de uma consciência mais profunda da presença de Deus.” Caracterizam a mística cristã uma base fundamentalmente bíblica, sempre eclesial e centralizada na figura de Cristo. “Experimentar Jesus como presente na vida pessoal sempre foi central para a mística cristã”, relata ele.

Bernard McGinn possui licenciatura em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e doutorado na mesma área na Brandeis University. Atualmente ocupa a cátedra Naomi Shenstone Donnelley, na Divinity School da Universidade de Chicago. Trabalha especialmente com a história do cristianismo e do pensamento cristão, com ênfase no período medieval. É autor dos sete volumes que compõem a obra History of Christian mysticism in the West.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Quais são as principais peculiaridades do misticismo cristão?

Bernard McGinn – A mística, como eu a entendo, é aquele elemento na religião que busca encontrar um contato profundo e transformador com Deus. Assim, a mística não é o todo da religião, mas existe em relação a outros aspectos das tradições religiosas: instituições, doutrinas, práticas, normas éticas, etc. Nesse sentido, a mística é uma parte de muitas tradições religiosas. Os termos "místico" [mystical, adjetivo] e "mística" [mysticism, substantivo], no entanto, foram desenvolvidos no cristianismo. Embora alguns estudiosos da religião tenham resistido a aplicá-los a outras religiões, nos estudos contemporâneos a mística tem sido adotada como um termo geral da arte para descrever uma importante dimensão do fenômeno da religião.

As peculiaridades da mística cristã fazem parte do desenvolvimento da fé cristã ao longo dos últimos dois milênios. Acima de tudo, o desejo de experimentar um profundo sentimento da presença de Deus é encontrado em toda a Bíblia, tanto na Bíblia hebraica (ou Antigo Testamento, como os cristãos passaram a chamá-lo pelo século II d.C.), como nos escritos que formaram o Novo Testamento. Embora a Bíblia não use as palavras "místico" ou "mística", muitos textos falam sobre a relação de amor de Deus pelo seu povo, sobre o anseio de ver a face de Deus e sobre sentir a presença divina. No Novo Testamento, há passagens, especialmente na literatura joanina e paulina, sobre "ser em Cristo" e "tornar-se um com Jesus e seu Pai", e também sobre visões e ascensões ao céu. Isso foi fundamental para a mística cristã. Assim, a mística cristã é sempre bíblica em sua base.

A Bíblia, no entanto, nem sempre é clara ou fácil de interpretar, especialmente porque os cristãos consideravam o Antigo Testamento como uma profecia velada do Novo Testamento. Por isso, para os cristãos, a Bíblia contém um significado espiritual interior escondido sob a superfície do texto e destina-se a alimentar a vida dos fiéis. O uso do adjetivo "místico" na Igreja Primitiva começou no século II d.C., como uma forma de descrever o sentido oculto dos textos bíblicos. Esses sentidos místicos revelavam as profundezas dos mistérios de Deus e tornavam-nos acessíveis à comunidade dos fiéis. Logo o termo "místico" foi usado para caracterizar todo o significado interior da vida cristã — rituais místicos como o Batismo e a Eucaristia, oração mística e contemplação de Deus, e, finalmente, teologia mística, que era vista não apenas como uma forma de ensino, mas também como uma forma de vida em busca de uma consciência mais profunda da presença de Deus. Assim, emerge uma segunda característica: a mística cristã é sempre eclesial.

Os dois mistérios fundamentais da fé cristã também formam as características essenciais da mística cristã. O mais antigo movimento de Jesus cresceu entre os judeus, que acreditavam que Jesus de Nazaré era o Messias designado divinamente, que tinha vindo para redimir os seres humanos e para iniciar o reino de Deus por meio da sua Paixão e Ressurreição. A cristologia que rapidamente se desenvolveu afirmou que Jesus Cristo não era apenas um ser humano, mas também era totalmente divino, embora apenas no século V d.C. as fórmulas dogmáticas relativas a essa união de Deus e do homem foram totalmente resolvidas. Experimentar Jesus Cristo como presente na vida pessoal sempre foi central para a mística cristã, embora isso tenha sido entendido de muitas maneiras. Os Evangelhos mostravam como Jesus havia revelado o seu Pai Celestial ao mundo e também havia prometido enviar o Espírito Santo para continuar a sua obra. Assim, a crença em Deus como uma Trindade de pessoas foi fundamental para o cristianismo e também para a mística cristã. A mística cristã é sempre necessariamente trinitária, embora o papel da Trindade apareça em uma grande variedade de formas e com diferentes ênfases entre os místicos.

 

IHU On-Line - Em termos gerais, quais seriam suas origens e surgimento? O que pode ser caracterizado como o crescimento e o florescimento do misticismo?

Bernard McGinn – Eu concebo a mística cristã como um processo em que três ou quatro grandes etapas gradualmente construíram uma tradição complexa que consiste em muitos elementos. Essas etapas ou camadas são sucessivas, mas também inter-relacionadas, no sentido de que estágios iniciais continuam vivendo e interagindo com os desenvolvimentos subsequentes. A primeira grande etapa de explícita mística cristã pode ser chamada de Mística Monástica, porque, a partir do século III até o século XII d.C., a mística foi principalmente realizada entre homens e mulheres monásticos. Por volta de 1200 d.C., vemos a emergência de um novo estágio de mística (eu a chamo de Nova Mística), em que novas formas de vida religiosa (por exemplo, mendicantes e beguinas), assim como laical, criaram novas formas de mística, geralmente na língua vernácula. A Nova Mística se voltou para um público amplo e foi um fenômeno diverso, que envolveu tanto o período final da Idade Média (1200-1500) e o início da modernidade (1500-1650). Ela encontrou expressão não só entre os católicos, mas também entre alguns protestantes. No fim do século XVII, começou uma terceira etapa, que eu chamo de Crise da Mística. Nesse momento e até o fim do século XIX, a mística foi atacada e criticada tanto dentro da Igreja (por exemplo, a Controvérsia Quietista ), quanto fora dela (por exemplo, na cultura e no pensamento do Iluminismo). A questão que permanece é se durante o século passado vimos o nascimento de uma quarta etapa, a do Renascimento da Mística.

 

IHU On-Line - Nesse sentido, como podemos compreender o misticismo na Alemanha Medieval e quais são suas ramificações para o misticismo que se seguiu a esse período?

Bernard McGinn – Apesar do significativo papel da mística na Itália, na Inglaterra e, em menor medida, na França, as terras de língua alemã (incluindo os reinos de língua holandesa) foram as áreas mais produtivas para a mística nos primeiros séculos da época da Nova Mística (meados do século XIII e meados do século XV). As razões não são exatamente claras, mas o transbordamento da literatura mística na Alemanha e a subsequente influência desses escritores, principalmente vernáculos, foram imensos (por exemplo, Eckhart , Tauler , Suso , Ruusbroec ). Os estudos modernos também revelaram importantes místicas femininas (por exemplo, Mechthild , Gertrude , etc.). A mística germânica não é fácil de caracterizar, mas pode-se dizer que Eckhart e Ruusbroec foram as mentes mais originais e influentes. A insistência de Eckhart no desapego e na aniquilação, a fim de atingir o campo da união em que Deus e a alma são um só, foi poderosa durante séculos. Isso também foi verdade para a mística da "vida comum" de Ruusbroec, na qual o fiel é convidado a compartilhar o dinamismo da atividade e do gozo interior da vida da Trindade.

 

IHU On-Line - Quais são as possíveis aproximações entre a mística de Marguerite Porete e do Mestre Eckhart?

Bernard McGinn – Marguerite Porete foi uma beguina francesa executada como herege em Paris, em 1310, por continuar disseminando o seu livro, O espelho das almas simples e aniquiladas. Esse livro é uma das obras-primas da Nova Mística, apresentando uma profunda teologia negativa e uma ousada doutrina de como a alma pode se tornar totalmente una com Deus através da aniquilação do eu e, especialmente, da vontade. Eckhart entrou em contato com Marguerite Porete e o seu ensinamento (ele voltou a Paris pouco depois da sua morte). Surpreendentemente, Eckhart não parece ter ficado excessivamente perturbado com o ensinamento dela e até usou algumas de suas expressões sobre aniquilação mística em seus sermões, especialmente no Sermão 52.

 

IHU On-Line - A partir da mística de Porete, qual é a importância da compreensão da aniquilação da vontade de alma, que a leva de volta a um estado preestabelecido de união com Deus?

Bernard McGinn – Marguerite Porete, assim como Eckhart, ensinava que a alma mantém a sua união original, ou preexistente, com Deus, mesmo que ela também tenha uma existência individual, ou real, no mundo criado. A realização dessa "união virtual" preexistente em Deus era importante para ambos os pensadores, assim como para outros místicos medievais. Assim, os seres humanos possuem a capacidade de se tornarem unidos a Deus, porque eles já são — e desde toda a eternidade — um com o Deus, em cuja intenção criadora eles encontram a sua verdadeira realidade.

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