Edição 435 | 16 Dezembro 2013

O trânsito da mística no espaço do conhecimento

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Ricardo Fenati sustenta que a mística é uma das formas humanas de estar no mundo e que, portanto, é preciso fazer circular os conhecimentos sobre o tema

“Se entendermos por filosofia moderna a que tem início com Descartes, a relação entre mística e filosofia é claramente marcada por uma oposição. Se a filosofia moderna assinala o império da consciência, o entendimento da consciência como uma espécie de tribunal de última instância diante do qual devem ser examinadas nossas ideias e nossa experiência da existência, não se pode esperar que a mística sobreviva a esse tribunal uma vez que ela supõe, liminarmente, a relativização da consciência, o reconhecimento dos limites da consciência, pelo menos tal como entendida ao longo da modernidade filosófica”, aponta Ricardo Fenati, em entrevista por e-mail à IHU On-Line

Para o professor, à medida que admitimos que a mística é uma das formas humanas de estar no mundo, é necessário articular formas para que ela circule no espaço público do conhecimento. “Isso é um desafio a ser enfrentado. Que o encontro entre filosofia e mística é importante, não tenho dúvidas. E adianto dois motivos: de um lado, esse encontro favoreceria à ampliação da vizinhança da filosofia, hoje muito restrita às ciências e, de outro, lembraria à filosofia que a experiência da racionalidade não é uma reiteração incessante, mas o reconhecimento permanente de uma alteridade”, sustenta.

No entendimento de Fenati, seria produtivo que estudos evidenciassem interpenetração entre esses campos. “De um lado, vale a pena examinar pressuposições de natureza religiosa presentes em teorias científicas e, de outro, investigar a presença de ideias provenientes da ciência no campo religioso. Num e noutro caso, encontraremos material significativo, o que quer dizer que pretender uma distância radicalizada entre os dois campos é tolice, já que, nos dois casos, estão presentes traços de uma mesma aventura, a dos humanos”, destaca. 

Ricardo Fenati graduou-se e fez mestrado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, cuja dissertação debruçou-se sobre o tema O mal-estar na epistemologia, a partir de Gaston Bachelard.

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Em linhas gerais, quais são as grandes correntes de compreensão da mística até nossos dias, nas relações com a filosofia moderna?

Ricardo Fenati - Vou me ater apenas a uma das dimensões da pergunta. Se entendermos por filosofia moderna a que tem início com Descartes , a relação entre mística e filosofia é claramente marcada por uma oposição. Se a filosofia moderna assinala o império da consciência, o entendimento da consciência como uma espécie de tribunal de última instância diante do qual devem ser examinadas nossas ideias e nossa experiência da existência, não se pode esperar que a mística sobreviva a esse tribunal uma vez que ela supõe, liminarmente, a relativização da consciência, o reconhecimento dos limites da consciência, pelo menos tal como entendida ao longo da modernidade filosófica. Não me parece ser o caso de haver uma oposição de princípio entre mística e filosofia, mas, tal como entendida ao longo da modernidade, salvo algumas exceções, a consolidação da filosofia enquanto disciplina levou ao alijamento da mística enquanto experiência de decifração do mundo.

 

IHU On-Line - Como se pode perceber a dimensão mística na filosofia moderna?

Ricardo Fenati - Penso que se pode falar da dimensão mística na filosofia sempre que se tenha em conta a percepção de que o esforço de fundamentação exaustiva da razão não tem como ser levado a termo. Há autores, ao longo da filosofia moderna, que sinalizam nessa direção. De forma distinta, Pascal , Kierkegaard, Schopenhauer  e Nietzsche, entre outros, podem ser arrolados como exemplos de uma crítica destemida às pretensões de um racionalismo sem medidas. A dimensão mística repercute no campo da filosofia sempre que a razão, ou melhor, um certo desenho da razão, é posto em causa. A ideia de repercussão faz sentido na medida em que a mística funciona como uma interrogação que obriga a razão a se movimentar. Contrariamente a isso, se consiste unicamente de um afastamento radical da razão, já não se trataria de repercussão, mas de apagamento da experiência, a da razão, o que já não seria mais filosofia. Convém lembrar que falamos da mística, tal como se coloca na pergunta, na sua fronteira com a filosofia. É claro que esse espaço será descrito de forma distinta conforme o autor em questão.

 

IHU On-Line - De que forma filosofia e mística podem estabelecer um diálogo em nosso tempo? Qual seria a importância desse encontro?

Ricardo Fenati - Há aqui pontos de mais difícil abordagem, decorrentes menos da natureza da mística ou da filosofia do que do modo como o saber está organizado entre nós. Filosofia entre nós é um campo de conhecimento, em tudo semelhante a outros campos, como a física ou a linguística. Prova-o o sistema universitário: disciplinas, instâncias de avaliação, titulação, agências de fomento e assim por diante. Não é muito claro como a mística enquanto uma experiência de decifração da realidade possa fazer parte dessa dinâmica. Mas se consideramos a mística uma das formas humanas de estar no mundo e um instrumento, e aqui essa palavra é inadequada, de decifração da realidade, precisamos de algum modo fazer com que ela circule no espaço público de conhecimento. Isso é um desafio a ser enfrentado. Que o encontro entre filosofia e mística é importante, não tenho dúvidas. E adianto dois motivos: de um lado, esse encontro favoreceria a ampliação da vizinhança da filosofia, hoje muito restrita às ciências e, de outro, lembraria à filosofia que a experiência da racionalidade não é uma reiteração incessante, mas o reconhecimento permanente de uma alteridade.

 

IHU On-Line - Qual é a importância da discussão acadêmica acerca da mística?

Ricardo Fenati - Como foi apontado na resposta à pergunta anterior, deveríamos estudar formas de inclusão da temática da mística no sistema acadêmico. E isso de forma consequente, o que não será fácil. Não se trata de encontrar um gueto ou ilha onde a mística seja suportada ao modo de uma suposta tolerância institucional. Por outro lado, não é o caso de anular a diferença própria da mística. Como se vê, o caminho não é claro. Mas há, aqui e ali, experiências em curso e talvez seja o caso de reuni-las e ver, tendo em conta o que já está sendo feito, que caminhos podem ser percorridos. 

 

IHU On-Line - Por que a mística é compreendida por alguns como “fuga do mundo”? Qual é o seu verdadeiro significado e o que ela tem a desvelar para as pessoas do nosso tempo?

Ricardo Fenati - Por duas razões. Em alguns casos, porque, de fato, a mística é entendida como uma recusa do mundo, como uma perda do interesse em quaisquer das questões postas pela mundanidade, como um refúgio capaz de nos proteger das tarefas postas diante de nós. O que é um erro, um gnosticismo que tenta, ilusoriamente, apagar o nosso pertencimento ao mundo. Em outros casos, por mera ignorância e desconhecimento de que a mística é uma forma de penetração aguda na experiência da existência. Também aqui se pode falar de um gnosticismo com sinal invertido que pretende, também ilusoriamente, apagar nosso pertencimento ao que, através do mundo, nos transcende. Essa tensão que distingue a mística do gnosticismo, ou seja, a tensão entre o que une e aproxima e o que divide e distancia ainda resta por ser examinada. O que a mística tem a dizer ao nosso tempo é o que ela sempre assinalou: que a existência humana, longe de ser uma paixão inútil, pertence a um excesso, que somos, é certo, uma insuficiência, mas de quem é esperado que seja capaz de uma escuta, de ouvir um rumor ao mesmo tempo estranho e familiar. 

 

IHU On-Line - Algumas pessoas contrapõem erroneamente fé e ciência, bem como mística e filosofia. Qual é o sentido dessa contraposição e quais são os limites dessa compreensão?

Ricardo Fenati - Vou alterar um pouco a pergunta e procurar responder tendo em vista as relações entre religião e ciência. Não penso que religião e ciência sejam opostas, mas não é fácil demarcar os respectivos campos e tarefas. E, é claro, as transgressões foram, são e serão constantes. O que justifica os cuidados com a distinção entre os domínios. Entretanto, a racionalidade, entendida na amplitude que lhe é própria, não convive bem com estratégias que, a pretexto de salvaguardar identidades, desembocam no isolamento. Acredito que seria benéfico o incentivo a estudos que evidenciassem a interpenetração entre esses campos. De um lado, vale a pena examinar pressuposições de natureza religiosa presentes em teorias científicas e, de outro, investigar a presença de ideias provenientes da ciência no campo religioso. Num e noutro caso, encontraremos material significativo, o que quer dizer que pretender uma distância radicalizada entre os dois campos é tolice, já que, nos dois casos, estão presentes traços de uma mesma aventura, a dos humanos. O que há de novidade hoje é que, em decorrência dos problemas de natureza ética trazidos pelo avanço das ciências, a tensão na fronteira entre religião e ciência é, agora, muito aguda. O que torna o problema posto pela pergunta acima mais do que atual. 

 

IHU On-Line - Em que aspectos a mística pode inspirar o sujeito contemporâneo a desenvolver outra relação com a vida, com os saberes e até mesmo com o cosmos?

Ricardo Fenati - A mística assinala nossa insuficiência, nosso pertencimento a uma realidade que surge para nós como um dom, e não como uma obra nossa. Disso decorre a impossibilidade de pensarmos a nós mesmos como senhores diante de um universo sem quaisquer direitos, sem outro sentido que o decorrente de nossa atividade. Do ponto de vista de nossas relações com a natureza, o que é hoje uma questão grave, o reconhecimento da dimensão mística favorece uma certa prudência, uma relação com o universo que não seja a de meros predadores. Penso, também, que a mística, ao lembrar o mistério de que somos constituídos, nos leva a ver a existência, a existência de cada um de nós, como um exercício, doloroso e estimulante, ao mesmo tempo impossível e possível de adesão à vida e de autorreconhecimento. O que é contrário à banalização que hoje assistimos, a essa dissolução no imediato e a essa perda de si que, tão erroneamente, chamamos de vida prática ou vida concreta.

 

IHU On-Line - Qual é a importância do silêncio da experiência mística? Nesse sentido, como compreender a célebre frase de Wittgenstein?

Ricardo Fenati - A recomendação de Wittgenstein  para que, em vista dos limites da linguagem diante de certas questões, nos calemos, deve ser entendida como uma estratégia para que não sigamos adiante com instrumentos de compreensão insuficientes. Portanto, trata-se de um reconhecimento de limites nossos, e não da negação de uma dimensão da realidade. O silêncio é, aí, o modo da escuta de uma presença, que não se oferece a nenhum outro modo de percepção. Um autor, Santiago Kovadloff  (O silêncio primordial. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 2003), distingue entre o silenciado e o silencioso, lembrando que o silenciado é o que poderia ser dito, é um confinamento, uma ocultação. O silencioso é outra coisa, não é uma maquiagem, não encontra equivalência na palavra e provém de um fundo irredutível. Penso que esse autor tem razão: o silêncio, no sentido apontado por ele, e é o que ocorre na mística, não é o reconhecimento de uma cessação, de um fim de caminho; é, ao contrário, o prosseguimento, por outras vias, da convivência com o Sentido que nos invade.

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