Edição 435 | 16 Dezembro 2013

A revolução de um homem só

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Eduardo Guerreiro Brito Losso sustenta que o enfrentamento das injustiças sociais passa primeiro pela conscientização individual e depois pela ação coletiva

O ano de 2013 foi marcado por diversas mobilizações de rua no Brasil e no mundo. O imperativo de coletivização, que representa um enfrentamento muitas vezes corajoso e heroico diante da polícia, tem, sem dúvida, razões legítimas diante das fragilidades democráticas de nossas sociedades. No entanto, pondera Eduardo Guerreiro Brito Losso, não podemos criar a ilusão de que o engajamento explícito é o único legítimo. “Penso que o cerne da possibilidade de mudança do sistema injusto que vivemos não está, primeiro, na ocupação das ruas e no enfrentamento espetacular e, depois, na conscientização individual, mas, sim, na ordem inversa. Somente no exercício de conhecer a si mesmo e na descoberta da capacidade de transformação de si, ou seja, na conquista de uma autonomia de amplo alcance, é que cada sujeito estará de fato apto a observar, examinar de que modo ele está implicado numa rede contextual de culpa e contrariar a efetividade perversa do sistema o máximo que puder”, avalia o professor, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Para Eduardo Losso, quanto mais os indivíduos forem capazes de examinarem a si mesmos, desenvolverem a própria autonomia, mais força têm os movimentos sociais. Porém, ressalta o entrevistado, a maior virtude que um homem pode alcançar é a indiferença em relação às suas conquistas. “Esse desprendimento dos valores estabelecidos, até dos valores morais instaurados pela própria religião que se segue, é uma característica essencial da mística, que se originou, diretamente, de uma perspectiva ascética. O poeta moderno, em sua ojeriza pelo modo de vida burguês, pode ser pensado como uma espécie de renovação da ascese e da mística no contexto capitalista”, explica. “Para revitalizar a mística tradicional na modernidade, mesmo para entender por que os místicos foram tão avançados em sua época, é preciso encarar a metrópole, a emancipação feminina, a ecologia, o capitalismo, etc., coisas que uma visão tradicional não abarca. Quem faz isso são os escritores modernos. Se a mística foi a revitalização da religião, os escritores modernos são a revitalização da mística”, complementa.

Eduardo Guerreiro Brito Losso é mestre e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e pela Universität Leipzig, Alemanha, orientado por Christoph Türcke, com a tese Teologia negativa e Theodor Adorno. A secularização da mística na arte moderna. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ cursou pós-doutorado. Leciona na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ e é um dos autores de O carnaval carioca de Mario de Andrade (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2011). Conheça seu site http://www.eduardoguerreirolosso.com/.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Na perspectiva da mística, qual é a importância do exame de si mesmo?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Nos momentos iniciais da onda de protestos deste ano no Brasil, escrevi uma série de textos interventivos, chamados de “Movimento Ensaio Livre”, e um deles se chama “Da crítica ao sistema ao exame de si mesmo”. A partir da frase “Se quer mudar o mundo, comece por si mesmo”, uma das muitas repetidas nas manifestações e nas redes sociais, coloco em questão a ideia de que só é válida a luta política feita fora de casa e no meio das ruas. O imperativo de coletivização, o estímulo de enfrentamento corajoso e heroico diante da polícia, representante do sistema, ainda que tenha razões legítimas, diante da insuficiente democracia em que vivemos, pode criar a ilusão de que somente a via do engajamento explícito é o único ato crítico válido. Penso que o cerne da possibilidade de mudança do sistema injusto que vivemos não está, primeiro, na ocupação das ruas e no enfrentamento espetacular e, depois, na conscientização individual, mas, sim, na ordem inversa. Somente no exercício de conhecer a si mesmo e na descoberta da capacidade de transformação de si, ou seja, na conquista de uma autonomia de amplo alcance, é que cada sujeito estará de fato apto a observar, examinar de que modo ele está implicado numa rede contextual de culpa e contrariar a efetividade perversa do sistema o máximo que puder. Logo, meu diagnóstico diminui o imperativo dos coletivos e aumenta a necessidade do recolhimento, sem que uma coisa, devo insistir, se oponha à outra. 

 

IHU On-Line - Qual é o lugar da mística e quais são os principais desafios de se vivenciá-la em tempos como os que vivemos?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Cito uma frase de Octavio Paz , "A crítica da religião desalojou o cristianismo e em seu lugar os homens apressaram-se em entronizar uma nova deidade: a política". Não é só Paz que chega a essa conclusão. Antes dele, diferentes pensadores da religião como Eliade , Frye , Berdyaev, etc., observaram esse fenômeno. O mais intrigante é quando novas e velhas religiões retomam o espaço político (ou isso melhor se evidencia, no fundo nunca se retiraram dele) e se aliam ou se confrontam com velhas e novas esquerdas e direitas.

Chegamos, então, a uma estranha conclusão: só na melhor mística, na melhor arte e pensamento que encontramos uma verdadeira crítica do fanatismo. Mais especialmente: na capacidade de pensar sobre si mesmo a partir do silêncio. Não hesito em formular um mecanismo social moderno infalível: quanto mais os indivíduos de uma sociedade forem capazes de examinarem a si mesmos, adquirir autonomia, mais força e qualidade terão os movimentos sociais, e mais eficácia tais movimentos terão de modificar o sistema. Quanto menos eles forem capazes disso, mais os movimentos sociais tornar-se-ão uma mera parte da engrenagem do sistema e contribuirão para a sensação de impotência e a postura de resignação, o pessimismo fácil e cômodo. A aparência de insubmissão vai reforçar a crescente submissão. 

 

IHU On-Line - Em suas pesquisas, qual é a relação que estabelece entre ascese, mística e literatura moderna?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Cito uma frase de Evágrio Pôntico , um dos principais ascetas cristãos da antiguidade: "Tanto as virtudes quanto os vícios tornam a mente cega: as virtudes, porque não veem os vícios, os vícios, porque não veem as virtudes." Aqueles que desprezam as virtudes, orgulhosos de seus vícios, não têm a mínima condição de se tornarem pessoas melhores. Aqueles que desprezam o vício dos outros, orgulhosos de suas virtudes, não têm a mínima condição de superarem os vícios originados das virtudes, o que os torna menores. A partir do mote de Evágrio, encontrei a seguinte variação: não tomar vícios por virtudes, o que é um disparate dos fracos, nem viciar-se nas próprias virtudes, o que é uma grave fraqueza dos fortes. 

Murilo Mendes  não está nada distante disso quando sentencia: “A virtude de um homem torna-se admirável, quando ele não lhe dá atenção. A burocracia da virtude é um fenômeno irritante”. Evágrio e Murilo propõem um distanciamento radical das próprias qualidades. A maior virtude que um homem pode alcançar é a indiferença a suas conquistas. Esse desprendimento dos valores estabelecidos, até dos valores morais instaurados pela própria religião que se segue, é uma característica essencial da mística, que se originou, diretamente, de uma perspectiva ascética. O poeta moderno, em sua ojeriza pelo modo de vida burguês, pode ser pensado como uma espécie de renovação da ascese e da mística no contexto capitalista. Seja nos escritores mais isolados, como Flaubert  ou Leonardo Fróes , seja nos mais boêmios, como Jack Kerouac  ou Guilherme Zarvos , encontramos uma permanente diferenciação do padrão de comportamento vigente, oposição ao status quo, desprezo pela moral dominante que estabelece o “bom homem”. Porém, uma ascese poética moderna geralmente contraria o chamado "ideal ascético" cristão, afirma francamente o corpo e a materialidade, enfim, opõe-se à moral cristã, ou, paradoxalmente, reforça o tédio e a finitude do corpo diante da morte já antevistos na acedia dos monges da Idade Média. A interpretação do poema “O mau monge” de Baudelaire , feita por Marcelo Jacques de Moraes , no artigo “As flores do mal e o fracasso do poema”, mostra precisamente a fonte ascética do primeiro poeta e crítico moderno, a partir da linhagem estabelecida por Agamben . A literatura moderna ora retoma a secura ascética, ora afirma a vitalidade corporal e contraria a renúncia ao corpo, mas sempre reforça a renúncia ao mundo burguês, seja em seu puritanismo, seja em seu consumismo.  

 

IHU On-Line - O que podemos compreender por uma mística secularizada?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Segundo Gershom Scholem , a mística tradicional já é uma secularização dos fundadores da religião. Ela reage a um engessamento da revelação e pretende revitalizá-la, o que desagrada os sacerdotes, que pretendem resguardá-la de mudanças. Adorno  segue Scholem nesse ponto e diz que a mística medieval é uma secularização que representa um avanço emancipatório. Justamente porque a mística cristã que floresceu no final da Idade Média e encontrou seu auge no século XVI foi logo reprimida, penso que seu anseio foi transferido para os esoterismos que, por sua vez, influenciaram profundamente a literatura moderna. Por conseguinte, o recalque do impulso místico fez com que o seu retorno aparecesse na arte moderna, especialmente naquilo que Octavio Paz chama de analogia. A partir do romantismo, há toda a história, ainda por fazer, de traços místicos na literatura moderna, nos seguintes planos: simbólico-temático, formal e o propriamente espiritual. Um autor ou uma obra podem estar, em diversos graus, próximos ou distantes dos pressupostos da perquirição mística. 

 

IHU On-Line - Em que sentido a mística secularizada difere da mística tradicional?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Uma clara diferença está no fato de a mística tradicional não lidar com o “fora” de sua religião, de modo que o fantasma do niilismo exista mais num plano inconsciente, implícito — mas não deixa de estar lá —, pois ela, como eu disse, é fruto de uma secularização da religião e, por isso, é simultaneamente o signo de uma revitalização e de uma crise, a qual vai determinar a revitalização. Já a mística secularizada moderna não escapa dele, vai ter de enfrentá-lo nu e cheio de força: esse é o seu maior demônio. 

Nos Seminários de Mística Comparada organizados por Faustino Teixeira, essa questão sempre retorna, pois há uma oposição entre uma defesa de uma postura afirmativa da vida (Faustino) e uma postura niilista (Luiz Felipe Pondé). Minha posição pende sempre mais para o Faustino. No contexto da discussão à la Pondé sempre me surpreendeu, positivamente, essa colocação do mal na pauta, mas a tendência que ele tem de ficar no extremo oposto como “garantia de qualidade do pensamento”, ainda que não seja simples, e que produza um olhar interessante dentro de admiradores da mística (que enfrentam o perigo do escapismo), não é para mim desejável. A meu ver, parafraseando Nietzsche , o niilismo existe para ser superado, ainda que ele seja, por definição, insuperável. Ora, o místico e o poeta são paradoxais, e movimentam-se a todo instante nesse paradoxo. A ambição de superar o insuperável é a grandeza do homem, e produz os seus melhores legados. Aliás, sempre vi o esforço de produção dos grandes niilistas como uma gigantesca denegação do que promovem.

Meu papel no seminário tem sido apontar aquilo que falta na colocação dos dois extremos, falta especialmente quando a oposição instaurada entre niilismo e afirmação não é posta de um ponto de vista radicalmente histórico, penso eu, cuja necessidade sua pergunta ressalta: a ruptura entre tradição e modernidade. E é preciso ter muito cuidado ao ler místicos tradicionais e tomá-los como uma palavra perfeita de sabedoria nos dias de hoje, pois eles eram atuais, modernos, em sua época, mas hoje são clássicos. Para revitalizar a mística tradicional na modernidade, mesmo para entender por que os místicos foram tão avançados em sua época, é preciso encarar a metrópole, a emancipação feminina, a ecologia, o capitalismo, etc., coisas que uma visão tradicional não abarca. Quem faz isso são os escritores modernos. Se a mística foi a revitalização da religião, os escritores modernos são a revitalização da mística, por isso, podem ser vistos como uma nova mística, sem dogma, uma verdadeira modernização da mística, enquanto religiosos demasiadamente conservadores continuam representando a censura eclesiástica da religião sem mística, e críticos que recusam a dimensão mística da literatura continuam representando a censura positivista, por mais que se considerem abertos e avançados. 

De qualquer forma, nosso seminário é um encontro riquíssimo, porque eu sempre aprendo muito com aqueles que estão afunilando na mística tradicional cristã, ou mesmo místicas atuais, como o faz Maria Clara Bingemer , relações entre grandes escritores como Dostoiévski  e filosofia da religião de Jimmy Sudário Cabral , Marcus Reis Pinheiro  que traz as raízes da filosofia antiga, etc. 

 

IHU On-Line - Quais são os principais aspectos para compreender a mística do insólito na literatura experimental contemporânea brasileira?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Baudelaire, primeiro poeta moderno, dizia que “o belo é sempre extravagante”, polemizando contra o paradigma classicista, dos “professores-jurados”. Certeau  dizia que a mística é ao mesmo tempo estranha e essencial. Nesse caso, quando me deparo com um poeta como Renato Rezende , autor de um livro chamado Ímpar (Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2005.), que evidencia o exercício de desprendimento por qualquer apego, uma ânsia pelo “alhures”, o ignorado pela visão comum, encontro-me diante do essencial tanto para mística quanto para a poesia moderna. Há uma coleção de livros sobre poesia contemporânea chamada Ciranda da Poesia (Rio de Janeiro: Editora Eduerj, 2013), organizada pelo poeta e crítico Ítalo Moriconi , que, junto com a Editora Azougue, de Sergio Cohn , é uma das maiores iniciativas em prol da poesia brasileira. Vou participar da coleção com um livro sobre Renato, que será publicado no ano que vem.

Estou trabalhando também na bolsa do projeto de Apoio às artes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - Faperj junto com um verdadeiro movimento artístico dentro da MPB: o Coletivo Chama . No contexto de um mercado musical que valoriza sempre o mediano e de um culturalismo que reforça o relativismo fácil, um discurso da multiplicidade que apaga as reais diferenças, eles são muito estranhos, porque não hesitam em criticar o mercado e a nova ideologia de frente, e são essenciais, porque, mesmo para quem discorde deles, só ao enfrentar as questões por eles lançadas é que poderemos sair dos impasses atuais da relação entre mercado e música. Esse problema foi levantado no “vazio da cultura”, uma matéria da Carta Capital que foi muito pertinente, e cujo melhor desdobramento, até agora, foi o artigo do Fábio Durão  chamado “Crítica da multiplicidade”, na revista Cult, que aponta o quanto a universidade brasileira atual é refém de um barateamento da teoria por seu excesso, sem reflexão independente, por um suposto questionamento do cânone que mal percebe o quanto canoniza seus teóricos e, ao reproduzi-los, desobriga a todos de apontar reais problemas e conflitos. Enquanto teórico crítico que sou, ligado a um movimento de atualização da teoria crítica no Brasil, junto com importantes pesquisadores como Bruno Pucci , Luiz Calmon Nabuco Lastoria , Antonio Zuin  e outros, minha pesquisa sobre mística secularizada na literatura e na música é ao mesmo tempo uma forma de desafiar o enrijecimento do materialismo dialético por dentro e também é um esforço por refletir sobre relações inusitadas, insólitas, não para festejar qualquer associação, mas para sedimentar uma forma de pensar de outro modo questões complexas e concretas. 

Voltando ao Coletivo Chama, eles têm um programa de rádio na Roquette-Pinto chamado Rádio Chama, todas as sextas, 20h, no qual eu fiz algumas participações sobre a mística na modernidade. Cada programa é uma reunião insólita e muito bem pensada de diferentes estilos musicais em torno de um tema. Além disso, acabaram de ser lançados dois CDs muito instigantes: Neon, da banda Escambo , e De ponta a ponta é tudo praia palma, de Thiago Amud . Estou ainda na expectativa do lançamento do CD de Pedro Sá Moraes , Além do Princípio do Prazer, cujo título já é um primor: não só é o nome do conhecido texto da metapsicologia freudiana, mas, a partir das questões da psicanálise — que, aliás, nasceu e cresceu no Brasil na mesma época que a MPB —, mostra sua relação ambígua com o imperativo do gozo fácil na música pop, o jogo difícil, a arte de aderir e resistir a ele. 

 

IHU On-Line - Como se apresenta a mística do insólito em Primeiras estórias, de Guimarães Rosa ?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - No artigo que escrevi sobre o famoso conto “A terceira margem do rio”, apresentei a ideia de que o pai, que abandona a família para viver numa canoa, é um asceta decidido, visto como louco num ambiente tipicamente brasileiro, que não assimila homens fora da comunidade, como ocorre na Índia. O filho fica sempre intrigado com o pai. Não constitui família, como os irmãos, nem assume o convite do pai de viver na floresta uma vida selvagem. Proponho a leitura de que o filho procura uma terceira opção, nem família e integração social, nem recusa absoluta da sociedade, mas uma postura indecisa que aponta para uma terceira forma de existência que não existe.

Esse conto demonstra o quanto a cultura brasileira — que prima pelo convívio conjunto, orgulha-se de sua cordialidade, que é, contudo, extremamente excludente e injusta — até hoje não está preparada para aceitar pessoas que não participam dos valores de qualquer agremiação, aquelas que (num poema de Claudia Roquette-Pinto  que dialoga bastante com este conto) experimentam “o sombrio seguir-do-rio”, que “fustiga como um pai”. 

Daí minha insistência na importância do recolhimento, não para meramente se opor à socialização, mas para aumentar a qualidade das relações sociais. A falta de leitura, a falta do momento de silêncio pessoal e o crescente imperativo do barulho festivo, imposto a todos os vizinhos e moradores em torno de um polo congregador, é consequência clara desse terrível sintoma. 

 

IHU On-Line - Em que sentido podemos compreender a montagem e a desmontagem da filosofia de Hegel a partir de uma perspectiva da “máquina mística do pensamento”?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Esse foi um artigo que escrevi há tempos atrás para defender Hegel  de sua simplificação feita pela diluição da desconstrução no discurso pós-moderno, já que, em meio a meros ataques fracos, seu fantasma paira por detrás da própria estrutura do discurso teórico, por ter sido ele o introdutor de um pensamento moderno que acolhe a contradição, o que se deve, sem dúvida, à forte influência de místicos como Eckhart  e Jakob Boehme , que pensam sempre por meio do paradoxo.

Colegas como Martha D’Angelo , Pedro Hussak  e Claudio Oliveira , dentro da filosofia, João Camillo Penna , Marcelo Jacques e Alberto Pucheu , nos estudos literários, fazem um rico trabalho de aproximação entre literatura (ou arte) e filosofia, questionando, inclusive, a estética como uma área da filosofia que não se modificaria diante da esfinge da obra de arte, mas, ao contrário, fazem com que a filosofia acate o risco de uma obra e com isso possa, de fato, mobilizar um pensamento livre.

Meu escopo, de qualquer forma, coloca mais um componente na equação, para complexificar: a mística. Penso que a filosofia que se põe sob o perigo da experiência estética moderna está enfrentando o substrato místico da relação com o indizível, o inapreensível, aquilo que ela identifica como negatividade, mas nem sempre percebe que tal negatividade origina-se, inelutavelmente, da teologia negativa. Para mim, a dualidade entre arte e pensamento, ou poesia e filosofia, não basta, falta aí um terceiro elemento que, se não for mencionado, permanecerá agindo por trás dos dois e restará impensado. Sou trinitário: filosofia, arte e religião; estética, poesia e mística; juntos, aí sim se iluminam, reciprocamente.

 

IHU On-Line - Quais são as tensões e enriquecimentos que se dão a partir do diálogo entre a literatura e a mística?

Eduardo Guerreiro Brito Losso - Inumeráveis. Infinitas. “Torvelinho de mil algas” (Thiago Amud). Já disse muitas, faltaria dizer tantas outras. Não acabaria nunca “esse eternamente esboço” (Pedro Sá Moraes). Além de todos os meus artigos, que vivem explorando esse território, recomendo um grande livro: Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2010), do grandioso tradutor e poeta Claudio Willer .

Leia mais...

Eduardo Guerreiro Brito Losso já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

- O terremoto tropicalista e sua monstruosidade barroca. Entrevista com Eduardo Losso publicada na Edição 411 da Revista IHU On-Line, de 10-12-2012;

- A mística e o enfrentamento radical da miséria humana. Entrevista com Eduardo Losso publicada na Edição 401 da Revista IHU On-Line, de 03-09-2012;

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