Edição 431 | 04 Novembro 2013

A virada neurológica das humanidades

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Andriolli Costa

Filósofo Francisco Ortega expõe as relações entre os estudos do cérebro, a filosofia e as ciências humanas

Os grandes avanços nas pesquisas neurológicas, o desenvolvimento de novas tecnologias para os estudos do cérebro e a guinada das humanidades tendo o neuro como um novo paradigma fizeram com que os anos 1990 fossem conhecidos como A Década do Cérebro. A chegada do novo milênio marcou a presença do cérebro como centro do sujeito, voltando as atenções de pesquisadores de diversas áreas para o assunto — muitas vezes até mesmo em posição de crítica. Tais questionamentos, no entanto, podem ser colocados à prova uma vez que se dá a verificação da teoria. “Quando se fala, por exemplo, que a neurociência está nos transformando em robôs, que tem uma visão individualista e solipsista do ser humano, o interessante é ver isso no campo empírico”, defende o filósofo Francisco Ortega. 

Na entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, durante visita ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o filósofo, discorre sobre o modo como a sua formação inicial nas ciências humanas colaborou para mudar seu olhar e direcionar seu trabalho na área da saúde. Por esse contexto, também faz um breve relato sobre a “virada neurológica das humanidades”, que deve ser observada com cautela.

O pesquisador é um dos criadores do conceito de “Sujeito Cerebral”, em que o cérebro passa a responder por tudo o que outrora costumávamos atribuir à pessoa, ao indivíduo ou ao sujeito. A proposta, no entanto, não é a de reduzir o papel do sujeito, pois a neuroplasticidade do cérebro também leva em conta características culturais e sociais, e não apenas biológicas. Assim, introduzindo um novo papel ao cérebro humano, é possível compreender as novas formas de sociabilidade que essa compreensão representa.

Francisco Ortega é professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. É responsável, junto com a professora Ana Maria Jacó Vilela, do Instituto de Psicologia da UERJ, pelo convênio com o Instituto Max Planck de História da Ciência de Berlim. Também é o coordenador brasileiro do projeto de pesquisa intercultural Brasil—Alemanha (PROBRAL/DAAD – Capes) intitulado O Sujeito Cerebral – Impacto das Neurociências na Sociedade Contemporânea.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Você é filósofo de formação e atua no campo da neurociência. Em que essa formação inicial contribui para seus estudos hoje? Em que ela apresentou uma dificuldade inicial para adentrar nesse campo?

Francisco Ortega - Na verdade, eu estou interessado em neurociência, mas dentro desse contexto da saúde pública, não no de um laboratório. Sobretudo me interessa mais a questão da saúde mental. Isso tem um pouco a ver com a minha trajetória, porque, de alguma maneira, a dificuldade foi de sair da filosofia para entrar no campo da saúde, que muitas vezes não é fácil, até porque o estudo da filosofia, como ele é pensado e ensinado no Brasil e em boa parte do mundo, tem a ver com o estudo da história da filosofia. Então, você não é ensinado a pensar um problema filosófico, você é normalmente ensinado a estudar o pensamento de um autor e o máximo que você consegue é aplicar esse pensamento para alguma coisa. 

Então o primeiro esforço foi sair dessa questão de pensar apenas um autor, e ao mesmo tempo houve um esforço para entrar em um campo mais empírico. Este também é o desafio da filosofia: sair desse campo abstrato e passar a questões mais concretas. No meu caso, mais recentemente comecei a trabalhar com estudos qualitativos, não quantitativos. Trabalhar com entrevistas, com etnografias, com grupos focais e já com a ideia de certa empiria, com dados empíricos que serviriam para, muitas vezes, corrigir as teorias. 

Quando se fala, por exemplo, que a neurociência está nos transformando em robôs, que tem uma visão individualista e solipsista do ser humano, o interessante é ver isso no campo empírico. Isso é verdade? Não, não é verdade. Por exemplo, os autistas lançam mão da neurociência para falar de si mesmos, das relações com os outros e de todas essas ideias da neurodiversidade. Vemos como esse vocabulário neuro está a serviço de criar novas formas de sociabilidade, de ativismo político, de criticar certa patologização do autismo, de fazer uma crítica à psicanálise.

Convergência e divergência

Outra questão é que esse cruzamento entre neurociência e filosofia tem-se dado tradicionalmente de duas maneiras: uma mais convergente e outra mais divergente. Convergente em todo esse campo da filosofia da mente, da filosofia da biologia, que tem muita afinidade com o campo da neurociência. Quando se fala de neurofilosofia, geralmente se refere aos autores que se valem das ideias da neurociência para criticar o que eles chamam de psicologia popular, ou folk psychology, crenças errôneas sobre o que é o indivíduo. Isto é, o indivíduo dotado de uma alma, de uma individualidade, livre e autônomo. Isso tudo está errado. A neurociência nos mostra que não é assim. Existiria, então, essa afinidade entre a neurociência e a filosofia.

Por outro lado, há toda uma filosofia de uma orientação analítica — que nos Estados Unidos se chama de filosofia continental —, como a filosofia francesa, a filosofia alemã e todo esse campo pós-moderno e pós-estruturalista, muitas vezes crítico com a neurociência. Muitas das críticas vêm nesse sentido que eu falava no início: Porque ela é reducionista, porque ela tem uma visão do ser humano como não dotado de liberdade e sem potencial criativo. Com certas exceções, porque vemos autores como Zizek  e Catherine Malabou , que têm falado de neurociência, existe a incorporação de certa acidez contra a neurociência por um ramo da filosofia mais pós-estruturalista. 

Existe uma visão da neurociência mais atual, precisamente baseada na ideia da neuroplasticidade e na ideia de epigenética, que mostra como o próprio cérebro está aberto para a criação, para a liberdade, etc. Então se lança mão da neurociência para criticar a filosofia da consciência tradicional e as ideias de uma filosofia que antes havia lhes combatido. Assim, aproxima-se mais desse campo científico para utilizar ferramentas que permitam voltar ao campo conceitual e criticar essa ilusão do self consciente.

 

IHU On-Line - A neurociência vem sendo apresentada como a solução de todos os problemas da humanidade. Qual a sua visão da neurociência na contemporaneidade? Ela realmente cumpre esse papel no qual está sendo colocada? 

Francisco Ortega – Primeiramente é preciso se questionar por que a neurociência está sendo exposta como tal. Para mim, isto é algo que não sei até que ponto corresponde à realidade. Essa visão que vende a neurociência como uma solução para os problemas, como explicações da verdade última do ser humano, da subjetividade, de resolução dos dilemas de mente-corpo, é uma neurociência que não corresponde de fato ao que os próprios neurocientistas fazem quando estão no laboratório. Uma coisa é o que os neurocientistas fazem, outra é o que as revistas de divulgação falam da neurociência. Então, para mim, tomar contato com essa área mostrou que não é bem assim. 

Então, sobre a minha visão da neurociência, eu responderia a essa pergunta dizendo não qual é a verdade da neurociência, mas qual foi a minha abordagem da neurociência. Minha abordagem veio um pouco pela minha passagem na filosofia e por toda essa trajetória que eu tinha de interesse no que poderíamos chamar dos processos de subjetivação, ou na história ou genealogia da subjetividade. Claro, a marca é Foucault  e outros autores. Então quando eu e meu colega Fernando Vidal  criamos a ideia do “sujeito cerebral”, era precisamente para mostrar como ele seria uma forma de subjetividade possível na nossa sociedade contemporânea, e na neurociência isso tem um impacto.

Como já disse anteriormente sobre os autistas, só queria dizer que se todos os indivíduos se subjetivam atualmente como cerebral? Não. Claro que não. Existe uma co-habitação de antologias, os indivíduos lançam mão em diferentes contextos de um vocabulário por vezes psicológico, por vezes neurocientífico, que coexiste na maneira mais ou menos pacífica com outros vocabulários. Então o meu interesse é nesse imaginário cultural onde a neurociência tem contribuído e fornecido ferramentas conceituais para os indivíduos constituírem a si mesmos e a relação com outros sujeitos.

 

IHU On-Line - Você critica a forma como a neurociência aparece na imprensa. Qual o papel da mídia nesse contexto? Ela se utiliza do neuro para se aproveitar do hype e da popularização, ou também serve aos cientistas que buscam divulgação para conseguir financiamento?

Francisco Ortega – É claro que sim. Uma notícia, para que venda, não será a de uma pessoa no laboratório com um rato, fazendo experimentos a um nível muito micro. O que vende é precisamente essa ideia de hype. As formas como se inflaciona essa notícia, para que chegue ao público como uma grande descoberta da neurociência. Isso está ligado a notícias do tipo “foi descoberto o gene do autismo”, “foi descoberto o gene da esquizofrenia”, então é claro que a mídia capitaliza, vende e contribui para essa cultura. Ao mesmo tempo, num contexto de crise, de financiamento e luta por recursos, quando um cientista sai a público e fala na frente de representantes de uma fundação que vão lhe dar um financiamento, ele apresenta suas descobertas como a panaceia para todos os males, mesmo que não seja. Isso faz parte do jogo. 

 

IHU On-Line - Você mencionou as neuroculturas e a forma como o neuro está aplicado a várias áreas do conhecimento. É possível compreender elementos das humanidades, como a literatura ou as moralidades, por características biológicas. A partir delas se compreende mais o cérebro ou é justamente o contrário, é o cérebro que elucida mais estas áreas?

Francisco Ortega – Penso que a maioria das pessoas que trabalham nas neuroáreas acredita que o conhecimento do cérebro pode ajudar a essa melhor compreensão. Por exemplo, na área da educação, o conhecimento do cérebro, a pesquisa de neuroimagem, pode ajudar no ensino, na aprendizagem, etc. Para mim, o interesse não é mostrar se isso é verdade ou não. É simplesmente mostrar um campo sociocultural onde essas coisas são possíveis. Temos uma virada neurológica das humanidades. Neuropsiquiatria, neurofarmacologia, ninguém acha estranho, mas se eu falo de neuro-história da arte, neuroteologia, aí sim. Isso está ligado a esse sintoma da crise das humanidades, crise de financiamento e de contexto onde a maioria das verbas são para essa área científica. Então se alguém em um departamento de literatura quiser fazer uma ponte com a neurociência, vai ser mais fácil de conseguir financiamento. 

Isso não quer dizer que possam existir coisas interessantes em todas essas áreas. Temos que ver isso caso a caso. Mas também não se trata de ter uma posição de absoluta recusa quanto a isso. Aí, de novo, estamos nessa questão: As pessoas estão falando para quem? Elas acreditam nisso? Falam para conseguir financiamento? Essa é a ideia de que as humanidades estão em uma crise epistemológica, paradigmática, e a neurociência nos vai fornecer os paradigmas. Muitas vezes tem isso, a gente chegou ao limite. Mas as pessoas que falam isso escrevem muito neste contexto de “vender o peixe” desse novo campo.

 

IHU On-Line – Você tem um ponto de vista um pouco contra-hegemônico em relação à aplicação de medicamentos para doenças mentais. Você acha que isso é uma colaboração da sua pesquisa empírica, que colaborou para a retirada desse véu?

Francisco Ortega – Eu simplesmente mostrei uma pesquisa empírica em que eu vi os resultados, feita em cinco cidades brasileiras, que enfrenta toda uma ideia de que na assistência básica existe uma dispensa exagerada de diazepínicos, ansiolíticos e antidepressivos para tratar transtornos mentais comuns. Na realidade, o que acontece é exatamente o contrário. A prevalência de transtorno mental é muito maior que o nível de medicalização, o nível de dispensa de fármaco. O que falta é fármaco, e não há excesso de fármaco na assistência básica em alguns lugares para tratamento de transtornos mentais comuns. 

Isso não quer dizer que o psiquiatra, o médico de família que está trabalhando nestes lugares não reconheça que, se a pessoa está deprimida, se teve um transtorno de ansiedade, isso não está ligado aos determinantes sociais, a circunstâncias de extrema violência, pobreza e segregação na qual a pessoa vive. Mas infelizmente o médico não pode dar um emprego, só pode dar remédio. Então, melhor remédio que nada.      

Leia mais...

- O Corpo como última utopia. Entrevista com Francisco Ortega publicada na IHU On-Line, edição 208, 11-12-2006.

- Os desafios da neurociência para a sociedade e a cultura. Entrevista especial com Francisco Ortega publicada nas Notícias do Dia, de 25-08-2006, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos.

- A biopolítica possibilita as negociações em relação às noções de diferença. Matéria sobre a palestra de Francisco Ortega publicada nas Notícias do Dia, de 15-09-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos.

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