Edição 431 | 04 Novembro 2013

Žižek e a tentativa radical de repensar a tradição cristã

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Márcia Junges / Tradução: Luís Marcos Sander

Teologia Pública Filósofo esloveno compreende a experiência cristã em termos de morte de Deus, observa Adam Kotsko. Em sua análise, o cristianismo é a forma mais radical de ateísmo “na medida em que até o próprio Deus se torna um não crente no grito de abandono de Cristo na cruz” KOTSKO, Adam. Zizek and Theology (Philosophy & Theology). London: Bloomsbury T&T Clark, 2008.

“A abordagem de Žižek vai contra a corrente dominante da teologia cristã, em que a doutrina da Trindade tem permitido aos teólogos afirmar que apenas uma das pessoas divinas se submeteu à provação da encarnação — isolando, portanto, o impacto da encarnação na vida divina”, pondera Adam Kotsko na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. “A abordagem hegeliana que Žižek adota também difere da cristologia tradicional, que sustenta que Deus ressuscitou Cristo dos mortos pessoal e individualmente. Na interpretação hegeliana, ao contrário, o poder divino de Cristo é ‘ressuscitado’ como a nova forma de comunidade conhecida como o ‘Espírito Santo’”, destaca. Kotsko afirma que o projeto de Žižek fornece suporte para outras tentativas radicais de repensar a tradição cristã, em especial nas diversas teologias da libertação. “Isso não quer dizer que esses teólogos ‘precisem’ de Žižek, mas sim que a obra de Žižek poderia direcionar os teólogos da linha principal em direção a um trabalho mais criativo e radical do que o que está sendo feito.”

Adam Kotsko, teólogo, é professor assistente de Ciências Humanas no Shimer College, em Chicago. É autor de Politics of Redemption: The Social Logic of Salvation (Cambridge, James Clarke and Co, 2010); Awkwardness (Ropley: Zero Books, 2010) e Why We Love Sociopaths: A Guide to Late Capitalist Television (Ropley: Zero Books, 2012).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Em geral, quais são as formulações fundamentais de Žižek  sobre o campo da teologia?

Adam Kotsko – Žižek interpreta o cristianismo em linhas hegelianas, como uma encenação da morte de Deus. Sua abordagem é semelhante à de Thomas Altizer , cuja declaração da morte de Deus causou polêmica significativa nos Estados Unidos na década de 1960. A alegação básica é que, quando Deus se encarnou em Cristo, essa foi uma decisão total e irreversível para esvaziar-se em Cristo — e assim, quando Cristo morreu na cruz, Deus morreu verdadeira e irreversivelmente, esvaziando-se no mundo.

 

IHU On-Line – Qual é a peculiaridade de sua abordagem?

Adam Kotsko – A abordagem de Žižek vai contra a corrente dominante da teologia cristã, em que a doutrina da Trindade tem permitido aos teólogos afirmar que apenas uma das pessoas divinas se submeteu à provação da encarnação — isolando, portanto, o impacto da encarnação na vida divina. Do ponto de vista ortodoxo, é correto dizer que “Deus está morto” em vista da morte de Cristo, mas, em um sentido mais importante, Deus “sobreviveu” mesmo quando Cristo foi sepultado no túmulo.

A abordagem hegeliana que Žižek adota também difere da cristologia tradicional, que sustenta que Deus ressuscitou Cristo dos mortos pessoal e individualmente. Na interpretação hegeliana, ao contrário, o poder divino de Cristo é “ressuscitado” como a nova forma de comunidade conhecida como o “Espírito Santo”. Aqui, no entanto, Žižek difere de Hegel na medida em que ele vê o “Espírito Santo” não como uma forma de vida institucional (como a Igreja Católica), mas sim fundamentalmente como uma nova forma de vida juntos.

 

IHU On-Line – Em que sentido são as obras de Žižek, especialmente as mais antigas, relevantes para o debate teológico atual?

Adam Kotsko – Eu vejo muitos teólogos da linha principal divididos entre dois desejos. Por um lado, eles reconhecem que as categorias filosóficas gregas, através das quais os primeiros padres da Igreja interpretaram o evangelho, não eram as mais adequadas e, de certa forma, acabaram distorcendo a mensagem cristã. Por outro lado, porém, eles querem permanecer fiéis às doutrinas ortodoxas que surgiram a partir dessa conceitualidade. Karl Barth  é uma figura emblemática desse conflito — ele afirma oferecer uma nova base radical para a doutrina cristã e, mesmo assim, sempre acaba essencialmente nas mesmas respostas que a ortodoxia sempre apresentou.

Nesse contexto, penso que a abordagem de Žižek representa uma maneira de sair desse impasse, na medida em que a interpretação hegeliana do cristianismo atende à lógica inerente da encarnação, sem se incomodar com pressupostos filosóficos como a imutabilidade de Deus. Em certo sentido, Hegel, Altizer e Žižek podem representar uma tentativa real de seguir a afirmação de Paulo  de não conhecer nada a não ser Cristo crucificado.

A partir de outra direção, eu acredito que o projeto de Žižek fornece suporte para outras tentativas radicais de repensar a tradição cristã — particularmente nas diversas teologias da libertação. Isso não quer dizer que esses teólogos “precisem” de Žižek, mas sim que a obra de Žižek poderia direcionar os teólogos da linha principal em direção a um trabalho mais criativo e radical do que o que está sendo feito.

 

IHU On-Line – Em que sentido é a argumentação de Žižek sobre este assunto, complexo e incomum?

Adam Kotsko – Um desafio para os teólogos que querem ler Žižek é a importância de Lacan  para o seu projeto. Embora a leitura de Hegel por Žižek seja um tanto peculiar, Hegel é pelo menos familiar para a maioria dos teólogos — Lacan, por outro lado, é um ponto de referência menos frequente e é, em muitos aspectos, mais difícil de abordar, uma vez que usa muitos dos seus próprios jargões e símbolos para desenvolver os seus conceitos. Eu tento dar alguma orientação do pensamento lacaniano no meu livro, de modo que as pessoas possam, ao menos, saber por onde começar.

 

IHU On-Line – Como podemos compreender a afirmação de Žižek que, para se tornar uma verdadeira dialética materialista, o indivíduo precisa passar pela experiência cristã? Isso não é uma postura paradoxal dele?

Adam Kotsko – Žižek entende a experiência cristã em termos da morte de Deus. Para ele, o cristianismo é a forma mais radical de ateísmo, na medida em que até o próprio Deus se torna um não crente no grito de abandono de Cristo na cruz. Isso difere de outras formas de ateísmo ou ceticismo, porque Žižek acredita que a maioria das pessoas que negam um deus particular ainda acredita em outra coisa que preenche o mesmo papel. Um cientista, por exemplo, geralmente acreditará em algo como as leis da natureza, ou um comunista acreditará nas leis da necessidade histórica. Só a experiência cristã de um Deus que não acredita em si mesmo fornece a garantia de que não seremos capazes de contrabandear um novo ídolo para tomar o lugar do deus antigo.

A experiência cristã é, portanto, a experiência do esvaziamento inegável e irrevogável de todo significado ou propósito transcendente — de todo “significante principal", em termos lacanianos. A partir da perspectiva cristã tradicional, isso pode parecer contraditório ou estranho, mas, a partir da própria perspectiva de Žižek, não parece certo chamar isso de paradoxal. 

 

IHU On-Line – Como podemos entender o fato de que Žižek está interessado no potencial emancipatório oferecido pela teologia cristã?

Adam Kotsko – Žižek acredita que o total esvaziamento do significado transcendente é necessário para abrir a possibilidade da liberdade real. Para ele, morte e ressurreição representam o movimento de se distanciar completamente da ordem presente e de se colocar a trabalhar para construir algo novo.

 

IHU On-Line – Como Žižek analisa a filosofia continental e o futuro da teologia cristã a partir do legado de Paulo de Tarso? Qual é a significância de Paulo nesta perspectiva?

Adam Kotsko – Para Žižek, as comunidades cristãs de Paulo são um modelo de distanciamento da ordem atual — ou, como Žižek afirma em A Marioneta e o Anão (Lisboa: Relógio D’Água, 2006), “desligar-se” da força da lei. Onde muitos intérpretes acreditam que Paulo é um oponente à lei judaica, Žižek afirma que Paulo está tentando dar aos gentios o acesso à postura distintamente judaica com relação à lei. Nessa perspectiva, a famosa discussão de Paulo sobre a lei incitando a sua própria transgressão em Romanos 7 não está falando sobre a lei judaica, mas sim sobre as atitudes distintamente pagãs com relação à lei. Paulo está tentando dar aos seus seguidores gentios uma maneira de sair do ciclo vicioso que ele descreve ali.

Isso é relevante para os dias de hoje, na medida em que Žižek vê a cultura contemporânea como a incorporação de uma espécie de lei que incita a sua própria transgressão — tudo tem que ser “subversivo” e “irreverente”. As pessoas não se sentem culpadas por terem relações sexuais, mas por não fazer sexo o suficiente. Nesse contexto, a rebelião contra as normas sociais torna-se sem sentido. É preciso uma postura completamente diferente que rompa a dicotomia entre obediência e rebelião, e é isso que Paulo oferece na visão de Žižek.

 

IHU On-Line – Até que ponto Pascal , Kierkegaard e Chesterton  são pensadores importantes na postura teológica do filósofo esloveno?

Adam Kotsko – Essa é uma área em que eu acredito que Žižek tem sido mal interpretado. Muitos leitores veem o seu uso desses pensadores, particularmente Chesterton, como um endosso. Na realidade, porém, o seu objetivo final é mostrar que eles não vão longe o suficiente. Ele gosta do estilo hegeliano de Chesterton, por exemplo, mas ele vê o catolicismo de Chesterton como uma traição do evangelho que retorna à abordagem pagã da lei e da transgressão. Semelhantemente, embora Pascal e Kierkegaard forneçam intuições muito reais, ele quer ir além deles, porque eles não dão o passo seguinte de aceitar a morte de Deus.

 

IHU On-Line – Quais são os principais pontos do debate entre Žižek e Milbank em A Monstruosidade de Cristo: Paradoxo ou Dialética ?

Adam Kotsko – O encontro entre Žižek e Milbank é o encontro entre a abordagem hegeliana da morte de Deus e a ortodoxia tradicional. O debate foi produtivo na medida em que permitiu a Žižek desenvolver sua crítica à teologia tradicional, especialmente sobre a doutrina da Trindade, e refletir sobre a ética implícita em sua posição, mas ambos os ensaios dos autores foram tão longos e cheios de tantas divagações, que era quase impossível discernir qualquer debate real.

Para mim, o maior benefício desse debate foi que ele permitiu a Žižek traçar uma clara linha na areia. Os seguidores de Milbank, por vezes, viram Žižek como um de seus aliados naturais para o seu projeto de Ortodoxia Radical, mas Žižek declara que a visão de Milbank — que está centrada na fuga dos problemas da modernidade ao reafirmar a autoridade hierárquica e os valores da família tradicional — é como um "fascismo leve". Ele também deixa claro que vê o anglo-catolicismo de Milbank, assim como o catolicismo de Chesterton, como uma volta à postura pagã com relação à lei e à transgressão.

 

IHU On-Line – Em que medida o debate entre esses dois pensadores aprofunda o diálogo entre fé e razão?

Adam Kotsko – Em minha opinião, o debate foi uma decepção. Žižek e Milbank estão simplesmente muito distantes para que surja uma tensão verdadeiramente produtiva. Muito mais interessante, na minha opinião, é o confronto ocorrido entre Žižek e Terry Eagleton  no livro Theology and Marxism in Eagleton and Žižek: A Conspiracy of Hope (New York: Palgrave Macmillan, 2012), de Ola Sigurdson. Um confronto com um teólogo menos tradicional, como Jürgen Moltmann  ou Catherine Keller , também teria sido mais interessante. Entre Žižek e Milbank, porém, houve mais do que apenas um encontro perdido. Žižek ainda não encontrou um interlocutor teológico que possa desafiá-lo de uma maneira produtiva — e espero que alguém se levante para preencher esse papel, porque é muito raro que um filósofo contemporâneo tenha qualquer interesse na teologia contemporânea. Eu não acho que sou a pessoa certa para o trabalho, mas espero que, no meu livro, eu tenha ajudado a abrir espaço para que tal encontro ocorra.

 

Leia mais...

Confira outra entrevista concedida por Adam Kotsko à IHU On-Line, com Colby Dickinson.

- Agamben e a estreita relação entre filosofia e teologia. Revista IHU On-Line, ed. 427, de 16-09-2013.

 

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