Edição 430 | 21 Outubro 2013

“A história é o reino da liberdade e da atividade do espírito”

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Márcia Junges, Luciano Gallas e Andriolli Costa

Para o filósofo Marco Aurélio Werle, o convite para o exercício da razão nos planos lógico e histórico é a principal herança da filosofia de Hegel

“Em termos sucintos, a história é o reino da liberdade e da atividade do espírito, ao passo que a natureza é o da necessidade e da exterioridade. Somente o homem é livre, mas não o animal ou o vegetal. Se tomarmos o exemplo de um animal, pode-se dizer que ele não tem consciência das gerações que o antecederam. [...] Já o homem se distingue por agir de modo espontâneo, de se produzir na existência e constituir a razão, o que Hegel chama justamente de espírito. Essa noção de espírito não remete a nenhuma forma de espiritualismo, e sim expressa as configurações mais elevadas criadas pelo homem, tais como a arte, a religião e a filosofia”, afirma Marco Aurélio Werle.

Nesta entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, Werle reflete sobre a relação entre os conceitos de História e de Natureza no pensamento formulado por Hegel, o uso e a interpretação do autor tanto por posições de direita quanto por posições à esquerda e as influências que o pensador recebeu para elaborar a obra Filosofia da História. Werle enfatiza que a natureza só é natureza para o homem, porque ela não tem consciência de si e é construída pelo próprio homem. “Nós atribuímos àquilo que não somos o nome de ‘natureza’. [...] ela somente existe para nós. O homem criou a noção de natureza para dar conta de algo que ele mesmo, no fundo, é, mas que lhe aparece o tempo todo como um eterno desconhecido, algo a ser conquistado”, explica o filósofo.

Marco Aurélio Werle é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP, onde é professor associado livre-docente. Tem artigos, livros e capítulos de livros publicados sobre, principalmente, Hegel, Heidegger e a estética da época de Goethe, autores dos quais realizou traduções do alemão para o português.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Quais são os cruzamentos e a relação recíproca que se apresentam entre História e Natureza?

Marco Aurélio Werle - Segundo a filosofia de Hegel, a atividade humana é marcada por uma relação dialética entre o que é em si e o que é para si, ou seja, entre a potência e o ato. Exemplificando, o ser humano, tanto como indivíduo isolado quanto como ser social, é o resultado de sua infância e da maturidade, entre o que ele é em si, quando criança (e nesse momento ainda não possui plena consciência de seus atos), e o que é para si ou por si, quando adulto. O mesmo se passa com a história da humanidade, dos povos e das nações, que se desenvolvem no plano de um início cultural, por assim dizer “inconsciente”, para o plano de uma liberdade cada vez maior, quando amadurecem e se desenvolvem suas instituições. Isso não exclui retrocessos e mesmo o desaparecimento de certos povos, assim como também o ser humano em sua vida encontra em algum momento a morte.

Mas, como se coloca então a natureza nesse horizonte de desenvolvimento histórico e individual? Ela é justamente esse em si, esse momento a partir do qual o homem se torna livre, mas que ao mesmo tempo oferece sempre uma resistência e algo que não pode ser inteiramente superado, em momento algum. Segundo a concepção hegeliana, embora o homem se afaste da natureza, ele também sempre tem de voltar a ela, pois ele mesmo é duplo, consciência e natureza. O momento da consciência apenas ocorre nessa relação com uma alteridade, quando eu me separo de mim mesmo enquanto outro.

No plano da ação humana na história, também devemos lembrar da importância das paixões e do caráter dos heróis agentes. O que move homens como César  e Napoleão , senão uma força e energia descomunal, oriunda da natureza?

Note-se que a concepção de desenvolvimento histórico, concebida por Hegel, não é de uma simples evolução progressiva, mas uma constante retomada do início. Cada passo dado à frente significa uma retomada do ponto inicial. A extensão da história é também uma intensificação e aprofundamento do início.

No caso da famosa dialética do senhor e do escravo, tratada por Hegel na Fenomenologia do espírito (São Paulo: Loyola, 1993) e em alguma medida ainda válida para nós, hoje, pois exprime a chamada “luta de classes”, a relação humana é mediada pelas coisas e pelo trabalho junto a elas. Essa relação, por mais que evoluamos tecnologicamente e tenhamos uma relação mais distante em relação à natureza, uma vez que a máquina “faz o serviço”, é algo que sempre precisa se renovar junto à natureza. É a eterna produção de si dos homens na relação não apenas com outros homens, mas com a natureza, como uma espécie de “terceiro termo”, que se interpõe entre os homens. Esse terceiro elemento, porém, observado mais a fundo, pode também ser o primeiro.

 

IHU On-Line - Como podem ser compreendidos corretamente os conceitos de História e Natureza dentro do sistema hegeliano?

Marco Aurélio Werle - A natureza se afigura como um lugar de passagem da vida do espírito, isto é, um certo movimento exterior que, desde o reino mineral, vegetal e animal, vai desenvolvendo a materialidade rumo ao momento consciente, implicado pela existência humana. Se a natureza é o terreno da exterioridade, a história é o horizonte de desdobramento interior (subjetivo e objetivo) da vida humana cultural. Hegel gosta de empregar a expressão: “palco da história mundial”.

Em termos sucintos, a história é o reino da liberdade e da atividade do espírito, ao passo que a natureza é o da necessidade e da exterioridade. Somente o homem é livre, mas não o animal ou o vegetal. Se tomarmos o exemplo de um animal, pode-se dizer que ele não tem consciência das gerações que o antecederam. Aliás, conscientemente ele não sabe nem que existe. No limite possui um instinto e uma percepção de um exemplar análogo à sua espécie. Mas nada mais. Já o homem se distingue por agir de modo espontâneo, de se produzir na existência e constituir a razão, o que Hegel chama justamente de espírito. Essa noção de espírito não remete a nenhuma forma de espiritualismo, e sim expressa as configurações mais elevadas criadas pelo homem, tais como a arte, a religião e a filosofia, dentre outras.

Cabe ressaltar que a natureza, que Hegel compreende como sendo o “um-fora-do-outro”, a pura separação recíproca, somente é natureza como tal para o homem. A natureza não é consciente de si e é antes uma “construção” humana. Nós atribuímos àquilo que não somos o nome de “natureza”. Tal como o animal, a natureza como um todo, em si, não sabe que é natureza; logo ela somente existe para nós. O homem criou a noção de natureza para dar conta de algo que ele mesmo, no fundo, é, mas que lhe aparece o tempo todo como um eterno desconhecido, algo a ser conquistado.

 

IHU On-Line - Em que medida as ideias de Hegel em A Filosofia da História inspiram a Filosofia continental e o marxismo?

Marco Aurélio Werle - Pode-se dizer que, depois de Hegel e até os dias de hoje, tornou-se inevitável a compreensão da cultura como um todo segundo a perspectiva histórica. Desde o século XIX a humanidade entrou no âmbito de uma consciência histórica, isto é, os homens passaram a se compreender a si, o seu presente, como estando irremediavelmente ligado ao passado, dependendo dele. Isso não era assim até o século XVIII, quando os homens tinham a percepção de que a vida sempre se repetia, de um ou de outro modo. Essa é a grande diferença entre o século XVII e o XVIII, entre o grande racionalismo, pautado numa ideia de racionalidade “matemática”, e o pensamento iluminista, do XVIII, que colocará o homem em sua diversidade histórica no centro do pensamento.

Essa disseminação do pensamento histórico por todos os campos da cultura humana apenas foi alcançada plenamente depois da Revolução Francesa  e foi uma conquista do pensamento hegeliano. Em sua obra monumental, Hegel mostrou, com muita tenacidade e disciplina intelectual, como a ciência, a moral, os costumes, o direito, a religião, a arte e a própria filosofia, com suas categorias e conceitos, são históricos. Não há nenhum conceito que resista a esse percurso histórico.

O legado de Hegel, nesse sentido, foi o de introduzir essa perspectiva da mutabilidade dos conceitos. No marxismo, essa influência permitiu a análise das relações sociais e materiais dos homens, o fato de os sistemas de produção e de trabalho possuírem uma lógica mutável, e não fixa.

No caso de nomes e de correntes filosóficas, pode-se dizer que a influência de Hegel foi profunda no estruturalismo, marxismo e fenomenologia, e isso num sentido negativo, pois todos tentavam também dele se afastar. Hegel encontrou na França uma ampla recepção junto a filósofos como Kojeve , Sartre , Jean Wahl  e Jean Hippolite  e entre psicanalistas, tais como Lacan .

No fundo, a recepção da filosofia de Hegel, não apenas de sua história da filosofia, sempre foi marcada ao longo dos séculos XIX e XX por “amor e ódio”: houve grandes pensadores que simplesmente achavam Hegel intragável, tais como Popper . E logo após a morte de Hegel, na Alemanha se constituíram as correntes dos hegelianos de direita (que enfatizavam a teoria do Estado de Hegel e a filosofia da religião) e dos hegelianos de esquerda (que está na origem do marxismo). E havia ainda os “velhos hegelianos”, etc. Ou seja, Hegel é um desses pensadores que sempre suscitou “tomadas de posição”, pró e contra.

 

IHU On-Line - Em que aspectos a tese de uma razão absoluta conduzindo a História poderia desembocar em uma visão política de tendência totalitária?

Marco Aurélio Werle - O fenômeno do totalitarismo, a meu ver, é bastante complexo, analisado com profundidade por Hannah Arendt . Não creio que sua matriz se deva a Hegel ou a Nietzsche , e sim remete a um certo produto da modernidade científica e tecnológica, mas que ao mesmo tempo tem raízes mais profundas.

Um dos temas mais espinhosos e controversos da filosofia de Hegel é a noção de um absoluto, ou seja, de uma totalidade que, por assim dizer, governa as ações humanas na história. Esse pensamento se mostrou particularmente difícil de ser aceito a partir do evento das duas grandes guerras mundiais no século XX e de sistemas políticos como o nazismo e o fascismo, mas também dos sistemas comunistas de feição totalitária. À expressão que surge no Prefácio da Fenomenologia do espírito, de Hegel, do ano de 1806, de que “o todo é o verdadeiro”, o pensador da escola de Frankfurt, Theodor Adorno , afirmou em sua Teoria estética, de 1970, que “o todo é o não-verdadeiro”.

Entretanto, é preciso compreender que a ideia de uma razão absoluta ou infinita em Hegel diz respeito a um esforço de pensamento para captar os grandes movimentos do pensamento humano na história. Trata-se de um desafio, que Hegel considerava ser a grande tarefa da razão, de pensar o real em toda a sua plenitude. Para Hegel, a história humana possui uma lógica que está acima dos homens em sua individualidade e é necessário tentar apreendê-la sem cair numa pulverização de fenômenos particulares e num mero empirismo.

Ocorre que, desde o século XIX, passamos a ter uma compreensão muito mais aguda das diferenças entre os homens e os povos, de modo que a história se revela para nós cada vez mais como sendo uma história múltipla e diversificada. Inclusive com Nietzsche, a história se afigurará como um certo “entulho”, que mais pesa sobre os homens do que os liberta de fato. Com isso, a pretensão hegeliana de apreensão do todo perdeu força, se bem que, por outro lado, ela ainda é atual, se pensarmos que, em meio às diferenças e particularidades entre os homens, ainda há muitos fenômenos mundiais comuns que dizem respeito a todos nós e exigem uma reflexão de cunho global.

 

IHU On-Line - Em que medida o colapso do marxismo suscita uma reflexão e revisão da Filosofia da História de Hegel?

Marco Aurélio Werle - Essa expressão “colapso do marxismo” precisa ser situada em dois planos: no plano real dos sistemas políticos fracassados e no plano ideal das ideias do marxismo, as quais continuam ainda alimentando muitas discussões. Ou seja, há um marxismo ainda vivo, que diz respeito a certos modos de pensar, introduzidos por Marx  e que ainda se mantém atuais. Por exemplo, a concepção da exploração do trabalho e a dinâmica do capital possuem relevância.

Seja como for, para nós, hoje, ou melhor, nos últimos 20 anos, desapareceu a perspectiva de um rumo da história em direção ao socialismo, tal como pregava um certo tipo de marxismo. A sensação que temos é que a história, depois de 1990, por assim dizer, estacionou.

Diante desse quadro, a filosofia da história de Hegel tem de ser revista, talvez no horizonte de uma perspectiva menos teleológica e mais a partir dos chamados móbiles da ação histórica como tal. Penso que a filosofia da história de Hegel tem seu interesse na medida em que nos mostra o imbricamento dos diferentes agentes da história e os planos de sua efetivação. Hegel possui não apenas uma história, com uma matriz restrita. A historicidade permeia todo o sistema, se faz notar nos mais diferentes setores, como na arte, na religião e no direito. A tarefa que nos resta é pensar a historicidade no quadro de uma razão que em cada âmbito se revela e se renova com uma lógica específica, impondo questões próprias, embora também remeta a um conjunto de problemas comuns.

 

IHU On-Line - Quais são os autores fundamentais que influenciaram as ideias de Hegel em A Filosofia da História?

Marco Aurélio Werle - No âmbito alemão, penso que um nome fundamental é Herder , pensador bastante atuante na segunda metade do século XVIII, autor de Também uma filosofia da história da humanidade. Outra referência alemã é Winckelmann , autor de uma História da Arte da Antiguidade. Mas há também as influências francesas, de Montesquieu , por exemplo.

Na verdade, é preciso dizer que, ao longo da segunda metade do século XVIII, a humanidade europeia iluminista vai tomando gradualmente consciência do caráter histórico da racionalidade humana. Pensamentos sobre a alteridade dos homens, a saber, sobre a diferença entre o selvagem americano e o civilizado europeu, sobre a origem dos homens e de suas desigualdades (Rousseau ), sejam linguísticas, sejam de costumes, vão dando corpo ao caráter histórico dos povos e das civilizações.

Se o pensamento histórico ganha força nessa época no âmbito de pensadores que não eram filósofos no sentido estrito do termo, um passo importante foi o de encontrar na história a racionalidade em ato. Nesse ponto, a filosofia de Kant  foi importante, ao indicar que a razão ela mesma possui uma historicidade, de que a verdadeira história é a história não dos fatos, mas da razão se exercendo com liberdade. Esse ponto é central para a concepção hegeliana da história.

 

IHU On-Line - Qual é o impacto da convivência com o poeta Hölderlin  e com o filósofo Schelling  sobre o sistema hegeliano? Quais eram os pontos de maior divergência e convergência entre as ideias desses pensadores que conviveram em Tübingen?

Marco Aurélio Werle - É difícil dimensionar a relação entre esses três pensadores, que numa mesma época estudaram Teologia na Universidade de Tübingen/Alemanha, sendo Schelling cinco anos mais novo que os outros dois (Hegel e Hölderlin são de 1770 e Schelling de 1775). Eles também mantiveram uma correspondência entre os anos de 1794 e 1797, com alto teor filosófico e que está na base do nascimento do idealismo. Nessas cartas se debate o destino do kantismo, o surgimento da perspectiva absoluta com o idealismo de Fichte  e os eventos políticos da época.

Os três jovens saudaram com entusiasmo a Revolução Francesa, pois viam nesse acontecimento histórico a possibilidade de efetivação da liberdade. A questão era como se poderia de fato alcançar a liberdade. E aqui os amigos começam a se separar, embora cultivem perspectivas comuns. Hölderlin apostara na poesia como campo no qual se superam as cisões provocadas pela atividade consciente da razão. Já Schelling tem um pendor pela natureza e também para a arte, terrenos nos quais nasce, por assim dizer, a consciência de um modo inconsciente. Por fim, em Hegel vemos o desabrochar dos temas da filosofia política, associados à religião.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Marco Aurélio Werle - Sim, eu gostaria de ressaltar que o estudo da filosofia de Hegel é para nós, hoje, ainda necessário, pois, além de constituir um momento central do pensamento filosófico, ela lançou o desafio de unificar a razão e a realidade, sem impor nada de abstrato ao real e também sem aceitar o real como algo meramente empírico e dado.

Mas, para podermos nos dedicar a Hegel, é preciso sair do plano da mera subjetividade e da chamada “opinião”, que Hegel tanto abomina no campo do pensamento, mas que hoje muitas vezes é invocada como critério de verdade. Veja-se o elevado valor que alcançaram as estatísticas e os números na sociedade atual, que nada mais refletem que “opiniões”, quando dizem respeito aos homens.

A verdade, porém, em termos hegelianos, depende menos do que eu ou você achamos e mais de um movimento altamente complexo, em si e para si, implicando um longo percurso. Esse convite para o exercício da razão, no plano lógico e histórico, parece-me uma herança fundamental da filosofia de Hegel.

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