Edição 430 | 21 Outubro 2013

O filósofo como filho de seu tempo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Ricardo Machado

O professor Alfredo de Oliveira Moraes destaca que, para Hegel, ser filho do próprio tempo significa recolher em si as filosofias precedentes

“Assistimos há mais de um século a descobertas revolucionárias nas ciências particulares, notadamente na física, na química, na biologia, bem como nos novos saberes, como a Teoria da Informação e a Cibernética. Contudo, de um lado, essas descobertas foram levadas a efeito, sem que se considerassem as contribuições da Filosofia, sobretudo o último dos sistemas filosóficos, ou seja, o sistema filosófico hegeliano”, avalia o Prof. Dr. Alfredo de Oliveira Moraes, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Hegel acreditava que o filósofo é filho de seu tempo. Isso implica que recolher em si todas as filosofias precedentes inclui, necessariamente, suprassumir cada uma junto com o tempo que as produziu; em outras palavras, para apreender uma filosofia é indispensável apreendê-la junto com o tempo ou a cultura na qual ela brotou”, complementa. 

De acordo com Alfredo Moraes, para Hegel a História só poderia ser compreendida a partir de seu fio condutor e de seu fim último. O entrevistado considera que a contribuição mais relevante da Filosofia da História de Hegel seja a de que a Razão governa a História. Entretanto, ele pondera, “convém (...) que se faça a advertência de que não há nisso nem um apriorismo determinista, nem um Deus ou Providência Divina, que usurpando a liberdade humana, conduzisse como um senhor de marionetes a humanidade na consecução de seus desígnios”, sustenta. 

Alfredo de Oliveira Moraes é bacharel em Filosofia e especialista em Metodologia de Ensino Superior pela Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Fez metrado em Filosofia na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e doutorou-se na mesma área na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs. É professor adjunto do Departamento de Filosofia, ex-coordenador do Programa de Pós-Graduação de Filosofia (Mestrado), gestão 2009 a março/2013 e ex-coordenador científico do Mestrado Profissional em Gestão Pública da UFPE. É também docente no Programa de Doutorado Interinstitucional de Filosofia UFPB/UFPE/UFRN; fundador e ex-presidente da Sociedade Hegel Brasileira - SHB e líder do grupo de pesquisa O Sistema Hegeliano; autor de várias obras, entre elas A Metafísica do Conceito - Sobre o problema do conhecimento de Deus na Enciclopédia das Ciências Filosóficas de G. W. F. Hegel (Porto Alegre: Edipucrs, 2003) e História das Religiões no Brasil (Recife: Editora Universitária da UFPE/Edições Bagaço, 2010). 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Quais são as interlocuções atuais entre a metafísica hegeliana e a realidade efetiva?

Alfredo de Oliveira Moraes - Na formulação de uma questão, mais do que na expressão de uma resposta, é que se manifesta a grandeza da inteligência, razão pela qual agradeço a oportunidade de partilhar de tão sábias indagações. Aprendemos com Descartes, em suas Meditações (São Paulo: Martins Fontes, 2005), que é quase impossível desfazer-se tão prontamente de uma antiga opinião, e com Lewis Munford , em seu A Conduta da Vida (Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1959), que é mais fácil descobrir uma nova verdade do que encontrar os meios de realizá-la. Assim, assistimos há mais de um século a descobertas revolucionárias nas ciências particulares, notadamente na física, na química, na biologia, bem como nos novos saberes, como a Teoria da Informação e a Cibernética. Contudo, de um lado essas descobertas foram levadas a efeito sem que se considerassem as contribuições da Filosofia, sobretudo o último dos sistemas filosóficos, ou seja, o sistema filosófico hegeliano; de outro lado, os filósofos do século passado se esmeraram em ser, na melhor das hipóteses, bons comentadores dos filósofos precedentes, com total abandono da tarefa de traduzir seu tempo em conceito, são filósofos do detalhe intestino, de um ruminar sem fim que os pôs num castelo rodeado de um fosso abismal, ligado ao imenso continente dos outros saberes e da realidade efetiva por uma ponte suspensa que jamais tem sido baixada para efetivar essa conexão. A consequência mais grave: o conhecimento que nos conduziu até aqui se mostra incapaz de nos tirar daqui; significa dizer que os avanços científico-tecnológicos de que tanto nos orgulhamos alcançaram um limite cuja exigência para transpô-lo é, reconhecidamente, uma mudança paradigmática, já sentida e anunciada no final do século passado como a crise de paradigmas.

Nesse contexto, entendo que a filosofia hegeliana pode ser uma alternativa, desde que se compreenda a mudança essencial nela implicada, no que diz respeito à base metafísica. Tenho insistido em apontar que toda a tradição metafísica que, malgrado as críticas, ainda permanece dominante, apoia-se numa base material, o que não é difícil de constatar observando o simples fato de que os argumentos, até mesmo da crítica à metafísica tradicional, fazem uso de um raciocínio espacial nas suas reflexões; significa dizer, o ser tem sido pensado a partir da espacialidade e suas determinações, veja-se, por exemplo, Heidegger  em Ser e Tempo (Petrópolis: Vozes, 2006) e sua confirmação em Tempo e Ser.

E por que a metafísica hegeliana pode ser uma alternativa? Ora, se atentarmos que Hegel, na Fenomenologia do Espírito  (Petrópolis: Editora Vozes, 1992), apresenta a sua revolucionária fórmula: a substância é sujeito; que ao discorrer sobre essa substância sujeito o faz tomando a consciência-de-si em seu desenvolvimento a qual se constitui em identidade com o Eu, e desse diz ser o conteúdo da relação, o relacionar-se e o relacionar-se a si mesmo (Ich ist der Inhalt der Beziehung und das Beziehen selbst), e se aditarmos a isso o início da reflexão sobre o ser na Ciência da Lógica da Enciclopédia das Ciências Filosóficas (São Paulo: Editora Loyola, 1995), onde encontramos: o ser como ser puro; como é imediatamente, aqui no começo. Só nessa pura indeterminidade — e por causa dela — ele é nada: algo indizível; sua diferença do nada é uma simples suposição (Meinung). Para em seguida desenvolver a dialética que opera a passagem do ser abstrato idêntico ao nada para o ser enquanto vir-a-ser, que na relação de si consigo mesmo é o nada, enquanto esse nada imediato, igual a si mesmo, é também, inversamente, o mesmo que o ser. A verdade do ser, assim como do nada, é, portanto, a unidade dos dois: essa unidade é o vir-a-ser. Não é difícil perceber que essa metafísica tem como base a relação.

Esse é o ponto, a interlocução com a realidade efetiva, seja material, no que se compreende, de um lado, a sua dinâmica quântica, relativista, nanométrica, sistemas abertos e fechados, química leve e, de outro, buracos negros, supernovas e anãs brancas, ou dito de outro modo, quer essa realidade efetiva seja apreendida na dinâmica nanométrica, nas dimensões existenciais micro e macrossistêmicas; ou ainda, nas dimensões políticas, sociais e existenciais da humanidade, agora também apreendidas em redes virtuais ou não; uma metafísica de base não material ou, como a denomino, de base relacional tem efetivamente muito mais a dizer do que uma metafísica assentada numa base material num mundo em que E=mc².

 

IHU On-Line - Quais são as proposições fundamentais da metafísica hegeliana e em que sentido essas ideias divergem de autores que o influenciaram, como

Kant e Rousseau, por exemplo?

Alfredo de Oliveira Moraes - Quando se fala de autores que influenciaram Hegel, deve-se sempre ter presente o que ele próprio escreve: A filosofia última no tempo é o resultado de todas as filosofias precedentes, e deve por isso conter os princípios de todas. Ora, quando se sabe que Hegel acreditava que o filósofo é filho de seu tempo, isso implica que recolher em si todas as filosofias precedentes inclui, necessariamente, suprassumir cada uma junto com o tempo que as produziu; em outras palavras, para apreender uma filosofia é indispensável apreendê-la junto com o tempo ou a cultura na qual ela brotou. Já o tenho demonstrado em outro lugar (n’A Metafísica do Conceito), que a metafísica de Hegel compreendida como a metafísica que tem como objeto o Absoluto, que também pode ser dito como o Conhecer, o Conhecido, o que Conhece e o Conhecimento mesmo, diferencia-se de tudo o que a precedeu por ser a suprassunção desse todo que a precede.

Em vez de apresentar proposições fundamentais da metafísica hegeliana, seria mais consequente e coerente com o modo de pensar de Hegel fazer uma remissão a um momento essencial da apresentação dessa metafísica, qual seja, ao silogismo dialético com o qual ele fecha a Filosofia do Espírito na Enciclopédia das Ciências Filosóficas; trata-se de um silogismo constituído de três momentos, igualmente apresentados na forma de silogismo. Nesse famoso silogismo, a alternância dos termos médio, menor e maior, pelas figuras da Lógica, da Natureza e do Espírito, evidencia toda a fluidez tensional que caracteriza a harmonia do todo. Fica aqui, portanto, a indicação na impossibilidade mesma de apresentar nessa ocasião o silogismo na pletora de seu desenvolvimento. Outrossim, mais do que proposições, ao tempo de Hegel, e a partir da influência kantiana, o debate girava em torno da própria possibilidade de se fazer metafísica.

 

IHU On-Line - Em que medida Hegel trabalhou historicamente uma antítese contra a Idade Média, pensando na eficiência social contra a moral cristã? Qual acredita ser a maior contribuição e legado da filosofia hegeliana e, em específico, da Filosofia da História? E quais são as proposições mais importantes dessa obra?

Alfredo de Oliveira Moraes - Dizem que as grandes essências estão nos pequenos frascos, eis um conjunto de perguntas curtas e diretas que exigem uma resposta igualmente de chofre, mas que abre a possibilidade para um relevante esclarecimento; Hegel não aceita a divisão da História, que se tornou clássica para nós e ainda é ensinada nos livros de História, em Idade Antiga, Idade Média e Modernidade. Para ele, como primeiro a propor, em seus detalhes, uma Filosofia da História, a História somente pode ser compreendida a partir de seu fio condutor e seu fim último, significa dizer que a História somente pode ser dividida considerando-se os pontos de viragem que demarcam mutações importantes na realização de seu fim, ou se se prefere, graus de efetividade no desenvolvimento da ideia fim. Neste sentido e por ter apreendido a realização da Ideia de Liberdade como fim último da História, Hegel irá propor uma divisão da História (Geschichte) consoante com esse Fim. Para ele, no início ocupa a cena histórica um momento no qual a Liberdade é meramente abstrata ou inexistente na efetividade, pois para Hegel somente o que é fenômeno é efetivo, falar de liberdade que não se traduz em fenômeno mediante a ação humana é se colocar no nível da abstração. Poderíamos denominar esse período de Idade da Liberdade Abstrata, que segundo Hegel corresponde em sua determinação efetiva ao Reino Oriental, posto que na antiguidade oriental apenas um era livre; ora, como a Liberdade de um somente se efetiva ali onde encontra a Liberdade de outro, a Liberdade somente começa a se tornar efetiva no Mundo Grego, mais precisamente na democracia ateniense, onde alguns poucos se encontram na Ágora e compartilham entre si a liberdade; o Mundo Romano traz a liberdade à universalidade, contudo apenas na forma da lei, e somente com o Reino Germânico essa universalidade se efetiva — nunca é demais lembrar que o Germânico aqui não se pode reduzir à alemão, pois diz respeito ao âmbito dos países que encarnam plenamente o princípio da liberdade burguesa, bem traduzido na Sociedade Civil Burguesa, conforme sua Filosofia do Direito  (São Paulo: Martins Fontes, 2000).

Não gostaria de me repetir, parece às vezes apenas pernóstica uma autocitação, daí prefiro tão somente remeter ao artigo já escrito: Fukuyama e o fim da história - Distorções ou Más Interpretações? , onde trato em detalhes a minha argumentação contra uma das acusações mais pueris à Filosofia da História de Hegel, isto é, o fim da história.

Acredito que a contribuição mais relevante da Filosofia da História de Hegel seja a de que a Razão governa a História. Convém, no entanto, que se faça a advertência de que não há nisso nem um apriorismo determinista, nem um Deus ou Providência Divina que usurpando a liberdade humana conduzisse como um senhor de marionetes a humanidade na consecução de seus desígnios. Com efeito, se trata da Razão dialética, aquela da qual se diz ser uma Razão ampliada, capaz de conter em si até mesmo a variedade dos psiquismos, em virtude de que a História nem é um passeio no parque e tampouco uma linha reta ascendente, antes é melhor representada como uma espiral ascendente, que marca o desenvolvimento da humanidade em busca da realização da ideia de Liberdade, meta semelhante àquela cantada por Gilberto Gil: quando o poeta diz meta pode estar dizendo o inatingível; um desenvolvimento que se faz por crises, a força do negativo, que o espírito da humanidade, enquanto espírito verdadeiro, encara de frente e suprassume.

Vale destacar, no todo das proposições, a de que a história da humanidade é produto de todos, mas apenas alguns a conduzem, e esses alguns (homens históricos) embora persigam fins egoístas, realizam na verdade as aspirações de todos — a astúcia da Razão.

 

IHU On-Line - Como podemos entender a importância desse escrito dentro da Weltanschauung hegeliana, tomando em consideração ter sido publicada postumamente?

Alfredo de Oliveira Moraes - Ao contrário da Filosofia do Direito, na qual o próprio Hegel admite ter escrito de forma a tornar a obra obscura, com o fim de vencer a censura para assegurar a sua publicação, nas Lições de Filosofia da História Universal, temos um texto poético, claro e distinto, dito cartesianamente; não obstante, nele os conceitos, categorias e elementos do Sistema hegeliano não aparecem em seu processo de gestação, ali se encontram como parte de um discurso que pressupõe o seu conhecimento, o que leva o leitor menos avisado a julgar que compreende o texto prescindindo das obras basilares que o antecederam. Finalmente, é preciso rememorar aqui as últimas palavras de Hegel da sua Introdução Geral das citadas Lições: “Porquanto tratamos da vida do espírito e consideramos tudo na história universal como sua manifestação, sempre nos ocupamos do presente quando percorremos o passado, por grande que seja. A filosofia trata do presente, do real efetivo. O espírito segue tendo, em seu fundo atual, os momentos que parece ter atrás de si. Tais como os tem percorrido na história, assim tem de os percorrer no presente, no conceito de si mesmo.” Esse é o ponto, talvez jamais tenhamos tido tanta necessidade de voltar a Hegel quanto no presente, e recuperar o seu princípio fundamental de que a Filosofia tem como tarefa essencial traduzir o seu tempo em Conceito.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição