Edição 430 | 21 Outubro 2013

O problema de uma interpretação filosófica da história em Hegel

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Márcia Junges e Luciano Gallas

A professora e filósofa Marly Carvalho Soares revisita a bibliografia de Hegel para refletir sobre os conceitos e os movimentos realizados pelo autor na obra Filosofia da História

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a professora e filósofa Marly Carvalho Soares faz uma reflexão sobre a estrutura e o movimento do discurso presentes na obra Filosofia da História, de Hegel, revisitando, para isso, a bibliografia deste pensador. “A leitura sobre a Filosofia da História se tornou um texto predominante para a atualidade do pensamento hegeliano, nestes quase 200 anos de sua existência, e um texto obrigatório para a leitura da nossa conjuntura histórica mundial hoje em crise, quando nos oferece ideias e métodos para a explicação e compreensão do nosso tempo e orientação para o nosso agir”, afirma ela.

A professora cita Robert S. Hartman  para demonstrar que a utopia de criarmos uma civilização humanista já foi gestada por Kant , Fichte  e, particularmente, por Hegel: “em Hegel, a filosofia e a história se encontram. Ele foi o notável filósofo da história e também o historiador da filosofia. Mas, acima de tudo isso, ele foi o filósofo que decididamente mudou a História. Não há um único grande sistema político que tenha resistido à sua influência”. Conforme Marly Carvalho Soares, de 1830 até hoje o itinerário filosófico de Hegel tem recebido várias interpretações, o que provoca uma disputa acirrada de posições e oposições e a descoberta de outros novos aspectos, a ponto de oporem-se o Hegel teólogo da direita hegeliana e o Hegel crítico da esquerda hegeliana .

Assim, segundo destaca a professora, “ao Hegel do Sistema que o século XIX conheceu seguiu-se o Hegel filósofo da vida, proposto, no começo deste século, por Wilhelm Dilthey . No segundo pós-guerra, eleva-se a figura do Hegel filósofo da consciência histórica da Fenomenologia do Espírito, ao qual sucede o filósofo do conceito da Ciência da Lógica. Hoje avulta, entre outras, a imagem do Hegel intérprete da sociedade pós-revolucionária, como bem reforça Weil  ao libertar o pensamento político de Hegel do espaço interpretativo das duas perspectivas opostas: liberalismo e marxismo, seguido por Ritter  e Marcuse  quando acentuam o caráter revolucionário do pensamento hegeliano, onde já surge a compreensão da razão na história”.

Marly Carvalho Soares é professora titular da Universidade Estadual do Ceará – UECE. É graduada em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Fortaleza, em Teologia pelo Instituto de Ciências Religiosas e em Pedagogia pela UECE. Na Universidade Federal do Ceará – UFC, cursou especialização em Filosofia Política; na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, realizou mestrado em Filosofia com o título Direito e sociedade civil segundo Hegel (Fortaleza: Eduece, 2009), sob orientação de Henrique Cláudio de Lima Vaz . Doutorou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoria – PUG, em Roma. Escreveu O filósofo e o político segundo Éric Weil (Roma: Editrice Gregoriana, 1993).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual a relação entre verdade e história em Hegel?

Marly Carvalho Soares - Como captar a verdade nos acontecimentos e decifrar essa complexa realidade histórica que se apresentava aos seus olhos? Como tentativa de compreender a relação entre a verdade e a história, gostaria de trazer para a nossa reflexão o Hegel sistemático e o Hegel intérprete da História que nos possibilita uma leitura filosófica da mesma. A relação da verdade e da história só é possível de ser efetivada e compreendida a partir dos conceitos e métodos oferecidos por Hegel, como, por exemplo, a ideia de sistema e a sua forma dialética, dentro do qual a Filosofia da História tem como objeto a ideia de História, seu conceito e sua realização. O sistema, ele mesmo, não é, não tem existência. Ele é o universal. Ele só existe pelo ser, pelo conteúdo, isto é, pelas histórias que são, e estas histórias são reconhecidas como verdades relativas determinadas pelas relações. Começa assim pelo dado, mediada pela subjetividade, até chegar ao conceito. De modo que a verdade compreende essa mesma totalidade: verdade objetiva, subjetiva e filosófica. A forma não é algo de exterior e alheio ao conteúdo. O mesmo se efetiva com a história. Essa ordem lógica, esse caminho das experiências da história é, ela mesma, ciência. O propósito da filosofia é elevar a história concreta à Ciência e dar a esta relação uma estrutura lógica, isto é, sistemática. De tal maneira que o universal, isto é, a razão universal, a história no sentido mundial, seja compreendida a partir da particularidade e concluída na singularidade, constituindo assim um silogismo dialético. De tal maneira que a estrutura, tecida pela distinção dos momentos dialéticos, configurem os momentos na sua concreção lógico-histórica.

Essa articulação se concretiza a partir de um fundamento especulativo do sistema — que é a noção de ideia, ou melhor, a ideia de Razão. A ideia contém ao mesmo tempo o aspecto ideal (o conceito) e o aspecto material ou prático (a realização). De tal maneira que a História passa a ser o mundo do espírito, o mundo que o espírito produz a partir de si mesmo como uma segunda natureza e captado pela ideia — que é a verdade. Daí se deduz que a lógica estrutura o ser da história. Gostaria de reforçar isso com as palavras do próprio Hegel, quando afirma: “O verdadeiro é o todo”. Por outro lado, ainda na articulação da verdade e do existir histórico surge a tentação, ou melhor, o perigo, já constatado na modernidade e pós-modernidade, da problemática do Historicismo tanto na sua vertente gnosiológica, que enuncia uma relativização histórica da verdade, enquanto se fixa no aspecto observável e transitório do evento histórico, como também no historicismo antropológico, quando coloca todo o destino da história no protagonismo do homem, aos seus produtos e criações. O idealismo hegeliano é a tentativa de compreender e explicar a história entendida como desdobramento e realização da razão dialética. A História se converte em instância última, pois a Razão não é exterior nem transcendente, mas imanente ao processo histórico . 

 

IHU On-Line - Em outra entrevista concedida à revista IHU, a senhora afirma que “para Hegel, não é a verdade que é histórica, mas a História que é verdadeira”. Como podemos compreender esta constatação?

Marly Carvalho Soares - O que seria de uma História visada por meio de um silogismo dialético (conceito) e uma História concreta? Como Hegel compreendeu a História real? A História é verdadeira porque partimos em primeiro lugar da história vivida, do que é. Essa experiência concreta eleva-se à ciência, que transforma o dado em objeto, em lei universal, história explicada, e em seguida dá-se a tentativa da compreensão filosófica que supera todos os momentos particulares e apresenta a compreensão sistemática da História, através da estrutura dialética da Verdade, ou seja, da Razão dialética imanente que atravessa todo o itinerário do vivido ao pensado. Apresenta-se, assim, um fio condutor que tece os referidos momentos. Primeiro o fato no horizonte da busca da verdade. Antes de pensar a verdade, a verdade já é vivida. Essa tentativa de articular sistematicamente o tempo, tempo vivido, tempo explicado e tempo pensado, já alcança uma adequada expressão quando se articulam sistematicamente os diversos momentos do Lógico e do Histórico. Parte-se de formas imediatas para uma forma racional. Supera-se, assim, a perspectiva e o sentido do relativismo historicista e ainda o perigo de engessar a história num determinado momento de formas imediatas. Tem-se então a relação da História e do Sistema. Parte-se do fato para a compreensão do real através de uma razão dialética, pois o pensamento é livre e caminha em busca da Verdade . A filosofia da História pretende trazer uma inteligibilidade de ordem superior ao conhecimento histórico.

 

IHU On-Line - Como podemos entender que a história, em Hegel, seja sinônimo de progresso e que este se expresse em níveis de consciência cujo objeto é a liberdade?

Marly Carvalho Soares - A ideia de progresso, que constituía um elemento essencial do iluminismo francês, interpretava os fatos históricos como sinais que indicavam o caminho do Homem em direção à razão. A verdade ainda estava fora do terreno dos fatos, ainda estava em um estado de futuro. O processo implicava que a situação estabelecida fosse negada, e não conservada. O progresso ainda é visto como acumulação quantitativa de obras humanas, de técnicas e de formas de organização, ideia que predomina na civilização tecnológica, como a que vivemos hoje. Já em Hegel o progresso se exprime em níveis de consciência e o objeto dessa consciência é a liberdade, como bem explica Lima Vaz ao longo do seu texto . De modo que o espírito humano parte em primeiro lugar da inconsciência em relação ao tempo histórico, e aos poucos vai tomando consciência do tempo, da historicidade objetiva, quando descobre que o mundo não é eterno, mas está sujeito a mudanças, guerras e revoluções, e por fim a compreensão da temporalidade subjetiva. O tempo histórico é, aqui, o lugar da manifestação sempre mais nítida de um sentido que não pode ser pensado senão como manifestação da ideia que torna pensável a historicidade humana.

É bom lembrar a significação do termo “consciência” no sentido hegeliano. Não se trata de uma consciência psicológica individual, nem de uma consciência moral, mas sim da necessária reflexão sobre o sentido presente na ação histórica. O homem torna-se sujeito da História, isto é, responsável pela captação dos diversos sentidos na história e na cultura.

Estes níveis de consciência se encontram no todo do seu sistema filosófico que tem como objeto a compreensão e efetivação da liberdade, ou seja, do lógico, à natureza e ao espírito através do tempo. Explicitando melhor, do Sistema apreendemos o conceito e da História fixaremos o tempo. Esta explicitação é elaborada ao termo da Fenomenologia do Espírito, que expõe o caminho da consciência para o Saber e que apresenta o conceito na sua forma do ser-aí, que se manifesta necessariamente no tempo, o que faz com que o Espírito se impulsione em busca da supressão do tempo. O tempo é o conceito no seu outro, na sua exterioridade , o que torna possível a sucessão temporal como sucessão histórica, como história verdadeira. Já na Filosofia do Direito , emerge a ideia de liberdade tanto na sua forma como no seu conteúdo. Esse processo da relação dos momentos dialéticos da Lógica: ser, essência, conceito, com a forma lógica do silogismo hegeliano: universal, particular e singular, será manifestado na ideia do Direito. Aparece a distinção entre o conceito abstrato, próprio do entendimento, e o conceito na sua forma sistemática. O que expõe o desenvolvimento da ideia no seu conceito, o caminho da liberdade na sua efetivação. Ele vai pensar a História para ver como a liberdade vem se realizando no tempo. Hegel faz uma distinção entre a realidade enquanto expressa na ideia, e as diversas figurações da ideia na realidade. Ou seja, entre conceito e conteúdo, entre a lógica e a História. A partir dessa relação é elaborada a estrutura da Filosofia do Direito como movimentos dialéticos da ideia da liberdade realizada, é o mundo do espírito, mundo que o espírito produz a partir dele mesmo, constituindo assim uma segunda natureza.

Hegel pensa a realização da liberdade em três níveis no contexto da Filosofia do Direito. No primeiro, a vontade livre é imediata, enquanto vontade individual, é a pessoa que se manifesta no reconhecimento imediato pela instituição jurídica do contrato; a segunda manifestação como liberdade subjetiva, reflexiva em si de tal maneira que possua dentro de si sua existência e por isto mesmo determinada como particular, é o direito da vontade subjetiva kantiana; e, por fim, a vontade substancial, a efetivação da razão livre e universal na cultura e na história.

Porém é nas Lições sobre a Filosofia da História onde Hegel define a história como progresso na consciência da liberdade, quando apresenta o grau de liberdade dos povos nos quatro reinos históricos mundiais: o oriental, o grego, o romano e o germânico. A História é, pois, progresso que se exprime em níveis de consciência, e o objeto dessa consciência é a liberdade .

 

IHU On-Line - Qual é a fundamentação teórica e que autores inspiram a problemática hegeliana?

Marly Carvalho Soares - Se filosofar é pensar, pensar com a razão, então a filosofia da História é pensar a História, e pensar a História é pensar o homem. Nenhum ser humano escapa a esta exigência. Tudo o que acontece no tempo, acontece no ser humano. Há uma relação recíproca entre a história e o homem. Falando da história, fala-se do homem. Se a história é racional, o homem é racional. De modo que, na esteira de um Kant, a História continua a ser o lugar da realização da liberdade, e a liberdade se realiza através das paixões. Hegel insiste no papel dos grandes homens para fazer a História avançar.

A fundamentação do pensar hegeliano consiste exatamente em compreender a estrutura do sistema filosófico na sua relação, enquanto articulação dos termos distintos dos movimentos dialéticos da Ideia Absoluta e as suas figuras, que são exatamente a singularizarão dos momentos na sua concreção lógica e histórica. Isto é, a relação entre forma (a Lógica) e conteúdo (natureza e espírito). A compreensão dessa relação, ora priorizando a forma, ora o conteúdo, desencadeou na história um leque de interpretações e comportamentos. Do racional ao irracional, do religioso ao irreligioso, como vimos na história. Tornaram-se, por um lado, conservadores e, por outro lado, liberais, hegelianos de direita e hegelianos de esquerda. Hoje essa problemática ainda guarda o seu peso, mas a compreensão do sistema hegeliano está consolidada como o sistema da liberdade, como bem elaborou Lima Vaz  e Eric Wei l a partir de uma interpretação responsável e rigorosa dos textos hegelianos.

 

IHU On-Line - Qual é a novidade de sua concepção de que a história tem sentido e é permeada de racionalidade?

Marly Carvalho Soares - A História concreta é compreendida como conteúdo da racionalidade. Isto é, cada fenômeno histórico é um momento da manifestação da razão, que é compreendida como razão universal e mantém um fio condutor, isto é, um caráter teleológico. Embora, na concretude, haja ações contingentes e fatos esmagadores, como se comprovou na história, ainda é a forma da racionalidade, e não seu conteúdo, que mantém a sua força e primazia. Aqui está o otimismo hegeliano. A razão vencerá o mundo, e não o absurdo, embora passe pelo absurdo. A sua plataforma sistemática e dialética avança para além da parcialidade dos momentos históricos.

 

IHU On-Line - Em que aspectos pode se compreender a história em Hegel como efetivação da razão e palco da manifestação da liberdade?

Marly Carvalho Soares - No primeiro aspecto, podemos retomar o que já explicamos ao longo da entrevista, as leis da lógica são a razão. Como elas são ao mesmo tempo as do mundo, tudo o que é real é racional e tudo que é racional é real. A lógica, portanto, coincide com a ontologia. Já que o pensamento progride segundo as suas próprias leis, que são as leis do mundo, tudo que é deve ser e tudo é como deveria ser. Assim a história é a autodeterminação da ideia em progresso, o autodesenvolvimento do Espírito em progresso. Como o Espírito é livre por sua natureza interior, a História é o progresso da liberdade.

 

IHU On-Line - Qual a relação dessa manifestação da liberdade com o espírito objetivo?

Marly Carvalho Soares - A ciência filosófica do direito tem por objeto a ideia do direito. É uma parte da Filosofia que tem por tarefa desenvolver, a partir do conceito, a ideia de liberdade. Portanto, ciência da realização objetiva, cultural e histórica da liberdade. Por sua vez, o espírito objetivo é uma secção da Filosofia do Espírito, elaborado na obra Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio (1830), que trata em primeiro lugar da essência do espírito, não só enquanto ideia lógica, formalmente a liberdade, livre somente em si, independência da exterioridade, mas na sua efetividade, no seu mundo a produzir e produzido por ele. “A liberdade do espírito, porém, não é simplesmente a independência do Outro, conquistada fora do Outro, mas no Outro; não chega à efetividade pela fuga perante o Outro, mas pela vitória sobre ele” . O Espírito objetivo é o ser-aí da liberdade, é a pessoa que tem na realidade exterior a sua liberdade. A objetividade do espírito consiste no seu direito . Em ambas as obras, trata-se do homem nas relações, partindo do direito abstrato, direito às coisas mediado pela moralidade, direito da vontade subjetiva até a eticidade que contempla o direito do cidadão, isto é, o homem nas Instituições: família, sociedade civil e o Estado em busca da efetivação de conciliar a liberdade individual com o Estado que supõe a liberdade integral do homem, ou seja, um mundo ético. Tanto o texto da Filosofia do Direito como o Espírito Objetivo têm em comum a efetivação da liberdade, enquanto intento de conciliar o reino das necessidades e o reino da liberdade. A liberdade é uma necessidade presente e necessária, e o Espírito sabe que é livre. Sai da sua subjetividade para a objetividade.

 

IHU On-Line - Por que a história em Hegel ocupa um lugar privilegiado no pensamento filosófico?

Marly Carvalho Soares - A concepção hegeliana da História constitui um texto obrigatório tanto ontem como hoje, que abre um horizonte, que contempla a História como sistema e como dialética. Na definição de sistema, consideramos três ideias fundamentais: a de totalidade, a de unidade e a de interdependência das partes constitutivas. Porém, a sistematicidade do sistema consiste exatamente na conexão, na interdependência dos elementos que o constituem. Cada lugar no todo desempenha uma função determinada no conjunto, que se mantém sempre aberto, o que consolida a concepção dialética da História. Pois, se o sistema fosse fechado, como muitas vezes se quis atribuir a Hegel, seria incompatível com as noções de processo, desenvolvimento e progresso que caracterizam a história. A filosofia trouxe “a ideia de que a razão governa o mundo” e que, em consequência, a história universal também se desenrola racionalmente. Daí a possibilidade de articular o pensar e agir humano no seu percurso filosófico na sua unidade, que contempla a identidade e diferença no pensamento e no tempo. O tempo é contínuo e irreversível, codificado pela memória do passado, na percepção do presente e na projeção do futuro. A tradição liga-se com a modernidade, a transcendência com a imanência. Mas a exigência fundamental, para além de todos os desafios, é a de manter a consciência de uma inteligibilidade imanente na História, onde cada situação atual exige a compreensão de todas as fases que a constituem, uma vez que as épocas estão sempre implicadas umas nas outras, e não reduzir a História ao mero relato ou registro dos fatos.

 

IHU On-Line - É correto afirmar que Hegel é o criador do paradigma historiocêntrico?

Marly Carvalho Soares - A nossa afirmação se fundamenta em uma leitura que acompanha todo o itinerário filosófico, desde a metafísica clássica até a filosofia hegeliana. Nesse arco de compreensão, o critério a ser utilizado é exatamente a maneira de pensar o pensado própria de cada tempo. De tal maneira que, na perspectiva do pensamento cosmocêntrico, a maneira de pensar tinha a tendência de ver a natureza e a sociedade como realidades objetivas, independentes da intervenção do homem. Significa que a maneira de pensar tinha como referência a realidade natural, espácio-temporal. Já no pensamento moderno, a partir de Descartes  até Kant, a tendência é ver tudo a partir da centralidade do sujeito, o que caracteriza a reviravolta antropocêntrica. Esta reviravolta vai provocar uma mudança no homem, que de objeto passa a ser sujeito do mundo, e o mundo torna-se objeto de manipulação teórica e prática do domínio do homem. Tudo é criação do homem. Essa posição, apesar de ser um imenso progresso, corre, contudo, o risco de parcialização, já que coloca todo o peso no sujeito individual, constituindo assim uma subjetividade isolada e esquecendo que este sujeito existe inserido num contexto sócio-histórico que o condiciona. A originalidade hegeliana foi exatamente retomar todas essas maneiras de pensar e acrescentar que o homem é um ser de relações, e que, portanto, só é possível pensá-lo quando interrogamos pelo sentido das devidas relações. Essa nova maneira de pensar a totalidade implica no movimento dialético. Como bem afirma “Manfredo ”, a subjetividade se autogera gerando um mundo objetivo, como outras subjetividades, ou seja, ela só chega a si mesma através de “mediações”, através do caminho indireto, que passa pela construção de obras com outras subjetividades .

De maneira que a História já foi gestada em Kant, enquanto processo de espiritualização, que consiste na passagem da natureza à liberdade, mas a sua concretude veio à luz com Hegel quando concebe a História como sistema, utiliza a dialética, parte da ideia que a razão governa o mundo e que a história universal também se desenrola racionalmente. Por isso Hegel é considerado o criador do paradigma historiocêntrico. A concepção da História em Hegel tem o mérito de captar um trânsito que vai do paradigma do ser (fato), mediado pelo paradigma da consciência (sujeito), e avança pelo paradigma da linguagem (intersubjetividade). Daí se poder dialogar com a tradição e com a contemporaneidade se quiser construir um discurso coerente e compreensível para os contemporâneos. Está em jogo captar corretamente a experiência significativa das pessoas do nosso tempo na natural ambivalência de valores quando cruzam-se vivências e palavras.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Marly Carvalho Soares - A partir dessa compreensão dialética da história podemos deduzir que o pensamento de Hegel é o ponto de chegada, enquanto superação de toda a filosofia clássica e moderna, e um ponto de partida para toda a problemática da filosofia contemporânea enquanto tenta trabalhar uma dimensão do seu sistema, no seu fragmento, isolando-o do seu sentido e contexto, ou, enquanto totalidade, esquecendo-se que o todo é constituído por partes articuladas a partir de sua identidade e diferença, evitando assim a possível fragmentação do seu pensamento.

Para entendermos a dialética da História se faz necessário, antes, compreender os termos dialéticos que formam essa estrutura subjacente como mediação e condição de possibilidade de compreensão de qualquer texto hegeliano. É essa estrutura que sustenta e ordena a exposição de qualquer conteúdo. Não se trata de um método, que se aplica a um conteúdo, a partir do exterior, mas exatamente consiste em captar o movimento imanente desse conteúdo. Essa estrutura se encontra em todos os textos hegelianos. Os textos apenas explicitam o movimento constitutivo do itinerário dialético nos seus dois aspectos: o formal e o teleológico. Aqui a forma já está no conteúdo. A forma do pensamento dialético é exposta por Hegel na Lógica do Conceito ou Lógica subjetiva. De tal maneira que o processo parta do universal abstrato, mediado pelo particular até o universal concreto.

Todos os pressupostos acima já elaborados tomam corpo na compreensão e no campo da História. Só assim compreenderemos as Lições sobre a Filosofia da História. O texto é polêmico e o seu conteúdo está no centro do problema epistemológico. Reconhecendo a si mesmo, revela a sucessão efetiva e organizada do Ser — devir da Humanidade. Com esta postura, rejeita todas as demais espécies de histórias que ficaram presas a preconceitos e fatos aparentes. A razão governa o mundo e, por consequência, a História é Universal.

Hegel é o filósofo da História. Nada pode ser compreendido fora dela. Ela é a efetivação do Espírito Absoluto, e não a ressurreição integral do passado. Nós vivemos o passado na representação e imaginação, não há um retorno real ao passado. O que está morto está morto e não ressuscitará. As épocas passadas desapareceram para sempre. A representação, porém, não é a vida. O que era a vida no passado? E como chegou até nós através da representação do historiador? A História não pode ser reduzida a um saber dela, apenas a vida presente a revela, pois é ela que manifesta o todo nos seus diversos momentos.

Há três métodos de escrever a História, que podem ser tomados como descrição, explicação e compreensão. Para Hegel, a História se ramifica de diferentes modalidades, por conseguinte, às vezes é original, outras reflexiva e outras filosófica . A História filosófica revivifica todas as outras formas e, através desse trabalho, é afetada e, ela mesma, renovada. Os atores históricos realizam, em suas obras, o que há de universal, sacrificando sua individualidade. É o universal que fala através deles. Assim, aqueles que relatam os seus feitos participam desse mesmo universal, como se estivesse agindo no lugar daqueles.

Hegel compara o desenrolar da história com a vida humana individual, e a história filosófica como um processo de recordação de um ancião. O ancião não se sente fora de lugar no mundo das recordações, pelo contrário, se refugia nelas. Supera e domina o seu passado, mas ao mesmo tempo o conserva, lhe faz justiça e o assume. Através desse processo de interiorização e concentração, o passado móvel se encontra reconciliado no espírito vivo de uma pessoa viva. A consciência possibilita ao homem reviver, no pensamento, sua infância, sem recair nela. Por ser velho, o homem não deixou de ser criança, nem adolescente, nem jovem, nem adulto, pois, de fase em fase, o anterior é conservado, superado e elevado. Eis o segredo do processo dialético de desenvolvimento do ser humano. Hegel faz uma analogia: aquilo que ocorre na história individual tem o seu correspondente na história universal.

Leia Mais...

- A síntese e a vivência de quatro razões. Entrevista com Marly Carvalho Soares, na edição 374 da IHU On-Line, de 26-09-2011.

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