Edição 427 | 16 Setembro 2013

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Redação

Entrevistas especiais feitas pela IHU On-Line no período de 05-09-2013 a 13-09-2013, disponíveis nas Entrevistas do Dia do sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

A universidade e a formação cidadã. Um divórcio

Entrevista especial com Franklin Leopoldo e Silva, graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo — USP, onde leciona.

Confira nas notícias do dia 05-09-2013

“A universidade enfrenta dificuldade porque se vive numa época em que tudo o que é ética e politicamente necessário é considerado irrelevante”, constata o filósofo Franklin Leopoldo e Silva. “A universidade praticamente perdeu seu caráter de instituição política graças ao avanço da mentalidade mercantil e pragmática que dispensa a formação ético-política e privilegia a informação e o treinamento para o mercado”, pontua ele. Segundo o docente, isso acontece porque a universidade deixou de “se relacionar” com a sociedade e passou a “se subordinar a ela”, renunciando a “sua lógica interna e sua natureza específica, assimilando de fora parâmetros que venham a inseri-la no modelo hegemônico de sociedade, que, na época atual, é o mercado”. E acrescenta: “Esta recusa de si mesma a desfigura e a torna uma unidade produtiva na funcionalidade do mercado, sem qualquer referência ética e política que definiria seu perfil institucional”. Na avaliação do filósofo, a universidade caminha no “sentido de divorciar o treinamento profissional da formação do cidadão, o que pode produzir competências específicas e, ao mesmo tempo, prejudicar a cidadania, ou simplificá-la, adaptando-a às relações exclusivamente mercadológicas”. Por conta desse cenário, “as ciências humanas sofrem, evidentemente, uma pressão no sentido de se conformar a tais parâmetros, o que significa o esvaziamento de sua significação. A ‘sustentabilidade’ das áreas de ciências humanas fica assim dependendo daquelas que ‘realmente importam’: científicas e tecnológicas, criando modelos e referências que, se implantados, deformam o perfil das ciências humanas”.

 

Programa Mais Médicos e os problemas estruturais da saúde pública brasileira

Entrevista especial com Nêmora Barcellos, graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFRGS e mestre e doutora em Medicina: Ciências Médicas pela mesma universidade. Atualmente é professora do Curso de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Unisinos e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFRGS.

Confira nas notícias do dia 07-09-2013

“Nossas universidades formam profissionais para os centros urbanos, voltados às especialidades e subespecialidades e muito distantes da Atenção Primária à Saúde, a idealizada porta de entrada do sistema para toda a população brasileira”, afirma a médica Nêmora Barcellos. “O Programa Mais Médicos, embora possa suprir necessidades imediatas de muitos municípios brasileiros, necessita de análise mais profunda, uma vez que o aumento isolado do número de profissionais médicos não será capaz de resolver os problemas estruturais enfrentados por este sistema”, declara ela. Na sua avaliação, o ingresso maciço de médicos no país para atuar na Atenção Básica poderá “contribuir de forma decisiva no caminho da concretização de um SUS mais justo e equânime”. Para a médica, a falta de acesso aos serviços de saúde “vem empurrando cada vez mais a população, mesmo sem condições de arcar com as despesas de um plano de saúde, em direção ao setor privado. Este deveria ser complementar ao sistema público, e não a saída para um SUS ineficiente e muitas vezes inacessível”. Nêmora pontua ainda que “nos últimos dez anos, o Brasil acumulou uma carência de 54 mil médicos e necessitaria contratar 168.424 profissionais para atingir o patamar da Inglaterra, que é de 2,7 profissionais por mil habitantes”.

 

Dom Helder Câmara: “A síntese da melhor tradição espiritual da América Latina”

Entrevista especial com Ivanir Rampon, graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia e Pastoral — Itepa Faculdades, em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo — UPF, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia — FAJE e doutor em Teologia pela Pontifícia Universitas Gregoriana, Roma. Atualmente leciona no Itepa, em Passo Fundo — RS.

Confira nas notícias do dia 08-09-2013

“Sua fonte foi a religiosidade tradicional católica, principalmente do povo cearense e nordestino. Ele apreciava as devoções populares à Eucaristia, à Maria, aos santos, aos anjos e ao Papa. O núcleo da sua espiritualidade era o amor a Deus e às criaturas”, menciona o teólogo Ivanir Rampon. “Dom Helder foi um místico original”, enfatiza o padre Rampon, autor do livro O caminho espiritual de Dom Helder Câmara (São Paulo: Paulinas, 2013). Para Rampon, a mística e a espiritualidade do arcebispo emérito de Olinda e Recife, que faleceu em 27 de agosto de 1999, são as “facetas mais importantes” de Dom Helder, que, “antes de ser padre ou bispo, antes de ser o guia da Igreja no Brasil, antes de ser o defensor dos pobres, antes de ser o promotor da justiça e dos direitos humanos contra toda a opressão, foi um místico”. Sem essa característica, acentua, “provavelmente, ele não teria sido o bispo das favelas do Rio de Janeiro, o arcebispo dos pobres no Nordeste, o advogado do Terceiro Mundo, o apóstolo da não violência, a esperança de uma sociedade renovada segundo o ideal cristão, o poeta-místico e profeta de uma fé jovem e forte”.

 

PEC 215: Uma ação deliberada contra a Constituição Federal

Entrevista especial com Daniel Pierri, graduado e mestre em Antropologia pela Universidade de São Paulo — USP, atualmente associado ao Centro de Estudos Ameríndios — CESTA/USP e colaborador do Centro de Trabalho Indigenista no Programa Guarani Sul e Sudeste.

Confira nas notícias do dia 09-09-2013

“O Congresso é dominado por grandes proprietários de terra, por ruralistas que farão de tudo para barrar as demarcações de terras indígenas e fazer com que se perpetuem os conflitos entre ruralistas e indígenas”, diz o antropólogo Daniel Pierri.

A PEC 215 “é um absurdo jurídico e político”, complementa. Segundo ele, ao pretender passar do Executivo para o Legislativo a homologação das terras indígenas e as matérias relacionadas a quilombos e povos tradicionais, a PEC 215 “desvirtua o conceito de direito originário”, ou seja, de que os povos tradicionais têm o direito sobre as terras que ocupam. Para Pierri, a criação de uma Comissão Especial referente à Proposta de Emenda à Constituição — PEC 215 pela Câmara dos Deputados demonstra “a postura tímida do governo” em relação à questão indígena e a revelação de uma “agenda clara de caça aos direitos indígenas, com a intenção de restringir os direitos e perpetuar os conflitos que estão instalados em algumas regiões do país”. Na avaliação do antropólogo, falta uma postura da presidente Dilma em relação à PEC. “Ela deixa os ministros tratarem disso, eles batem a cabeça uns com os outros e não sabemos qual que é a posição do Executivo como um todo”. E dispara: “Certamente uma postura muito mais incisiva do Executivo poderia ter evitado a criação dessa Comissão”.

 

Pré-sal e a política entreguista do Estado brasileiro

Entrevista especial com Paulo Metri, graduado em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — PUC-Rio e conselheiro do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.

Confira nas notícias do dia 10-09-2013

“Se for feita uma enquete nas ruas do Brasil, de norte a sul, perguntando ao povo: ‘O que você acha sobre o leilão de Libra, que irá acontecer em 21 de outubro próximo?’, será constatado que 99% da população desconhece o que é Libra. Um assunto tão relevante mereceria, no mínimo, um plebiscito bem organizado para a decisão ser tomada”, assinala Paulo Metri. Apesar de a Petrobras deter 91% das reservas do petróleo brasileiro, os contratos de concessão assinados entre o Estado brasileiro e as petroleiras internacionais fizeram com que o país perdesse “1,54 bilhão de barris de petróleo” em 2012, informa o engenheiro. Segundo ele, “as petrolíferas estrangeiras impuseram como condição para vir para o Brasil a exportação do petróleo produzido. Os governos aceitaram e continuam aceitando esta condição. Assim, nenhuma refinaria é construída por elas no Brasil. A razão é óbvia, pois a maioria possui refinarias nos seus países de origem, que dependem do petróleo vindo do exterior”. Paulo Metri também critica o leilão de Libra, o qual irá conceder áreas para a exploração de petróleo e gás natural na região do pré-sal, na Bacia de Santos — SP. “Sobre este leilão, que corresponde à alienação de uma riqueza no valor de, no mínimo, US$ 1 trilhão, o povo não sabe de nada. Libra é um campo com as reservas razoavelmente medidas, então não pode ser leiloado. Leilão é, na melhor das hipóteses, para blocos com perspectiva de existência de petróleo. Só no Iraque e no Brasil se leiloa petróleo conhecido existente no subsolo, sendo que, no Iraque, há tanques, caças e metralhadoras apontadas para os iraquianos. E aqui?”, questiona. Na avaliação dele, Libra “tinha que ser entregue à Petrobras, sem leilão, para esta assinar um contrato de partilha com a União, se comprometendo a remeter 80% do lucro líquido para o Fundo Social, o que nenhuma empresa privada fará”.

 

Xisto: implicações econômicas e ambientais

Entrevista especial com Luiz Fernando Scheibe, doutor em Ciências (Mineralogia e Petrologia) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

Confira nas notícias do dia 11-09-2013

A dependência energética externa dos Estados Unidos e o uso de tecnologias que possibilitam a extração do gás não convencional – conhecido popularmente como xisto – no território estadunidense têm gerado interesse de vários países em explorar essa fonte de energia. Entretanto, segundo o geólogo Luiz Fernando Scheibe, as vantagens econômicas dessa extração são apenas “aparentes”, porque a exploração do gás envolve um processo complexo e “a grande produção” dos poços só ocorre no primeiro ano. “Depois do primeiro ano de extração se produz muito pouco gás. Esses dados, inclusive, estão disponíveis no material da Agência Nacional do Petróleo - ANP. A questão é saber se o período de pagamento do investimento é tão rápido assim”, pontua o geólogo. E continua: “Há um grupo grande de cientistas que trabalham diretamente com a questão da água e que estão legitimamente muito preocupados com a possibilidade de autorização da exploração do xisto no Brasil, sem que tenhamos uma definição clara dos prejuízos que isso irá causar para os aquíferos”. De acordo com Scheibe, a comunidade científica brasileira solicitou que o xisto seja excluído do leilão energético programado para os dias 28 e 29 de novembro. Os especialistas argumentam que é preciso estudar com calma as variáveis que estão contidas na exploração. Na avaliação do pesquisador, a extração do gás não convencional “gera problemas ambientais sérios tanto do ponto de vista da contaminação do metano, como da contaminação da água que se utiliza para fazer o fraturamento hidráulico”. E acrescenta: “Querer começar a explorar o xisto no Brasil, sem uma infraestrutura adequada, sabendo que se trata de uma exploração controlada e que toda a grande produção é feita no primeiro ano, é querer se arriscar a produzir o gás e não ter o que fazer com ele”.

 

A redução da jornada e a necessária reorientação estratégica do movimento sindical

Entrevista especial com Bernardo Corrêa, sociólogo da Fundação Lauro Campos.

Confira nas notícias do dia 12-09-2013

"O banco de horas tem sido um dos principais mecanismos deste processo de não compensação e, portanto, de incremento à superexploração e à precarização da força de trabalho", constata o sociólogo. Apesar de as principais centrais sindicais apoiarem a PEC 231/95, referente à redução da jornada de trabalho, é preciso "introduzir de forma mais efetiva a discussão sobre o fim do banco de horas e a compensação justa de horas-extras", diz Bernardo Corrêa. Segundo ele, "o banco de horas tem sido um dos principais mecanismos deste processo de não compensação e, portanto, de incremento à superexploração e à precarização da força de trabalho". Na avaliação do sociólogo, "a flexibilização da jornada não tem favorecido os trabalhadores, pois tem feito com que se amplie o mecanismo de apropriação pelo capital da parte não remunerada do trabalho". Na avaliação do sociólogo, ao aceitarem o banco de horas, CUT, Força Sindical, CTB e CGT "terão uma contradição mesmo que haja a redução da jornada formal, pois esta apropriação informal e flexível do tempo livre dos trabalhadores seguirá permitindo que as empresas incrementem a taxa de exploração mediante um tempo de trabalho que não é sequer negociado". Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele enfatiza a necessidade de uma "reorientação estratégica do movimento sindical, superando o corporativismo, a cooptação por parte do Estado e a burocratização das direções sindicais, para que o movimento dos trabalhadores possa de fato reconquistar a iniciativa, única forma, a meu ver, de garantir a redução da jornada e combater sua flexibilização".

 

Programa Mais Médicos. As iniquidades sociais, a formação e o trabalho médico em questão

Entrevista especial com Alcides Silva de Miranda, especialista em Medicina da Família e Comunidade, mestre em Saúde Pública pela UECE e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. 

Confira nas notícias do dia 13-09-2013

“Mais uma estratégia incremental e parcial”, mas com “claro enfoque de enfrentamento de iniquidades sociais”. É assim que Alcides Silva de Miranda define o Programa Mais Médicos, que oferece bolsas a 4 mil médicos estrangeiros que atuarão no país. Nesta entrevista, Miranda enfatiza que a “questão primordial que se apresenta é: mesmo que o Programa Mais Médicos possa se tratar inicialmente de medida governamental específica, parcial e de cunho eleitoral, devemos buscar sua desqualificação absoluta e recusa peremptória? Ou devemos aproveitar a oportunidade da inclusão de questão tão significativa para a população brasileira, de modo a buscar a vinculação com medidas de caráter mais estruturante? Conforme o velho dito popular, deveríamos ‘jogar fora a criança, juntamente com a bacia e a água suja do banho’?”. Na avaliação dele, ao longo das duas últimas décadas, o Estado brasileiro priorizou “estratégias incrementais, parciais e transitórias para constituir e viabilizar o SUS”. Diante do atual quadro da saúde pública no país, ele enfatiza a necessidade de um “incremento na formação de especialistas em Medicina de Família e Comunidade, que ainda é insignificante. Mas, para tanto, não basta aumentar a oferta de vagas em programas de Residência Médica nesta especialidade, torna-se necessária uma política de valorização efetiva destes especialistas, a começar pelo enfrentamento das especializações precoces ocorridas já nos anos iniciais da graduação médica; torna-se imprescindível a valorização salarial e a garantia da carreira de Estado”.

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