Edição 427 | 16 Setembro 2013

O governante e o médico e a importância do prognóstico antecipado

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Márcia Junges / Tradução: Vanise Dresch

Categorias médicas foram utilizadas por Maquiavel em seu pensamento político, mas de modo transformado, observa Marie Gaille. Ao analisar uma “dinâmica do desejo nos homens”, o pensador não quis elaborar uma concepção de “natureza humana”

“Maquiavel não retoma stricto sensu a definição médica da saúde e da doença, nem a distinção entre os quatro humores, dominante na época. Em outras palavras, em seu pensamento, a transferência de categorias médicas para o pensamento político não ocorre sem transformação”, analisa Maire Gaille, filósofa francesa, que concedeu a entrevista a seguir, por e-mail, à IHU On-Line. “Em Maquiavel, a transferência de categorias médicas para o pensamento político não tem como único objeto essa metáfora do corpo político. Associada à imagem do corpo misto, encontramos em Maquiavel, de fato, uma tentativa para pensar as transformações que a pólis sofre”, adverte. E acrescenta: “Diante dessa história essencialmente instável das pólis, o governante e o pensador político, segundo Maquiavel, devem se assemelhar ao médico e tomar emprestado à arte definida pela tradição hipocrático-galênica diversas competências: a de prever ou fazer o prognóstico antecipado (“ver o invisível através do visível”), a de diagnosticar o mal quando ele se manifesta e, por fim, a de tratar em função da gravidade do mal”. Gaille analisa, também, a relação dos escritos maquiavelianos com a secularização. Segundo ela, por várias vezes se tomou Maquiavel como um pensador ateu, “alguém que teria dado fim, em termos gramscianos, ao reinado da transcendência. Incontestavelmente, ele concentra sua atenção nas condições humanas da ação política. No entanto, não se pode afirmar sem nuanças que, para ele, o campo político seja isento de qualquer forma de intervenção divina”. E arremata: “Muito mais latente em sua reflexão é o papel político que uma religião pode desempenhar”.

Marie Gaille é diretora de Pesquisa no SPHERE — Centro Nacional de Pesquisa Científica — Universidade Paris Diderot, na França. É autora de, entre outros, Liberté et conflit civil, la politique machiavélienne entre histoire et médecine (Paris, Champion, 2004), Le gouvernement mixte, de l’idéal politique au monstre constitutionnel en Europe (13è-17è siècles) (Presses Universitaires de Saint-Étienne, 2005) e Machiavel, biographie (Paris, Tallandier, 2005), que foi traduzido para o português como Maquiavel (Lisboa, Edições 70, 2008).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em que sentido a filosofia política e moral está ligada à questão da medicina?

Marie Gaille - A filosofia política e moral, a meu ver, está ligada à questão da medicina de múltiplas maneiras. Como mostra a história da filosofia, que têm suas raízes na herança grega antiga, medicina e política intercambiam suas categorias. Os vaivéns acontecem nos dois sentidos. A demonstração disso, por excelência, é um trecho de Alcmeon de Crotona (500 a.C.), médico pré-socrático que emprega os termos gregos isonomia e monarchia para designar a saúde e a doença, sem que se possa saber qual foi a primeira, a medicina ou a política, a importar o vocabulário da outra. O Corpus hipocrático inclui muitos termos de origem política ou termos, tais como dynamis, que têm um significado indiferentemente político ou médico. A constatação dessas trocas entre medicina e política fez dos empréstimos do pensamento político à teoria médica, desde Platão, um campo de estudos por inteiro na história da filosofia política. Esta se interessa tanto pelo conteúdo dessas trocas, quanto pelas diversas funções que cumpre a importação de categorias médicas ao pensamento político. Em particular, a metáfora orgânica do “corpo político” e aquela, correlativa, de suas “doenças” ou “patologias” foram temas de investigações recorrentes.

 

Discurso político e moral

A análise das metáforas médicas presentes no pensamento político repousa na ideia de uma transferência de categorias, esquemas e representações de um universo de pensamento ao outro. Ora, a leitura do corpus das obras médicas sugere que, em parte, a teoria médica já é, em si mesma, portadora de um discurso axiológico ao mesmo tempo político e moral: ela propõe normas de vida aos indivíduos, apresenta uma antropologia normativa que distingue e classifica, hierarquiza e ordena os homens, indicando até mesmo, às vezes, uma organização institucional de acordo com essa categorização.

Para mostrar quanto a proposta de normas de vida é inerente ao discurso médico, basta que o filósofo observe a história da medicina, que evidencia perfeitamente a natureza e o conteúdo do discurso sobre a alimentação. Esse tipo de discurso herda uma tradição que remonta à Antiguidade. Em sua obra Ars medica, Galeno, por sua vez, determinou os seis elementos da saúde: o ar, a alimentação e a bebida, o sono e a vigília, o movimento e o repouso, a evacuação do corpo (inclusive pela atividade sexual), as paixões da alma ou as emoções. Esses seis elementos fazem parte, no século XVII, da vulgata da arte de prevenir as doenças. O tratado hipocrático do Regime inaugura, portanto, um discurso médico preventivo, que adquiriu uma importante posteridade na Europa, enunciado geralmente por médicos, mas também, às vezes, por filósofos ou religiosos.

 

Medicina e filosofia moral

Esse discurso médico tem outra faceta, um pouco menos conhecida, que contém uma concepção normativa da existência ou das existências humana(s), conforme o gênero, a idade, a origem geográfica, etc. O estudo proposto por M. Vegetti, “Classificare uomini”, em 1978, indica que tal discurso indissociavelmente médico, político e antropológico é identificável desde a Antiguidade grega. O homem seria um comedor de pão e/ou um construtor de navio? O homem seria aquele que se casa? O homem seria um animal político? Entre outros discursos, a medicina traz alguns elementos para responder a essas perguntas, colocando no cerne de sua análise a mão, o coração e o sangue, o cérebro. Diante das interrogações: “Existem diferenças entre certos homens? Os homens podem ser classificados e hierarquizados?”, a medicina também não se cala, propondo respostas relacionadas com os climas e o meio ambiente para explicar as diferenças entre os homens. Por fim, ela defende a ideia de uma diferença dos sexos. É preciso também ir além das fontes utilizadas por Foucault para atestar a emergência de uma política relativa à saúde de uma população: muitas dessas fontes são bem anteriores ao século XVIII.

Além disso, contemporaneamente, nos últimos cinquenta anos pelo menos, ainda que de forma desigual de uma sociedade a outra, a relação entre medicina e filosofia moral e política passa por uma evolução importante. Desenvolvem-se controvérsias normativas sobre as práticas médicas e os argumentos que sustentam esta ou aquela decisão, tomada à cabeceira do paciente ou visando à coletividade. O saber médico e os conhecimentos biológicos ou tecnológicos que o acompanham não são questionados enquanto tais. É antes seu uso que constitui tema de discussão. A questão é a legitimidade desta ou daquela prática, escolha ou decisão. Com outras disciplinas das ciências humanas e sociais, como a psicologia, a sociologia e a antropologia, a filosofia envolveu-se nessas controvérsias para analisar seus conteúdos, aclarar as dificuldades normativas e às vezes também para propor, ela mesma, uma avaliação dessas práticas e desses argumentos.

 

IHU On-Line - Qual é a relação entre liberdade e conflito civil com a política maquiavélica da história e da medicina?

Marie Gaille - Maquiavel é um autor que gera polêmica porque, entre outras coisas, questiona o ideal de paz civil e afirma que, em certo período de sua história republicana, Roma ilustra o fato de que a liberdade foi favorecida e mantida graças a perturbações, protestos, lutas do “povo” contra os “grandes”. Mas ele expressa essa tese, principalmente nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio e em História de Florença, através de um uso muito original do pensamento médico de sua época. Maquiavel não emprega nem a metáfora orgânica de inspiração aristotélica, nem aquela relativa ao corpo de Cristo, tampouco a que encontramos na boca de Menênio Agripa, que dá ênfase à cooperação necessária dos membros do corpo em A história romana (II, 32), de Tito Lívio. Buscando seu vocabulário nas concepções médica de sua época e na filosofia natural de inspiração aristotélica, ele desenvolve a metáfora do “corpo misto”, corpo vivo e mortal, composto por elementos simples e contrários, não hierarquizados entre si, “os humores”. Não se trata de um corpo fechado, dentro do qual cada parte desempenha um papel que lhe é atribuído a priori, e sim de um corpo de fronteiras móveis, em que a divisão dos atributos sofre variações de acordo com a evolução das relações de força, e não conforme o critério de uma hierarquia “natural”.

Maquiavel não retoma stricto sensu a definição médica da saúde e da doença, nem a distinção entre os quatro humores, dominante na época. Em outras palavras, em seu pensamento, a transferência de categorias médicas para o pensamento político não ocorre sem transformação. Seu próprio par de humores, o dos grandes e o do povo, se assemelha mais aos pares de opostos que Alcmeon de Croton a concebeu. No entanto, essa aproximação também tem seus limites: seu esquema binário não corresponde à ideia alcmeoniana de uma infinidade de pares de opostos. Para Maquiavel, um humor em particular, o dos grandes, é relativamente mais nocivo que o outro na pólis, enquanto, no modelo médico, nenhum é caracterizado negativamente. Essas diferenças não diminuem em nada a importância da fonte médica para compreender o modo como Maquiavel formula seu pensamento institucional e sua concepção da liberdade política como “mistura equilibrada”. Elas indicam simplesmente que ele faz da fonte médica, assim como de suas outras fontes, um uso livre. 

 

Prognóstico antecipado

Em Maquiavel, a transferência de categorias médicas para o pensamento político não tem como único objeto essa metáfora do corpo político. Associada à imagem do corpo misto, encontramos em Maquiavel, de fato, uma tentativa para pensar as transformações que a pólis sofre. A metáfora do “corpo misto” lhe permite enfatizar o fato de que toda pólis tem um tempo de vida determinado, que ela pode morrer antes do momento de sua morte natural, mas pode também manter-se até esse momento se aqueles que governam souberem tomar as medidas adequadas. Além disso, toda pólis sofre alterações, no sentido aristotélico do termo, isto é, mudanças, pelas quais todas elas se mantêm fundamentalmente idênticas a si mesmas, mas sofrem também mutações naturais segundo um processo designado pelo termo de “corrupção”.

Diante dessa história essencialmente instável das pólis, o governante e o pensador político, segundo Maquiavel, devem se assemelhar ao médico e tomar emprestado à arte definida pela tradição hipocrático-galênica diversas competências: a de prever ou fazer o prognóstico antecipado (“ver o invisível através do visível”), a de diagnosticar o mal quando ele se manifesta e, por fim, a de tratar em função da gravidade do mal. Observa-se, assim, que, em caso de crise, Maquiavel parece tomar emprestado ao tratado hipocrático O regime das doenças agudas a ideia de uma terapia em sentido inverso e proporcional à força da doença.

 

IHU On-Line - Em que sentido as ideias de Maquiavel mantêm sua influência em áreas como a política e a medicina?

Marie Gaille - De meu ponto de vista, é inútil procurar uma influência de Maquiavel na área da medicina. E no prolongamento disso, é preciso dizer que a obra de Maquiavel faz parte de uma longa série de reflexões políticas que utilizaram o pensamento médico. No entanto, ele não contribuiu para a elaboração de uma filosofia da medicina, e muito menos para a ética da medicina.

Em contrapartida, a questão sobre sua influência tem um sentido para o campo político. Se perguntarmos sobre a influência de Maquiavel nos tempos atuais, a resposta é delicada, pois tal influência é logo difratada em várias opções interpretativas: tem-se ainda e sempre Maquiavel como conselheiro dos príncipes, e principalmente mestre do logro e da dissimulação, do uso refletido da astúcia e da força. Este é o Maquiavel mais evidente, mais comum, mais simples também. Encontramos hoje também uma figura de Maquiavel que engloba esses aspectos, mas é um pouco mais complexa: Maquiavel como pensador da ação política, sobre o qual, a meu ver, Claude Lefort escreveu páginas extraordinárias em Travail de l’oeuvre Machiavel (1971).

O seu pensamento sobre o conflito civil e a relação deste com a liberdade é também muito influente, mas foi retomado em diferentes direções. Sobre este assunto, publiquei uma parte do meu trabalho de doutorado: Liberté et conflit civil. La pensée machiavélienne entre histoire et médecine (Paris: Champion, 2004). O Capítulo 6 dessa obra foi dedicado ao “espelho apresentado por Maquiavel à democracia contemporânea”. Examinei ali principalmente os usos feitos da obra maquiavélica desde os anos 1970 acerca do tema da liberdade política. Dentre os usos mais significativos do pensamento maquiavélico sobre a liberdade, comentei aquele que Q. Skinner faz, apoiando-se em Maquiavel para lançar um alerta aos liberais. Segundo ele, estes se apoiam equivocadamente numa concepção negativa da liberdade e deveriam adotar uma visão participativa dela, que o autor lê em Maquiavel. Skinner atribui um lugar menor ao conflito civil e concebe a participação cívica como o cumprimento ativo e vigilante dos deveres cívicos. Esta leitura de Maquiavel contrasta muito com a perspectiva de um “momento maquiavélico de Marx”, defendido principalmente por M. Abensour, na França. Esta ideia, que pode ser encontrada numa forma um tanto diferente no pensamento de Negri, dá ênfase à vontade supostamente democrática do povo. Distingue-se do “momento maquiavélico” francês apresentado por S. Audier e ligado à ideia de conflito, mas abordado diferentemente por filósofos como M. Merleau-Ponty, R. Aron ou Lefort (Machiavel, Conflit et liberte. Paris: Vrin, 2005).

 

Alcance contemporâneo

Em 2004, não me situando em nenhuma dessas duas óticas, defendi a interpretação de que a concepção maquiavélica da liberdade política possuía uma atualidade que não era da ordem de uma retomada direta de seu pensamento. Parecia-me mais uma ferramenta teórica de primeira ordem para apontar dificuldades teóricas e práticas que uma teoria contemporânea da democracia precisa levar em conta, principalmente a de conseguir pensar “instituições quentes”. Em Maquiavel, encontramos, de fato, a exigência de um pensamento da ordem (institucional), a “ordine”, e da desordem ou do conflito civil.

Esse aspecto sempre me parece pertinente nos dias de hoje, mas o que me parece mais interessante atualmente é explicitar o método a partir do qual nos referimos a uma obra — neste caso, à obra de Maquiavel — quando queremos determinar sua influência. É para esta perspectiva que eu gostaria de orientar a pesquisa sobre o alcance contemporâneo do pensamento maquiavélico, principalmente para explicitar em que aspectos a “cena política maquiavélica” está repercutida em certos questionamentos contemporâneos sobre os processos de democratização.

 

IHU On-Line - A partir da perspectiva desse pensador, podemos falar de uma moralização e de uma politização da natureza humana? Por quê?

Marie Gaille - Penso que eu não adotaria essa perspectiva interpretativa. Isso requer vários “saltos” na análise textual, e não vejo nenhuma vantagem teórica nisso. Vários comentadores defenderam a ideia de uma antropologia maquiavélica. É verdade que Maquiavel fala dos humores, das paixões, dos desejos, das necessidades fundamentais dos homens, de sua relação com o mal e o bem. Pode-se até mesmo dizer que ele propõe uma análise da dinâmica do desejo nos homens. Mas essa evocação não está relacionada com o projeto de elaborar uma concepção da “natureza humana”. Se tal concepção aflora em seus textos, ela é sempre secundária à ambição de pensar as condições para conquistar o poder e manter-se nele, como em O Príncipe, de esclarecer as condições da manutenção da liberdade (da independência e do regime “livre”, ou seja, republicano), como nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, e de compreender por que Florença não consegue seguir o modelo romano, na História de Florença. É por essa razão que, por mais importante que seja esse esforço de compreensão, a meu ver, ela não foi apresentada por Maquiavel de forma sistematizada.

Considero também delicado falar de uma “politização da natureza humana” em Maquiavel. No pensamento dele, os homens sempre são vistos em sua vida de cidadãos, já inseridos numa forma política de sociabilidade. Será que, para ele, os homens tiveram uma vida pré-social, pré-política? Será que conheceram aquilo que teóricos políticos posteriores designaram por um “estado natural”? Fora alguns elementos de exegese que estão presentes nos Discursos, não sabemos, e podemos até mesmo suspeitar de que isso seja uma questão anacrônica e pouco fecunda para ler a obra de Maquiavel.

 

IHU On-Line - Quais são as influências fundamentais de Maquiavel sobre os “leitores” Foucault e Schmitt?

Marie Gaille - A respeito deste ponto, remeto à análise que propus na revista Multitudes, em 2003 (volume 13, verão, acesso livre on line), intitulada “L’ordre conflictuel du politique: une formule ambiguë” (A ordem conflituosa do político: uma expressão ambígua). Leitores de Maquiavel, Foucault e Schmitt compartilham com ele uma grande preocupação com a questão do conflito. Além disso, eles têm em comum o fato de não terem buscado as condições de uma resolução do conflito. Apesar desses elementos que parecem justificar uma aproximação, a análise dos usos que Foucault e Schmitt fazem de Maquiavel evidencia que este não participa de forma significativa da reflexão dos dois primeiros sobre a conflituosidade do político. Poderíamos falar mais de um “não encontro” desses três autores. A minha hipótese a esse respeito é a de que Maquiavel tenta manter unidos um pensamento da ordem institucional e um pensamento do conflito civil e de sua positividade, um gesto impossível de assimilar tanto para uma teoria da ordem absoluta, como para uma concepção da resistência libertadora às margens da ordem.

 

IHU On-Line - Em que medida o pensamento de Maquiavel pode ser relacionado com a temática da secularização?

Marie Gaille - Esta pergunta é muito interessante e possui diferentes dimensões. Eu a abordei em Machiavel et la tradition philosophique (Paris, PUF, 2007; tradução em espanhol: Maquiavelo y la tradicion filosofica , tr. de H. Cardoso, Buenos Aires: Ediciones Nueva Vision, Claves Perfiles, 2011). De um ponto de vista exegético primeiramente, muitas vezes se quis fazer de Maquiavel um pensador ateu, alguém que teria dado fim, em termos gramscianos, ao reinado da transcendência. Incontestavelmente, ele concentra sua atenção nas condições humanas da ação política. No entanto, não se pode afirmar sem nuanças que, para ele, o campo político seja isento de qualquer forma de intervenção divina. De resto, penso que esse ponto não é o mais interessante a ser discutido na exegese maquiavélica: qualquer que seja o lado para o qual pese a balança interpretativa, a parte do “livre arbítrio humano” é o que lhe interessa na verdade.

Muito mais latente em sua reflexão é o papel político que uma religião pode desempenhar. Mais além da dimensão biográfica, desde o efeito que os sermões de Savonarole produziram sobre o jovem Maquiavel até o papel desempenhado pelo papado na sua vida depois de sua exclusão da chancelaria florentina, Maquiavel faz da religião um objeto de reflexão obrigatório para todo e qualquer ator político.

 

Provações políticas

Com ele, entramos num contexto religioso pluralista: a religião cristã católica, que domina a sua época, confronta-se com a religião civil romana. Conhecemos o julgamento severo que ele emite contra a primeira: chamando os homens a crer num além, ela enfraquece a virtude deles e os prepara mal para as provações políticas da vida terrestre. A religião civil romana, ao contrário, é valorizada como um elemento estruturante e unificador da vida política em Roma. O juramento tem uma dimensão religiosa. O apego aos deuses romanos “viriliza” os cidadãos.

Na medida em que Roma encarnou, para Maquiavel, o paradigma da liberdade, não podemos deixar de nos perguntar sobre o papel desempenhado pela religião, além do conflito civil, no advento e na manutenção da liberdade, de acordo com a visão dele. A concepção rousseauniana da religião civil suscita também essa indagação. Entretanto, a resposta, a partir de Maquiavel, é complicada, sobretudo se a pergunta for formulada na sua “tradução” contemporânea: dispomos, hoje, de um equivalente da religião romana? Uma democracia tem as mesmas necessidades políticas da república romana referida por Maquiavel nos Discursos?

 

IHU On-Line - Qual é a atualidade de O Príncipe após 500 anos de sua publicação?

Marie Gaille - Como eu disse anteriormente, existem vários Maquiavel, dos quais um está especificamente ligado ao Príncipe. Este texto se destaca dos outros escritos de Maquiavel de forma incontestável se seguirmos a história de sua posteridade editorial e de sua difusão, embora hoje a exegese acadêmica de Maquiavel tenha cedido grande espaço para os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio ou mesmo para a História de Florença e A arte da guerra, ou ainda para os escritos governamentais. Sua escrita e composição são certamente determinantes, e poucos são aqueles que veem nesse texto, como o historiador Paul Veyne, um simples “bibelô de época”. É notável o fato de ele ser lido mais além do meio acadêmico, mesmo que seja de forma excessivamente simplificadora: best-seller editorial para conquistar um lugar amoroso ou comercial e, ultimamente, parental e educativo.

O contexto político e geopolítico mudou radicalmente. É difícil a priori imaginar que o cidadão ou o governo de uma sociedade democrática tenha algo a aprender com O Príncipe. No entanto, este texto repercute como um clássico, principalmente em relação aos conselhos prodigados sobre as condições instáveis e incertas da ação política. E isso, ao contrário, deve nos levar a indagar: até que ponto agimos diferentemente num regime democrático e num principado?

Eu diria que sua atualidade reside, acima de tudo, na exigência que Maquiavel demonstra: exigência de compreensão, de análise e de formulação. Ele decompõe os episódios históricos que visualiza, concebe as diferentes alternativas possíveis do desenrolar da ação, pergunta-se constantemente se uma delas não foi desprezada, distingue o que deve ser, etc. Pretende deixar de lado as ilusões do pensamento e a preguiça do caráter. Temos nele um exemplo excepcional do discernimento político.

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