Edição 425 | 01 Julho 2013

O “caipira” e suas apropriações regionais nas festas juninas

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Por Ricardo Machado

Professor Valdir Jose Morigi analisa as diferentes representações de personagens do campo no Rio Grande do Sul e no Nordeste

“O personagem do ‘caipira’ tornou-se hegemônico no Brasil, dada a difusão da literatura e das mídias, mas cada cultura faz uma apropriação diferente do mesmo personagem, colocando elementos da sua cultura local. No Nordeste, por exemplo, a figura do ‘caipira’ se manifesta através do ‘matuto’. Já no Rio Grande do Sul, ele é expresso na figura do ‘colono’ e do ‘gaúcho’”, explica o professor e sociólogo da PUCRS Valdir Jose Morigi. Para ele, “há visivelmente uma mistura de elementos da cultura tradicional gaúcha com elementos da cultura ‘caipira’ e, às vezes, também são inseridos elementos de outros contextos culturais”.
Waldir atribui tal característica ao avanço do processo de industrialização e urbanização que resultou, também, em acesso cada vez mais amplo às tecnologias da informação e comunicação. Tal cenário tornou cada vez mais complexas as distinções entre “campo” e cidade, como ele mesmo define. Outro aspecto que o professor chama a atenção está relacionado ao distanciamento das festas juninas às questões religiosas. “Os motivos que levam as pessoas às festas estão ligados ao hedonismo, aos prazeres que a festa pode proporcionar aos sujeitos, ao consumo (comidas, bebidas...) e à diversão que ela propicia através dos encontros com amigos, etc. O sentido do ritual religioso tradicional de agradecimento e as orações aos santos pela boa colheita praticamente não se percebe nessas ocasiões. Por isso, muitos estudiosos afirmam que o sentido sagrado das festividades cedeu aos profanos.”

Valdir Jose Morigi possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, e em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Realizou mestrado em Sociologia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com experiência na área de Sociologia e Ciência da Informação, com ênfase em Processos de Disseminação da Informação, atuando principalmente nos seguintes temas: cidadania, consumo, cultura popular, memória social, festas populares, conhecimento e sociedade, imaginário, mídia e representações sociais, cultura, sustentabilidade e meio ambiente.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos pensar a experiência dos festejos juninos no Rio Grande do Sul e nas outras regiões do Brasil? Quais são as principais apropriações regionais?

Valdir Jose Morigi – Esta pergunta daria para fazer uma tese. As festas juninas no Rio Grande do Sul não possuem a mesma força que em outras regiões do Brasil. No RS, elas se caracterizam como festa folclórica. Geralmente, são comemoradas no mês de junho em uma noite; preferencialmente, próximo do dia 24 de junho (Dia de São João), nas escolas. Nessas festas são realizadas diversas atividades, danças e comidas típicas, brincadeiras e se encena o “casamento caipira”. Na ocasião, participantes se fantasiam de caipira. Por sua vez, na região Nordeste, por exemplo, as festas juninas possuem maior peso do que as festas de final de ano. A festa de São João, sem dúvida, é a que se sobressai e é amplamente esperada pela população local, atraindo grande número de turistas durante o mês de junho. Nesse período, muitas pessoas que moram em outras cidades ou capitais brasileiras deslocam-se até sua terra de origem para visitar seus familiares, parentes e amigos. Há lugares como em Campina Grande, na Paraíba, que a festa dura um mês. Lá, a festa junina se tornou um grande espetáculo urbano, diluída por toda a cidade e, portanto, para além de espaços como escolas ou festas particulares. Na cidade, monta-se todo um cenário para a realização da festa, envolvendo múltiplas atrações. As quadrilhas juninas, por exemplo, chegam próximo de uma carnavalização, em que elementos da modernidade se mesclam com outros elementos da tradição da cultura regional. O governo local investe muito na divulgação e nas festas com a finalidade turística. Elas atraem o patrocínio de empresas privadas, geram muitos empregos temporários e o comércio local se intensifica. Então, cada cultura regional se apropria da festa junina de diferentes modos, de acordo com suas singularidades e o significado que ela possui em cada contexto.

IHU On-Line – Como as identidades de gaúcho e de caipira dialogam neste espaço híbrido das comemorações juninas?

Valdir Jose Morigi –
Esse é um exemplo da apropriação da cultura regional. A origem desses dois personagens (o “gaúcho” e o “caipira”) é completamente distinta. Entretanto, a forma como são realizadas as apropriações das culturas regionais e locais e a sua dinâmica mostra o caráter híbrido que as culturas assumem. O personagem do “caipira” tornou-se hegemônico no Brasil, dada a difusão da literatura e das mídias, mas cada cultura faz uma apropriação diferente do mesmo personagem, colocando elementos da sua cultura local. No Nordeste, por exemplo, a figura do “caipira” se manifesta através do “matuto”. Já no Rio Grande do Sul, ele é expresso na figura do “colono” e do “gaúcho”. Isso pode ser observado nas festas juninas das escolas através das indumentárias utilizadas pelos participantes para caracterizar esse personagem. Há visivelmente uma mistura de elementos da cultura tradicional gaúcha com elementos da cultura “caipira” e, às vezes, também são inseridos elementos de outros contextos culturais. O diálogo entre as diferentes formas identitárias ocorre nessas misturas e apropriações feitas pelos protagonistas das festas.

IHU On-Line – Tendo em vista aspectos sociais, como podemos pensar as relações entre campo e cidade à medida que as festas juninas são festas legitimamente do interior sendo realizadas em locais mais urbanos?

Valdir Jose Morigi –
Hoje, pensar as questões sociais e culturais a partir dessa dicotomia entre “campo” e “cidade” pode ser uma armadilha. Em outros tempos, eram categorias que ajudavam a estabelecer alguns parâmetros para compreender a realidade sociocultural. Isso criou um imaginário mais ficcional do que real sobre as relações entre o campo e a cidade. De certa forma, esse imaginário ainda se reflete contemporaneamente. Vejo que, com o avanço do processo de industrialização e urbanização e acesso cada vez maior às tecnologias da informação e comunicação e com a difusão da cultura midiática em todos os ambientes, tornou-se mais complexo definir as relações entre campo e cidade e identificar quais parâmetros os distinguem efetivamente. Ainda seria possível encontramos espaços “legítimos” para as festas juninas? Ou eles estão diluídos?


Além disso, os grandes centros urbanos estão permeados pela cultura tradicional, principalmente porque essas cidades são resultados históricos das migrações internas, que marca a entrada da cultura do homem rural no urbano e, portanto, uma apropriação do rural pelo urbano e vice-versa. É claro que, no contexto urbano, os elementos da cultura tradicional rural tendem a ser encarados como de um modo “romântico”, “folclorizado”, numa tentativa de “resgatar a cultura”, de não deixá-la “morrer”. No entanto, mesmo quando há uma tentativa de “resgate da tradição” por parte dos grupos urbanos, há ressignificações: ao ingressar nas grandes cidades, os elementos tidos como “próprios do rural” recebem uma nova “roupagem”, tornando-se um híbrido de diversas culturas.

IHU On-Line – Como podemos pensar a questão religiosa dentro destas comemorações?

Valdir Jose Morigi – A meu ver, pelo caráter mercadológico que as festas assumiram na atualidade, a questão religiosa ficou em segundo plano. Os santos do ciclo junino (Santo Antônio, São João e São Pedro) tornaram-se adereços simbólicos da festa. Os motivos que levam as pessoas às festas estão ligados ao hedonismo, aos prazeres que a festa pode proporcionar aos sujeitos, ao consumo (comidas, bebidas...) e à diversão que ela propicia através dos encontros com amigos, etc. O sentido do ritual religioso tradicional de agradecimento e as orações aos santos pela boa colheita praticamente não se percebe nessas ocasiões. Por isso, muitos estudiosos afirmam que o sentido sagrado das festividades cedeu aos profanos.

IHU On-Line – Que relações podem se estabelecer entre aspectos culturais legitimamente brasileiros e aspectos culturais colonizados da Europa no que se refere às comemorações juninas?

Valdir Jose Morigi – Essa é uma longa história. Sabemos que a nossa história é resultado de um processo civilizatório complexo. A nossa cultura é marcada pelos traços transplantados da cultura ocidental. Conforme os historiadores, as festas juninas possuem origem europeia. Elas foram trazidas para o Brasil pelos portugueses, durante o período colonial. Além da influência da cultura portuguesa que se expandiu fortemente no Brasil havia outras (espanhola, francesa e chinesa). As danças marcadas, por exemplo, as danças nobres francesas tiveram forte influência nas quadrilhas brasileiras. A cultura chinesa contribuiu no costume de soltar fogos de artifício. Assim, com o decorrer do tempo, esses elementos culturais foram incorporados, mesclando-se aos elementos da cultura local (indígena, afro-brasileiro e dos imigrantes europeus) nos diversos contextos regionais do Brasil, constituindo formas distintas em cada uma delas. As festas juninas são um exemplo de como ocorreu esse processo de hibridização cultural.

IHU On-Line – Qual a importância desse tipo de patrimônio cultural imaterial do Brasil?

Valdir Jose Morigi – A noção de patrimônio imaterial é compreendida como um conjunto de bens culturais formado por saberes, modos de fazer, formas de expressão etc. As celebrações festivas são importantes manifestações culturais que se expressam através das tradições e dos saberes enraizados na vida cotidiana das comunidades. As festas populares expressam os valores, os saberes, as tradições, os modos de viver, de pensar, etc. Eles auxiliam na construção da identidade cultural dos grupos sociais. Conhecer o acervo das festas populares e os seus significados é acessar parte do patrimônio cultural das comunidades e da cultura brasileira e sua diversidade.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição