Edição 425 | 01 Julho 2013

Caminhos

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Ricardo Machado e Graziela Wolfart

Os personagens desta reportagem percorrem o mesmo caminho. Inclusive cruzam-se pelos corredores do local onde moram. Ambos nascidos no interior do Rio Grande do Sul, escolheram uma motivação interna para conhecerem a si mesmos e conhecerem o mundo. Um deles é chamado de Cezar, o outro se chama Marciano. Para ambos cabe a missão, por escolha própria, de serem padres da Igreja Católica com todos os desafios que o século XXI impõe. O começo da história destes jovens seminaristas rumo ao sacerdócio converge às mudanças de Papado, agora com Francisco, quando parte dos ideais do Concílio Vaticano II parecem emergir para além dos portões de Roma.

Cezar Luis Morbach tem 28 anos e nasceu na cidade de Campina das Missões (região noroeste do RS). Quarto filho de uma família de cinco irmãos, conta que desde a infância percebeu a vocação para seguir a vida sacerdotal enquanto cursava a 8ª série do ensino fundamental, em 1998, quando se preparou para ingressar no Seminário São José, em Cerro Largo. Como a vida é sempre mais incontrolável do que supomos, Cezar ao invés de ingressar no seminário, mudou-se para a casa da irmã e do cunhado, em 1999, em Dois Irmãos, no Vale do Sinos, onde começou a trabalhar e estudar. Quando encerrou o ensino médio, iniciou os estudos no curso superior de Matemática da Unisinos, em 2002.

Marciano Guerra tem 24 anos e nasceu na cidade de São Marcos, próximo a Caxias do Sul. Filho mais jovem de uma família de três irmãos, ingressou no Seminário da Diocese de Caxias do Sul, aos 15 anos, quando foi para o ensino médio. O interesse, entretanto, era anterior, sobretudo depois de ter participado de grupos de jovens da Igreja Católica. Passado dois anos no Seminário de Caxias e um ano em Farroupilha, foi para o Seminário Maior de Viamão.

Atualmente, Cezar está no último ano de Teologia e Marciano no terceiro ano dos quatro que correspondem à formação. Ambos estudam na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC–RS durante a manhã, e à tarde realizam seus estudos e atividades no Seminário, onde se conhecem apenas de passagem.

Desafios

A sociedade contemporânea com suas complexidades das mais diversas ordens impõe desafios muito substanciais, não somente à Igreja, mas, principalmente, aos evangelizadores, que estão mais próximos à realidade concreta. Cezar e Marciano, embora comunguem de uma formação muito parecida, têm origens sociais distintas. O primeiro é da Diocese de Novo Hamburgo, o segundo da Diocese de Caxias do Sul. Ter um mesmo mundo para olhar e contribuir enseja olhares distintos, que contribuem, sem dúvida, à construção de uma realidade que está por vir. 

Ao se defrontar com tal cenário, Cezar chama atenção para questões que ele considera centrais, por exemplo: Como anunciar Deus em uma cultura materialista? Em uma cultura relativista e intrinsicamente sensual e hedonista, de que forma apresentar Deus como sentido da vida? Como fazer a Igreja chegar até os jovens e os jovens à Igreja?  Para ele, entretanto, todos esses enfrentamentos passam por um desafio pessoal e diário. “A mudança social inicia com a mudança pessoal, com a conversão pessoal. À medida que testemunharmos com nossa vida aquilo que acreditamos, seremos sinais, críveis, daquilo que anunciarmos por meio de palavras. Portanto, o primeiro e maior desafio é a conversão pessoal, diária”, considera.

Marciano tem um jeito falante, mas pondera longamente em silêncio antes de qualquer resposta. Diz-se confiante naquilo que acredita ser a sua missão, que conforme descreve, é ajudar as pessoas e a Igreja. “Dialogar com o homem e a mulher exige uma linguagem adequada e uma postura de diálogo. Me sinto alegre e desafiado porque não se trata de uma missão simples. É preciso que o padre tenha capacidade de visitar as pessoas e ouvi-las, pensar no que pode fazer para ajudar os drogados, como ajudar a trazer a vida em diferentes contextos e, sobretudo, ajudar a comunidade que ela também faça esse processo”, explica.

Respostas

Encontrar respostas para as inquietudes contemporâneas são sempre processos difíceis e um terreno pantanoso onde tudo o cuidado ao caminhar é pouco. Cezar conta que aos finais de semana, durante a formação em Teologia, os seminaristas vão às paróquias para desempenharem trabalhos pastorais. “Deparamo-nos com a realidade da paróquia, seus desafios, os anseios do povo, suas angústias, esperanças, etc. Assim, passamos do intelectual para a prática, ou melhor, colocamos em prática, na medida do possível, os ensinamentos adquiridos ao longo dos anos de estudos filosófico e, principalmente, teológicos. Porém, a sociedade evolui, progride e, para não ‘ficarmos para trás’, precisamos, também, continuamente nos atualizarmos. Nem sempre encontraremos respostas prontas para todos os questionamentos ou inquietudes do povo. Mas, se estivermos constantemente formando-nos e deixando-nos formar – ‘deixar-se formar’ refere-se ao estar aberto à vontade de Deus e à inspiração do Espírito Santo – num eterno retorno às fontes e, principalmente, retorno à Fonte, ou seja, Deus, poderemos contribuir.”

Embora Marciano convirja no objetivo de Cezar, ele encara a questão sob um ponto de vista diferente. “Não se trata simplesmente de oferecer respostas às pessoas, mas também de dialogar e aprender a lidar com as coisas. Ao mesmo tempo em que a Igreja oferece uma formação a todos, nós também precisamos ter a capacidade de integrar as pessoas nas diferentes realidades e formas de entender. Não se trata apenas de acolher e repassar os ensinamentos, é necessário não simplesmente dar a opinião pessoal, mas acolher o que se aprende e recebendo positivamente as contribuições da comunidade. Assim vamos anunciando a palavra de Deus.”

Papa Francisco

Os futuros sacerdotes vivem uma realidade dentro da própria Igreja Católica que não era experimentada há quase 600 anos, que é a presença de um Papa emérito junto com o atual Bispo de Roma. Após a Renúncia do Pontificado, em fevereiro deste ano, Bento XVI tornou-se Papa Emérito, tendo o Bispo Bergoglio como seu sucessor, o Papa Francisco. Evidentemente pessoas diferentes têm visões de mundo e comportamentos distintos, como o caso dos dois personagens desta reportagem e dos dois Papas, e não se trata, necessariamente, de que uma pessoa seja melhor que a outra. Cezar e Marciano têm apropriações bem particulares do Papa Francisco, mas ambos concordam que ele tem tentado promover uma aproximação entre a Igreja e as pessoas. 

“Pessoalmente, acredito que o Papa Francisco veio chamar a atenção à humildade, virtude tão ‘perdida’ nos dias atuais. Além disso, parece, com seu carisma, sua espontaneidade e simplicidade, aproximar a Igreja do povo e, consequentemente, o povo da Igreja, eliminando este abismo que parecia existir entre hierarquia e laicato, fruto de concepções culturais – populares – equivocadas”, sustenta Cezar. “A ideia de Francisco apresenta e mostra uma identidade dinâmica e dialogal que se faz próxima, que não anuncia apenas teoricamente as verdades e a imagem da Igreja sobre o mundo, mas faz isso com uma linguagem acessível capaz de acolher. Vejo muito positivamente a postura, a forma e a força com que o Papa é capaz de denunciar as coisas da Igreja. O ministério dele tem frutos muito positivos e que me empolgam e fazem desejar mais”, argumenta Marciano.

Concílio Vaticano II

Passados 50 anos do início do Concílio Vaticano II, as ideias debatidas em Roma permanecem na maioria dos casos pertinentes ao debate contemporâneo. Ambos seminaristas consideram o último concílio importante para os rumos da Igreja e que antes de pensar em nova discussão é preciso pôr em prática o que foi decidido. “Antes de qualquer discurso acerca da remota possibilidade de um novo concílio, é preciso colocar em pratica os ensinamentos do Concílio Vaticano II, que apesar de datar dos anos de 1962 a 1965, nunca perdeu sua atualidade. Os ensinamentos provindos deste Concílio Ecumênico são de uma riqueza insondável, seja em temas concernentes à dignidade da pessoa humana, à formação do clero, à Liturgia da Igreja, ao próprio Mistério da Igreja, dentre outros”, avalia Cezar. “O concilio teve uma postura de diálogo com o mundo e com as diferentes realidades. E o fez por meio de uma linguagem própria que permitiu a historia da Igreja a abrir-se e ter uma postura de melhor aproximação com pastorais e ações que a ela realiza. O considero muito atual e nessa perspectiva do diálogo ele é muito importante. São todos textos que ainda hoje são atuais”, ressalta Marciano. 

Cezar e Marciano são jovens que encararam o desafio de estudar e tentar compreender a metafísica cristã em uma sociedade imersa no materialismo e nas novas tecnologias. Olham para o passado para compreender uma instituição de mais de dois mil anos e para tentar entender uma civilização que, em grande medida, abandonou diversos deuses para acreditar uma única divindade. Vivem e serão sacerdotes em um tempo em que outra grande parcela da população abandonou, inclusive, a crença em qualquer força fora da razão. Cezar e Marciano, a exemplo da maioria dos jovens da atualidade, fazem o que gostam e o que gostam é seguir o caminho do cristianismo e levar a palavra da Igreja Católica.

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