Edição 425 | 01 Julho 2013

A história humana como o lugar permanente da revelação divina

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Por Graziela Wolfart

Ao analisar o complexo processo de redação da Constituição Dei Verbum, o professor Pedro Lima Vasconcellos destaca que ela acaba por consagrar uma compreensão teológica do modo de Deus revelar-se e este modo é o modo da história

Na concepção do professor Pedro Lima Vasconcellos, Deus se revela, no entendimento da Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, não à margem da história humana, mas no interior dela. “Mais ainda: não se revela de maneira pontual (...), mas a história humana é o lugar da revelação divina de forma permanente. Não há outro modo de Deus de comunicar à humanidade, senão por dentro da história humana, mergulhado nela. E disso a Sagrada Escritura é testemunha. Essa compreensão de revelação na história humana, de Deus fazendo história na história humana, é algo que foi absolutamente revolucionário. E para que se chegasse ao reconhecimento disso é que o caminho para a redação da Dei Verbum acabou sendo tão complicado e difícil, mas ao final bastante bem sucedido”. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, ele afirma que a novidade deste documento foi a percepção de que Deus continuamente se revela de maneira nova na história humana, em diálogo com as demandas, vicissitudes e aventuras humanas na história. “A revelação divina não é um baú de verdades prontas, acabadas, imutáveis e de maneira inacessível. Isso não condiz com o espírito com que Deus se revela à humanidade. A novidade está na própria concepção de revelação e no modo como essa revelação é comunicada da parte de Deus e captada no interior da história humana”.

Pedro Lima Vasconcellos possui Bacharelado em Teologia pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, Licenciatura em Filosofia pelas Faculdades Associadas do Ipiranga, mestrado em Teologia: Missiologia pela Associação São Paulo de Estudos Superiores do Instituto Teológico São Paulo, mestrado em Ciências da Religião: Bíblia pela Universidade Metodista de São Paulo, doutorado em Ciências Sociais: Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Livre-Docência em Ciências da Religião pela mesma instituição. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Alagoas. Ele participará esta semana do evento “O Concílio Vaticano II como evento dialógico” ministrando a palestra “Revelação na história e em diálogos: o processo complexo de redação da Dei Verbum”

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em linhas gerais, qual o foco da abordagem que o senhor trará ao falar sobre o tema “Revelação na história e em diálogos: o processo complexo de redação da Dei Verbum ”?

Pedro Lima Vasconcellos – São dois aspectos. O primeiro diz respeito à história da escrita desse documento, que foi extremamente demorada e complexa. O documento é pequeno, mas durou praticamente todo o tempo do Concílio Vaticano II para que ele fosse escrito, ou seja, três anos e quatro sessões. O outro aspecto diz respeito ao próprio conteúdo da constituição Dei Verbum que justamente acabou suscitando todo esse processo complicado de redação. Aqui entra o conceito de tradição e transmissão da revelação divina. O que eu pretendo mostrar é que a Dei Verbum representou uma mudança importante na compreensão da própria noção de revelação. E isso não foi assumido de uma maneira só, ou em um momento só. Daí, a complexidade de sua redação.

IHU On-Line – Em que sentido o processo de redação da Constituição Dei Verbum pode ser definido como complexo?

Pedro Lima Vasconcellos – É complexo porque o tema da revelação divina começou a ser discutido antes mesmo que o Concílio se iniciasse. E, tão logo foi iniciado o Concílio, as primeiras discussões a respeito do assunto foram pautadas por um documento produzido pela Cúria Romana, e que não agradou uma maioria significativa dos padres conciliares. O próprio Papa João XXIII teve de intervir nesse momento para dar eco à manifestação de insatisfação da parte dessa maioria.

IHU On-Line – O que o senhor entende por “história” e “diálogos” nesse contexto e como a revelação divina aparece neles?

Pedro Lima Vasconcellos – Quanto ao tema do diálogo, o processo de elaboração do documento indica que foi um diálogo tenso, muitas vezes difícil, à beira da ruptura e do impasse, entre os participantes do Concílio, que marcou o que depois haveria de ser o documento Dei Verbum. O conceito de história é muito mais decisivo e fundamental do que o enfoque que até agora estamos dando a ele no que diz respeito ao processo de redação do documento, porque a Constituição Dei Verbum acaba por consagrar uma compreensão teológica do modo de Deus revelar-se, e este modo é o modo da história. Ou seja, Deus se revela, no entendimento da Dei Verbum, não à margem da história humana, mas no interior dela. Mais ainda: não se revela de maneira pontual, como se de vez em quando ele desse uma “passadinha” na história humana mandando um profeta, um emissário ou o próprio filho Jesus, mas a história humana é o lugar da revelação divina de forma permanente. Não há outro modo de Deus de comunicar à humanidade, senão por dentro da história humana, mergulhado nela. E disso a Sagrada Escritura é testemunha. Essa compreensão de revelação na história humana, de Deus fazendo história na história humana, é algo que foi absolutamente revolucionário. E para que se chegasse ao reconhecimento disso é que o caminho para a redação da Dei Verbum acabou sendo tão complicado e difícil, mas ao final bastante bem sucedido.

IHU On-Line – Qual a novidade que a Constituição Dei Verbum trouxe?

Pedro Lima Vasconcellos – A novidade foi a percepção de que Deus continuamente se revela de maneira nova na história humana, em diálogo com as demandas, vicissitudes e aventuras humanas na história. A revelação divina não é um baú de verdades prontas, acabadas, imutáveis e de maneira inacessível. Isso não condiz com o espírito com que Deus se revela à humanidade. A novidade está na própria concepção de revelação e no modo como essa revelação é comunicada da parte de Deus e captada no interior da história humana.

IHU On-Line – Como perceber na estrutura linguística da Dei Verbum a presença das duas forças que a constituem: tradição e Palavra de Deus?

Pedro Lima Vasconcellos – Quando se estuda o processo de redação da Dei Verbum, em especial os esquemas dos documentos que iam sendo apresentados para discussão dos padres conciliares, não temos muita dificuldade em notar que as mudanças vão acontecendo, aos poucos, de maneira paulatina, seja na troca de um termo por outro, seja na eliminação de alguns subtemas e a substituição deles por outros. Por exemplo, quando o texto trata do Novo Testamento, no primeiro esquema, aquele que haveria de ser rejeitado pelos padres conciliares, falava-se da autoridade dos Evangelhos. Já nos esquemas seguintes, até chegarmos à Dei Verbum definitiva, em lugar de se falar na autoridade do Evangelho, fala-se da excelência do Evangelho. É como se tivéssemos aqui a indicação de que o Evangelho se impõe à consciência do crente, do fiel, por suas qualidades internas, pelo espírito que o anima, e não por uma instituição que a palavra autoridade justamente sugere. A simples análise comparativa dos subtítulos que vão formando os esquemas e depois a Dei Verbum na sua forma definitiva mostra essa novidade que o documento comunica.

Um elemento fundamental que aparece na sua pergunta é o conceito de tradição, que foi objeto de vivíssimos debates. A tendência, até então, era tomar a tradição como um conjunto de verdades recebido pela Igreja e imutavelmente transmitido na sequência das gerações. Pois justamente o que a Dei Verbum vai trazer é um conceito dinâmico de tradição, porque a palavra tradição, que vem do latim, significa transmitir, passar adiante. Só passamos adiante aquilo que recebemos, é claro, mas passa-se adiante a partir das novas recepções desse legado. Então, a Dei Verbum está muito preocupada em não reproduzir essa concepção imóvel da tradição, mas em fazer entender aquilo que, de acordo com ela, está no próprio espírito do texto bíblico e que se expressa, por exemplo, em um texto como a Carta aos Hebreus: “Deus se revelou de muitos modos à humanidade pelos profetas no passado, e nos últimos dias se revela através do Filho”. Ora, a revelação de Deus aos profetas não é a mesma, no sentido literal, no sentido objetivo, da revelação que se comunica à humanidade por meio do Filho. Há um dinamismo na revelação, que tem a ver tanto com o Deus que se comunica quanto com a humanidade, com o povo cristão, chamado a captar essa revelação.

IHU On-Line – O que o senhor pode falar sobre o contexto histórico e social em que a Constituição Dei Verbum foi escrita e em que sentido esse contexto contribui para a compreensão do texto e sua mensagem?

Pedro Lima Vasconcellos – Chocam-se aí duas perspectivas que têm a ver com o contexto histórico e cultural em que esse documento foi escrito. Primeiro, é necessário considerar que o ambiente eclesial daquela época – 50 anos atrás – estava profundamente marcado pelo pontificado dos chamados “Papas Pios” (Pio X, Pio XI, Pio XII), que foram papados muito focados em uma postura apologética da Igreja em relação ao mundo moderno, que era visto como a expressão do mal, da descrença, do abandono da herança cristã, um mundo moderno marcado por valores dissociados do cristianismo – segundo o entendimento desses papas – como a liberdade de expressão, a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, e ainda a ameaça comunista e a maçonaria. Esses papas estimularam uma visão segundo a qual o mundo moderno era uma realidade a ser temida e combatida. Essa postura apologética também se voltava contra as correntes protestantes. E esse é um elemento a ser levado em conta. Outro elemento, na linha da renovação, advinha de outros ares também presentes no contexto em que o Concílio Vaticano II foi realizado, que são aqueles que o Papa João XXIII chamou de “sinais dos tempos”, de que a modernidade trazia novas realidades, como o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, os movimentos de cunho socialista, em relação aos quais o Papa João XXIII manifestou uma simpatia discreta, mas significativa. Havia forças emergindo naquele cenário e o Papa entendia que a Igreja não poderia ficar enclausurada e insensível a esses reclamos. Poderíamos entender que a redação da Dei Verbum e, no final das contas, o próprio transcorrer do Vaticano II como um todo, se explicam à luz do embate entre essas duas perspectivas, que tem a ver com o contexto social e histórico em que o Concílio aconteceu.

IHU On-Line – Que elementos fazem do Concílio Vaticano II um divisor de águas na leitura da Bíblia?

Pedro Lima Vasconcellos – Na medida em que a revelação divina é entendida como acontecendo na história, por meio dela, no seu interior, o texto bíblico ganha uma vida nova, pois passa a ser visto como expressão situada no tempo, no espaço, na conjuntura dessa captação humana da revelação. O texto bíblico ganha historicidade, ganha enraizamento na história de fé de tantas gerações do povo de Israel e dos primeiros segmentos cristãos. Nesse sentido, ele se torna um parâmetro para guiar a experiência histórica da fé diante dos dilemas colocados pela realidade atual. De tal maneira, não é de se estranhar que a leitura da Bíblia tenha ganhado na Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II, uma vitalidade tremenda. E nós aqui na América Latina somos testemunhas privilegiadas desse processo. Não só porque se multiplicaram as edições da Bíblia, mas principalmente porque se buscou um aprofundamento significativo, intenso, no espírito que animou a escrita desse texto. E somos testemunhas aqui de iniciativas no sentido de fazer com que o texto bíblico voltasse a ser não só a alma da Teologia, para falar em um âmbito mais acadêmico, mas o elemento animador da vida de fé do povo de Deus.

IHU On-Line – Basta ver a leitura orante da Bíblia...

Pedro Lima Vasconcellos – Exatamente, a chamada leitura popular da Bíblia, e tantas iniciativas que continuam acontecendo indicando que no âmbito do povo católico a Bíblia tem feito um caminho para vir a ser – ou voltar a ser – uma referência fundamental para a vida de fé. Os padres conciliares foram muito felizes quando reconheceram no espírito da Bíblia essa dimensão da história como lugar da revelação, o modo histórico de Deus revelar-se e o modo histórico de a humanidade poder captar o que vem da parte de Deus. Na América Latina aprendemos a ir, no espírito do Concílio, tratando de levar o que foi possível produzir naquele contexto, a consequências ainda mais radicais e exigentes. Quando o Concílio falou de atendimento ao cenário histórico, o que aqui na América Latina pudemos perceber é que a história é profundamente marcada pelo conflito. E isso tanto a Teologia da Libertação de maneira geral como a leitura popular da Bíblia, de maneira mais específica, souberam salientar. E descobrir que também na Bíblia a história é entendida nessa dinâmica conflitiva.

IHU On-Line – Qual a importância e as implicações do Concílio Vaticano II e do documento conciliar Dei Verbum hoje, 50 anos depois de sua realização?

Pedro Lima Vasconcellos – Se essa nossa conversa estivesse acontecendo cinco meses atrás, talvez a minha resposta fosse distinta dessa que vou propor agora, pois estamos vivendo um cenário eclesial absolutamente inusitado nos últimos três meses por conta da eleição do novo Papa, que é alguém absolutamente afinado com as grandes intuições do Concílio Vaticano II. É sabido que o Papa Bento XVI, já desde o tempo em que era presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, no pontificado de João Paulo II, via com reservas, quando não com temor, os desdobramentos que o Concílio Vaticano II estava produzindo na vida da Igreja. Ele tratou de tolher iniciativas de buscas, de procuras, de ensaios que vinham sendo feitos. Aqui na América Latina sentimos de maneira muito pesada a mão forte desse que era o cardeal e depois se tornou o Papa Bento XVI. Com o Papa Francisco estamos em uma nova etapa em que o Concílio Vaticano II nem é colocado sob julgamento ou questionamento, porque ele é fundamentalmente a referência a guiar as novidades e iniciativas que com este Papa vem sendo estimuladas. Basta mencionar a opção pelos pobres que ele deixou muito clara já no início do seu pontificado: “eu quero uma Igreja pobre para os pobres”. Isso é expressão de uma percepção da realidade histórica na qual nos encontramos e do drama que vivem percentuais imensos da população mundial. Essa atenção à história e ao drama humano vividos no tempo e no espaço, a meu ver, são, de um lado, herança e instituição fundamental do Concílio Vaticano II e, por outro, o Papa Francisco se vê na incumbência de recuperar, na medida em que os últimos anos foram anos de retrocesso a posições anteriores àquelas que depois o Vaticano II propôs.

Leia mais...


>> Pedro Lima Vasconcellos já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

•    Os fundamentalismos são filhos da modernidade? Publicada na edição número 407, de 05-11-2012, disponível em http://bit.ly/U4u4Eg

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