Edição 425 | 01 Julho 2013

A semiótica greimasiana e a construção de sentido da Gaudium et Spes

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Por Graziela Wolfart

Sueli Maria Ramos da Silva fala sobre os mecanismos de construção do sentido da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, analisando o conteúdo temático do texto segundo as relações estabelecidas pela Igreja Católica com o mundo e a sociedade em que ela atua

“Desde a encíclica Rerum Novarum, que pode ser considerada a primeira etapa do ensinamento social da igreja, passamos a presenciar o pronunciamento frequente da Igreja Católica a respeito da economia e das questões sociais. Verificamos a presença do éthos de um intelectual cristão, consciente dos problemas sociais, que modula sua voz por meio de um tom instrucional”. A análise é da professora Sueli Maria Ramos da Silva, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. E ela continua sua reflexão sobre o éthos da doutrina social da Igreja Católica: “a referência à Sagrada Escritura institui-se como verdade inquestionável. A postura professoral diante do coenunciador institui a imagem de um enunciador preocupado com a realidade econômica e a dignidade da pessoa humana, o que caracteriza a imagem de um éthos professoral disposto a ensinar e conscientizar o seu coenunciatário diante dos problemas sociais”.

Sueli Maria Ramos da Silva
é professora do programa de mestrado em Letras e Linguagem, Cultura e Discurso da Universidade Vale do Rio Verde – Unincor, de Três Corações-MG. É doutora em Semiótica e Linguística Geral, pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Linguística e graduação em Letras nas habilitações de Português e Linguística pela mesma instituição. Ela participará esta semana do evento “O Concílio Vaticano II como evento dialógico” ministrando a palestra “As constituições do Vaticano II: o éthos da doutrina social da Igreja”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em linhas gerais, qual o foco da abordagem que a senhora trará ao falar sobre o tema “As constituições do Vaticano II: o éthos da doutrina social da Igreja”?

Sueli Maria Ramos da Silva – Tomando para este estudo o discurso de divulgação religiosa, a fim de identificar o éthos característico do sujeito divulgador católico, este trabalho busca especificamente depreender mecanismos de construção do sentido da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, documento promulgado pelo Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965. Com base na fundamentação teórica oferecida pela semiótica greimasiana  e pela análise do discurso, de linha francesa, é então cotejado o conteúdo temático do texto referido, segundo as relações estabelecidas pela Igreja Católica com o mundo e a sociedade em que ela atua.

IHU On-Line – O que a senhora entende por éthos?

Sueli Maria Ramos da Silva – Estilo é visto como um conjunto de traços particulares, recorrentes do plano do conteúdo ou da expressão, que produzem um efeito de sentido de identidade, por meio dos quais se determina a singularidade e especificidade de um autor, de uma época, etc. Esses traços configuram o éthos discursivo, uma imagem do enunciador, identificada por meio de um tom, uma voz, um caráter e uma corporalidade específicos.

IHU On-Line – Qual seria o éthos da doutrina social da Igreja?

Sueli Maria Ramos da Silva – Desde a encíclica Rerum Novarum , que pode ser considerada a primeira etapa do ensinamento social da igreja, passamos a presenciar o pronunciamento frequente da Igreja Católica a respeito da economia e das questões sociais. Verificamos a presença do éthos de um intelectual cristão, consciente dos problemas sociais, que modula sua voz por meio de um tom instrucional. A referência à Sagrada Escritura institui-se como verdade inquestionável. A postura professoral diante do coenunciador institui a imagem de um enunciador preocupado com a realidade econômica e a dignidade da pessoa humana, o que caracteriza a imagem de um éthos professoral disposto a ensinar e conscientizar o seu coenunciatário diante dos problemas sociais.

IHU On-Line – O que pode ser dito sobre o discurso de divulgação religiosa do Concílio Vaticano II? Em que consiste sua mensagem a partir da perspectiva semiótica e retórica?

Sueli Maria Ramos da Silva – O sujeito da enunciação é considerado um sujeito realizador de um programa de construção de um objeto de valor cognitivo: a Constituição Pastoral. Os valores católicos de missão individual e social a que a Igreja está chamada a realizar no mundo são veiculados por esse objeto-discurso e comunicados ao sujeito da enunciação (comentador) pelo destinador-manipulador (formação discursiva católica). O sujeito da enunciação (membros do Concílio Vaticano II e o Papa Paulo VI, dado o poder e autoridade de Pontífice Universal, como máxima autoridade da Igreja Católica), tem seu fazer reconhecido: a exposição da matéria de fé e moral deve ser executada e praticada pelos membros da formação discursiva considerada.

IHU On-Line – O que compõe o espaço discursivo de divulgação no campo religioso e científico católico? Qual a contribuição do Vaticano II nesse sentido?

Sueli Maria Ramos da Silva – Ao operar com a revelação dos saberes a respeito do conteúdo da fé católica, o discurso busca a adesão do enunciatário por meio da manipulação executada pela modelização deôntica do dever fazer (prescrição). Dessa forma, o modo próprio do enunciador desse discurso busca a adesão de sua imagem pelo enunciatário a ele pressuposto, que deve, por conseguinte, partilhar das crenças e valores propostos por esse enunciado. Com base nesses pressupostos, os resultados de nossa análise incidem na caracterização desse espaço discursivo como uma divulgação definida segundo os parâmetros da “ciência da religião”, o que projeta o papel específico do éthos do enunciador, orientado por meio de um tom de voz próprio à cena enunciativa pressuposta.

IHU On-Line – Como se caracteriza o éthos do sujeito divulgador católico?

Sueli Maria Ramos da Silva – A formação discursiva, como sistema de crenças e aspirações, fundado em figuras e temas de determinado discurso, e a escolha de temas relativos à gramática da língua refletem na incorporação do éthos de um “intelectual cristão”, apresentado por meio de uma entonação discursiva peculiar.

IHU On-Line – Do ponto de vista da linguística, qual o impacto da autorização do Vaticano II para que as missas que antes eram celebradas em latim passassem a ser celebradas na língua do próprio país?

Sueli Maria Ramos da Silva – Do ponto de vista da linguística essa modificação reflete na própria estrutura da práxis do ritual sagrado, na gestualidade e postura participativa e contemplativa do fiel perante a missa. A mudança da língua latina para a língua do próprio país altera toda a práxis, assim como o éthos desse enunciador.

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