Edição 424 | 24 Junho 2013

Festas Juninas: uma expressão que ultrapassa os limites do campo e sobrevive nas cidades

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Ricardo Machado

Além de ser uma marca importante da cultura brasileira, festejos a Santo Antônio, São João e São Pedro reúnem familiares e vizinhos nas comemorações

As Festas Juninas mantêm as tradições do campo vivas e anualmente reúnem milhares de pessoas em diversas festas espalhadas por todo o Brasil. Para tentar compreender a dimensão dessa festa e sua importância no contexto cultural brasileiro, a IHU On-Line entrevistou por e-mail Haroldo Gomes, presidente da Fundação Cultural Parnamirim, no Rio Grande do Norte.  “Cerca de 67% do povo da região vive em áreas urbanas, sem contar que o chamado meio rural hoje é profundamente marcado pelas culturas urbanas dadas as facilidades de comunicação, de assimilação de estilos urbanos. Os padrões apresentados na grande mídia são urbanos”, explica. “Mesmo assim, ainda hoje, essas festas são momentos de reencontro das pessoas com seus lugares de origem, com os amigos, com os familiares mais distantes, particularmente aqueles que permanecem no interior. As rodoviárias ficam lotadas de pessoas em busca desse reencontro, expresso nas festas.”, complementa.

A questão da religiosidade sempre teve um peso importante nas comemorações. “Creio que o elemento religioso pesou muito nesse sentido. Os elementos que se relacionam com a fé católica se apresentam por todos os lados: o casamento matuto e até a presença do padre na quadrilha tradicional; o batizado na fogueira, que estabelece relações de compadrio;  entre outros”, destaca Haroldo. As prefeituras e localidades do Nordeste incentivam a realização das festas, sobretudo tendo em conta a relevância econômica e social dos festejos. “Outro elemento é esta característica de reunir amigos e familiares, uma festa que reúne a vizinhança. Na cidade em que moro, Parnamirim, a prefeitura, este ano, está apoiando 15 'arraiás' comunitários em diversos bairros. Todos eles carregam essa característica de juntar, em primeiro lugar, os vizinhos, amigos e familiares, embora alguns consigam ir bem além disso”, esclarece Haroldo.

Haroldo Gomes é presidente da Fundação A Fundação Parnamirim de Cultura, uma entidade  sem fins lucrativos com autonomia administrativa e patrimônio próprio, subordinada à prefeitura do Município de Parnamirim no Rio Grande do Norte.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que as Festas Juninas representam culturalmente para o Brasil, sobretudo tendo em conta a experiência nordestina?

Haroldo Gomes da Silva - As festas juninas no Nordeste têm forte relação com o meio rural. A festa de São João, por exemplo, é um agradecimento anual dos nordestinos a São João Batista e a São Pedro, pelas chuvas caídas na lavoura. Festa que celebra a colheita do milho, por isso as comidas feitas de milho integram a tradição (canjica, pamonha, milho cozido e assado etc). Portanto, uma festa de tradição rural numa sociedade que se urbaniza a cada ano. Cerca de 67% do povo da região vive em áreas urbanas, sem contar que o chamado meio rural hoje é profundamente marcado pelas culturas urbanas dadas as facilidades de comunicação, de assimilação de estilos urbanos. Os padrões apresentados na grande mídia são urbanos.

Mesmo assim, ainda hoje, essas festas são momentos de reencontro das pessoas com seus lugares de origem, com os amigos, com os familiares mais distantes, particularmente aqueles que permanecem no interior. As rodoviárias ficam lotadas de pessoas em busca desse reencontro, expresso nas festas. Mesmo aquelas pessoas que não viveram no campo, nasceram na cidade, muitas guardam a tradição de se relacionar com os seus parentes neste período. Isso tudo acontece apesar de as festas juninas terem se tornado, também, em muitos casos, megaeventos comerciais voltados quase que exclusivamente para o turismo, como acontece em algumas cidades médias nordestinas. 

IHU On-Line – Como uma festa que foi trazida para o país no período Colonial e com muitas influências de países europeus transformou-se em uma manifestação da cultura brasileira? Que características do nosso povo nos permitem compreender essa incorporação?

Haroldo Gomes da Silva - Creio que o elemento religioso pesou muito nesse sentido. Os elementos que se relacionam com a fé católica se apresentam por todos os lados: o casamento matuto e até a presença do padre na quadrilha tradicional; o batizado na fogueira, que estabelece relações de compadrio; entre outros. No início do século XX, as festas juninas estavam coladas com rituais oficiais da Igreja Católica. Pesquisas realizadas pela professora Luciana Chianca (UFPB) informam que entre 1900 e 1920, em Natal, “os três santos de junho (São João, Santo Antonio e São Pedro) eram festejados com missas e procissões”. Embora, a meu ver, esse elemento já não seja tão presente hoje.

Outro elemento é esta característica de reunir amigos e familiares, uma festa que reúne a vizinhança. Na cidade em que moro, Parnamirim, a Prefeitura, este ano, está apoiando 15 arraiás comunitários em diversos bairros. Todos eles carregam essa característica de juntar, em primeiro lugar, os vizinhos, amigos e familiares, embora alguns consigam ir bem além disso. Mas é o momento em que os vizinhos botam as cadeiras nas calçadas, acendem a fogueira, deixam a televisão um pouco de lado. Em determinados lugares da cidade, um outro espaço é composto, o espaço onde ofereço ao meu vizinho um prato da canjica que fiz, o espaço da conversa, da festa e da alegria. 

IHU On-Line - Qual papel os santos ocupam dentro do contexto das comemorações?

Haroldo Gomes da Silva - A festa, em muito, se laicizou. Na maioria das cidades guarda pouca relação com os santos. Os tempos são outros. As festas juninas, em grande parte das cidades nordestinas, atualmente, são momentos onde se organizam barracas para venda de comidas e bebidas, muita música (o popular forró), quadrilhas juninas e muita dança. O fogo da fogueira guarda mais relação com o profano do que com a purificação. A presença da Igreja Católica se resume aonde há festa de padroeiro e, mesmo assim, com muita dificuldade.

Os elementos religiosos que marcam a festa são tidos como jocosos: casamento, noivado, compadrio etc, tendo em vista que as relações pessoais estabelecidas no mundo contemporâneo são muito diferentes. As pessoas se conhecem e se encontram, se desconhecem e se desencontram no curto intervalo de uma noite de festa. Os elementos citados acima entram como imagens de um tempo distante, ativado pela memória, inscrito nos corpos, mas inatual. 

IHU On-Line – O que tais comemorações representam economicamente e socialmente aos Estados do Nordeste?

Haroldo Gomes da Silva - Muitas cidades têm os festejos juninos como um importante roteiro turístico, infinitamente maior do que o Natal ou a passagem de ano (reveillon). Em Campina Grande (PB), há 10 dias do São João, não se encontra vaga em uma pousada sequer.  Em Mossoró (RN), organizam-se caravanas para o Mossoró Cidade Junina (que acontece durante todo o mês de junho), onde é apresentado o mega-espetáculo “Chuva de bala no país de Mossoró”, que conta a história de resistência dos mossoroenses ao bando de Lampião, em 1927. 

Em Parnamirim (RN), os 15 arraiás apoiados pela Prefeitura, que compõem o Roteiro Junino do município, envolvem mais de 10 mil pessoas em diferentes regiões da cidade, bem como o comércio local e ambulantes. As quadrilhas juninas mobilizam centenas de adolescentes e jovens em festivais que ocorrem por toda a região. Algumas passam o ano ensaiando para se apresentar nesse período. 

IHU On-Line – Que tradições relacionadas às festas juninas foram formadas ao longo da história?

Haroldo Gomes da Silva - Muitas das tradições formadas se mantém até hoje. O arraial (também chamado “arraiá”), largo espaço livre onde acontece a festa; as quadrilhas juninas que não faltam; a fogueira; a referência a linguagem matuta; a música (o forró, mesmo que em algumas regiões ele seja adulterado); as comidas de milho; fogos de artifício.

Nas cidades menores, quase toda casa mantém a tradição de ter a comida de milho. Há tempos atrás, o homem do campo trazia o milho do roçado para casa. Esse milho era descascado com cuidado para aproveitar a palha, que alguém costurava transformando numa espécie de tubo. Outra pessoa cuidava de moer o milho no moinho, em cuja massa misturava-se leite, açúcar ou sal. Esta massa era colocada nos tubos feitos com a palha do milho, amarrados na extremidade e, logo após, submetida ao cozimento até que a massa alcance uma consistência firme e macia. Assim era feita a pamonha. Esse trabalho envolvia a família e, em alguns casos, até os vizinhos num clima de forte sociabilidade. Em muitas casas, a tradição da comida de milho permanece mudando apenas os artefatos. O moinho, por exemplo, foi substituído pelo liquidificador. Portanto, a tradição de ser uma festa de forte caráter comunitário permanece.

IHU On-Line – O senhor percebe diferenças entre as comemorações Juninas do Nordeste e de outras regiões do país? Quais?

Haroldo Gomes da Silva - Não conheço bem as comemorações juninas de outros estados. No início dos anos 90, morei na região da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro. Vi que os festejos juninos eram realizados em cidades e bairros com forte presença de pessoas dos estados nordestinos. Mas, notei também que as comidas de milho não eram tão presentes; as quadrilhas juninas se aproximavam mais do que chamamos, em algumas cidades do Nordeste, de quadrilhas estilizadas. Prevalece a tradição de quermesses, da música sertaneja e outros ritmos, do quentão etc.

Mas, mesmo no Nordeste as diferenças existem. O São João de Campina Grande (PB) se diferencia bem do Mossoró Cidade Junina e, também, das atividades em outros municípios da região. Os arraiás de Parnamirim (RN) já têm outra característica, se aproximando mais de festas comunitárias. Na vizinha cidade de São José de Mipibu (RN), os festejos já ganham ares de festa de rua, com bandas comerciais e muitas barracas. 

IHU On-Line – Por que eventos culturais como estes são importantes para o país?

Haroldo Gomes da Silva - As festas juninas se referem ao patrimônio cultural imaterial do país e sua promoção e proteção estão previstas no artigo 216, da Constituição Brasileira. São relevantes na construção da memória, da identidade e na formação da sociedade brasileira. Nelas há uma celebração da saudade em sua forma alegre, uma tentativa de perenizar hábitos, valores, costumes, formas de pensamento, que não existem mais, mas que são evocados na busca constante de “sobreviver aos percalços das novidades arrivistas e de cosmopolitismo apressado”, nas palavras do professor Durval Muniz (UFRN). 

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