Edição 424 | 24 Junho 2013

O pulso ainda pulsa

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Ricardo Machado

Quando o imenso corpo continental repousava em berço esplêndido, cujo precário sinal que apontava um resquício de “vida” emanava de um único local – exatamente no centro dele, no Planalto Central –, a batimentos fracos, descompassados, em absoluta disritmia com o restante do corpo, ele resolve despertar. As células dispersas e os anticorpos que lutavam isoladamente contra as bactérias, que até então mantinham êxito sem inimigos, encontraram resistência. Lentamente esse corpo foi despertando. Primeiro abriu os olhos, depois foi às redes sociais, depois, finalmente, ergueu-se e foi às ruas.
PROTESTOS: Em um único dia mais de 1 milhão de manifestantes sairam às ruas do país. Na imagem, protestantes sobre a Av. Borges de Medeiros, em Porto Alegre.

As células dispersas se uniram em milhares, em centenas de milhares de pessoas, que se espalharam e tomaram as ruas do país. E o mundo tornou os olhos ao Brasil. O Estado, considerando as propagandas das estatais e que há anos concentrava os esforços às obras e ações voltadas à realização dos megaeventos, esperava que o mundo enxergasse um país desenvolvido. O que a imprensa mundial percebeu, entretanto, foi um país de descontentes. Um país de pessoas que estão do lado de fora dos estádios e das arenas da Copa das Confederações.

Causas

Na semana passada, em um só dia, mais de 40 cidades brasileiras, um recorde de um milhão de pessoas, participaram de manifestações simultâneas. O estopim das manifestações foi a luta pela redução das passagens de ônibus, que teve Porto Alegre como uma primeira experiência positiva. O embrião, talvez, disso tudo tenha sido a manifestação contra o tatu-bola em outubro de 2012. O fato é que, a contar pelas palavras de ordem bradadas pelos manifestantes – “O povo unido protesta sem partido”; “Quem não pula quer aumento”; “Sem violência”, e gritos contra a PEC 37 –, não se torna razoável pensar que as manifestações têm origem em uma única causa, mas, ao contrário, refletem nossa complexa e múltipla sociedade. 

Embora existam lideranças, o que se pôde notar na manifestação na capital gaúcha foi, em grande parte, o desejo de negação de tais lideranças. Alguns grupos ligados a partidos políticos empunhavam bandeira a cartazes, mas havia outros grupos que respondiam gritando e declarando aquilo que foi entendido como uma espécie de oportunismo partidário. A democracia tem dessas coisas: é tão democrático as pessoas se associarem a partidos quanto os rechaçarem.

Os cartazes foram a expressão mais fiel da multiplicidade de causas da manifestação. Houve gente de nariz de palhaço, gente com a cara pintada, gente com máscaras, gente de boca aberta clamando por participação. Apenas o tempo dirá se de tais manifestações brotarão lideranças, como foi durante os protestos contra o regime militar, nas décadas de 1960 e 1970, e nas Diretas Já, nos anos 1980, sem contar, é claro, os Caras Pintadas, em 1992. O que as circunstâncias atuais têm demonstrado, no entanto, é que pensar as manifestações contemporâneas a partir de categorias do século XIX e XX não dá conta de compreender a complexidade do processo.

Reforma e revolução

Como analisou o sociólogo e professor Werneck Vianna, em entrevista  à IHU On-Line, a questão das manifestações não está relacionada diretamente ao aspecto econômico – o que também ficou claro em diversos cartazes com a frase “não é só 20 centavos”. Ainda que comparações sejam sempre processos arriscados, elas ajudam a entender, ao menos, a história. Na França do final do século XVIII, como apontou Tocqueville , em O Antigo Regime e a Revolução, a questão econômica não foi o fator preponderante da Revolução Francesa, afinal os campesinos viviam um momento de expansão econômica. Guardadas todas as proporções cabíveis, o cenário brasileiro, conforme apontam os indicadores financeiros, apresenta em grande parte da população certa satisfação com a economia, apesar, também, da inflação.

O que se viu no final do século XVIII, e que se percebe agora, parece ser uma crise de representatividade. Pensar nos 20 centavos que inflamaram as primeiras manifestações não ajuda em nada a compreender tudo o que acontece. Como propõe Tocqueville e lembra Viana, “ela [a Revolução Francesa] deveria ser entendida pela sua especificidade política naquele momento. Com isso, ele [Tocqueville] quis dizer que o absolutismo francês havia desfeito todas as organizações intermediárias vigentes na França tradicional e a massa do povo ficou isolada, fragmentada, antepondo-se diretamente ao Estado”.

Sinais de vida

Os sinais da manifestação são, antes de tudo, sinais de vida. Da paralisia aparente daquilo que era chamado de “alienação das redes sociais” nasceu um desejo de pertencimento, de participação política e social, uma vontade de vida. O fluxo contínuo dos protestos não permite uma avaliação mais aprofundada de tudo o que está ocorrendo. O corpo do Estado é uma máquina tão complexa quanto o corpo humano. A esquizofrenia de causas e formas de protesto carrega a potência da paz e da violência. O que o discurso mostra é, também, um desejo de controle. O corpo tomado de células cancerígenas – corrupção, conchavos políticos, coalizões despropositadas, intolerância, chantagens eleitoreiras, pressões de grandes empresários – parece despertar os milhares de anticorpos com seus glóbulos brancos expostos em cartazes e palavras de ordem. O verdadeiro corpo com suas incontáveis células se volta contra o coma induzido. Os caminhos que ele irá percorrer ainda não são claros, mas o fato é que o pulso ainda pulsa.

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